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Mostrando postagens com marcador Novidades Discográficas. Mostrar todas as postagens
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Novas edições na Tzadik de John Zorn: para ferozes e românticos...

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No novo programa do Podcast Músicas no Plural, disposto no site musical da Fundação Gulbenkian de Portugal, o produtor e apresentador Rui Neves apresenta peças de três discos recém lançados pelo selo Tzadik do saxofonista e compositor John Zorn. O selo Tzadik foi criado por John Zorn em 1995 para dar suporte para suas gravações  e as dos seus colaboradores. Atualmente a gravadora é um dos mais bem sucedidos selos de jazz contemporâneo, improvisação livre e música experimental, tendo lançado, ainda, magníficas projetos ambientados em klezmer music, rock experimental e música erudita contemporânea.

Mark Nauseef + Ikue Mori + Evan Parker + Bill Laswell em "Near Nadir": álbum ambientado entre a manipulação de eletroacústica digital e a improvisação livre, com o mestre Evan Parker nos sopros

Marc Ribot e Trevor Dunn em "Enigmata": 12 aforismos curtos compostos por Zorn para guitarra e bateria, as composições trazem a intensidade do rock hardcore em combinação com a improvisação livre

John Medeski + Kenny Wollesen + Trevor Dunn + Joey Baron em "At The Gates Of Paradise": romântica (e irônica) incursão baseado no jazz mainstream com pitadas de impro-livre, com piano, teclados, bateria e baixo.


A brasilidade contemporânea do guitarrista João Paulo Gonçalves: do jazz post-bop aos rítmos tradicionais brasileiros, sem soar folclórico!

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Estou para acreditar que a guitarra -- falo da elétrica, semi-acústica, muito usada no jazz moderno e recentemente resgatada com ímpeto no jazz americano contemporâneo -- finalmente está fincando seu espaço na música instrumental brasileira contemporânea, isso desde o início dos anos  2000. Não que nunca tivemos bons guitarristas -- Hélio Delmiro foi um dos pioneiros, e quem acompanha a música instrumental sabe que há outros excelentes, inclusive contemporâneos --, mas é animador perceber que no Brasil, país onde o reino das cordas era sempre dominado pelos violonistas do samba e choro, a guitarra de estilo mais contemporâneo começa a ganhar mais adeptos e mais expoentes. Recentemente, por exemplo, conheci João Paulo Gonçalves, mais um guitarrista de fluência e musicalidade excelentes. Era maio de 2010, quando eu estava cobrindo o festival Bridgestone Music, em Moema: na ocasião, fui convidado por João para ouvir algumas faixas do seu primeiro disco que estava em gestação -- sem muito tempo disponível, ouvi apenas uma faixa, a "Samba em Corda Bamba", e logo de cara ví que tratava-se de um samba instrumental com nuances contemporâneas e, a partir daí, pensei: se o restante do disco for assim, será interessante. Com a correria, não me inteirei da carreira de João -- apenas trocamos algumas idéias curtas sobre música e, ao despedirmos, eu lhe desejei sucesso e disse que ficaria no aguardo do disco para, se possível, divulgar aqui no blog. Pois bem: acaba de me chegar às mãos o disco Sincronicidades, lançado por João e seu quarteto em meados de 2010 -- e para a alegria daqueles que buscam escutar novos músicos brasileiros que sejam capazes de compor e tocar já fora dos clichês do choro, bossa nova e samba-jazz, este disco apresenta uma sonoridade de mix muito interessante: ele apresenta, sim, rítmos tradicionais brasileiros, mas o faz de uma maneira tênue, contemporânea, sem arestas folclóricas, sem soar antiquado e passadista. Proveniente do Conservatório de Tatuí, um dos mais renomados celeiros da música no Brasil, João Paulo Gonçalves desponta não apenas como um dos mais novos dentre os principais guitarristas paulistanos, mas como mais um  dos novos representantes do jazz brasileiro de nuances contemporâneas -- ou da música instrumental brasileira contemporânea, se assim o preferirem chamar.

O crème de la crème dos lançamentos de Maio e Junho...

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Matthew Shipp, Ivo Perelman, Gerald Cleaver & Joe Morris: a galera do álbum The Hour of the Star.
Já está disponível o slide com os lançamentos dos meses de maio e junho. Dei uma verificada nos sites CD Universe e Amazon, dois dos principais oásis para quem compra CD's pela internet: e para quem quer adquirir, em CD, excelentes gravações antepassadas, há uma grande compilação de álbuns antigos e/ou sessões raras que estão sendo editados ou reeditados pelas etiquetas da CTI Records (muita coisa do soul jazz, funk e free jazz com espiritualismos afros), Uptown Records (sessões do bebop e hard bop que estavam perdidas e foram recentemente resgatadas dos estúdios) e Original Classics (west coast jazz e bebop) -- destes, eu coloquei alguns exemplos no slide (Stan Kenton, Thelonious Monk, Charlie Christian), mas, para maiores e melhores pormenores, dêem uma pesquisada lá nos sites. Acerca dos novos lançamentos, há álbuns para gregos e troianos, ou para nômades que gostam de todos os tipos de sons. Pat Metheny apresenta-nos 10 releituras no seu "What's it All About", indo de de Paul Simon a Jobim & Vinicius, sem acrescentar um único original sequer. Em Ninety Miles, três dos maiores músicos do jazz contemporâneo -- o vibrafonista Stefon Harris, o trompetista Christian Scott e o saxofonista David Sanchez -- fazem uma incursão pelo latin jazz, com muita carga afro-cubana. Tem dois álbuns novos do torrencial saxofonista sueco Mats Gustafsson em suas aventuras pela música livremente improvisada, com apimentados temperos incluídos por dois guitarristas de territórios diferentes: um é Shinjuku Growl, com seu trio The Thing mais o guitarrista de Chicago Jim O'Rourke; o outro é Shinjuku Crawl com o Thing mais o guitarrista japonês Otomo Yoshihide. Tem o post-bop com frescor contemporâneo em The Paris Sessions, o mais novo do pianista "rising star" Gerald Clayton, do qual já falamos aqui (os interessados pesquisem no campo de busca do blog ou nas tags do arquivo no final da página). Outro guitarrista que trabalha entre os limites do jazz, música livremente improvisada, do rock e do noise é o Nels Cline: ele acaba de lançar The Veil -- impressionante seu fôlego para sequências ininterruptas de bons lançamentos. Tem o álbum The Hour of the Star do saxofonista brasileiro, radicado nos EUA, Ivo Perelman: improvisações no âmbito do free jazz e inspirado pela poética da escritora brasileira Clarice Lispector. Outro do qual já falamos aqui no blog -- e, portanto, vocês podem pesquisar pra conhecer o som -- é o projeto Harlem-Kingston Express do pianista jamaicano Monty Alexander: o gajo faz umas viagens instrumentais pela música caribenha e jamaicana da capital Kingston, mesclando-as com viagens pelas tradições do jazz do Harlem (blues, stride, bebop e afins). Falando em música caribenha, outro álbum que também deve estar muito interessante é o Caribbean Rhapsody, do vulcânico saxofonista James Carter: trata-se de um concerto para saxofone e orquestra, escrito pelo porto-riquenho Roberto Sierra, premiado compositor de música erudita contemporânea. Estou curioso para ouvir, também, o álbum Avenging Angel do interessantíssimo tecladista Craig Taborn: só com improvisações em piano solo -- e o detalhe: pela ECM... Tem, ainda, o álbum Awakening da flautista de Chicago Nicole Mitchell, uma das dirigentes da AACM, instituição legendária para a música criativa afro-americana. Do Brasil, a única novidade que eu encontrei na parte de "jazz" do site da Amazon e CD Universe -- e uma grata surpresa, por sinal -- foi o álbum Nosso, da cantora e fotógrafa paulistana Dani Gurgel: uma galera já havia me falado sobre a MPB de grande requinte instrumental que esta moça cria e, portanto, estou ansioso para ouví-lo. Também um outro álbum da MPB com grande requinte instrumental é Saudações Egberto, onde a cantora e pianista carioca Délia Fischer faz versões para temas do gênio Egberto Gismonti. Para quem gosta de um trio cru só com sax, bateria e contrabaixo, há o excelente álbum Victory do saxofonista JD. Allen. Enfim, é uma pena não poder ouvir e resenhar todos, ou a maioria, desses álbuns aqui no blog, mas fica, aí, a dica e o convite para que os amigos blogueiros dividam conosco essa tarefa de divulgar esses novos lançamentos em solo tupiniquim. Ademais, tem muitos outros álbuns -- no âmbito do mainstream e do avant-garde -- que estão dispostos para serem visualizados no slide da página LANÇAMENTOS. Confiram!

Ambrose Akinmusire: De quando o coração abraça o cérebro, e o sentimento abraça a técnica...

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Esqueçam, por um momento, a Blue Note das décadas passadas, de quando ela era a principal etiqueta das primeiras gerações de progressistas do jazz: isso desde o bebop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie nos anos 40, passando pelo hard bop de Art Blakey e Horace Silver nos anos 50, até o post-bop de Wayne Shorter e Herbie Hancock nos anos 60. Esqueçam também aquele beat swingante de bateria e aquele walking bass manjado, pois há tempos que aqueles grooves de swing e bebop -- que vigoraram nas décadas 30, 40, 50 e 60 -- não são a tônica da linguagem dos músicos: não só dos músicos da geração 2000, mas até músicos veteranos, como os próprios Wayne Shorter e Herbie Hancock, há muito tempo se libertaram das cadeias quadradinhas do swing e bop. Feito isso, aí sim você estará apto para ouvir o que tem a dizer o álbum When the Heart Emerges Glistening, debut do trompetista Ambrose Akinmusire (pronuncia-se ah-kin-MOO-senhor-ee), pela Blue Note. Descoberto aos 19 anos por Steve Coleman (pai do inovador conceito M-Base) num workshop na Berkeley School of Music, Ambrose Akinmusire passou por um lento e constante processo de revelação, desde 2001, até ser recentemente alçado à categoria de principal "rinsing star" nos rankings da Downbeat e noutros principais holofotes americanos especializados: para tanto, além de conquistar a primeira colocação na Thelonious Monk Competition de 2007, ele colecionou uma quantidade considerável de participações como sideman, tocando em shows de imporantes músicos veteranos, como Herbie Hancock e Terence Blanchard (uma das suas principais influências), viajando em turnês ao lado de Steve Coleman (como membro do seu The Fives Elements) e participando de alguns dos álbuns mais interessantes deste início de século, como, por exemplo, Resistence Is Futile (Labeu Bleu, 2001) de Steve Coleman, In What Language (Pi Recordings, 2003) de Vijay Iyer e Mike Ladd, Esperanza (Heads Up, 2008) de Esperanza Spalding, bem como dos álbuns do saxofonista Walter Smith III, seu sideman e parceiro de projetos, para o selo Criss Cross. Antes de ser contratado pela Blue Note, sua primeira empreitada aconteceu em Prelude...to Cora (2007), album lançado pela Fresh Sound New Talent, a qual, como o próprio nome diz, tem sido uma das principais gravadoras a descobrir novos talentos do jazz, assim como a Criss Cross passou a fazer desde meados dos anos 90.

O início de Sun Ra em The Eternal Myth Revealed Vol.1, um box set para jazzófilos colecionadores ou...para ufólogos que curtem jazz!

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Acaba de chegar no meu twitter uma notícia interessante da The Wire: agora no mês de julho de 2011 um tal selo chamado Transparency Records lançará um box set valioso chamado The Eternal Myth Revealed Vol.1, revelando nele vários dos momentos iniciais de Sun Ra, o alienígena mais famoso da história do jazz (hehehe...sim, acredite: houve e há outros alienígenas personificados com a imagem humana e infiltrados nas bandas, orquestras, clubes de jazz e afins). O material -- raríssimo, diga-se de passagem -- contém 13 horas de músicas inéditas misturadas com depoimentos diversos, organizados em caráter de documentário autobiográfico. Organizado por Michael D. Anderson, Diretor Executivo da Sun Ra Music Archive, esta extensa compilação histórica mostra um grande esforço e um nobre propósito de desvendar o universo particular de Sun Ra, divulgando diversos fatos e informações que nem os maiores entusiastas do pianista de Saturno tiveram acesso. A apresentação também inclui imagens de entrevistas com Sun Ra, na primeira fase da sua carreira -- antes da fase free e new age dos anos 50 e 60 -- falando da sua música e dos seus conceitos, suas influências, bem como inclui audios de diversas gravações clandestinas em clubes ou em espaços alternativos. Compreendido no período de 1924 à 1959, o documentário examina excertos sonoros de Sun Ra tais como suas primeiras gravações em 1946 como um sideman, seus primeiros arranjos e composições, sua faceta de cantor de blues e pianista de boogie-oogie, com seu trio em 1949, suas investidas no orgão Hammond B3, seu trabalho com vocalistas como Laverne Baker e Joe Williams, a influência afro-cubana do bandleader em sua música, as gravações de piano solo que o pianista registrou em um dos apartamentos que morou, as influências de grupos de r&b e doo-woop de bandas como The Ink Spots em sua música, com seu próprio grupo de doo-woop The Nu-Sounds, com sua Sun Ra Bebop Band ao vivo no clube Bud Land in 1956 (uma rara performance ao vivo com Pat Patrick no sax barítono, Gene Ammons no sax tenor, J.J. Johnson no trombone, Ronnie Boykins no contrabaixo e Robert Barry na bateria), a parceria com saxtenorista John Gilmore em 1958 no clube Bud Land, Sun Ra e sua banda tocando ironicamente desde temas de música pop como "Tequila" até standards jazzísticos clássicos como "Round Midnight", entre outros momentos inusitados, raros e, até então, desconhecidos.  Para quem estiver interessado em conhecer o universo particular desse pianista e puder desembolsar uma quantidade de mais ou menos 130 euros (mais ou menos 350 reais), só clicar na imagem do box para encomendá-lo. No Youtube já tem alguns excertos disponíveis.

O trompetista Maurice Brown, nova revelação do jazz, e seu álbum inspirado no "ciclo do amor"!!!

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Se a década 90 foi o ápice de uma leva de trompetistas talentosos -- os quais, tirando de fora Dave Douglas, quase todos, à época, se mostraram influenciados pelo neo-tradicionalismo de Wynton Marsalis: Terence Blanchard, Nicholas Payton, Roy Hargrove, entre outros --, a década de 2000 já foi mais favorável para a categoria dos pianistas, os principais agentes da evolução do jazz neste início de século. Contudo,  os últimos anos estão evidenciando o surgimento de uma nova geração de trompetistas, sendo que estes, por sua vez, deixaram o neo-tradicionalismo para trás e estão transitando sob as  mais contemporâneas e pós-modernistas influências que permeiam a atual cultura americana: ou seja, o pop, o rock alternativo, o hip hop e o neo-soul. Além do já famoso Christian Scott e do recém-chegado Ambrose Akimusire, eis que surge mais um excelente trompetista na "New York jazz scene": trata-se de Maurice Brown, trompetista natural de Chicago e nascido em 1981. Em 1999, após a high school,  Maurice começou seus estudos avançados na Northern Illinois University, transferindo-se, depois, para a Southern University, em New Orleans, cidade onde morou e começou sua carreira como líder de banda,  no clube Snug Harbor. Antes,  ele vencera a competição National Miles Davis Trumpet Competition para jovens trompetistas, se tornando, então, um sideman requisitado tanto por músicos da nova geração como por veteranos, chegando a tocar com Clark Terry, Johnny Griffin, Curtis Fuller, Stefon Harris, Ellis Marsalis, Lonnie Plaxico, Fred Anderson, Roy Hargrove, entre outros. Com a catástrofe do Furacão Katrina, Maurice teve de tentar a sorte em Nova Iorque, a "meca" mundial do jazz. E deu certo: sua reputação como músico e compositor lhe rendeu uma agenda cheia em colaborações não apenas com os músicos de jazz, mas com os mais variados artistas e grupos de soul e hip hop: entre eles, Aretha Franklin, Talib Kweli, Wyclef Jean, Cee-Lo, De La Soul, The Roots e P. Diddy.

Com o lançamento do seu primeiro álbum, Hip to Bop, em 2004,  Maurice Brown deixou claro que seguiria a tendência de produzir um som que estivesse antenado com o contexto atual da música afro-americana: como o próprio título sugere, o álbum evidencia um jazz que engloba pegadas que vão do bebop às batidas do hip hop, passando pelo lirismo do neo-soul.  Esta é a tendência que tem norteado a maioria dos projetos da nova geração de jazzistas afro-americanos, inicialmente capitaneados por músicos como o vibrafonista Stefon Harris, o contrabaixista Christian McBride, o pianista Robert Glasper e, mais recentemente, o trompetista Christian Scott. Categoricamente, trata-se de  uma espécie de post-bop regado de influências contemporâneas presentes na cultura afro-americana: o  fraseado -- os improvisos -- ainda trazem sotaques e inflexões oriundos da linguagem bebop, mas os grooves (as levadas rítmicas) são inusitadamente baseados nas batidas do funk e hip hop, bem como a harmonia e a melodia são inspiradas pelos climas sonoros do neo soul e do rhythm'n'blues -- a exemplo de como o hard bop fora uma linguagem bebop mais flexível,  inspirada pelo blues, gospel e soul dos anos 50 e 60. Contudo, é preciso frisar que Maurice Brown tem uma predileção mais retrô (estilo categorizado como straight-ahead), uma pegada  mais visceral e uma performance mais gestual, mais improvisativa e menos lírica que o estilo de Christian Scott, por exemplo.  Após lançamento de Hip to Bop, em 2004, só agora, em 2010, Maurice Brown conseguiu lançar o seu segundo álbum, The Cycle of Love: durante os seis anos que separaram um registro do outro, o trompetista foi interrompido pelas perdas com a desgraça do  Furacão Katrina e depois, já em Nova Iorque, pela agenda cheia de projetos enquanto arranjador e produtor -- considerando que, além de sideman bem requisitado, ele também foi contratado pela Atlantic Records para ser diretor musical da cantora irlandesa Laura Izibor, com quem fez turnês por vários países.


Lançado de forma independente através do seu próprio selo, o Brown Records, o álbum The Cycle of Love foi considerado um dos 10 melhores álbuns de 2010 National Public Radio (vide resenha na página MÍDIA). Mas é preciso frisar aos apaixonados que este The Cycle of Love não é um disco do tipo "jazz for lovers". Ao contrário da impressão que o título do álbum pode passar, as músicas aí contidas não trazem nenhuma sonoridade romantizada do amor: como, por exemplo, aquelas manjadas baladas melosas, um tanto "smooth jazz", baseadas na melancolia amorosa entre um homem e uma mulher. Segundo o próprio Maurice Brown, as músicas também são inspiradas no amor entre um homem uma mulher, mas a principal inspiração é a busca pela felicidade e o amor humano como um todo. Para tanto, o clima do álbum procura casar sentimentalismo com descontração através de melodias de fácil audição e memorização, e através de grooves inusitados, basicamente baseados nas batidas funky e hip hop. A banda presente é um quinteto acústico: com ele, Maurice Brown ao trompete, Chris Rob ao piano, Derek Douget no saxofone tenor, Solomon Dorsey no contrabaixo e Joe Blaxx na bateria. O clipe abaixo foi produzido com base na faixa "Time Tick Tock", um dos destaques do álbum. Clique aqui para visitar o site do trompetista e ouvir outras faixas.


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More "Best Jazz Albums of 2010": A lista do The Village Voice numa playlist da AccuJazz!

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A rádio on-line AccuJazz, que pretensiosamente se intitula "The Future of Jazz Radio", é a melhor rádio de jazz da internet: ela tem inúmeros canais que abrange os vários estilos de jazz, do ragtime e dixieland até o free jazz e o jazz contemporâneo, bem como canais que são separados por categorias de instrumentos, compositores, lançamentos do ano e etc -- e ela é tão relevante para nossa abordagem aqui no blog, que coloquei um badge/link dela no final da página, relacionando-a como um dos sites que devemos visitar sempre que possível. Um dos canais mais interessantes e mais relevantes para quem quer estar por dentro do que anda sendo registrado no jazz contemporâneo é o recente canal "Best Jazz of 2010", uma playlist com faixas dos melhores álbuns de jazz lançados em 2010, segundo o jornal nova-iorquino The Village Voice: trata-se de uma das listas de lançamentos mais abrangentes e democráticas que eu pude presenciar até o presente momento -- lembrando que muitos desses lançamentos também foram citados e/ou resenhandos aqui mesmo no Farofa Moderna, ou seja, apostamos que estes seriam os melhores do ano bem antes de qualquer especulação midiática. Outras listas de "melhores álbuns de 2010" podem ser encontras na página "MÍDIA" que pode ser acessada através do respectivo link no topo do blog: lá tem uma lista dos "10 Melhores Álbuns de Jazz de 2010" segundo a National Public Radio, esta comentada por este que vos escreve; e tem uma lista dos "50 Melhores Álbuns de Jazz de 2010" segundo a revista Jazz Times, esta última comentada em matéria do Jornal do Brasil pelo jornalista Luiz Orlando Carneiro. Apesar dessas listas sempre gerarem sabores em uns e dissabores em outros, acredito que estas, as quais tenho mostrado aqui, são listas altamente relevantes para quem quer se inteirar dos estilos de sons que estão acontecendo no jazz contemporâneo. Ouça aqui na AccuJazz os Melhores Álbuns de 2010, segundo o The Village Voice!



Brad Mehldau
Charles Lloyd
Chris Lightcap
Christian Scott
Chucho Valdes
Conrad Herwig
Danilo Pérez
Dave Holland
Dee Dee Bridgewater
Fred Hersch
Geri Allen
Gregory Porter
Guillermo Klein
Henry Threadgill
Ideal Bread
James Moody
Jason Adasiewicz

Vijay Iyer
William Parker
Jason Moran
Keith Jarrett
Marc Ribot
Mary Halvorson
Mike Reed
Mostly Other People Do the Killing
Myra Melford
Nels Cline

Paquito D'Rivera
Pat Metheny
Paul Motian
Randy Weston
Regina Carter
Rudresh Mahanthappa
The Bad Plus
The Claudia Quintet
The Either Orchestra
The Microscopic Septet
                                    Tomasz Stanko

Donny McCaslin e seu "moto perpétuo": nuances de um post-bop "funkeado"!!!

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Acaba de chegar em minhas mãos o ótimo álbum Perpetual Motion, gravado no final de 2010 pelo saxofonista colossal -- porém ainda pouco conhecido do grande público -- Donny McCaslin, um dos músicos do qual falo sempre de forma muito adjetivada -- e o faço simplesmente porque ele realmente se tornou, por sí só, um jazzista adjetivado. Pra quem ainda não o conhece, McCaslin (44 anos) é, atualmente, a principal estrela do sax tenor no jazz contemporâneo a contracenar com os já cultuados Mark Turner, Chris Potter e Joshua Redman (inclusive, os brasileiros que estiveram no Savassi Jazz Festival 2009, em Belo Horizonte, puderam conhecê-lo de perto). Como sideman ele tem brilhado em diversos combos e coletivos, tais como o Steps Ahead (onde ele substituiu Michael Brecker, em 1994) a Maria Schneider Orchestra, a Mingus Big Band e o Dave Douglas Quintet. Já como líder, seus últimos lançamentos, a considerar desde 2006, tem reafirmado não só seu talento e originalidade -- deixando mais evidente suas idéias, seus arranjos, suas composições e seu estilo próprio como improvisador, o que já lhe tirou fora do estigma de, eventualmente, vir a ser considerado apenas um seguidor de Michael Brecker --, mas tem sido aclamados como sendo pérolas primorosas do jazz contemporâneo no sentido de enriquecê-lo nos contextos do post-bop e do modern creative, principalmente porque, afora seus arranjos primorosos, o saxofonista tem empregado o uso de formações instrumentais inusitadas, sem contar, também, seu solos estonteantes os quais sempre são um deleite à parte: estes lançamentos são Solar (Sunnyside Records, 2006), In Pursuit (Sunnyside Records, 2007), Recommended Tools (Greenleaf Music, 2008), Declaration (Sunnyside Records, 2009) e Perpetual Motion (Greenleaf Music, 2010) -- são pelo menos nestes quatro álbuns onde pode-se analisar, com mais nitidez, a busca do saxofonista em se tornar diferenciado nas três frentes  que completam um músico de jazz:  como improvisador, compositor e arranjador.


Como eu bem disse que resenharia alguns lançamentos, dentre os tantos que forem noticiados aqui -- e os que forem resenhados serão organizados para consulta na sessão LANÇAMENTOS deste blog --, este Perpetual Motion é o primeiro de 2011 que recebe uma notinha especial. Já há algum tempo que eu venho me surpreendendo com Donny McCaslin, nao apenas por constatar que ele é um grande saxofonista, mas por constatar sua grande capacidade como compositor. Isso porque a cada álbum que lança, McCaslin leva à cabo configurações instrumentais diferentes para dar vazão às suas composições e arranjos requintados: um quinteto acrescido da ênfase rítmica da percussão em In Pursuit; trio de sax, bateria e contrabaixo em Recommended Tools; uma compacta brass band de oito instrumentos, metais mais saxofone, em Declaration -- são, enfim, distintas as idéias que a cada disco surgem, o que nos leva a crer que o saxofonista tem um grande desafio de trabalhá-las sem destoar seu estilo próprio, sem soar incoerente em idéias dispersas. Para Perpetual Motion, ele leva à cabo uma espécie de quinteto "semi-elétrico" -- uma banda que combina fraseados e nuances da instrumentação acústica com uma tênue psicodelia proporcionada pelo piano elétrico (Fender Rhodes), mais algumas pitadas de efeitos eletrônicos --, escalando, para tanto, David Binney (saxofone alto, manipulação electrônica), Adam Benjamin e Uri Caine (ambos revezando-se entre o piano e o Fender Rhodes), Tim Lefebvre (baixo elétrico) e Antonio Sanchez e Mark Guiliana (ambos revezando na bateria). Gravado em Setembro de 2010, Perpetual Motion foi lançado na última semana de Janeiro de 2011, sendo portanto um dos ótimos lançamentos que poderá constar nas listas dos melhores álbuns deste ano -- quer dizer, desde já ele passa a ser uma aposta deste blog. Co-produzido pelo altoísta David Binney, o álbum traz dez faixas: sete delas são composições unicamente de McCaslin; a oitava faixa é um rápido interlúdio, um fragmento idealizado por Mark Guiliana; a nona faixa, "Impossible Machine", foi escrita e arranjada em parceria com Binney; e, por fim, décima faixa, "For Someone" é um epílogo de autoria do pianista Uri Caine, com ele ao piano acústico apenas.



Mas, aprofundando-se na síntese deste álbum, qual é o significado do título "Perpetual Motion"? Em italiano "perpetual motion" quer dizer "moto perpétuo", que em português diz-se "movimento perpétuo". Na música, "moto perpétuo" está relacionado à uma técnica musical compositiva, um fluxo contínuo de notas em andamentos rápidos que são aplicadas em uma determinada parte da composição; ou pode ser, também, pedaços de peças, partes inteiras, que são tocados repetidamente por inúmeras vezes -- como um ciclo que se repete indefinidamente. Já na ciência, "perpetual motion" está relacionado à um sistema cíclico que utiliza-se da energia gerada através do seu próprio movimento: seria como uma hipotética maquina que pudesse trabalhar sem energia elétrica, mas unicamente através de uma suposta energia gerada por seu próprio movimento. Perpetual Motion, de Donny McCaslin é assim: um álbum de identidade post-bop, mas que pode ser analisado basicamente como uma espécie de um mosaico de nuances em torno do funk e fusion, tendo, como tempero, vaporosos, reverberantes, inebriantes e tênues efeitos de eletrônica e piano rhodes -- é como um ciclo de variações em torno, principalmente, da rítmica do funk, mas sem soar repetitivo em demasiado. É  curioso, portanto, o modo como McCaslin pincela as suas várias idéias em torno dessas influências sempre deixando-as implícitas através de grooves e arranjos inusitados. Ou seja, não se trata, aqui, de reviver tais influências -- o funk, o fusion, os efeitos elétricos e eletrônicos... -- tal como foram originadas ou como são tarimbadamente exploradas no mundo da música afora, mas trata-se de configurá-las para o idioma do jazz contemporâneo -- e o melhor de tudo é que o saxofonista realiza essas configurações deixando nítida a sua originalíssima personalidade musical, já constatada em seus álbuns anteriores. Dito isto, é preciso delinear, a seguir, como são trabalhadas essas influências, fazendo uma análise auditiva em algumas faixas do álbum. A primeira faixa,  "Five Hands Down", começa com uma introdução numa sonoridade e pegada um tanto "funk-rock": aí os protagonistas são o piano Fender Rhodes, baixo elétrico e a bateria, vindo em seguida o sax de McCaslin intervindo com o tema e, logo após, improvisos calmos e bem pontuados que vão atingindo um êxtase mais ou menos estável, até que se volta ao tema e se desemboca num final com agudas distorções cacofônicas, onde o baixo elétrico acrescenta um grave efeito de amplificador na última nota -- destaque, como coadjuvante, para o baterista Antonio Sanches, que se destacará, ainda, por outras faixas do álbum. A faixa-título Perpetual Motion, a segunda faixa, é protagonizada pelo sax, bateria e contrabaixo, com suaves intervenções do Fender Rhodes: trata-se de um canção melodiosa que desemboca em um funky polirrítmico, um pano de fundo para os improvisos velozes e viscerais de McCaslin -- e ele não economiza no registro, indo do grave ao agudo com muita alma, imprevisibilidade e emoção. Já em "Firefly", quarta faixa do álbum, McCaslin cria uma atmosfera um tanto inebriante: trata-se de uma balada lenta e melodiosa entoada ao seu sax tenor, enquanto, ao fundo, o pianista Adam Benjamin aplica as texturas levemente psicodélicas do Fender Rhodes e David Binney aplica ecos de efeitos eletrônicos: a canção nos soa como se estivéssemos flutuando em alguma dimensão exótica ou em nossas próprias lembranças (boas lembranças, claro!) -- um efeito que, aliás, se repete em outras faixas, em alguns pontos melódicos e bem harmonizados. O álbum prossegue, enfim, com sua veia rítmica um tanto "funk", voltando a se notabilizar através da soulful e bluesy "Memphis Redux": trata-se de uma melancólica canção ambientada em bases melódicas e harmônicas do rhythm'n'blues -- é o tema mais "assobiável" do álbum, embora o desenvolvimento de improvisos caminhe para a mesma angularidade presenciada nas faixas mais complexas. A faixa seguinte, "L.Z.C.M", traz um funk de clima um tanto "noir", como se fosse uma dessas trilhas sonoras que ouvimos em inícios ou fins de filmes de aventura com abordagem retrô. O álbum termina, enfim, com "For Someone", uma bela balada impressionista destilada aos dedos experientes de Uri Caine, um breve epílogo ao piano acústico.


Retrospectiva 2000-2010 – Uma crítica à falta de crítica: 21 álbuns indispensáveis da Música Instrumental Brasileira!

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Sem nenhuma pretensão heróica, todos aqui sabem que nós, deste blog, sempre debatemos e protestamos em favor de mais espaço para o jazz contemporâneo na mídia brasileira – e agora, essa mesma ênfase se faz necessária, também, para a nossa música instrumental genuinamente tupiniquim. Quem andou observando os editoriais de alguns jornais e revistas, sabe que o ano de 2010 foi deveras representativo para a música em geral: isso porque os críticos, jornalistas, editores e pesquisadores musicais foram tocados a formular suas listas dos “mais relevantes álbuns e projetos musicais da primeira década do século 21”, listas essas que, como sempre, acabam levantando debates e suscitando inconformismos, mas que às vezes, quando a lista é mais acurada, tem-se um panorama ideal de quais artistas estão sendo valorizados num determinado momento – se eles continuarão a ser lembrados e se serão imortalizados no dia de amanhã, isso já é outra história... Como já explicitei várias vezes a todos que por aqui já passaram, eu mesmo não sou muito afeito a rankings e listas prontas do tipo “Os Melhores Álbuns do Ano”, “... da Década”, “...do Século” e nem do tipo “2001 Álbuns que você tem que escutar antes de morrer”, “10 álbuns que você levaria para uma ilha deserta” e etc... -- e não sou afeito à tais listas e rankings por três fatores: primeiro porque os melhores álbuns para as pessoas são aqueles os quais cada uma delas gosta e se identifica, e, por questões de déficits culturais e educacionais históricos, nem sempre as pessoas escolhem gostar dos melhores e mais trabalhados projetos, escolhendo, quase sempre, os mais palatáveis e mais pobres, musicalmente falando; segundo porque a mídia e o mercado fonográfico, ao constatarem a pobreza cultural das pessoas, também se tornam propositalmente “pobres” para tirar proveito comercial disso, enaltecendo e divulgando mais projetos e álbuns conservadores e palatáveis, e deixando de lado o valor da crítica sincera, aquela que deveria ser no mínimo imparcial e prezar, também, pela divulgação de projetos realmente inovadores e ousados; e terceiro porque: se por um lado as influências contemporâneas e, por consequência, as reminiscências estéticas (harmônia, poesia, rítmo, composição e arranjos gerais) deveriam ser os único critérios para se medir a relevância de um projeto musical relacionado à uma época específica, por outro lado a boa música deve ser sempre encarada como uma arte universal e atemporal. Mas daí é o seguinte: como estamos no Brasil, país com uma elite conservadora que prefere importar a música internacional e investir na cultura do entretenimento a investir na cultura da arte e em nossa própria identidade musical – e todos nós sabemos a mesquinharia que é quando o assunto é divulgar um material nacional ou algo de verve mais artística, em contrapartida da mesmice e abundância quando o assunto é a musica pop e dançante – qualquer lista que venha a ser divulgada é automaticamente suspeita de manipulação e heresia, pois preza-se mais tendências comerciais do que o desenvolvimento estético da música em si. No caso específico da nossa música instrumental tupiniquim, como ela não é uma música de aporte comercial, percebe-se que a mídia e o mercado nacionais conseguem ser ainda mais deficitários, deficientes, esnobes e ausentes: não há absolutamente um só grande canal brasileiro que dê importância para os avanços da música instrumental brasileira; não há absolutamente um só canal que tenha divulgado uma lista de álbuns e projetos determinantes para a arte da música instrumental – aliás, falar em 'arte musical' no Brasil parece ser algo muito avançado para nós brasileiros, pois enquanto os europeus, por exemplo, valorizam os fatores 'técnica' e 'inovação' na música com a mesma visão de que eles são fatores indispensáveis nas artes plásticas, em contrapartida aqui em solo tupiniquim a única música relevante e valorizada é aquela que se atrela apenas ao cancioneiro popular, ao folclore e, quando muito, à cultura pop internacional. Isto é, a música é nada mais do que um produto de entretenimento e sua relevância fica intrinsecamente ligada à sua capacidade de ser comercializada. Ou seja, não se preza o requinte artístico, não há uma democracia que permita que trabalhos tecnicamente e esteticamente mais desenvolvidos tenham a mesma igualdade de espaços – ou, pelo menos, tenham alguma modesta porcentagem do espaço – que os projetos de apelo popular detêm.


Hoje em dia a crítica está a favor das tendências mercadológicas, da globalização: crítica, hoje, é marketing pra vender discos. Mas já houve um tempo em que a crítica jornalística estava acima dos poderes do mercado, dos próprios artistas, das rédeas dos editores-chefes e não se importava em agradar o público: a missão da crítica era estar a favor da arte, julgar a favor da qualidade, da inovação; a missão era levar a melhor arte às pessoas. Já houve um tempo na história do jornalismo em que o papel do jornal e da revista era informar o presente e se especular o futuro de forma imparcial. Porém, no jornalismo brasileiro dos último anos, principalmente nos editoriais de arte e cultura, a onda do ofício tem sido ser extremamente segregalista e parcial e, quando se informa, informa-se o passado – visto que, quando se trata de música, a maioria dos jornalistas, supostamente“especializados”, parecem ápitos apenas para indicar os mesmos panteões de 50 ou 60 anos atrás, tais como Miles Davis, Tom Jobim, Frank Sinatra, Billie Holiiday, John Coltrane, João Gilberto, Roberto Carlos, Chico Buarque... como se atualmente não houvesse grandes nomes a serem resenhados, documentados e divulgados – parece que há um certo medo de ferir os ouvidos do público com trabalhos mais experimentais, inovadores e contemporâneos. Mas nem tudo está perdido: a tendência irreversível é a de que a internet passe a ser vista, cada vez mais, como o principal meio de comunicação a enriquecer e modernizar a cultura das pessoas e, consequentemente – enfim! –, parece que uma meia dúzia de jornalistas tem feito um mínimo possível para sofisticar o jornalismo cultural brasileiro em prol de uma amostragem mais ampla das variabilidades da música contemporânea: o veterano jornalista e pioneiro crítico musical Luiz Orlando Carneiro (Jornal do Brasil) e os jovens jornalistas Fabrício Vieira (Folha de São Paulo) e Sergio Martins (Revista Veja) são alguns dos quais tem conseguido enxergar nitidamente os requintes artísticos do jazz contemporâneo e explicitá-los nas páginas midiáticas, ainda que o tamanho e a regularidade dos espaços cedidos nem sempre façam jus à atenção que o gênero precisa para atingir cada vez mais pessoas – ou seja, a atenção dada ao jazz ainda é infimamente pequena se comparado à atenção dada a gêneros como sertanejo, axé e pop music e outras purpurinas sonoras de preponderância comercial; e se formos levar a crítica estritamente na direção da música instrumental brasileira propriamente dita, veremos que praticamente não há nenhuma atenção e preocupação concreta em mostrá-la. Mas não dizem que estamos a caminho de uma democracia plena e moderna? Então, tenhamos esperança, oras bolas!!! Parece impossível, mas quem sabe os editoriais de arte e cultura, num eventual inventário comparativo em relação aos abrangentes editoriais dos países desenvolvidos, caiam na real e venham sofisticar seus espaços com novos espasmos de igualitarismo, né? Há um “new jornalism” rolando lá fora...



Vejam bem: não estamos pedindo que os grandes canais midiáticos deixem de dar ênfase nos gêneros que lhes dão lucros comerciais – no pop, no rock, no axé, no pagode, no sertanejo e afins – , mas estamos lhes chamando atenção para o fato de que uma regular e mais diversificada amostragem musical, incluindo de gêneros estritamente artísticos como o jazz e a música instrumental brasileira, os colocaria em outro plano de sofisticação, pois uma abordagem mais variada da música contemporânea não se faz necessária só por que há um público ávido por novas informações – porque no Brasil há, sim, um público em formação que está procurando gostar de jazz e música instrumental –, mas uma abordagem rica e diversificada se faz necessária, sobretudo, pela própria missão que a mídia tem de enriquecer o conhecimento e a cultura das pessoas – é um princípio óbvio; não é demagogia; é um ônus! O mais interessante é que, na contramão de um revival e uma ênfase exarcebada ao samba e à bossa nova – em 2008, por exemplo, teve-se 50 anos de aniversário do gênero, às vezes considerado o principal sinônimo de música sofisticada brasileira – a revolução musical sessentista a qual parte da mídia ainda insiste em considerar moderna e contemporânea, a tendência que já vinha mostrando as garras através dos lançamentos dos principais músicos brasileiros foi, justamente, uma maior atenção às variabilidades da música como um todo – das estéticas vanguardistas ao mainstream –, procurando alçá-las a novos patamares de contemporaneidade: e é por esse caminho que o jazz, a MPB e a música instrumental brasileira acabam encontrando terreiros férteis, pois são gêneros nos quais os músicos e musicistas sempre estão em constante evolução, sempre procurando renovar seus estilos e inovar suas abordagens com novos ingredientes e experimentos. É isso, aliás, que os lançamentos mais reveladores da música instrumental brasileira tem deixado claro. 










Na lista abaixo, onde levantei 21 dos mais interessantes lançamentos da nossa música instrumental – na minha pesquisa e opinião –, o que se pode constatar é o trabalho de veteranos e jovens progressistas em favor de uma música nova: quem veio do tradicional choro, inovou o choro (caso do bandolinista Hamilton de Hollanda); quem se filiou à “música universal” de Hermeto Pascoal, procurou levá-la adiante como um dos mais novos e mais influentes avanços da música brasileira (casos do Trio Curupira, do grupo Armazem Abaporu e da Itiberê Orquestra Família); quem veio da influência da bossa-nova e do samba-jazz procurou diversificar e atualizar seus trabalhos com versões modernas de frevos, latinidades e pitadas de jazz contemporâneo (casos do guitarrista Michel Leme e do baterista Alex Buck); quem procurou focar seu trabalho em releituras da MPB, valorizou não só a bossa nova, mas o cancioneiro mineiro e a música nordestina (casos do saxofonista Carlos Malta, do contrabaixista Dudu Lima e do Duo Gisbranco); e ainda houve aqueles que não foram adeptos à nenhuma escola específica e, por consequência, acabaram trazendo estilos diferentes de fazer música (caso do trio pernambucano Rivotrill). Enfim, como a mídia brasileira não documenta e não veicula a música instrumental brasileira, até parece que não temos uma música instrumental ousada, moderna, diversificada e desenvolvida tal como está acontecendo no jazz contemporâneo. Mas as evoluções estão aí, em curso! Talvez as passadas da música instrumental brasileira sejam mesmos mais lentas se comparadas às passadas evolutivas do jazz – já que, como citamos anteriormente,  no Brasil a música que é relevante para receber financiamento e espaços na mídia é aquela que se limita entre os meandros do folclore, do cancioneiro popular e da música pop importada, enquanto as músicas americanas e européias, além de dar muito mais espaço e financiamento para o desenvolvimento do jazz e da música erudita, prezam por uma abordagem mais urbana e vanguardista –, mas há de se convir que, genealógicamente, depois das experiências que tivemos com o choro, com o samba-jazz e com a miscelânea inovadora de Hermeto Pascoal, podemos dizer que  já temos uma linguagem de música instrumental própria e bem desenvolvida, e a culpa, portanto, nem sempre é dos músicos: a culpa é da mídia que, ao não informar o público sobre o que acontece na seara instrumental, acaba limitando o conhecimento das pessoas comuns, o que restringe o crescimento deste nicho musical e forçam os próprios músicos a trabalharem numa linha mais conservadora para poderem sobreviver do seu ofício – e daí, as pessoas ficam achando, por exemplo, que bossa nova e jazz são a mesma coisa (acham que é apenas música ambiente ou música para idosos), isso sem considerar que muitas destas pessoas, ao ouvir uma banda instrumental, acaba achando que a banda está incompleta, pois estão acostumados apenas a ouvir a voz –  na forma simples, cantada – como o sujeito principal da música – e os canais de rádio não estão nenhum pouco preocupados em mudar essa visão ignorante e limitada que a maioria das pessoas tem. Ora, como se já não bastasse a população ser ludibriada com esta visão simplória dos canais de rádio e com os limites dos canais de televisão aberta – onde a programação é limitada a quatro ou cinco novelas diárias (pra quê tanta novela, Senhor!?), duas ou três séries ou programas de comédia pobre, um ou dois jornais sensacionalistas e alguns programas de auditório, vitrines que insistem em divulgar sempre o mesmo cast de artistas e celebridades – será que nossos jornais e revistas, meios de informação comprados por pessoas mais curiosas, nunca tomarão as vias da sofisticação cultural? Enfim, assim como a música erudita e a própria música popular cunharam seus mestres imortais, a musica instrumental brasileira também está repleta de mestres à espera do respeito, da importância e da imortalidade que só a mídia lhes pode conferir – afinal, não é à toa que pessoas de várias partes do planeta sempre se lembrarão de Bach, Beethoven, Wagner, Stravinsky, Duke Ellington, Villa-Lobos, Tom Jobim, Beatles, Bob Dylan, Miles Davis,  Hermeto Pascoal, Moacir Santos, Milton Nascimento, Chico Buarque...e muitos outros compositores universais.






















Abaixo, sem nenhuma sequência numérica, listo 21 álbuns indispensáveis da Música Instrumental Brasileira lançados entre 2000 e 2010. Esta lista servirá de guia para nossa série de posts chamada Retrospectiva dos anos 2000, só que com foco nos principais músicos, bandas e álbuns brasileiros da década. Os critérios para a escolha de tais álbuns foram os básicos: quando estamos falando nas artes do jazz e da música instrumental brasileira contemporânea, estamos falando em inovação, arranjo, composição, harmonia, rítmo, improvisação, contemporaneidade, estilo próprio e etc – 21 dos trabalhos nacionais desta década que mostraram algum requinte nesses critérios foram selecionados. Não é uma lista com a pretensão de ser um “Top 20”, uma lista fechada ou definitiva, mas pode ser considerada uma lista por onde se poderia começar a montar uma discoteca básica de música instrumental brasileira contemporânea, pois prezei por mostrar desde trabalhos de músicos veteranos até os de músicos jovens, desde o brazilian jazz até as últimas abordagens do choro, passando por releituras modernas do cancioneiro popular e pelas bandas e músicos influenciados pelas inovações de Hermeto Pascoal – ou seja, são projetos interessantes que podem ser considerados verdadeiras pontes entre a nossa tradição popular e a música contemporânea, com realce para nossa brasilidade. Confiram e estejam atentos, pois esses álbuns, bandas e músicos, se já não foram citados, serão todos resenhados no nosso blog no Portal MTV! Caso queiram indicar mais discos, a sessão de comentários está aberta a sugestões!


Mundo Verde Esperança (Rob Digital, 2003) – Hermeto Pascoal & Grupo
Pedra Grande (Editio Princeps, 2004) – Armazém Abaporu
Calendário do Som (Maritaca, 2005) – Itiberê Orquestra Família
Curupira (Jam Music, 2000) – Trio Curupira
Brasilianos Vol. 2 (Adventure Music, 2008) – Hamilton de Holanda Quinteto
Curva de Vento (Trama, 2008) – Rivotrill
...de árvores e valsas (Estúdio Monteverdi/ Tratore, 2008) – André Mehmari
“5º” (Independente, 2010) – Michel Leme
Trio + 1 (Núcleo Contemporâneo/ Adventure Music, 2009) – Benjamin Taubkin Trio & Joatan Nascimento
Luz da Lua (Maritaca, 2006) – Alex Buck
In Set (Independente, 2010) – Bruno Migotto
Horizonte Artificial (Tratore, 2007) – Sinequanon
Ouro Negro (Adventure Music, 2001) – Moacir Santos (projeto de Mario Adnet e Zé Nogueira)
Cordas Mineiras (Blues Time +/ Tratore, 2010) – Dudu Lima
Acid Samba (L177 Records, 2001) – Bocato
Pimenta (Independente/ Malta, 2000) – Carlos Malta
Terra Amantiquira (Maritaca, 2006) – Orquestra Mantiqueira
Passo de Anjo (Biscoito Fino, 2004) – Spok Frevo Orquestra
El Negro Del Blanco (Biscoito Fino, 2004) – Paulo Moura & Yamandú Costa
Choro Ímpar (Acari Records, 2007) – Maurício Carrilho
Gisbranco (Delira Musica, 2008) – Duo Gisbranco


Os 10 melhores álbuns de 2010 segundo a National Public Radio

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O The Blog Supreme, blog oficial do portal da NPR -- a gigante radio pública americana que, nos últimos, anos tem sido de grande importância para a difusão do jazz -- divulgou uma lista dos 10 melhores álbuns de jazz do ano de 2010. Apesar de eu seguir aqui no blog uma certa amostragem iconoclasta do jazz e não ser muito afeito a listas prontas -- já que sou adepto da ecleticidade e constato que sempre rola, aí, uma certa arbitrariedade em prol do conservadorismo ou do vanguardismo --, posso dizer que gostei da lista do The Blog Supreme: o blog, assim como a própria NPR, mostra uma concepção atual e abrangente de jazz contemporâneo  ao incluir projetos de músicos que estão fora da esfera elitista das principais revistas e jornais americanos -- haja vista que, independente dos músicos que já gozam de um certo estrelismo, o jazz está mesmo muito mais abrangente do que em qualquer outra época da sua história já parabenizada com 100 anos de desenvolvimento --; e também, quatro álbuns que abordamos aqui, três deles com resenhas e dispostos para consulta na sessão LANÇAMENTOS, foram incluídos na tal lista: Ten (do pianista Jason Moran), Harvesting, Semblances and Affinities (do saxofonista Steve Coleman), Saturn Sings (da guitarrista Mary Halvorson) e Flying Toward the Sound (da pianista Geri Allen) -- lembrando que esses álbuns foram resenhados aqui duarante o ano e, portanto, nao sabíamos que eles entrariam em nenhuma lista dos "melhores".


Os outros seis abordados pelo The Blog Supreme são: Domador de Huellas (do pianista argentino Gillermo Klein), Joy Spring (do pianista Bill Carrothers), The Cicle o Love (do trompetista Maurice Brown), All Is Gladness In The Kingdom (com Fight The Big Bull feat. Steven Bernstein), Bigmouth 'Deluxe' (do contrabaixista Chris Lightcap) e People, Places And Things, 'Stories And Negotiations' (do baterista Mike Reeds) -- albuns os quais, pode-se dizer, abordam desde o a estética do modern post-bop até as aventuras do modern creative. É claro que a lista não é um parâmetro definitivo do que esta a acontecer de interessante no jazz, pois se cada um de nós que frequentamos este espaço pudéssemos explicitar aqui uma lista, seriam centenas delas, cada um com dicas diferentes -- vide a própria sessão de comentários do post do The Blog Supreme, onde alguns leitores deixaram listas bem interessantes. Mas a lista em questão é, enfim, um prato cheio pra quem tem sede de novos sons, pra quem gosta de estar antenado ao que anda acontecendo de novidade no jazz contemporâneo. Ademais, nós aqui no Farofa Moderna também fazemos nossa lição de casa: pra quem quer saber quais novos sons abordamos em 2010, é só entrar na sessão LANÇAMENTOS para ter acesso às respectivas resenhas e áudios. Abaixo o link: acesse e ouça  as respectivas dez faixas dos álbums. 

Arc Suite - Mario Pavone & Orange Double Tenor (2010)

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Já escrevi aqui sobre os trabalhos deste herói do contrabaixo: Mario Pavone (vide tag "Mario Pavone" no final do post). Remanescente do núcleo dos músicos marginais do free jazz a emergir no final dos anos 60 e a sofrer com o ostracismo dos anos 70, Pavone ficara conhecido, pelo menos até meados dos anos 90, apenas como um sideman bem requisitado e benquisto entre músicos progressistas, já tendo trabalhado com o pianista Paul Bley (1968-72), o trompetista Bill Dixon (nos anos 80) e o saxofonista Thomas Chapin (1990-97), além de também ter co-liderado registros com o compositor e multiinstrumentista Anthony Braxton, com o trompetista Wadada Leo Smith, com o saxofonista Marty Ehrlich e, mais recentemente, com o guitarrista Michael Musillami, fundador da gravadora Playscape, selo pelo qual, só agora, nos últimos anos, vem lançando uma bem sucedida sequência de álbuns. Mas trata-se, contudo, de um exemplo de músico que sofreu um raro e benéfico processo de destilação, ou seja, à medida em que envelhecia na idade, ele trabalhava para valorizar-se e renovar-se com os mais recentes espamos de contemporaneidade: ao invés de se cristalizar com os clichês viciosos que o tempo impôs ao mainstream ou, no caso específico dele, ao chamado free jazz (ou avant-garde jazz, ou música improvisada, como queiram), ele se modernizou com a tendência do estruturalismo do jazz contemporâneo, unindo a composição escrita, a instrumentação arranjada e a improvisação livre -- essa em lotes, condicionada como um elemento composicional e não apenas como um elemento independente e abstrato -- para compor uma obra que não só ganhou consistência por sí só, mas que também começou a ser aclamada pelos críticos especializados. Essa tal transição do free jazz para o que chama-se hoje de modern creative -- isto é, se segmentarmos o processo através de rótulos empregados pela própria crítica especializada --, não foi só Mario Pavone quem a experimentou, mas a maioria dos veteranos chamados 'freejazzers' e, dentre estes, outros tantos de novos músicos, os quais também passaram a atuar rumo a uma tendência de dinamização interacional, estruturação composicional e re-arranjo instrumental da estética freejazzística, vide os avanços impostos por músicos que vão desde veteranos como o saxofonista David S. Ware e o contrabaixista William Parker, passa por músicos de transição como os saxofonistas Steve Coleman e Tim Berne e desembarca em músicos da nova geração como Matthew Shipp e Vijay Iyer. Junto à Pavone, por exemplo, alguns dos músicos que contribuem para o desenvolvimento dessa estética são o guitarrista Michael Mussilami, o saxofonista Tonny Malaby, o baterista Michael Sarin, o pianista Peter Madsen, o baterista Gerald Cleaver, o tecladista Craig Taborn, dentre outros.

Mas as curiosidades quanto ao trabalho de Mario Pavone não se dão apenas pelo fato dele ter resolvido deixar a carreira de engenheiro justamente após conhecer John Coltrane (ele esteve no funeral do saxofonista, em 1967, junto com uma multidão de músicos célebres, e ao som do sax tenor gritante e espiritual de Albert Ayler) ou por ele ter ficado três décadas apenas conhecido como um sideman eficiente e só agora, na terceira idade, ter se projetado como um líder e compositor aclamado. Mas questiona-se, também, a vigorosidade do seu toque e da sua técnica. Tanto que uma crítica publicada na revista New Yorker chegou a examinar a técnica de Pavone como "as working the bass strings with the force and persistence of a sculptor chipping away at granite", ou seja, segundo tal definição, ele parece trabalhar o pizzicato nas cordas do contrabaixo com a mesma força e persistência com as quais um escultor lasca e molda uma peça de granito -- essa foi a caracterização metafórica dada à vigorosidade do seu toque. E ele mesmo, em entrevista ao programa JazzSet, apresentado pela cantora Dee Dee Bridgewater, respondeu que seu toque forte e sonoro foi adquirido através da própria necessidade de impor sua sonoridade nos anos 60 e 70, numa época em que, além da estética musical do free jazz ser naturalmente barulhenta, ainda não havia a cultura do uso de amplificadores e pickups: "In the days I started, sometimes as the lone bassist among several horns and a couple of drummers, there weren't amplifiers or pickups. It was all acoustical playing — it just became part of my style, chiseling away" -- ou seja, mesmo que atualmente já haja amplificadores ultramodernos, seu som permaneceu estilizado através da própria necessidade que se tinha de impor um som alto, forte e sonoro no contrabaixo acústico (mais comum no free jazz do que o baixo elétrico, esse naturalmente amplificado).

A NPR (National Radio Public), a excelente rádio pública americana, acaba de disponibilizar, na íntegra, mais um número do programa JazzSet no qual Mario Pavone é abordado: o programa é apresentado originalmente pela cantora Dee Dee Bridgewater na legendária rádio WBGO (88.3 FM), de New Jersey. Este número apresenta o mais novo projeto de Mario Pavone: uma suíte intitulada "Arc Suite", que acaba de ser registrada em album e lançada ao mercado pela Playscape -- sendo esse o sétimo registro do contrabaixista na gravadora. Assim como todas as composições anteriores, Pavone reafirma, mais uma vez, seu estilo um tanto pessoal de composição e arranjo: as peças desta suíte, segundo ele próprio, são uma homenagem às suas quatro décadas e meia de carreira, englobando tanto as influências e experiências advindas do free jazz dos anos 60 e 70 como também os ganhos adquiridos com suas abordagens mais recentes, explorando o modern post-bop e o modern creative -- e é daí que surge, então, o nome 'Arc', pois esse é o nome de uma das suas bandas contemporâneas (vide o álbum Trio Arc, Playscape, 2008): ou seja, no caso desta gravação (registrada no Litchfield Jazz Festival, em Connecticut), o Arc, que é o nome da sua banda constituída de um trio, apenas denominou e estilizou o projeto que, na verdade, é protagonizado pelo seu sexteto chamado Orange Double Tenor, tendo ele, Mario Pavone, como contrabaixista e compositor, Jimmy Greene no saxofone tenor, Tony Malaby no saxofone tenor e soprano, Dave Ballou no trompete, Peter Madsen no piano e Gerald Cleaver na bateria. Ouça o programa através do link abaixo!


A proeminente guitarra de Mary Halvorson: um toque feminino no "modern creative".

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Caros diletantes da música improvisada, atentai-vos para este nome: Mary Halvorson. Não, essa moça não é apenas mais um toque de beleza feminina em meio a um cenário de marmanjos desembestados movidos ao vício da abstração: trata-se de uma artista que ja começa a conquistar o seu espaço e que faz jus a essa façanha ao imprimir um jeito todo seu, uma sonoridade toda sua e, o que é raro, uma determinada coerência no casamento equilibrado entre os elementos do noise, livre improvisação e composição escrita -- tudo isso permeando os entornos do jazz contemporâneo e do post-rock. Acabou-se, enfim, o conceito de que a liberdade musical consistia em tocar uma sequência barulhenta de notas sem considerar um mínimo de senso de coerência e elaboração, sem imprimir um conteúdo técnico ou exigindo que o ouvinte tivesse de adquirir uma bula conceitual para compreender o alto nível de abstração que abolia a melodia, o rítmo e a harmonia -- há, logicamente, músicos talentosos que imprimem estilos peculiares usando o free jazz e a livre improvisação comos veículo para a expressão de uma determinada liberdade e espontaneidade, mas também há o caso de músicos que abusaram da liberdade de abstração para esconder uma total falta de domínio técnico quanto ao seu instrumento e aos saberes básicos da música, sem contar que o conceito de liberdade imposto pelo free jazz já é algo tão ultrapassado, em termos de evolução, quanto o bebop, transformando-se em apenas mais uma das inúmeras ferramentas das quais os músicos fazem uso em suas colagens e misturas. A nova liberdade, portanto, exige muito mais conhecimento do artista, pois ela proporciona que ele trabalhe com quaisquer elementos de quaisquer gêneros musicais que queira inserir dentro da construção da sua obra e do seu estilo de expressão: todas as variabilidades em torno do jazz, rock, noise, black music, música improvisada, música serial erudita, eletroacústica...o século 20, enfim, parece ter esgotado todas as possibilidades de descobertas, de modo que agora os novos músicos se vêem no papel de revisitá-las, misturá-las e, a partir daí, buscar novas formas de expressão e obter novas descobertas através de novas experimentações. A guitarrista Mary Halvorson pertence à esse novo paradigma do jazz contemporâneo: o chamado "modern creative".



O currículo de Mary conta com uma estadia que ela teve com ninguém menos que o saxofonista e compositor concentualista Anthony Braxton na Wesleyan University, além de várias colaborações com novos e veteranos improvisadores como Taylor Ho Bynum, Tim Berne, Trevor Dunn, Assif Tsahar, Matana Roberts, Ted Reichman, Stephen Haynes, Curtis Hasselbring, Tomas Fujiwara, Jason Moran, Tony Malaby, Nicole Mitchell, Elliott Sharp e John Tchicai. Quanto à sua carreira solo, Mary tem conseguido obter espaço na mídia especializada através de vários projetos: além de liderar seus próprios conjuntos, ela co-lidera um duo camerístico com a violinista Jessica Pavone, conforme documentado no álbum On & Off (Skirl, 2007) e é membro do People, banda de rock progressivo que forma com o baterista Kevin Shea. Ela também lecionou na New School e realizou workshops na School for Improvised Music. Suas gravações incluem, ainda, "Opulence" (UgExplode, 2008), em dueto com o baterista Weasel Walter, "Calling All Portraits" (Skycap, 2008), "Thin Air" (Thirsty Ear, 2009) e o "Dragon's Head" (Firehouse 12, 2009), album aclamado pela crítica  e que teve a colaboração do baixista John Hebert e do baterista Ches Smith, seu trio.

Um dos lançamentos mais festejados de Mary Halvorson é o "Saturn Sings" (Firehouse 12, 2010), responsável por colocá-la na mira dos holofotes como uma das principais revelações do jazz contemporâneo. O álbum, elaborado em torno da mística de Saturno e seus anéis, traz Halvorson na guitarra semi-acústica e como compositora única de todas as faixas, tendo a contribuição dos dois músicos que compõe seu trio, o contrabaixista John Hebert e o baterista Ches Smith, mais o acréscimo do trompetista Jonathan Finlayson e do saxofonista "rising star" Jon Irabagon, constituindo, então, um quinteto. Segundo o que diz a guitarrista, suas melodias, improvisos e harmonias trazem inspirações de vários compositores da música em geral: Clifford Brown, Thelonious Monk, Robert Wyatt, Dmitri Shostakovich, Archie Shepp, Sam Cooke e Marvin Gaye. A NPR tomou nota da seguinte forma: "The harmonies were inspired by a diverse group of composers (Clifford Brown, Thelonious Monk, Robert Wyatt, Dmitri Shostakovich, Archie Shepp), but the new horn section provides the guts behind the songs, taking the spirit of Sam Cooke and Marvin Gaye. It also doesn't hurt that Hebert, the drummer, knows his way around a funky bass line that tugs at the legs to move — or at least shuffle spasmodically". O que é entusiasmante, contudo, é que a guitarrista imprime seu próprio estilo de se elaborar entre as linhas do jazz, o noise e a improvisação livre: seus improvisos e distorções por vezes lembra as estripulias atonais do guitarrista de free jazz Sonny Sharrock, mas sua personalidade própria e sua versatilidade ficam bem patentes. Desejamos muito sucesso a Mary Halvorson e que muitos outros projetos dessa estirpe surjam. Ouça trechos do disco no site da BBC.

O "presente" de Delia Fischer à MPB contemporânea

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O blog Farofa Moderna está indo para o seu 4º aniversário. No início, a minha intenção era abordar o jazz a música instrumental brasileira e a world music, esse um gênero rico de sonoridades instigantes que abrange a música étnica ou outros estilos musicais que dão ênfase em fusões com as várias sonoridades folclóricas do mundo. Mas, de forma natural, outros assuntos como artes, livros, música popular e experimental também foram sendo abordados ocasionalmente ou solicitados pelos próprios visitantes do blog. Pois bem, agora chegamos na versão definitiva de como deverá ser nossa abordagem. Como nos falta tempo para "cair de cabeça" numa pesquisa musical em tempo integral, -- já que é impossível pesquisar toda a infinidade de novos sons que as mentes criativas do planeta nos proporciona --, vamos fechar o cerco e abordar a música contemporânea como um todo e de forma mais genérica, sendo que a atenção que era dada especificamente à "world music" será substituída pela ênfase em mostrar mais a música popular brasileira de hoje em dia, a chamada MPB contemporânea. Há um grupo seleto de cantores que estão fazendo uma MPB de muito bom gosto e qualidade musical: portanto, a nossa ênfase será dada a cantores e compositores que unem o requinte poético impresso no canto à música bem arranjada e bem tocada -- vejam que Elis Regina, por exemplo, foi uma cantora de MPB -- amplamente apreciada pelas massas, diga-se de passagem -- que se conectou totalmente com os avanços da música instrumental, dos aos 60 e 70, nas suas formas mais autênticas, sem economizar arranjos e improvisos em suas interpretações. É esse tipo de MPB -- que alia a sofisticação harmônica, melódica e rítmica em torno da fusão entre canção e instrumental -- que deveremos mostrar por aqui. Aliás, eu considero que a MPB é um gênero que, embora ainda tenha uma certa sustância de artistas veteranos em atividade e uma nova leva de outros artistas contemporâneos, ela está sendo escanteada pela exposição exarcebada de gêneros relacionados a música de entretenimento e levada à condição elitista no que se diz respeito ao seu alcance de público e de mídia. Mas vamos ao assunto deste post, pois já falei deste aspecto aqui e aqui.   O mais novo lançamento da MPB que mostra esse raro requinte entre a canção e o arranjo instrumental é álbum "Presente", da pianista Délia Fischer.



Delia Fischer, nascida em 1964, é pianista, compositora e arranjadora e, agora, lança este "Presente", seu primeiro album com ênfase na canção popular. Mas não se enganem: apesar dos poucos álbuns lançados, estamos diante de uma instrumentista de primeiro nível que parece considerar a evolução da arte musical acima de alguma fama ou ganho comercial -- uma autêntica artista. Tendo tido uma educação bem direcionada -- considerando que ela estudou com mestres supremos como Luiz Eça e Guerra Peixe --, Delia iniciou sua carreira em meados dos anos 80 com o seu Duo Fênix, juntamente com Cláudio Dauelsberg, gravando nessa fase os discos "Duo Fenix" e "Karai-Ete". No exterior, atuou nos clubes New Morning, em Paris (França), e Brottfabrik, em Sttutgard (Alemanha), além de ter participado dos festivais de jazz de Montreux (Suíça) e de Sofia. Após essa fase com o duo, já no início dos anos 90, a pianista passou a realizar diversos workshops no Brasil e acompanhou grandes músicos e cantores como Toninho Horta, Ed Motta, Robertinho Silva, Pascoal Meirelles, Dom Um Romão, Nivaldo Ornelas, Marcos Ariel, Nico Assumpção, Baby do Brasil e Jane Duboc, entre outros. Inclusive, por seu talento e acesso à rede de músicos influentes, ela participou de eventos como "Tributo a Elis Regina", em 1997, e "Brasil 500 anos", em 1998, realizados pela Rede Globo. Em 1999, gravou o CD "Antonio", lançado nos mercados norte-americano e europeu pela gravadora Carmo-ECM, de Egberto Gismonti. O disco, composto de músicas de sua autoria, contou com a participação de instrumentistas fantásticos como o violonista e guitarrista Romero Lubambo, o contrabaixista Nico Assumpção e o saxofonista Nivaldo Ornelas, um dos expoentes do legendário movimento mineiro chamado Clube da Esquina. Agora, após um hiato de uma década sem lançar discos, a pianista alcançou um novo ápice em sua carreira: em 2009, ela  foi premiada no XXI Prêmio Shell de Teatro na categoria Música, pelos arranjos vocais e instrumentais para o musical “Beatles num céu de diamantes”, de Charles Möeller e Claudio Boelho; além disso, acaba de lançar o interessantíssimo álbum "Presente", um misto de canção popular e arranjo instrumental, que deverá ser bem resenhado pela maioria dos especialistas que amam esse lado mais criativo da música brasileira.



O álbum "Presente", lançado pelo selo Dubas, traz ao menos três fatores como excelentes atrativos para que o apreciador de jazz, MPB e música instrumental compre-o:  um deles é o time de convidados especiais como Hermeto Pascoal, Ricardo Silveira, a diva do jazz escandinavo Lisa Nilsson, Egberto Gismonti e Ana Carolina; o outro deles é o fato de que esse é o primeiro álbum onde a pianista se aventura, também, na condição de cantora; e o outro é o próprio conteúdo musical: as composições e os arranjos que não só foram bem construídos em suas estruturas técnicas, mas também procuram evidenciar uma música que une aspectos da tradição brasileira com os da música contemporânea, imprimindo um frescor e uma identidade preponderantemente tupiniquim. Constituído de doze canções, todas compostas por Delia com com a colaboração dos parceiros Thiago Picchi, Sergio Natureza e Camila Costa nas letras, o álbum "Presente" não é um daqueles onde só há um, dois ou três destaques: todo o álbum é muito bem arranjado e todas as canções apresentam o seu requinte especial. Contudo, imprimo aqui impressões sobre algumas das canções que se encaixaram dentro da minha preferência:

A segunda faixa, "Das Plantas", traz um rítmo de samba em um arranjo a La Hermeto Pascoal, em compasso ímpar, com a psicodelia tênue de um piano Rhodes, sutis efeitos eletrônicos, sons de bricolage e o próprio Hermeto usando a voz borbulhante em cópo d'agua e a escaleta pra temperar o molho. A terceira faixa,  "Aluvião", expressa um lirismo lindamente nordestino, tendo como ponto alto o casamento entre a sonoridade do violino de Pedro Mibielli e do violão de Ricardo Silveira. A quarta faixa, "Nascimento de Vênus", é uma bela balada lenta com um instrumental de piano-trio e arranjo de cordas, tendo a participação da cantora escandinava Lisa Nilsson cantando em sua língua nativa, sueco. A sétima faixa, "Mercado", é o ponto alto e expressa ainda mais veemente o leque contemporâneo de sonoridades que Delia quis imprimir: um groove de pegada bossanovina liderado pela bateria de Márcio Bahia, o já citado piano rodes, violino, vozes em efeitos radiofônicos (para passar a atmosfera da "feira" citada na letra), scratches em toca discos e uma pegada mais na levada do pagode nordestino no refrão -- é uma canção de letra politizada, de uma poética figurada em torno dos varios sentidos de feiras humanas, "da...feira que vende sexo, que vende a torto e a direto, que vende todo o respeito, que vende a alma". A oitava faixa é um rápido interlúdio totalmente instrumental, sem canto vocal: Délia no piano acústico e Márcio Bahia na bateria quebrando tudo. Por fim, a faixa-título "Presente" encerra com chave de ouro com a participação de ninguem menos que Egberto Gismonti: a canção traz o uso intimista do canto vocal, piano acústico e um violão de 12 cordas em sonoridade bem "folk", deixando parecer que Gismonti trouxe uma pitada da sonoridade que trabalhou com grande sucesso em suas gravações para a ultra-moderna gravadora ECM.



Sem querer aderir ao vício da comparação estética que infesta as resenhas de crítica musical, não seria exagero dizer que esse novo projeto de Delia Fischer tende a contribuir para alimentar um cenário criativo dentro da nova MPB baseando-se em ícones como Elis Regina, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, impondo uma nova modernidade e resgatando o requinte,  criatividade e a identidade da autêntica música popular brasileira com toda sua instrumentação e sua poética rebuscada -- e isso é certeza mesmo que a pianista não tenha sido uma cantora convencional com grande fama na mídia. O que importa é o agora, pois ele pode ditar o futuro: e o agora foi presenteado com este álbum, "Presente", de Delia -- um risco que a pianista correu e que acertou ao fazê-lo. Apreciem sem moderação.


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