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Podcast - Jazz Contemporâneo: John Hollenbeck, Ted Nash, Alex Sipiagin, Donny McCaslin & Ben Allison!!!

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O baterista e compositor John Hollenbeck
Olá queridos colegas! Sejam bem vindos a mais um podcast do Blog Farofa Moderna, editado para o  Portal MTV em meados do ano de 2010. Este programa é mais um dedicado ao jazz contemporâneo, mostrando cinco geniais músicos e compositores que não nos chegam ao conhecimento aqui em solo brasileiro. Ou seja, esses músicos -- bem conhecidos em solo americano, diga-se de passagem -- ou são menos "famosos" fora de Nova Iorque ou são lembrados  mais como músicos preferidos de outros músicos mais mundialmente famosos, os chamados musician's musician  -- e/ou suas carreiras solo não são divulgadas como mereciam. Há vários músicos nas condições de musician's musician, mas os músicos de que falo têm carreiras solos que deveriam ser mais celebradas, haja vista a importância e a contribuição das suas obras para o jazz contemporâneo. Os músicos apresentados são: o trompetista russo e naturalizado americano Alex Sipiagin, o baterista John Hollenbeck, oo saxtenorista Ted Nash, o saxtenorista Donny McCaslin e, por fim, do contrabaixista Ben Allison -- todos músicos experientes, passados da idade dos quarenta anos e que fazem um som muito inteligente e contemporâneo, com a cara do século 21. Abaixo, os músicos e seus respectivos álbuns apresentados no podcast:

O trompetista Alex Sipiagin (disco: Equilibrium, de 2003) 
O baterista John Hollenbeck (disco: For, de 2007, com o The Claudia Quintet)
O saxofonista Ted Nash (disco: Ted Nash & Double Quartet - Rhyme and Reason, de 1999)
O saxtenorista Donny McCaslin (disco: Declarations, de 2009)
O contrabaixista Ben Allison (disco: Think Free, de 2010)

Músicas no Plural 204: exemplos do que há de contemporâneo, no jazz, no erudito e na free improvisation européia!!!

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O quarteto de Nova Iorque The Thirteenth Assembly em Station Direct, o trio francês Daunik Lazro + Benjamin Duboc + Didier Lasserre em Pourtant les Cimes des Arbres e o pianista americano Guy Livingston em Don't Panic! 60 Seconds for Piano.

Guy Livinsgton

O podcast Músicas no Plural -- disposto no site da Fundação Gulbenkian, uma das principais e mais importantes fontes de música de Portugal -- traz, em sua edição de número 204, um programa repleto de música contemporânea criativa, indo do jazz americano, passando pela improvisação livre européia e aportando-se na música erudita -- mas, lógico: é música contemporânea para ouvidos contemporâneos. O programa, apresentado por Rui Neves, começa com o quarteto americano de jazz contemporâneo The Thirteenth Assembly: constituído pelo trompetista Taylor Ho Bynum, pela violista Jéssica Pavone, pela interessantíssima guitarrista Mary Halvorson (de quem já falei aqui: pesquisem nas tags, na página de lançamentos ou no nosso buscador) e pelo baterista Tomas Fujiwara -- todos músicos da nova geração do avant-garde jazz --, o quarteto acaba de lançar seu segundo álbum, Station Direct, onde a linhagem modern creative, com suportes de improvisações livres, momentos em diálogos contrapontísticos e nuances eletro-acústicas, é o standard da coisa -- a estruturação e o rítmo, portanto, ganham uma evidente importância dentro das composições apresentadas. Em seguida, no segundo bloco, Rui Neves nos apresenta um trio francês de improvisação livre que foca-se em fazer arte com ruídos instrumentais de uma forma intimista muito peculiar: trata-se da interação do saxofonista Daunik Lazro, do contrabaixista Benjamin Duboc e do baterista Didier Lasserre, os quais acaba de lançar o álbum Pourtant Les Cimes des Arbres, onde eles improvisam texturas atmosféricas multifônicas inspiradas num “haiku” do poeta japonês Basho. Por fim, Neves nos apresenta uma interessantíssima empreitada do pianista virtuose Guy Livingston, um dos grandes intérpretes de John Cage: em seu álbum Don't Panic! 60 Seconds for Piano, o pianista apresenta ao piano solo, às vezes com tênues pitadas eletrônicas e vocais, 60 miniaturas de diversos compositores americanos, holandeses, britânicos, canadenses  e etc -- um trabalho de três anos de garimpagem que, pela sequência bem arranjada, afirma-se quase como uma suite, irônica e hipermoderna. Listen Here!!!

O trompete pirotécnico de Peter Evans: o elo contemporâneo entre Wynton Marsalis e Evan Parker...

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Nem o ousado jazz tradicionalista de Wynton Marsalis, nem as interessantes investidas ecléticas de Dave Douglas e nem o agradável jazz meio neo-soul de Christian Scott... Neste atual momento do gênero jazz, as investidas mais ousadas e inovadoras levadas a cabo por um trompetista são as de Peter Evans, improvisador virtuoso que representa um novo panteão de jovens músicos vanguardistas tais como a guitarrista Mary Halvorson, os trompetistas Nate Wooley e Taylor Ho Bynum, o saxofonista Jon Irabagon, o contrabaixista Moppa Elliott, a violinista Jessica Pavone, os bateristas Weasel Walter e Kevin Shea, entre outros. Mas Peter Evans, formado pelo legendário Conservatório de Oberlin (Oberlin Conservatory of Music), não se coloca na condição limitante de um "jazzista", propriamente dito; tampouco se limita a ser apenas um improvisador livre: talvez, a condição que mais lhe caiba, apesar dele estar inserido no roll de jazzistas já bem relacionado pelos holofotes especializados, é a de um explorador dos limites do trompete sob as mais variadas formas de arte musical: ele está criando um discurso contemporâneo que transverte elementos, elementos que vão da música erudita (do barroco ao moderno) ao jazz (do bebop ao freejazz), do noise (exploração de ruídos) à música eletroacústica. Dito isso, alguém poderia dizer: "Aaah, essas misturas de jazz, erudito e música eletrônica já são um ponto de referência tarimbado dentro da recente história da música pós-moderna, e nem sempre elas surtiram efeitos concretos e resultados definitivos". Mas lhes asseguro que com Peter Evans e seus pares essas "misturas" não são apenas "misturas esfareladas" a esmo, são misturas destiladas, sintetizadas e agora homogeneizadas em um discurso coerente, um discurso que, ao casar requinte técnico com liberdade, é capaz de se estabelecer como uma das principais linguagens, um dos principais pilares estéticos do jazz contemporâneo -- e pensando unicamente no discurso musical de Evans, há um respeito muito grande pela tradição jazzística embutido aí no meio, o que lhe dá ainda mais credibilidade frente à comunidade jazzística novaiorquina.

Gênios do jazz na década 2000-2010: O pianista Matthew Shipp e seu free-jazz pós-moderno!!!

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Mais um post da série Gênios do jazz na década 2000-2010 sobre os maiores músicos que ajudaram a renovar e inovar o jazz nesta primeira década do século 21.  Para saber mais sobre a lista de músicos que contribuíram para inovar ou renovar esta forma de arte chamada jazz nesta década, acesse a resenha Jazz Contemporâneo - Retrospectiva 2000-2010: os principais músicos da década (e do século 21)!!!. Neste, falo do pianista Matthew Shipp que, ao lado dos pianistas Jason Moran e Vijay Iyer, foi um dos mais instigantes e inventivos músicos do jazz contemporâneo nesta década. O que Shipp tem feito, praticamente, é a proeza de reinventar, ao seu modo -- e baseado em suas diversas preferências musicais  --, o jazz de linhagem avant-garde (jazz de vanguarda ou de corrente experimentalista), começando a partir das suas influências adquiridas no estilo do free jazz -- lembrando que ele iniciou a carreira com freejazzers como Roscoe Mitchell, William Parker e David S. Ware -- e terminando em suas mais atuais e experimentais abordagens com uso de efeitos de eletroacústica, batidas de hip hop e afins. Mas, ao contrário de muitos experimentalistas adeptos ao abstracionismo, Shipp sempre soa lindamente atonal e peculiar, sempre prezando por lançar trabalhos diferentes que imprimam sua indentidade e contribuição para a evolução do jazz contemporâneo.

O elaborado abstrato de Tim Berne: o processo de criar um som único, cru, intrincado...inimitável!

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Algumas pessoas, aprisionadas pelo limitante sensacionalismo midiático que envolve as artes, estão acostumadas a cultuar a impressão de que não houve e não há, em nossos dias, músicos tão peculiares, únicos, distintos quanto aqueles mestres icônicos da história, tais como Igor Stravinsky, Miles Davis, John Coltrane, Charles Mingus, Eric Dolphy, Frank Zappa...dentre alguns outros. Tudo Bobagem. Basta não ter preguiça e adquirir um bom tino de pesquisador para constatar que cada época, cada geração, produz seus ícones -- e o que é mais intrigante: nem sempre os artistas mais conhecidos e aplaudidos na mídia são os mais distintos e inovadores, advindo, daí, a necessidade da pesquisa. É o caso do saxofonista e compositor Tim Berne. Cultuadíssimo nos meios underground -- da Downtown americana aos circuitos da free improvisation européia -- e nem tão cultuado nos grandes holofotes da mídia especializada, trata-se de um músico de jazz dos mais distintos que já se ouviu nas últimas décadas: não precisa-se de muitas audições ou leituras sobre sua obra e carreira para constatar que sua música é dotada de personalidade própria; e ainda que ela não soa ruidosa e cacofônica ao extremo, como é o caso da maioria dos músicos de free jazz e improvisação livre, ela tem uma personalidade gritante a qual consiste num abstrato que, de tão bem elaborado, não é um abstrato de todo inaudível, mas um emaranhado marcante de fraseados disformemente bem construídos, de composições escritas à mão as quais fogem dos padrões lineares (ou circulares) da canção convencional e de livres improvisações, com direito à efeitos acústicos ou eletroacústicos dos mais ríspidos, rústicos e encrustados. O mais interessante é que, ao ler excertos da sua biografia -- dispostos em muitos sites e fanzines da net, através de entrevistas e resenhas sobre seus álbuns -- constata-se que essa sua personalidade única foi crescendo e evidenciando-se aos poucos até tornar-se, de fato, gritante aos ouvidos do público e ganhar importância para a crítica mais atual -- ou seja, se é que existe um "culto" às obras do saxofonista, essa não foi algo que aconteceu já em seus primeiros 10 anos de carreira, mas algo que foi tornando-se evidente aos poucos, através de muitos projetos com variadas formações de bandas, dentre os quais Science Friction é um dos mais recentes e impactantes.

Gênios do jazz na década 2000-2010: O baterista John Hollenbeck e sua rica composição minimalista!!!

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Seguindo aqui com nossa retrospectiva, uma série de posts sobre os principais músicos – e seus respectivos melhores álbuns – da década de 2000, eu vos apresento o grande baterista e excelente compositor americano John Hollenbeck, um dos criadores mais originais e inovadores do jazz contemporâneo! Expoente do reduto da Downtown nova-iorquina (reduto underground de Manhattan) e líder de dois dos combos mais interessantes dos últimos anos, o The Claudia Quintet (com o qual trabalha um jazz camerístico, baseado no minimalismo) e o Large Ensemble (com o qual reiventa o formato 'big band', fazento uso de inspirações em diversos gêneros musicais pós-modernos), John Hollenbeck vem trabalhando um estilo próprio de composição que é quase um amálgama instrumental de toda a música pós-moderna, só que com a gênese e o foco no jazz e na improvisação livre – ou seja, há a preocupação de fazer uma música que se possa chamar de jazz e que, por consequência, possa ditar os rumos deste gênero, mas, aí, a contemporaneidade é expressada através da adição de vários elementos de outros gêneros musicais tais como klezmer music (música judaica), música erudita de vanguarda (atonalismo e música serial dos anos 50 e 60), música minimalisma (uma estética pós anos 70, ainda tida como um sub-gênero da música erudita contemporânea), a art rock e o post-rock (estéticas ligadas ao rock vanguardista, com ascendência instrumental), a world music até rítmos afros como o funk e o raggae ou quaisquer outros elementos que possam ser trazidos para dentro do plano contemporâneo do jazz.

Gênios do jazz na década 2000-2010: O contrabaixista Ben Allison e suas sacadas vindas do pop e rock!!!

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Seguindo com nossa série retrospectiva de posts sobre os principais músicos de jazz desta primeira década do século 21, eu vos apresento o versátil contrabaixista e compositor Ben Allison, um dos principais músicos a transitar entre as vertentes jazzísticas conhecidas como modern post-bop e  modern creative. Residente em Nova Iorque, e nascido em 1966, Allison é um daqueles músicos que, apesar de estarem saindo dos 40 para a casa dos 50 anos de idade, ainda permanecem joviais tanto na aparência física quanto na musica a que se propõe criar. Apesar dele ser pouco conhecido fora dos EUA, ele é indubitavelmente um dos mais notáveis músicos de Nova Iorque, um instigante inovador do jazz contemporâneo, um músico e compositor de voz e estilo únicos que, ano a ano e a cada disco que lança, mostra como e o quanto é possível produzir um jazz jovem, com o rosto do século 21, usando, como influência, resquícios elementares da música popular moderna e pós-moderna: isto é, além dos arranjos e improvisos genuinamente jazzísticos (que vão do estilos post-bop à livre improvisação), suas composições também trazem elementos do rock (vide sonoridades que vão de Beatles até Coldplay e Radiohead, por exemplo), do pop contemporâneo de vertente mais sofisticada (vide sonoridades que se aproximam dos arranjos pop da cantora Björk, por exemplo) e, em alguns álbuns,  até tênues citações sonoras de estilos musicais afros, étnicos ou urbanos (rhythm'n'blues, world music, funk, hip hop e reggae, por exemplo). Mas é preciso frisar, contudo, que Ben Allison toca e compõe em favor unicamente do desenvolvimento do jazz: embora em álbuns mais recentes, como Action-Refraction (Palmetto, 2011), ele trabalha em cima de temas de artistas do pop e rock -- temas como "Philadelphia", do roqueiro e cantor folk Neil Young, "We've Only Just Begun", da dupla de soft-rock The Carpenters, e "Missed" da criativa cantora do pop-rock britânico PJ Harvey --, sua contribuição ao jazz contemporâneo não se resume apenas em criar meras releituras instrumentais de temas alheios; o barato dele é compor temas originais onde ele usa, como já citado, elementos musicais modernos e pós-modernos do pop e do rock contemporâneos, mas os quais, ao final do processo de arranjo e improviso, convertem-se em temas genuinamente jazzísticos, com fraseados e grooves (pegadas rítmicas) que desafiam classificações.

Gênios do jazz na década 2000-2010: O trio The Bad Plus e seu jazz-pop vanguardista!

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Se eu fizesse uma enquete neste blog perguntado aos nossos visitantes quais os dois maiores pianistas da história do jazz que trabalharam com o formato de banda composto por piano, baixo e bateria, uma grande maioria citariam, lógico!,  os supremos Bill Evans e Keith Jarrett. Por isso mesmo, seria até pedante e desnecessário se eu publicasse algo no blog sobre Bill Evans ou Keith Jarrett que não fosse uma informação inédita, algum lançamento relevante ou alguma observação que ficou obscura em suas carreiras -- haja vista, a quantidade de publicações que estão disponíveis em português na internet, para qualquer curioso pesquisar e ler. E por isso mesmo, o blog Farofa Moderna, quando abrange o jazz, atua basicamente em duas frentes: buscando curiosidades da história que ainda não foram amplamente reveladas e atualizando nossos leitores acerca do que está acontecendo no âmbito contemporâneo. E o assunto deste post é sobre um trio de piano, contrabaixo e bateria que é enveredado pelo jazz de linhagem pós-moderna, o mais contemporâneo jazz possível. Desde o final da década de 90, quando o seminal pianista Brad Mehdau começou a lançar sua série "The Art of  the Trio" -- baseado neste tradicional combo chamado de piano-trio --, o jazz contemporâneo foi atacado por um surto de inúmeros e distintos pianos-trios: dentre eles, os mais peculiares, ao meu ver, são o próprio Brad Mehdau Trio, o trio Bandwagon do pianista Jason Moran, o Vijay Iyer Trio, o sueco Esbjorn Svensson Trio e o iconoclasta trio The Bad Plus -- cinco combos legendários que, aliás, não apenas são os principais dentres os principais piano-trios da atualidade, como também são alguns dos principais agentes transformadores do jazz nesses últimos tempos. E dentre estes cinco citados, o mais polêmico e iconoclasta é, justamente, o The Bad Plus, banda com a qual retomo nossa série chamada "Gênios do Jazz na década de 2000-2010", que iniciei no Portal MTV em fins de 2010.


Arc Suite - Mario Pavone & Orange Double Tenor (2010)

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Já escrevi aqui sobre os trabalhos deste herói do contrabaixo: Mario Pavone (vide tag "Mario Pavone" no final do post). Remanescente do núcleo dos músicos marginais do free jazz a emergir no final dos anos 60 e a sofrer com o ostracismo dos anos 70, Pavone ficara conhecido, pelo menos até meados dos anos 90, apenas como um sideman bem requisitado e benquisto entre músicos progressistas, já tendo trabalhado com o pianista Paul Bley (1968-72), o trompetista Bill Dixon (nos anos 80) e o saxofonista Thomas Chapin (1990-97), além de também ter co-liderado registros com o compositor e multiinstrumentista Anthony Braxton, com o trompetista Wadada Leo Smith, com o saxofonista Marty Ehrlich e, mais recentemente, com o guitarrista Michael Musillami, fundador da gravadora Playscape, selo pelo qual, só agora, nos últimos anos, vem lançando uma bem sucedida sequência de álbuns. Mas trata-se, contudo, de um exemplo de músico que sofreu um raro e benéfico processo de destilação, ou seja, à medida em que envelhecia na idade, ele trabalhava para valorizar-se e renovar-se com os mais recentes espamos de contemporaneidade: ao invés de se cristalizar com os clichês viciosos que o tempo impôs ao mainstream ou, no caso específico dele, ao chamado free jazz (ou avant-garde jazz, ou música improvisada, como queiram), ele se modernizou com a tendência do estruturalismo do jazz contemporâneo, unindo a composição escrita, a instrumentação arranjada e a improvisação livre -- essa em lotes, condicionada como um elemento composicional e não apenas como um elemento independente e abstrato -- para compor uma obra que não só ganhou consistência por sí só, mas que também começou a ser aclamada pelos críticos especializados. Essa tal transição do free jazz para o que chama-se hoje de modern creative -- isto é, se segmentarmos o processo através de rótulos empregados pela própria crítica especializada --, não foi só Mario Pavone quem a experimentou, mas a maioria dos veteranos chamados 'freejazzers' e, dentre estes, outros tantos de novos músicos, os quais também passaram a atuar rumo a uma tendência de dinamização interacional, estruturação composicional e re-arranjo instrumental da estética freejazzística, vide os avanços impostos por músicos que vão desde veteranos como o saxofonista David S. Ware e o contrabaixista William Parker, passa por músicos de transição como os saxofonistas Steve Coleman e Tim Berne e desembarca em músicos da nova geração como Matthew Shipp e Vijay Iyer. Junto à Pavone, por exemplo, alguns dos músicos que contribuem para o desenvolvimento dessa estética são o guitarrista Michael Mussilami, o saxofonista Tonny Malaby, o baterista Michael Sarin, o pianista Peter Madsen, o baterista Gerald Cleaver, o tecladista Craig Taborn, dentre outros.

Mas as curiosidades quanto ao trabalho de Mario Pavone não se dão apenas pelo fato dele ter resolvido deixar a carreira de engenheiro justamente após conhecer John Coltrane (ele esteve no funeral do saxofonista, em 1967, junto com uma multidão de músicos célebres, e ao som do sax tenor gritante e espiritual de Albert Ayler) ou por ele ter ficado três décadas apenas conhecido como um sideman eficiente e só agora, na terceira idade, ter se projetado como um líder e compositor aclamado. Mas questiona-se, também, a vigorosidade do seu toque e da sua técnica. Tanto que uma crítica publicada na revista New Yorker chegou a examinar a técnica de Pavone como "as working the bass strings with the force and persistence of a sculptor chipping away at granite", ou seja, segundo tal definição, ele parece trabalhar o pizzicato nas cordas do contrabaixo com a mesma força e persistência com as quais um escultor lasca e molda uma peça de granito -- essa foi a caracterização metafórica dada à vigorosidade do seu toque. E ele mesmo, em entrevista ao programa JazzSet, apresentado pela cantora Dee Dee Bridgewater, respondeu que seu toque forte e sonoro foi adquirido através da própria necessidade de impor sua sonoridade nos anos 60 e 70, numa época em que, além da estética musical do free jazz ser naturalmente barulhenta, ainda não havia a cultura do uso de amplificadores e pickups: "In the days I started, sometimes as the lone bassist among several horns and a couple of drummers, there weren't amplifiers or pickups. It was all acoustical playing — it just became part of my style, chiseling away" -- ou seja, mesmo que atualmente já haja amplificadores ultramodernos, seu som permaneceu estilizado através da própria necessidade que se tinha de impor um som alto, forte e sonoro no contrabaixo acústico (mais comum no free jazz do que o baixo elétrico, esse naturalmente amplificado).

A NPR (National Radio Public), a excelente rádio pública americana, acaba de disponibilizar, na íntegra, mais um número do programa JazzSet no qual Mario Pavone é abordado: o programa é apresentado originalmente pela cantora Dee Dee Bridgewater na legendária rádio WBGO (88.3 FM), de New Jersey. Este número apresenta o mais novo projeto de Mario Pavone: uma suíte intitulada "Arc Suite", que acaba de ser registrada em album e lançada ao mercado pela Playscape -- sendo esse o sétimo registro do contrabaixista na gravadora. Assim como todas as composições anteriores, Pavone reafirma, mais uma vez, seu estilo um tanto pessoal de composição e arranjo: as peças desta suíte, segundo ele próprio, são uma homenagem às suas quatro décadas e meia de carreira, englobando tanto as influências e experiências advindas do free jazz dos anos 60 e 70 como também os ganhos adquiridos com suas abordagens mais recentes, explorando o modern post-bop e o modern creative -- e é daí que surge, então, o nome 'Arc', pois esse é o nome de uma das suas bandas contemporâneas (vide o álbum Trio Arc, Playscape, 2008): ou seja, no caso desta gravação (registrada no Litchfield Jazz Festival, em Connecticut), o Arc, que é o nome da sua banda constituída de um trio, apenas denominou e estilizou o projeto que, na verdade, é protagonizado pelo seu sexteto chamado Orange Double Tenor, tendo ele, Mario Pavone, como contrabaixista e compositor, Jimmy Greene no saxofone tenor, Tony Malaby no saxofone tenor e soprano, Dave Ballou no trompete, Peter Madsen no piano e Gerald Cleaver na bateria. Ouça o programa através do link abaixo!


O pianista Jason Moran ressurge no espaço de onde nunca saiu: a galáxia dos inovadores!

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O pianista Jason Moran é, definitivamente, um músico que iniciou sua carreira já como um ícone da sua geração sem precisar passar por uma extensa transição de músico revelação à músico expoente, ou seja, ele já nasceu estrela entre as estrelas. Isso porque, além dele estar sempre entre os primeiros nos tops das revistas Downbeat e JazzTimes, seus discos, tanto em piano solo quanto em trio, são considerados a prata de todo esse sumo de grandes pianistas que o jazz contemporâneo -- mais propriamente o jazz da última década -- tem revelado. Não à toa, Moran foi, desde sempre, um sideman requisitadíssimo pelos mais requintados músicos veteranos, dentre eles o pianista Andrew Hill (antes de falecer), o contrabaixista Dave Holland e o saxtenorista Charles Lloyd. Mas para essa veneração tem-se uma explicação irrefutável:  por causa do seu estilo pós-modernista, impressionista e incomporável -- estilo esse que foi construído em torno das influênicias de pianistas exóticos do bebop, post-bop e free jazz tais como Thelonious Monk, Jaki Byard, Andrew Hill e Muhal Richard Abrams, respectivamente --, Moran é considerado pelos críticos como um dos últimos grandes inovadores para o piano e para o jazz contemporâneo, ao lado de gigantes como os pianistas Matthew Shipp e Vijay Iyer -- e a comparação entre esses três jovens-mestres não é gratuita, haja vista eles saíram juntos na capa da revista Downbeat em Julho de 2008.

Após um hiato de quatro anos sem gravar, desde o álbum Modernistic (2006), Moran acabou de lançar o álbum 'TEN', uma homenagem aos dez anos de atuação junto ao seu aclamado piano-trio, banda que ele nomeou de Bandwagon. Esse novo album, considerado um dos dez melhores de 2010 pela NPR e a maioria dos grandes holofotes especializados, antecedeu à premiação e foi gravado em homenagem aos 10 anos de carreira da sua banda Bandwagon, o seu piano-trio fixo formado com ele ao piano, com Tarus Mateen no contrabaixo e Nasheet Waits na bateria. Com um repertório bem diversificado, o álbum reafirma o estilo incomparável de Moran: além das composições dos próprios membros do trio, há temas um tanto díspares entre si: do lendário Thelonious  Monk (Crepuscule With Nellie), do legendário maestro Leonard Berstein (Big Stuff) e do compositor vanguardista americano Colon Nancarrow (Study Nº 6), o que contribui para para a abordagem impressionista e caracterizada entre as estéticas do post-bop e o 'modern creative'. Não bastasse toda a bajulação em torno do seu novo projeto -- um reconhecimento justo, lógico --, o pianista também acaba de ser condecorado com uma nomeação para o prêmio McArthur Fellows, de 2010, por sua contribuição para o desenvolvimento do jazz nesses últimos anos. Dada a revalorização que o jazz vem agaranhando na mídia e na sociedade americana após um processo de renascimento que aconteceu lá atrás nos anos 80, a grande instituição conhecida como McArthur Foundation tem, gloriosamente, reconhecido a contribuição dos novos músicos de jazz para a cultura e as artes da américa: antes de Moran, por exemplo, músicos ousados e inovadores como o compositor Anthony Braxton, o multiinstrumentista Ken Vandermark, a violinista Regina Carter e o altoísta Miguel Zenon já haviam sido consagrados com o prêmio -- ele inclue a distinção entre os grandes nomes das artes e ciência, uma bolsa em dinheiro no valor de U$ 500 mil dólares e uma lista de eventos e workshops, tudo isso para incentivar a difusão e a criatividade do premiado. Conhecido por sua sensibilidade em criar sobre elementos do pós-modernismo musical tais como funk, hip hop, pop e rock, Jason Moran, de 35 anos, já se consagra em definitivo entre os ícones do jazz contemporâneo a serem eternizados no futuro. Abaixo deixo a faixa Gangsterism Over 10 Years, uma composição do próprio Moran: ouçam-na! Também deixo  um link para o show de Jason Moran no famoso night club de Nova Iorque, o Village Vanguard: o show foi gravado ao vivo e está sendo transmitido de grátis pela NPR (National Public Radio), a rádio pública americana. Ouçam!



A proeminente guitarra de Mary Halvorson: um toque feminino no "modern creative".

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Caros diletantes da música improvisada, atentai-vos para este nome: Mary Halvorson. Não, essa moça não é apenas mais um toque de beleza feminina em meio a um cenário de marmanjos desembestados movidos ao vício da abstração: trata-se de uma artista que ja começa a conquistar o seu espaço e que faz jus a essa façanha ao imprimir um jeito todo seu, uma sonoridade toda sua e, o que é raro, uma determinada coerência no casamento equilibrado entre os elementos do noise, livre improvisação e composição escrita -- tudo isso permeando os entornos do jazz contemporâneo e do post-rock. Acabou-se, enfim, o conceito de que a liberdade musical consistia em tocar uma sequência barulhenta de notas sem considerar um mínimo de senso de coerência e elaboração, sem imprimir um conteúdo técnico ou exigindo que o ouvinte tivesse de adquirir uma bula conceitual para compreender o alto nível de abstração que abolia a melodia, o rítmo e a harmonia -- há, logicamente, músicos talentosos que imprimem estilos peculiares usando o free jazz e a livre improvisação comos veículo para a expressão de uma determinada liberdade e espontaneidade, mas também há o caso de músicos que abusaram da liberdade de abstração para esconder uma total falta de domínio técnico quanto ao seu instrumento e aos saberes básicos da música, sem contar que o conceito de liberdade imposto pelo free jazz já é algo tão ultrapassado, em termos de evolução, quanto o bebop, transformando-se em apenas mais uma das inúmeras ferramentas das quais os músicos fazem uso em suas colagens e misturas. A nova liberdade, portanto, exige muito mais conhecimento do artista, pois ela proporciona que ele trabalhe com quaisquer elementos de quaisquer gêneros musicais que queira inserir dentro da construção da sua obra e do seu estilo de expressão: todas as variabilidades em torno do jazz, rock, noise, black music, música improvisada, música serial erudita, eletroacústica...o século 20, enfim, parece ter esgotado todas as possibilidades de descobertas, de modo que agora os novos músicos se vêem no papel de revisitá-las, misturá-las e, a partir daí, buscar novas formas de expressão e obter novas descobertas através de novas experimentações. A guitarrista Mary Halvorson pertence à esse novo paradigma do jazz contemporâneo: o chamado "modern creative".



O currículo de Mary conta com uma estadia que ela teve com ninguém menos que o saxofonista e compositor concentualista Anthony Braxton na Wesleyan University, além de várias colaborações com novos e veteranos improvisadores como Taylor Ho Bynum, Tim Berne, Trevor Dunn, Assif Tsahar, Matana Roberts, Ted Reichman, Stephen Haynes, Curtis Hasselbring, Tomas Fujiwara, Jason Moran, Tony Malaby, Nicole Mitchell, Elliott Sharp e John Tchicai. Quanto à sua carreira solo, Mary tem conseguido obter espaço na mídia especializada através de vários projetos: além de liderar seus próprios conjuntos, ela co-lidera um duo camerístico com a violinista Jessica Pavone, conforme documentado no álbum On & Off (Skirl, 2007) e é membro do People, banda de rock progressivo que forma com o baterista Kevin Shea. Ela também lecionou na New School e realizou workshops na School for Improvised Music. Suas gravações incluem, ainda, "Opulence" (UgExplode, 2008), em dueto com o baterista Weasel Walter, "Calling All Portraits" (Skycap, 2008), "Thin Air" (Thirsty Ear, 2009) e o "Dragon's Head" (Firehouse 12, 2009), album aclamado pela crítica  e que teve a colaboração do baixista John Hebert e do baterista Ches Smith, seu trio.

Um dos lançamentos mais festejados de Mary Halvorson é o "Saturn Sings" (Firehouse 12, 2010), responsável por colocá-la na mira dos holofotes como uma das principais revelações do jazz contemporâneo. O álbum, elaborado em torno da mística de Saturno e seus anéis, traz Halvorson na guitarra semi-acústica e como compositora única de todas as faixas, tendo a contribuição dos dois músicos que compõe seu trio, o contrabaixista John Hebert e o baterista Ches Smith, mais o acréscimo do trompetista Jonathan Finlayson e do saxofonista "rising star" Jon Irabagon, constituindo, então, um quinteto. Segundo o que diz a guitarrista, suas melodias, improvisos e harmonias trazem inspirações de vários compositores da música em geral: Clifford Brown, Thelonious Monk, Robert Wyatt, Dmitri Shostakovich, Archie Shepp, Sam Cooke e Marvin Gaye. A NPR tomou nota da seguinte forma: "The harmonies were inspired by a diverse group of composers (Clifford Brown, Thelonious Monk, Robert Wyatt, Dmitri Shostakovich, Archie Shepp), but the new horn section provides the guts behind the songs, taking the spirit of Sam Cooke and Marvin Gaye. It also doesn't hurt that Hebert, the drummer, knows his way around a funky bass line that tugs at the legs to move — or at least shuffle spasmodically". O que é entusiasmante, contudo, é que a guitarrista imprime seu próprio estilo de se elaborar entre as linhas do jazz, o noise e a improvisação livre: seus improvisos e distorções por vezes lembra as estripulias atonais do guitarrista de free jazz Sonny Sharrock, mas sua personalidade própria e sua versatilidade ficam bem patentes. Desejamos muito sucesso a Mary Halvorson e que muitos outros projetos dessa estirpe surjam. Ouça trechos do disco no site da BBC.

The Claudia Quintet e o universo lúdico de John Hollenbeck: improvisação e minimalismo.

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O que você diria se algum amigo lhe apresentasse um CD com uma música estranhamente inusitada e, no encarte, você constatasse que a banda, constituída de músicos homens, chama-se The Jéssica Septet ou, ainda, The Andressa Quartet? Independente do conteúdo musical, você ficaria curioso e, no mínimo, perguntaria ao amigo se algum dos membros, provavelmente o líder, havia nomeado o grupo fazendo alguma menção honrrosa ou alguma homenagem à namorada, à esposa ou à alguma das suas ex-mulheres amadas. Pois bem, o Claudia Quintet, capitaneado pelo baterista John Hollenbeck, é uma das principais bandas progressivas do universo do jazz contemporâneo: e, além de Hollenbeck, o grupo constitui-se de honoráveis marmanjos como o contrabaixista Drew Gress (sideman regular do tenorista Ravi Coltrane), o vibrafonista Matt Moran, o acordeonista Ted Reichman  e o saxofonista Chris Speed, que também usa clarinete em determinadas composições. Constituído desses excelentes músicos do jazz norte-americano atual -- e, infelizmente, totalmente desconhecidos aqui em solo brasileiro --,  o Claudia Quintet recebe esse nome inusitado por causa de uma jovem chamada Claudia que, em meados dos anos 90, foi assistir à uma "gig" de John Hollenbeck com o trio Refuseniks (outro nome estranho que exige uma explicação), grupo que ele constituía com o contrabaixista Reuben Radding e com o acordeonista Taid Reichman. Naquela ocasião, durante o intervalo da banda, a cativante menina Claudia foi conversar com o John Hollenbeck e seu trio, enfatizando ter gostado do som que ouvira em instantes atrás e indagando sobre a possibilidade dela poder assistir sempre aquela apresentação. No entanto, quando o grupo se despediu para voltar ao segundo bloco da apresentação,  Radding cochichou  para Hollenbeck: "Cara, confie em mim...ela nunca mais vai voltar..." E, realmente, a impressão e intuição que o contrabaixista teve -- sobre o triste fato de alguém querer apreciar a arte e, por um motivo ou outro, não poder fazê-lo -- acabou se confirmando: Claudia nunca mais apareceu naquela "gig", deixando apenas suas palavras e sua imagen na cabeça dos músicos. Hollenbeck, o mais simpatizado com a moça, sempre tentava imaginar, com seus amigos, o que teria acontecido com Claudia:  "Teria ela se mudado para Nova Jérsey? Teria se apegado à música mais comercial? Estaria trabalhando obstinadamente? Estaria ela estudando em alguma universidade? Ou teria casado com algum empresário?" Difícil saber seu paradeiro e o porquê dela não ter voltado. Em 1997, após a saída de Radding do trio, Hollenbeck e Reichman formaria, então, esse quinteto chamado The Claudia Quintet. Segundo o próprio baterista, as razões para a escolha de Claudia, um nome feminino, foram as seguintes: homenagear o contrabaixista Reuben Radding e todo o trabalho já realizado com o trio Refuseniks; impor uma qualidade e atmosfera femininas ao som da banda; evitar que seu próprio nome fosse usado para denominar a banda (o que não impediu que, eventualmente, os holofotes especializados viessem a chamá-la de John Hollenbeck Claudia's Quintet);  e, principalmente, atrelar o inusual nome à uma música nova e inusitada, impondo uma sonoridade que não fosse tão comum nos meandros do jazz, mas que se inspirasse em certos elementos da música camerística contemporânea, comum no universo erudito. E mais: se até célebres navios são nomeados com nomes de mulheres, não haveria nenhum problema se uma banda de jazz fosse chamada de Claudia Quintet.


Pois bem, o grupo deu certo: ano a ano o Claudia Quintet veio impondo sua sonoridade, já ultrapassou a marca dos dez anos de idade e já conta com cinco álbuns lançados, sendo quatro deles lançados pela interessante gravadora Cuneiform. Eu, inclusive, já tinha lido alguma coisa sobre o Claudia, mas, ocupado com outras audições, não cheguei a dar a devida importância ao grupo -- dispondo de tão pouco tempo e envolto de tanta coisa boa pra ouvir, há sempre o risco de ouvir mais alguma outra coisa que possa não ser bom, né mesmo?  Contudo, os visitantes mais entusiasmados do Farofa Moderna sabem que este blog sempre procurou divulgar novas audições, impondo riscos e perigos deliciosos aos amantes da aventura: procurando pelos lançamentos jazzísticos mais recentes, atentei-me para o último lançamento do Claudia, Royal Toast (Cuneiform, 2010), e coloquei-o no slide de lançamentos do mês de Agosto, aqui no blog -- quem sempre entra aqui para ver as novidades deve ter percebido e, quem sabe, até procurado para ouvir. Em minhas mãos acaba de chegar este, o recente Royal Toast (onde o quinteto é acrescido com a participação do proeminente tecladista Gary Versace ao piano), mais o homônimo The Claudia Quintet (Blueshift, 2002) e o  For (2007, Cuneiform). O conteúdo dos álbuns não engana: trata-se de uma música para ouvidos atentos, para ouvintes que gostam de reservar uma ou duas horas do seu cotidiano para ouvir atentamente o que um músico, uma banda ou uma orquestra tem a dizer com todos seus conjuntos de elementos estéticos. E podem confiar: com o  Claudia Quintet, o baterista John Hollenbeck --  já nomeado duas vezes ao Grammy através do seu Large Ensemble -- trabalha toda uma concepção de texturas sonoras, dando vasão à sua imagética composição jazzística baseada em elementos da música erudita moderna e do avant-garde.



Em um quinteto onde a formação, por si só, já é inusual -- com sax e clarineta, acordeon, contrabaixo, bateria e vibrafone --, o estilo exótico de arranjo  de Hollenbeck, bem como sua apurada escrita composicional, segue se tornando cada vez mais ousado, no sentido de sempre procurar por pulsações rítmicas diferentes e combinações timbrísticas variavelmente inusitadas que expressem um determinado exotismo melódico e harmônico em cada composição. Com um frescor que advém das melodias do post-rock, com o uso tênue dos elementos da livre improsisação e com uma forte identificação na chamada música minimalista -- estética muito comum na música de compositores eruditos americanos, tais como Louis Andrienssen, Steve Reich, Philip Glass e John Adams -- a estruturada composição de John Hollenbeck tem agaranhado críticas muito positivas nos vários holofotes da mídia especializada: sua música pode agradar tanto os ouvintes do jazz quanto os ouvintes mais rígidos da música erudita contemporânea. Mas, entusiasdamente reitero: ao contrário de algumas pedantes composições minimalistas -- já que o uso da repetição obstinada de figuras e frases é um dos elementos dessa estética musical -- John Hollenbeck nos oferece uma música inusitadamente bela, lúdica e equilibrada, enfatizando a improvisação e a busca pelas variedades de combinações timbrísticas como as características principais dentro seu arranjo elaborado -- aliás, ele mesmo, com sua bateria, acrescenta  muito dos improvisos, efeitos espontâneos e da atmosfera nostálgica patentes na sonoridade do grupo. Enfim, para os amantes da estética eclética do "modern creative"  que já gostavam de bandas progressistas como a The Vandermark Five, por exemplo, o The Claudia Quintet pode ser mais uma excelente pedida: em comparação com a banda do saxofonista Ken Vandermark -- que também faz uso da composição escrita para abrigar os elementos do post-bop, da livre improvisação, do funk e do rock  -- a banda de John Hollenbeck é mais intimista, sutil e delicada em seus traços, mas altamente criativa e instigante. Abaixo vos deixo duas faixas: Rug Boy (do disco For, de 2007) e Kemerag (do disco Royal Toast, de 2010). Boa Audição!

Flying Toward the Sound: de forma belamente impressionista, a pianista Geri Allen evoca os "anjos criadores".

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Ela andava meio que sumida dos holofotes midiáticos. Em 2010, porém, ela lança dois álbuns de uma vez só: um, lançado no início do ano – e do qual este post fala –, é um projeto de piano solo chamado Flying Toward the Sound; o outro, lançado em Junho, evidencia seu quarteto chamado Timeline. Mas, independente da sua reaparição, a pianista Geri Allen, uma das maiores jazzistas que as últimas décadas revelaram, não é um tipo de artista da qual se deva ter apenas um álbum e, muito menos, perdê-la de vista ou esquecê-la. Ora, essa senhora já transitou livremente entre os núcleos criativos do free jazz através das suas associações com músicos como Andrew Cyrille e Joseph Jarman, foi uma das fundadoras do M-Base de Steve Coleman, já liderou um trio de sucesso com Charlie Haden e Paul Motian, já geriu projetos fantásticos e elogiadíssimos em canais como Downbeat, JazzTimes e New York Times – como o álbum Zodiac Suite Revisited (uma releitura da suite original de Mary Lou Williams) – e já integrou o legendário quarteto de Charles Lloyd, realizações essas que muitos músicos desejariam ter em seus currículos.


1 Flying Toward the Sound  6:03
2 Red Velvet in Winter 5:56
3 Dancing Mystic Poets at Midnight 4:24
4 God's Ancient Sky 16:06
5 Dancing Mystic Poets at Twylight  3:23
6 Faith Carriers of Life 7:00
7 Dancing Mystic Poets at Dawn  5:44
8 Flying Toward the Sound (Reprise) 6:23
9 Your Pure Self (Mother to Son)  5:07


Sem lançar algo novo desde 2006, a inovadora pianista ressurge do limbo com um álbum de temática curiosa e de primor inquestionável: já pra começar, o título Flying Toward the Sound, vem acrescido com o real propósito no subtítulo “A Solo Piano Excursion Inspired by Cecil Taylor, McCoy Tyner and Herbie Hancock”. A capa do álbum evoca a mística dos anjos: e o material, constituído de solos cristalinos e introspectivos, faz jus à essa temática de “som angelical” – algo, aliás, que é realizado numa forma de “música improvisada” tão melódica quanto única. Não fosse o subtítulo, poucos ouvintes – até mesmo os de ouvidos mais apurados – conseguiriam perceber as conexões dos improvisos introspectivos da pianista com os estilos do pianistas celebrados: Cecil Taylor, McCoy Tyner e Herbie Hancock, três dos maiores e mais inovadores pianistas da geração pós-60's. Dotada de um estilo contemporâneo muito único – e sendo, ela mesma, um dos pilares do piano contemporâneo desde os tempos em que fazia parte do movimento M-Base, uma concepção inovadora criada pelo saxofonista Steve Coleman nos anos 80 –, Geri Allen até celebra esses “anjos criadores” deixando explícitas, em suas linhas de improvisos, algumas observâncias estilísticas relacionadas aos estilos de cada um deles, mas ela faz isso da sua forma e com seu renovado estilo impressionista e angelical, sem querer soar demasiadamente alusiva, sem querer “copiar” ou “reler” tais mestres – tanto, que o material é totalmente autoral. Embora a obra não siga um determinado rigor estrutural, trata-se de uma suíte de nove peças, onde o ouvinte não sabe distinguir quais partes foram escritas e quais estão sendo improvisadas, tamanho o impressionismo vigente. Em sua totalidade, a obra é intitulada “Refractions: Flying Toward the Sound”. Sendo “refractions” uma denominação dada a cada uma das partes alusivas, a faixa título, por exemplo, é inspirada no estilo do post-bop de McCoy Tyner, mas com um impressionismo que não deixa claro nenhuma linha melódica ou rítmica: a peça é constituída de frases ligeiras que vão do médio ao agudo, tendo, como espaçamento entre elas, acordes e arpejos contemplativos – a mão esquerda, quando não arpeja, também fraseia, mas apenas em respostas contrapontísticas menos carregadas à mão direita. A segunda faixa, “Red Velvet in Winter”, começa bem alusiva ao estilo do balançado de Herbie Hancock – basta imaginar o seu sorriso forçado e o balançar do seu corpo toda vez que ele começa a tocar algo mais funky ou bop –, mas Geri Allen vai desconstruindo essa impressão ininterruptamente através de improvisos rápidos, sem deixar espaços entre as frases, diferindo, portanto, da primeira faixa. Já as inspirações em Cecil Taylor podem ser notadas, principalmente, na quinta faixa “Daincing Mistic Poets”: trata-se de uma peça curta onde o estilo percussivo do mestre do free jazz fica um tanto aparente, ainda que sem seu característico abstracionismo. Ademais, os amantes inveterados da improvisação contemporânea irão se deleitar em demasiado na quarta faixa, “God’s Ancient Sky” : com dezesseis minutos de duração, a peça é repleta de partes intimistas e rompantes repentinos de frases ligeiras, dando-nos as impressões de que os “anjos criadores” estão ora conversando, ora voando em velocidade para atender aos chamados de Deus. Concluindo, o álbum Flying Toward the Sound, lançado pelo desconhecido selo Motema, não é apenas um dos melhores registros de 2010, mas também é, individualmente, uma das provas de como a trajetória de um gênio pode estar acima dos limites estéticos, do que é certo ou errado em arte. Em termos técnicos, Geri Allen já passou a muito tempo pelo status de gênio do piano e começa a alcançar o status de “divindade” entre os astros do jazz contemporâneo.


Mark Feldman: Um violino na Legião

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Site Oficial de Mark Feldman
Violino: um instrumento que para alguns – os desinformados, creiamos – não passa de um protagonista erudito, incapaz de flertar com a música de tino popular, com o jazz ou com a música improvisada. A despeito dos preconceitos que assolam o jazz e da quantidade de pessoas desinformadas, Stephanne Grappelli já provava, lá nos anos 30 e 40, que o violino era capaz de impor um swing e um fraseado tão poderosos quanto um saxofone ou um trompete (desconsiderando aí, claro, a questão dos timbres e intensidades desses instrumentos, já que nos casos do violino e flauta, por exemplo, precisa-se de bons microfones para poderem soar altos frente aos timbres dos instrumentos de metais). Mas além de Grappelli, ainda temos outros exemplos como o excêntrico e lendário Stuff Smith, o grande amigo e sideman de Duke Ellington chamado Ray Nance, o dinamarquês Svend Asmussen e o veteraníssmo Joe Venuti (considerado por muitos o pai do violino jazzístico). Cito esses nomes apenas para ficar nos pioneiros que foram responsáveis por inserir esse instrumento na esfera da improvisação jazzística, pois há muitos outros veteranos que serão necessários citar numa eventual e mais abrangente amostragem: como, por exemplo, o violinista do fusion Jean-Luc Ponty ou o violinista Leroy Jenkins, importante músico do free jazz setentista.

Naqueles tempos, nos tempos do swing jazz, o violinista era apenas um sideman – lembrando que o grande Stuff Smith fora um dos primeiros e únicos violinistas a liderar uma banda, um sexteto que passou a se apresentar no Onyx Club, em NY, a partir de 1935. Hoje, no entanto, o violino é, definitivamente, um instrumento consolidado como líder e solista dentro do jazz, inclusive com um espaço garantido nas listas de “Melhores do Ano” da aclamada revista Downbeat, considerada pela a maioria dos jazzófilos como a “Bíblia” do gênero. E entre os poucos violinistas que estão sempre no topo da referida lista da revista, Mark Feldman e Regina Carter já são nomes mais que tarimbados. Para efeito de comparação, basta relacionar Regina Carter como sendo uma espécie de “Wynton Marsalis do violino” e Mark Feldman como sendo uma espécie de “Dave Douglas”: Carter é um monstro na linhagem maisnstream, enquanto Feldman não deixa de surpreender na linhagem do jazz avant-garde.

Mark Feldman with John Zorn's Bar Kokhba Sextet

A tragetória de Mark Feldman, assim como a de Regina Carter, é inusitada e incomum. Feldman começou sua carreira na década de 70 com um pé na música erudita e o outro em colaborações à músicos de rockabilly de Nashville, Tennessee, tais como Jerry Lee Lewis, Jonny Cash, Loretta Lynn e Willie Nelson. Nessa altura de 20 e poucos anos, Feldman também teve aulas de improvisação com o lendário saxofonista Joe Daley (comentado aqui por Rubens Akira), começando também a colaborar com grandes nomes do jazz como o guitarrista John Abercrombie. Em finais da década de 80, após ter passado pela Civic Orchestra of Chicago, Mark Feldman mudou-se definitivamente para Nova Iorque, onde passou a fazer parte da legião de músicos vanguardistas do cenário “downtown” tais como John Zorn, Tim Berne, Hank Roberts, Joey Baron, Dave Douglas, Mark Dresser, Uri Caine, dentre outros. Suas colaborações, enfim, estão registradas em mais de 150 discos, considerando suas atuações em bandas de cantores comerciais como Sherry Crowl e Diana Ross, em bandas de jazz e música improvisada até seus registros como líder ou co-líder.

Seu primeiro lançamento enquanto líder foi o fantástico Music for Violin Alone, um disco constituído de improvisações ao violino solo, sem rítmos pré-estabelecidos ou acompanhamento: trata-se de um registro editado pela Tzadik (gravadora de John Zorn), com 11 faixas totalmente e livremente improvisadas, onde o violinista põe à prova todo o seu poder de criar frases e texturas sonoras pra lá de inusitadas. Desde então, Feldman lançou 7 discos como líder, considerando os discos onde ele interpreta as composições judaicas de John Zorn que integram a série Book Of Angels (o volume 3 denominado Malphas e o Masada Book II: The Book of Angels, Vol. 1, ambos de 2006). Entre esses, Feldman lançou (também em 2006) um disco pelo selo ECM chamado Waht Exit, que é uma verdadeira jóia do jazz de cunho pós-modernista: trata-se de um disco com as texturas minimalistas e camerísticas da “concepção ECM), onde o violinista lidera um quarteto composto pelo interessante baterista Tom Rainey (que fora parceiro inseparável de Tim Berne), pelo pianista John Taylor e o contrabaixista sueco Anders Jormin, três dos mais apurados músicos que seguem no ziguezague entre avant-garde jazz, new music e música improvisada. Ademais, pode-se ouvir as improvisações poderosas do violino de Feldman em uma pá de bandas interessantes do jazz contemporâneo: a não perder estão suas colaborações com John Zorn nos discos da série Book Of Angels (dentre os quais destaca-se o disco Malphas , em duo com sua esposa, a pianista francesa Sylvie Courvoisier), sua atuação com Tim Berne no disco Fractured Fairy Tales (JMT, 1989), com Dave Douglas nos discos Convergence (Soul Note, 1998), A Thousand Evenings (BMG/RCA Victor, 2000) e Witness (Bluebird/BMG, 2001), além da sua participação no disco Santuerio (Leo, 1994) da grande pianista Marilyn Crispell e no disco volume 11 da série 50th Birthday Celebration (Tzadik, 2006) com o Bar Kokhba Sextet. Destaca-se, sobretudo, que as melhores formações das quais Feldman participa são o Masada String Trio (com o violoncelista Erik Friedlander e o contrabaixista Greg Cohen) e o John Abercrombie Quartet (com o guitarista John Abercrombie, o contrabaixista Marc Johnson e o baterista Joey Baron), com o qual gravou os discos Open Land (1999), Cat’n’Mouse (2002) e Class Trip (2004), todos pela ECM.

 Saiba mais sobre este disco Waht Exit (2006) na seção Os Melhores Discos do ínicio do século 21: escute a faixa-título!Clique aqui para ouvir este disco Malphas e o disco Class Trip com Johm Abercrombie no Site do Vagner Pitta (é necessário fazer cadastro no Multiply)Disco: Bar Korkhba Sextet -Clique aqui para assistir Mark Feldman com o Bar Kokhba no YoutubeAdquira discos de Mark Feldman no site de compras Amazon!

Mario Pavone: seus anos se esvaem...e seu jazz é sempre muito jovem

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No quesito jazz contemporâneo americano há, pelo menos, quatro contrabaixistas que, com a áurea de líderes, figuram entre os mais ovacionados pela excelência e criatividade com que dirigem seus projetos: o onipresente Christian McBride (37) - músico que, desde sua revelação sob a batuta de Wynton Marsalis, passou a ser o contrabaixista mais aclamado dos EUA -, o bem articulado Ben Allison (43) - um dos "cabeças" do grupo moderno de compositores Jazz Composers Collective -, o versártil Avishai Cohen (39) - músico israelense evidenciado nos interessantes trabalhos acústicos de Chick Corea no início da década de 90 - e, por fim, o veterano Mario Pavone (70) - músico que, na dúvida, desistiu da profissão de engenharia assim que compareceu ao funeral de John Coltrane em 1967, iniciando, logo em seguida, sua carreira junto ao grande pianista Paul Bley, carreira essa que, entre altos e baixos, nunca mais parou de dar bons frutos.

Ao contrário dos jovens McBride, Allison e Cohen, o veterano Pavone não conheceu o renome em seus anos de mocidade - considerando, aí, que "mocidade" para um músico de jazz seja o período compreendido entre a idade dos 20 até 40 e poucos anos. Mas enquanto sideman, ele sempre foi um dos mais queridos contrabaixistas dos músicos de avant-garde (leia-se free jazz e livre improvisação), colaborando com Paul Bley (1968-72), Bill Dixon (nos anos 80), Thomas Chapin (1990-97), além de co-liderar uma série de notáveis trabalhos com Anthony Braxton, Wadada Leo Smith, Marty Ehrlich e, mais recentemente, Michael Musillami. A criatividade de Mario Pavone, porém, mostrou-se atemporal frente às "ironias dos destino" e os vai-e-vêm estilísticos do jazz que, após os experimentalismos da década de 60 e 70, hoje está mais sóbrio no sentido de estar condensando e tradicionalizando todas as técnicas e inovações impostas pelos grandes exploradores de outrora. E é dessa forma - mostrando trabalhos com um bom apanhado de técnicas e possibilidades sonoras - que Mário Pavone compõe e lidera seus projetos, passando a adquirir, atualmente, considerável renome entre os exigentes críticos do jornal New York Times e dos sites All Music Guide e All About Jazz, entre outros holofotes especializados.

Oriundo do cenário Loft Jazz dos anos 70 - cenário do free jazz nova-iorquino, no qual os músicos se apresentavam apenas em "guetos" e "lofts", já que o rock, o funk e o fusion dominaram a maioria dos espaços de música - Mario Pavone fez parte do conjunto Bill Dixon's Orchestra of the Streets e, em 1975, ele voltou para Connecticut (onde havia ingressado na universidade) para ser um dos membros-fundadores da New Haven - Creative Music Improvisers Forum (CMIF) -,junto à músicos como Wadada Leo Smith, Gerry Hemingway, Wes Brown, Reverend Dwight Andrews, dentre outros. Atualmente, depois de ter atuado com as estéticas do free jazz e da livre improvisação, Mario Pavone concentra seu trabalho entre as estéticas do Modern Creative e o Post-Bop da recente geração de "jovens" como Tonny Malaby, Michael Sarin, Peter Madsen, Gerald Cleaver, Craig Taborn, Matt Wilson, dentre outros. Foi com essas estéticas que Pavone passou a mostrar o tino composicional que hoje o eleva ao rol dos contrabaixistas e compositores mais requintados do jazz contemporâneo. Lançando discos pelo selo Knitting Factory e depois estabelecendo estadia na ainda desconhecida gravadora Playscape - fundada pelo veterano guitarrista Michael Mussilami -, o contrabaixista vem arrancando aplausos da crítica especializada após lançamentos como Dancer's Tales (Knitting Factory 1997), Orange (Playscape 2003) e os excelentes Deez to Blues (Playscape 2006) e Op-Ed (Playscape 2000), esse em parceria com o próprio Mussilami. Enfim, chegando na altura dos 70 anos de idade, Mario Pavone mostra que só sua idade envelheceu: o seu jazz continua cada vez mais jovem! A não perder estão os recém-lançados Trio Arc e Ancestor, ambos pela Playscape. (Clique na imagem do disco e ouça o disco Dezz to Blues no meu site - lembrando que é preciso se cadastrar no Multiply). Ouça, também, o Podcast dos Contrabaixistas do Jazz Contemporâneo, onde eu abordo o nome de Pavone.


Nicole Mitchell: fruto da AACM, a genial flautista se projeta além de Chicago

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Photo by Michael Jackson

Chicago, grande reduto de vanguardistas e músicos adeptos à experimentalismos libertários, não pára de mostrar seus novos talentos. Desde meados da década de 90 novas vozes como Rob Mazurek e Ken Vandermark - além de músicos veteranos que se reativaram, como Fred Anderson - urgiram de Chicago para o mundo do "underground", resgatando o free jazz, misturando estilos diversos e criando projetos e composições personalíssimas que englobam desde a tradição, elementos afro-americanos, world músic, a já manjada livre improvisação, até projetos onde as novidades da tecnologia e da pós-modernidade são incluídas como elementos indissociáveis aos novos formatos da composição jazzística: basta observar os trabalhos dos personalíssimos combos Vandermark 5 (de Ken Vandermark) e Chicago Underground (de Mazurek), duas das mais inovadoras formações surgidas em Chicago e, obviamente, influenciadas pelos ensinos da entidade AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), que desde a década de 70 realiza estudos importantes nos ramos da integração entre improvisação e escrita musical .

Nicole Mitchell on All about JazzRecentemente, mais propriamente neste início do século XXI, o maior reduto do "jazz progressivo" nos EUA passou a ter mais um grande artista para se orgulhar: trata-se da flautista, cantora e compositora e bandleader Nicole Mitchell que, através dos seus originais projetos, vem lançando discos intensos, entusiasmantes e criativos, seguindo uma linha de trabalho que usa tanto os ensinos de composição da já citada escola AACM como atualiza os estilos de improvisação de conjuntos como Art Ensemble of Chicago, conjunto do trompetista Lester Bowie que, na década de 70, misturava free jazz com elementos da world music. Iniciando sua carreira como líder entre os anos de 2001 e 2002, Nicole Mitchell surpreendeu a mídia norte-americana do jazz ao mostrar composições geniais com muita compreensão da tradição, contemporaneidade, e arranjos que evidenciam uma interatividade sofisticada entre os sons emitidos pelos sidemans dos seus conjuntos: o Black Earth Ensemble, o Black Earth Strings e o Harambee Project, três conjuntos multiculturais com os quais a flautista executa suas experiências e faz suas misturas de jazz com outros estilos da world music, cada um de uma forma. Para além do som peculiar da sua flauta, que impõe liderança frente à nova geração de talentos de Chicago, as composições de Nicole Mitchell são bastante elogiadas pela crítica especializada: a não perder estão as suítes Africa Rising Trilogy (peça em três movimentos, presente no disco Africa Rising de 2002) e Xenogenesis Suite (suíte constituída de um conjunto de nove faixas, presente num disco homônimo dedicado à escritora de ficção científica Octavia Butler, Xenogenesis Suite: A Tribute to Octavia Butler, estreado no Vision Festival em 2007 e lançado pelo selo Firehouse12 em 2009). Não foi à toa, portanto, que os críticos da revista Downbeat premiaram a flautista como um destaque na categoria "Rising Star Flutist" de 2005 a 2008, a Jazz Journalist Association a premiou na categoria "Jazz Flutist of the Year 2008" e o jornal Chicago Tribune a condecorou na categoria “Chicagoan of the Year" em 2006, dentre outras premiações e citações honrosas nos grandes holofotes do jazz americano e europeu.

Indigo Trio: Live in MontrealXenogenesis Suite: A Tribute to Octavia ButlerAfrika RisingBlack Unstoppable


Em paralelo aos seus projetos solos que mesclam jazz com elementos da música afro e canto ao estilo do rhythm'blues, Nicole Mitchell atua junto à orquestra Chicago Sinfonietta tocando flauta piccolo e participa como solista convidade em vários "emsembles" importantes entre os cenários de Chicago e Vancouver, no Canadá. Como colaboradora em grupos e bandas de improvisação, já participou em outros projetos importantes ao lado dos mais criativos e diferenciados músicos do avant-garde: entre eles estão George Lewis, Miya Masaoka, Anthony Braxton, Orbert Davis, Lori Freedman, Muhal Richard Abrams, Hamid Drake, David Boykin, Ed Wilkerson, Dee Alexander, Rob Mazurek, Harrison Bankhead, Arveeayl Ra, dentre outros veteranos e mais novos músicos do panteão vanguardista. Outro fato que merece atenção é que, além de Nicole de ser bem sucedida e antenada no cenário do atual avant-garde, ela deixou de ser apenas um fruto da escola AACM para ser um dos novos educadores e líderes de projetos frente a essa instituição midiática da música criativa nos EUA, sendo, também, um membro docente no Vancouver Creative Music Institute, dirigindo workshops e projetos em escolas e universidades como University of Guelph (Canada), University of Louieville, Dartmouth College, Howard University, Amherst College, South Suburban College de Illinois e University of Michigan, atuando, também, como diretora da banda de jazz do Wheaton College. Participando de tantos projetos e sendo destaque em vários dos holofotes especializados em jazz, Nicole Mitchell apresenta-se, enfim, como mais uma mulher - dentre as tantas mulheres - a fazer parte do rol das instrumentistas inovadoras que estão contribuindo não só para que o jazz seja mais igualitário entre homens e mulheres, mas contribuindo, sobretudo, para a diversificação e firmamento de novos paradigmas no atual cenário do jazz contemporâneo.


Jazz Composers Collective: Ron Horton

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No Brasil é assim mesmo: chegam-nos apenas resenhas de músicos mais conhecidos que a mídia adora expor, já que eles geralmente são clássicos conhecidos e, por consequência, mais vendáveis. Os jornais brasileiros, por exemplo, ainda estão falando do Kind of Blue e do A Love Supreme e, quando muito, reservam um pedacinho de página para indicar clássicos ou lançamentos de ícones da era do fusion tais como o próprio Miles Davis, o tecladista Chick Corea, o pianista cult Keith Jarret, o guitarrista Pat Metheny, dentre outros músicos que conseguem ser vendáveis e palatáveis ao gosto do público leigo - lembrando que o fato de serem vendáveis nem sempre significa que eles sejam inferiores ou menos artísticos que os músicos undergrounds que prezam pela arte crua e desprezam os deleites impostos pela cultura de massa.

Mas o Farofa Moderna, dentre os poucos canais brasileiros que trazem novidades a um pequenino público ávido por música criativa, segue aqui com sua missão, apresentando-vos mais um músico do jazz norte-americano totalmente desconhecido aqui em solo tupiniqim: trata-se do trompetista Ron Horton, um dos músicos e compositores que faz parte do moderno grupo nova-iorquino chamado Jazz Composers Collective, também composto pelo contrabaixista Ben Allison, pelos saxofonistas Michael Blake e Ted Nash e pelo pianista Frank Kimbrough.

Ron Horton nasceu em 1960 e desde os início dos anos 80 está ativo no cenário do jazz norte-americano. Logo após terminar seus estudos no Berklee College of Music e passar por uma fase de início com colaborações à músicos menos conhecidos, passou a ser requisitado como colaborador de músicos midiáticos tais como Lee Konitz, Jane Ira Bloom e Andrew Hill. Com Hill, o trompetista obteve grande experiência: foi membro do Andrew Hill Sextet de 1998 à 2003 (conferir sua aparição no aclamado disco Dusk, lançamento de Hill pela Palmetto Records) e também foi diretor músical e co-arranjador da big band do icônico pianista (conferir o disco A Beautiful Day, lançamento em 2002 também pela Palmetto). Com Jane Ira Bloom ele colaborou como sideman em 1992 no disco Art and Aviation, dividindo atenções com o grande trompetista Kenny Wheeler, outro grande ícone do trompete e uma de suas grandes influências, por sinal.

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Ron Horton, trumpet and flugelhorn
John O'Gallagher, alto sax
Tony Malaby, tenor sax
Frank Kimbrough, piano
Mike Sarin, drums
Masa Kamaguchi, bass
John Hebert, bass



Em 1999, Ron Horton inicia sua carreira como líder, lançando seu primeiro disco intitulado Genius Envy, onde participam a moderna saxopranista Jane Ira Bloom e o saxtenorista John McKenna. Desde então, Horton lançou quatro discos, todos com críticas favoráveis que enaltecem a sua criatividade ao transitar da tradição ao avant-garde com invejável fluência, praticamente não deixando arestas ou incoerências, contribuindo, assim, com a proposta do grupo de compositores Jazz Composers Collective que é, justamente, fazer uma transição entre a tradiçao do Jazz Moderno das décadas antepassadas com a mais recente pluralidade imposta a partir da década de 90. Estilisticamente, Ron Horton segue entre o sopro ao estilo do ja citado trompetista Kenny Wheeler e as multiplas abordagens de Dave Douglas, imprimindo, a partir daí, uma roupagem que, mesmo mainstream, é criativa. A proposta de Horton como músico e compositor associado ao JCC é, portanto, conduzir projetos onde a criatividade englobe estilos variados, valorizando tanto os fraseados do mainstream moderno como também as intrincações do avant-garde através de composições que unam toda essa pluralidade de técnicas e estéticas impostas desde os primórdios do jazz moderno, passando pelo post-bop, até as mais recentes misturas do Modern Creative. No disco Everything In A Dream (Fresh Sound, 2006), gravado numa formação de septeto com dois contrabaixos, Ron Horton mostra uma gama de abordagens que vai de baladas e temas líricos (como se presencia em "Lua Cheia Sobre Lisboa" e "Lamento d'Arianna") à temas que evocam o free-style (como se observa em Grovellin'). "Lamento d'Ariana", por exemplo, é dedicada ao grande trompetista Lester Bowie e seu grupo Art Ensemble of Chicago, pois é baseada num clássico chamado Les Stances A Sophie, desse mesmo grupo vanguardista liderado por Bowie na década de 70. Mas também há partes que mostram vestígios do hard bop, como na faixa "Bring It On/Phoenix". Enfim, os discos de Ron Horton, bem como de todos os músicos do Jazz Composers Collective, mostram que a estética do free jazz caminha para se tornar tão mainstream quanto o hard bop passou a ser a partir da década de 70 e, justamente por isso, Horton e seus companheiros não fazem acepção de estilos mas, ao contrário, se fazem contemporâneos e progressistas através das multiplas abordagens ou da "linguagem múltipla" característica do Modern Creative, estética que nada mais é do que uma fusão e confusão desses estilos ou, talvez, uma busca por novas linguagens através da mistura de todos os dialectos já dantes explorados. Concluindo, o Jazz sempre se estabeleceu através de fusões: algumas foram e são feitas para serem facilmente deglutidas pela massa, outras são estritamentes e naturalmente artísticas.


Don Byron - Live at the Quasimodo, Berlin ( Bootleg )

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Don Byron, o o gênio camaleonico do jazz contemporâneo


Don Byron, nascido em novembro de 1958, é um dos mais inquietantes músicos norte-americanos. Multiinstrumentista, mas adepto mais ao clarinete, Byron tem se mostrado um camaleão no que diz respeito ao seu trafegar artístico: suas preferências musicais, a escolha pelo clarinete e toda a sua obra é, de certa forma, livre e eclética, mas a muitas dessas escolhas foram desenvolvidas baseadas em sua educação e vivência no bairro do Bronx, subúrbio Nova York. Tudo começou quando ele ainda era criança: ao descobrir que sofria de asma, o médico lhe receitou que se ocupasse a estudar um instrumento de sopro como terapia e, então, o instrumento escolhido foi o clarinete. Como sua mãe era pianista e seu pai era um ocasional baixista que tocava numa banda de calypso, Byron recebeu grande inventivo musical que, aliado à escolha pelo clarinete, o levou a pesquisar por grandes clarinetistas do jazz como Tony Scott, Artie Shaw e especialmente Jimmy Hamilton.

Fanático também por Duke Ellington, o adolescente Don Byron absorveu, além do jazz, todos os estilos de música que estavam ao seu redor. Uma das grandes influências adquirida no bairro do Bronx partiu da suas audições de Klezmer music, pois o bairro ainda tinha uma considerável população judaica antes da explosão populacional que trouxeram os negros e latinos do sul e Caribe. Esse gosto pela música judaica lhe acompanha até hoje e está explícito em trabalhos iniciais da sua carreira como no disco Plays the Music of Mickey Katz ( Nonesuch 1993), um revival da música do clarinetista judaico-americano Mickey Katz (1909-1985), um músico e comediante dos tempos do Swing Jazz. Mas, consequentemente, ele também foi influenciado pelos rítmos caribenhos e pelo Hip Hop, expressão artística e cultural que explodiu nas ruas do Bronx no final dos anos 60: inclusive, Byron gravou um grande disco baseado no Funk e Hip Hop chamado Nu Blaxploitation (Blue Note 1998), altamente recondendável.

Byron tem formação musical pelo renomado New England Conservatory of Music, onde estudou com o grande George Russel (o criador do jazz modal) e tocou numa banda de klezmer do conservatório chamada Hankus Netsky's Klezmer Conservatory Band. Logo após sua formação em meados da década de 80, mudou de Boston para Nova Iorque onde passou a colaborar com músicos do free jazz como David Murray, Craig Harris, e Hamiet Bluiett. Em 1992 ele estréia como líder lançando o disco Tuskegee Experiments (Nonesuch), um registro que mescla Klezmer com improvisações atonais bem ao estilo do free jazz e já evidencia toda a sua incomum peculiaridade, o que causa estranhamento na crítica especializada por se tratar de um músico negro com outros gostos difusos além da música afro-americana. Mas as influências de Byron não param por aí: ele é um dos nomes mais respeitados no cenário da Downtown nova-iorquina, tendo como parceiros músicos como Bill Frisell, Dave Douglas, Marc Ribot e Ralph Alessi; é associado ao movimento M-Base de Steve Coleman e também é fascinado pelos sons da Motown, especialmente pelo estilo funk-rock do saxofonista e cantor Junior Walker, a quem homenageou no seu ultimo disco Do the Boomerang: The Music of Junior Walker (Blue Note 2006). Além da sua feceta como instrumentista e compositor, Don Byron também exerce um refinado hobby por cinema alternativo e uma faceta de ativista e agitador cultural, sendo um dos membros da Black Rock Coalition, organização fundada em 1985 por Vernon Reid (guitarrista da banda de funk-metal Living Colour) para promover de músicos negros.

Aqui deixo um bootleg de Don Byron gravado em 2002 num show ao vivo em Quasimodo, Berlin. Como os bootlegs geralmente são gravações que não foram lançados no mercado fonográfico em forma de LP ou CD com os devidos encartes informativos, esta gravação carece de uma ficha técnica precisa. No entanto, após um rateio de datas e informações eu percebi que a mais provável formação que acompanha Don Byron nesta gravação seja o seu sexteto constituído do trompetista Ron Miles, o pianista porto-riquenho Edsel Gomez, o contrabaixista Leo Traversa, o percussionista Milton Cardona e o baterista Ben Wittman. Trata-se de sete faixas com que inclui baladas, temas e improvisações com influências da harmonia do M-Base e da percussão latina, um exemplo de como Don Byron pode soar exótico. As faixas, além de serem todas bem extensas, estão em ótimas qualidades de gravação com 256 kbps de bit. Outra gravação a não perder de adquirí-la é o disco Ivey-Divey (Blue Note 2004), num trio com o pianista Jason Moran e o baterista Jack DeJohnette que atualiza as abordagens do trio de Lester Young com Nat King Cole e Buddy Rich, trio histórico formado em 1947 - esse disco lhe rendeu uma nomeação ao prêmio Grammy na categoria de melhor solo de clarinete baixo na faixa "I Want to Be Happy".

Veja também Don Byron no Exoticpittajazz


Outros Excelentes Sites Informativos (mais sites nas páginas de mídia e links)