OBS: Produtores, músicos, escritores e outros que quiserem divulgar no Blog Farofa Moderna, consultem nossas políticas na página ABOUT US e contate-nos.
Prezados colegas que visitam este blog, recentemente escrevi uma crítica onde lamentava o fato do comodismo, da letargia, da preguiça e do auto-aprisionamento engessar a maioria dos músicos e cantores brasileiros, assim como a própria conduta crítica do público, a chamada auto-crítica que cada um de nós temos de ter ao digerir música ou qualquer outra expressão artística -- leiam-na aqui. Neste post, porém, venho com uma seleção modesta de dez excelentes álbuns de MPB que trazem em si o que falta -- ou o que devia existir -- na música brasileira: renovação e inovação, ousadia e criatividade, atualidade e contemporaneidade, fluência musical e identidade própria, arranjos bem elaborados e letras inteligentes, performance e improvisação -- enfim..., estes dez álbuns mostram que é possível, sim, se produzir canções onde o decorativo seja a arte acima do artista, acima da fama. Sim, e por ora são apenas dez, pois, vias de fato, a MPB, além de estar sendo melecada pela mídia com equivocadas versões popularescas de música popular brasileira (como é quando querem sofisticar Ivete Sangalo como uma "cantora de MPB", por exemplo), não tem apresentado um cenário ousado ou criativo de si mesma -- e quando o fez, através de uns poucos cantores em raros momentos de espasmos criativos, isso ressoou apenas nos circuitos elitistas e nas mídias independentes, não chegando à população pela grande mídia, uma vez que a grande mídia, a propósito, está mais preocupada em obter lucros comercias através de material descartável e modinhas de verão, que são mais fáceis de vender. Outro fato resultante da desvalorização da MPB em solo tupiniquim é o êxodo de grandes artistas da música brasileira para solos americanos e europeus, onde a música criativa é mais apreciada. Uma pena, pois este seria o momento de surgirem artistas mais descompromissados com a fama pela fama e aquele glamour besta de cantores de (ou para) abertura de novelas e mais compromissados em fazer arte com a canção -- já que se trata de um momento onde os circuitos underground e independentes são os únicos que ainda apoiam uma MPB contemporânea e criativa, tal como era a música popular brasileira nos tempos da Tropicália. O problema, no entanto, não é de quantidade e coerência: há uma legião de novos artistas fazendo uma MPB até medianamente audível em termos de música e poesia (como é o caso de Maria Gadú e Marcelo Jeneci), mas na maioria das vezes o que se ouve destes é algo "bonitinho" demais, simplista demais, coerente demais, "universitário" demais, elitista demais, ou algo muito na onda do "coqueluche-brega-pop" -- em alguns casos até muito assumidamente comercial, letárgico, acomodado, quando não com aquele romantismo banal que não fica longe das letras presentes em canções de grupos de pagode. O problema, então, é de qualidade, criatividade, coesão e ousadia dos projetos: falta arranjos mais criativos e mais contemporâneos, falta uma boa e criativa instrumentação, falta o risco da improvisação e da performance, falta o risco de uma poética mais inteligente nas letras (aquela capaz de instigar as pessoas a refletir), falta identidade própria (há muitas cópias de Marisa Monte rolando por aí...) e, principalmente, falta uma postura mais compromissada com as realidades (políticas, econômicas, sociais, culturais...) do mundo atual -- aliás, essa tal postura do artista engajado realmente foi algo que se perdeu na música criativa ( a pergunta é: isso seria pelo fato das pessoas estarem ascendendo à classe média e, portanto, estarem apenas ocupadas com o entretenimento proporcionado por seus carros, notebooks, tablets e smartphones ou será que já evoluímos para um mundo perfeito e sem pobreza, um país de justiça ou democracia perfeitas?). Mas nem toda música no Brasil é sertanejo universitário ou "fanqui carioca", nem todos os novos artistas da MPB aderiram às facilidades e aos padrões estilísticos para tentarem se vender mais, e nem só de MC's de "fanqui carioca", Michéis Telós, Claudias Leites e Ivetes Sangalos a música brasileira está repleta. Neste post, seleciono alguns dos álbuns contemporâneos, de cantores mais famosos ou menos famosos, que, ao meu ver, contribuíram para a década de 2000 não ser uma década perdida em termos de MPB -- e o faço com audácia, sinceridade e com a visão de música enquanto arte: com estrelinhas, entrelinhas e tudo! Apesar de listar Djavan -- um meus favoritos entre os veteranos --, ficaram de fora meus preferidíssimos Tom Zé e Marisa Monte e outros panteões já a décadas massificados como Chico Buarque e Caetano Veloso. As resenhas estão repartidas entre minhas e as retiradas de outros sites jornalísticos. A ênfase está em discos autorais, mas também há espaço para discos de intérpretes especiais. Convido cada leitor a fazer sua lista com alguns dos seus álbuns e artistas preferidos no campo para comentários!
Queridos amigos e visitantes do blog Farofa Moderna, até a dois anos atrás eu nunca poderia imaginar que este espaço não-remunerativo pudesse se apresentar como um canal alternativo sinônimo de informação para apreciadores de jazz, música instrumental brasileira e outros tipos de música de qualidade -- tampouco imaginei que, através dele, um dia receberia a possibilidade de entrevistar grandes músicos e profissionais da mídia, nacionais e estrangeiros. Para quem quiser ler nossas entrevistas, basta acessar a página ENTREVISTAS no topo do blog, onde vocês constatarão que já realizamos entrevistas com grandes músicos e jornalistas, tais como o trompetista Christian Scott, o contrabaixista Christian McBride, a cantora Ithamara Koorax, o saxofonista Ken Vandermark e o jornalista Roberto Muggiati e o guitarrista Michel Leme. E agora, trago-vos uma entrevista com o jornalista-crítico-musical Carlos Calado neste mês de setembro.
Tem me sido muito gratificante ter um espaço como este blog, onde, além de constatar uma média de 400 a 500 visitantes diários de vários países, tenho o prazer de constatar, também, que meus textos são lidos por verdadeiros apreciadores (iniciantes e veteranos) e diletantes músicos e jornalistas brasileiros -- com alguns dos quais, diga-se de passagem, mantenho contato e/ou amizade com ótimos diálogos e aprendizados --, pessoas que encaram a música como uma arte necessária para a vida e, mais ainda, como uma arte suprema dentro do rol das sete artes, embora o pobrismo do nosso cenário brasileiro, encabeçado pela ostentação comercial da grande mídia, pouco nos ajude a elevar essa arte ao patamar de sofisticação que ela merece, o que também nos rebaixa em relação a outros países onde a arte, como um todo, é uma das prioridades. Um reclame constante em meus ensaios neste blog é, justamente, contra o pobrismo cultural encrustado na nossa mídia, algo que, em termos de música, chega a beirar ao preconceito e à segregação -- ou seja, se já tivemos uma ditadura política, agora parece ser o momento de questionarmos se não vivemos uma ditadura midiática onde discursos de defesa à democracia e liberdade de imprensa são apenas um disfarce por cima da manipulação: como a maioria da população é desprovida de educação e cultura, o contingente de pessoas que são capazes de reclamar por uma mídia mais sofisticada em termos culturais e artísticos é muito pequeno, o que faz com que essa mídia tenha poderes para escantear verdadeiros artistas e nos enfiar, goela abaixo, aquilo que ela dita como modinha e espetáculo. Sim, claro, o governo tem sua parcela de culpa: se ele investisse mais em educação e no incentivo à cultura -- algo que ele faz, mas não o faz suficientemente, além de ser combalido por corruptos que enriquecem às custas desse investimento --, teríamos um número maior de verdadeiros artistas sendo valorizados e um número maior de pessoas reclamando por um cenário artístico mais rico e sofisticado. Mas convenhamos que, se por um lado devem existir políticas públicas de incentivo à cultura, nunca foi papel do governo financiar ou promover a carreira de nenhum artista -- as vezes que o governo o fez foi, tendenciosamente, para promover a si mesmo. O artista tem que se valer do seu próprio talento, esforço e trânsito no circuito artístico afim de que, em algum momento da sua carreira, ele venha a ser reconhecido: e seria a mídia (jornais, canais de TV e rádio, mercado editorial e, agora, a internet), enfim, a grande responsável por mostrar ao público as novidades que os novos e verdadeiros artistas estão empreendendo; ela é, ou deveria ser, a grande responsável por reconhecer valor aos verdadeiros artistas e apresentar ao público um cenário diversificado onde a sofisticação da arte fosse o termo principal -- é aí onde entra o papel dos jornalistas, dos críticos, dos editores e, em certa medida, da mídia independente via blogueiros mais sérios.
Foi pensando em tudo isso que me deparei com a necessidade de, eventualmente, realizar uma entrevista com um grande profissional que tivesse a liberdade de nos testemunhar todo o descaso em relação à música de qualidade -- principalmente em relação ao jazz, à MPB e à música instrumental brasileira -- que ocorre nos bastidores da mídia brasileira. E para minha surpresa, o cara que encontrei para realizar uma entrevista deste porte foi ninguém menos que o jornalista Carlos Calado, um dos grandes pioneiros da crítica musical relacionada ao jazz e à MPB nas últimas décadas: em recentes diálogos, tivemos o prazer de compartilhar idéias, satisfações e indignações -- e nesses diálogos, o meu maior prazer foi aprender de alguém que é veterano na arte de escrever sobre música! Nesta entrevista, que está num formato mais de um bate papo do que formalmente uma entrevista metódica, Carlos Calado discorre sobre o que acredita e sobre o que já presenciou em três diferentes campos da música: MPB (música popular brasileira), jazz e black music, temas que ele aborda com propriedade tanto em grandes holofotes midiáticos, como os jornais Folha de São Paulo e Valor Econômico, como em seu blog pessoal chamado Música de Alma Negra (um dos blogs que indico aqui em nossa lista de sites); nesta entrevista, enfim, ele fala da sua própria visão crítica, das suas experiências como correspondente cultural em grandes festivais, fala dos descasos que presencia nos bastidores da mídia e do mercado editorial em relação à música de qualidade e da sua esperança de que um dia esse cenário mude completamente para melhor. E ainda no final há uma breve enquete onde o jornalista lista suas preferencias musicais. Leiam!
Olá galera! Sejam bem vindos a mais um episódio do Podcast do Blog Farofa Moderna! Neste programa (lançado originalmente no Portal MTV em 25/03/2010) resolvi "pintar o sete" saindo um pouco fora do âmbito instrumental para abordar alguns grandes nomes da música popular brasileira. Evitei abordar grandes medalhões da MPB como Caetano Veloso, Gal Costa, Chico Buarque, Gilberto Gil, João Gilberto e etc, pois estes ainda são bem acessíveis na mídia. Mas, sem deixar de citar nomes importantes de ontem e de hoje -- como Elis Regina, Tom Zé e Marisa Monte, por exemplo --, procurei partir de momentos inusitados da história da nossa canção -- como o samba-rock dos anos 60 -- e, depois, abordar cantores originais e um tanto desconhecidos pela galera mais jovem de hoje em dia: como Jackson do Pandeiro, Wilson Simonal e Alceu Valença, por exemplo. E os mais puristas poderão dizer: se o blog é de jazz, música improvisada, música instrumental e tal, por que o Vagner produziu um podcast sobre MPB? Como sabemos que no mundo musical alguns gêneros se conectam, se influênciam ou se justapõe, a resposta é simples: assim como o jazz surgiu inspirado pelas manifestações marginais do afro-americano e sempre existiram aqueles músicos que fazem releituras das canções populares americanas, a música instrumental genuinamente brasileira é eminentemente influenciada pela música popular, ou seja, pelos ritmos impressos nas canções populares e regionais: o samba do sudeste, os ritmos do forró nordestino -- como o coco, o baião, o frevo e etc --, a bossa nova e o samba-rock carioca e etc. Aliás, é lamentável que a maioria dos cantores e as cantoras de hoje em dia não tenham a sensibilidade aguçada para o arranjo instrumental que artistas como Wilson Simonal e Elis Regina tinham.
Como já bem comunicado aqui, estarei indicando e resenhando alguns baratos de música popular brasileira que me soarem bem -- sim, falo de artistas da mesma estirpe daquela MPB que já não é mais popular como nos tempos de Elis Regina, por exemplo...pois, infelizmente, a música popular que a TV mostra hoje em dia é aquela coisa horrenda, aquele misto de bundas requebrantes com rimas idiotas; aquela melodia clichê -- quase sempre com adereços descaradamente copiados do pop americano -- com uma letra que conta uma estórinha romântica previsível, entre outros clichês com os quais a mídia e o mercado empiriquitam nossos "artistas", na intenção de levá-los para a promiscuidade comercial. Assim, a impressão que se tem é que as pessoas -- hipnotizadas pelos clichês impostos pela mídia e mercado brasileiros -- perderam o sentimento de pertencimento em relação ao seu país, perderam a brasilidade, perderam a noção de qualidade artística e a noção de autenticidade cultural -- até parece, portanto, que somos um povo com a identidade cultural em extinção, pois o que consumimos em termos de cultura já não provém da renovação da nossa própria cultura, mas é reciclado com pastiches da cultura pop internacional. Mas nem tudo está perdido... Uma prova disso é que existe -- sim, existe, de fato! -- uma troupe de artistas de MPB os quais se negam a serem lambuzados com estes pastiches impostos e, então, nao são levados à promiscuidade comercial. Um desses artistas, dentre os tantos que não aparecem nos programas dominicais e nem nas páginas e nos horários nobres da mídia, é o cantor e compositor paulistano Ricardo Teté, que lançou, em 2007, o ótimo álbum Geringonça, seu primeiro álbum solo, lançado inicialmente na Europa. Anteriormente radicado na França, o que Teté mostra em Geringonça -- com uma voz claramente influenciada por Caetano Veloso, mas com sua originalidade -- é um misto de requinte poético e brasilidade musical com um "quê" de sofisticação européia. Abaixo, antes da minhas impressões sobre este álbum, um lampejo da biografia de Ricardo Teté, tirada do seu próprio site:
Nascido em 1978, Ricardo Teté formou-se em Ciências Sociais na USP em 2001, ano em que se mudou para a França para estudar música e participar de um laboratório interdisciplinar de estudos da canção, com sede na EHESS, a École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Participou durante 6 anos da Orquestra do Fubá, grupo que une músicos de lugares e universos musicais variados, e apresentou-se em dezenas de cidades européias a convite de grandes festivais, como Jazz à Vienne, Jazz in Marciac e Rio Loco. Quem mandô?, o segundo disco da orquestra, foi gravado no Brasil em 2006 e conta com participação de Dominguinhos, Marcelo Pretto e do Quinteto em Branco e Preto. De volta ao Brasil, Ricardo Teté atualmente coordena (junto à equipe encabeçada pelo músico e educador Ricardo Breim) o projeto Musique-se!, que capacita profissionais na área de educação musical. Além disso, Ricardo desenvolve uma pesquisa de mestrado sobre batalhas de improviso de rima no hip hop, no departamento de Antropologia da USP.
Entrevista com Ricardo Teté para o site Música para Viagem.
O início da carreira de Teté como cantor e compositor foi marcado pela conquista do primeiro lugar no Festival Vinícius de Moraes com a canção “Cios da Língua”, feita em parceria com Rodrigo Castilho. Organizado pela editora Companhia das Letras em 1994, o festival tinha em seu júri Arnaldo Antunes, Chico Buarque e Péricles Cavalcanti. Em 1999, a música “Beijo Roubado” (parceria com Danilo Moraes e Rodrigo Castilho), foi gravada pelo grupo Rastapé e entoada por milhares de casais rodopiantes, tornando-se um sucesso do dito forró universitário. (Já em seu novo álbum Geringonça, a música "Beijo Roubado" ganhou singeleza com o belíssimo arranjo de sopros de Stéphane Guillaume). Depois dessa fase, Teté, juntamente com Danilo Moraes –- seu parceiro em dois discos e dezenas de composições --, tornou-se conhecido ao protagonizar a última vaia memorável de um festival de música na TV, em 2005. A sofisticada “Contabilidade”, com arranjo desconcertante e letra ousada, arrebatou o primeiríssimo lugar do Festival Cultura, conquistando a crítica e causando estranhamento na plateia, cujas vaias lembraram o histórico Festival da Record de 1968, quando Caetano Veloso foi zombado ao apresentar “É proibido proibir”. Entregue por Gilberto Gil -- “Viva a vaia!”, comemorou o então Ministro --, o prêmio permitiu a gravação do segundo disco da dupla, de sugestivo título A Torcida Grita!, e a participação no programa Ensaio, dirigido por Fernando Faro e exibido pela TV Cultura.
Agora, morando de novo no Brasil, Ricardo Teté lançou Geringonça, seu primeiro álbum solo, também por aqui. Produzido em 2007, pelo selo Oplus Music (o mesmo que lançou os cantores Céu e Siba na Europa), o álbum recebeu direção do jazzista belga David Linx (que já cantou ao lado de artistas como o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba e a cantora portuguesa Maria João). E o cast de sidemans só comprova que Teté e Linx souberam escolher minuciosamente os músicos para a gravação do álbum. Participam do projeto, por exemplo, quatro grandes músicos virtuoses ligados aos cenários da música instrumental brasileira, do jazz e do avant-garde: o bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda, o violonista baiano Nelson Veras (a algum tempo radicado na França), o guitarrista francês Marc Ducret (que ficou muito conhecido por participar dos álbuns indiossincráticos do saxofonista Tim Berne, expoente do free jazz americano) e o tecladista, também francês, Paul Brousseau -- e daí, surge aquele misto de brasilidade com a sofisticação artística européia, um exemplo da já conhecida harmonia e amizade entre franceses e brasileiros e vice-versa. Na percussão colaboraram o argentino Minino Garay e o baiano Zé Luis Nascimento. Já os arranjos para metais, ouvidos nas canções “Geringonça” e “Tristeza pé no chão”, ficam a cargo do arranjador Laurent Cugny, que chegou a ser parceiro e amigo do legendário arranjador Gil Evans, aquele mesmo que trabalhou com Miles Davis em alguns trabalhos seminais do estilo "third stream". Além desse cast list de sidemans um tanto primoroso, Ricardo Teté conseguiu que a célebre atriz francesa Irène Jacob (estrela do filme “A Fraternidade é Vermelha”, do polonês Krzyszof Kieslowski e de dezenas de outros filmes europeus) emprestasse sua voz para uma faixa do álbum: fã de Irène Jacob desde adolescente, o cantor a conheceu em Montmartre, bairro de Paris, ele onde estudava música e ela morava; daí ficaram amigos e, assim, quando ele fez uma versão em português para a canção “Il ne Faut Pas Briser un Rêve”, pensou em convidá-la para um dueto, já que a atriz sempre foi muito ligada à música e pouco antes havia participado do álbum do cantor Vincent Delerm; ela topou e, além de cantar essa canção, participou do show de lançamento de “Geringonça” em Paris, no Cafe de la Danse. Essa parceria motivou a participação de Teté nas gravações de Rio Sex Comedy (filme em pós-produção de Jonathan Nossiter, diretor do elogiado documentário Mondovino), cantando sua música ao lado de Charlotte Rampling e da própria Irène Jacob.
Como já insinuei, o álbum Geringonça é um misto de poesia rebuscada, um quê de sofisticação européia e uma pegada rítmica proeminentemente brasileira, basicamente revezando-se entre o samba, a balada e a chanson (canção popular francesa) -- mas a pegada é sutil e renovadora; não há nada daquele revival cristalizado que apenas faz uma reexposição de algo já ultrapassado, como aquelas releituras antiquadas de samba ou bossa-nova, algo que costuma soar velho e sem nenhum acréscimo de criatividade. Trata-se de um álbum que evoca uma certa brasilidade casada com uma tênue contemporaneidade expressa através de arranjos sutis: nada de inovador, mas algo muito fresco e agradável! A faixa título, por exemplo, é uma melodia lírica, sob a levada de um groove moderno de samba, que começa com voz, violão e tamborim, sendo logo acrescida de sutis efeitos de sintetizador moog e repostas improvisadas com instrumentos de metais. Já a serene canção "Relativismo", de letra reflexiva, é no estilo voz-banquinho-violão com o acréscimo de um baixo acústico e com ecos longínquos de uma cuíca. E há outras canções que se destacam muito mais pelo viés poético e imagético: "Nau de Ícaros", onde o guitarrista Marc Ducret dá o seu tempero, nos presenteia com situações imagéticas que se passam por diversas cidades e locais do mundo, mas como num outro mundo hipotético com "outra lei, outra desordem" -- as cidades citadas na letra são Porto Alegre, Havana, Praça Castro Alves, Seattle... Uma outra faixa que é destaque é "Rimas", composta por Teté em parceria com o jazzista italiano Aldo Romano: a introdução é feita pelo scat vocal de David Linx, com a percussão vocal de Minino Garay ao fundo, enquanto a canção é entoada por Teté na superfície; em seguida, surge o acompanhamento e os improvisos do violão virtuoso e ao mesmo tempo singelo de Nelson Veras. Depois é a vez do sonórico bandolim de Hamilton de Holanda brilhar: o bandolinista acompanha Teté na melancólica canção "Depois do Carnaval" -- trata-se de um clima intimista proporcionado apenas através do violão, voz e bandolim. O cantor volta ao samba com uma bela releitura da velha "Tristeza Pé no Chão", canção original do desconhecido sambista mineiro Armando Fernandes. Mas o álbum segue com surpresas que vão além do conjunto de sambas intercalados com canções nostálgicas: uma dessas surpresas está na faixa "Toda Aquelas Palavras", que é mais uma espécie de "spoken word" (palavra falada) com um fundo de percussão, uma letra (baseado num poema do escritor André Sant’anna) que é basicamente recitada; outra delas é a canção "She's a Fish", cantada em inglês. O álbum termina com a chanson francesa “Il ne Faut Pas Briser un Rêve” para a qual a atriz Irène Jaco empresta sua voz e, por fim, a canção "Oito Algarismos", que nos lembra um pouco das levadas e do jeitão das composições do mineiro João Bosco. E assim, Ricardo Teté compõe um álbum que é um misto de nostalgia alegre com melancolia; um álbum que evoca uma certa brasilidade mas que adiciona à ela um "quê" de contemporaneidade européia. No Brasil, o álbum foi lançado em 2009 pelo selo Scubidu Produções e está sendo distribuido pela Tratore. Para escutar o álbum na íntegra na Radio UOL, basta apenas clicar no link abaixo. Gostou e quer comprar? Clique sobre imagem do álbum aqui mesmo neste post para acessar mais informação e acessar o site da Fnac!.
O blog Farofa Moderna está indo para o seu 4º aniversário. No início, a minha intenção era abordar o jazz a música instrumental brasileira e a world music, esse um gênero rico de sonoridades instigantes que abrange a música étnica ou outros estilos musicais que dão ênfase em fusões com as várias sonoridades folclóricas do mundo. Mas, de forma natural, outros assuntos como artes, livros, música popular e experimental também foram sendo abordados ocasionalmente ou solicitados pelos próprios visitantes do blog. Pois bem, agora chegamos na versão definitiva de como deverá ser nossa abordagem. Como nos falta tempo para "cair de cabeça" numa pesquisa musical em tempo integral, -- já que é impossível pesquisar toda a infinidade de novos sons que as mentes criativas do planeta nos proporciona --, vamos fechar o cerco e abordar a música contemporânea como um todo e de forma mais genérica, sendo que a atenção que era dada especificamente à "world music" será substituída pela ênfase em mostrar mais a música popular brasileira de hoje em dia, a chamada MPB contemporânea. Há um grupo seleto de cantores que estão fazendo uma MPB de muito bom gosto e qualidade musical: portanto, a nossa ênfase será dada a cantores e compositores que unem o requinte poético impresso no canto à música bem arranjada e bem tocada -- vejam que Elis Regina, por exemplo, foi uma cantora de MPB -- amplamente apreciada pelas massas, diga-se de passagem -- que se conectou totalmente com os avanços da música instrumental, dos aos 60 e 70, nas suas formas mais autênticas, sem economizar arranjos e improvisos em suas interpretações. É esse tipo de MPB -- que alia a sofisticação harmônica, melódica e rítmica em torno da fusão entre canção e instrumental -- que deveremos mostrar por aqui. Aliás, eu considero que a MPB é um gênero que, embora ainda tenha uma certa sustância de artistas veteranos em atividade e uma nova leva de outros artistas contemporâneos, ela está sendo escanteada pela exposição exarcebada de gêneros relacionados a música de entretenimento e levada à condição elitista no que se diz respeito ao seu alcance de público e de mídia. Mas vamos ao assunto deste post, pois já falei deste aspecto aqui e aqui. O mais novo lançamento da MPB que mostra esse raro requinte entre a canção e o arranjo instrumental é álbum "Presente", da pianista Délia Fischer.
Delia Fischer, nascida em 1964, é pianista, compositora e arranjadora e, agora, lança este "Presente", seu primeiro album com ênfase na canção popular. Mas não se enganem: apesar dos poucos álbuns lançados, estamos diante de uma instrumentista de primeiro nível que parece considerar a evolução da arte musical acima de alguma fama ou ganho comercial -- uma autêntica artista. Tendo tido uma educação bem direcionada -- considerando que ela estudou com mestres supremos como Luiz Eça e Guerra Peixe --, Delia iniciou sua carreira em meados dos anos 80 com o seu Duo Fênix, juntamente com Cláudio Dauelsberg, gravando nessa fase os discos "Duo Fenix" e "Karai-Ete". No exterior, atuou nos clubes New Morning, em Paris (França), e Brottfabrik, em Sttutgard (Alemanha), além de ter participado dos festivais de jazz de Montreux (Suíça) e de Sofia. Após essa fase com o duo, já no início dos anos 90, a pianista passou a realizar diversos workshops no Brasil e acompanhou grandes músicos e cantores como Toninho Horta, Ed Motta, Robertinho Silva, Pascoal Meirelles, Dom Um Romão, Nivaldo Ornelas, Marcos Ariel, Nico Assumpção, Baby do Brasil e Jane Duboc, entre outros. Inclusive, por seu talento e acesso à rede de músicos influentes, ela participou de eventos como "Tributo a Elis Regina", em 1997, e "Brasil 500 anos", em 1998, realizados pela Rede Globo. Em 1999, gravou o CD "Antonio", lançado nos mercados norte-americano e europeu pela gravadora Carmo-ECM, de Egberto Gismonti. O disco, composto de músicas de sua autoria, contou com a participação de instrumentistas fantásticos como o violonista e guitarrista Romero Lubambo, o contrabaixista Nico Assumpção e o saxofonista Nivaldo Ornelas, um dos expoentes do legendário movimento mineiro chamado Clube da Esquina. Agora, após um hiato de uma década sem lançar discos, a pianista alcançou um novo ápice em sua carreira: em 2009, ela foi premiada no XXI Prêmio Shell de Teatro na categoria Música, pelos arranjos vocais e instrumentais para o musical “Beatles num céu de diamantes”, de Charles Möeller e Claudio Boelho; além disso, acaba de lançar o interessantíssimo álbum "Presente", um misto de canção popular e arranjo instrumental, que deverá ser bem resenhado pela maioria dos especialistas que amam esse lado mais criativo da música brasileira.
O álbum "Presente", lançado pelo selo Dubas, traz ao menos três fatores como excelentes atrativos para que o apreciador de jazz, MPB e música instrumental compre-o: um deles é o time de convidados especiais como Hermeto Pascoal, Ricardo Silveira, a diva do jazz escandinavo Lisa Nilsson, Egberto Gismonti e Ana Carolina; o outro deles é o fato de que esse é o primeiro álbum onde a pianista se aventura, também, na condição de cantora; e o outro é o próprio conteúdo musical: as composições e os arranjos que não só foram bem construídos em suas estruturas técnicas, mas também procuram evidenciar uma música que une aspectos da tradição brasileira com os da música contemporânea, imprimindo um frescor e uma identidade preponderantemente tupiniquim. Constituído de doze canções, todas compostas por Delia com com a colaboração dos parceiros Thiago Picchi, Sergio Natureza e Camila Costa nas letras, o álbum "Presente" não é um daqueles onde só há um, dois ou três destaques: todo o álbum é muito bem arranjado e todas as canções apresentam o seu requinte especial. Contudo, imprimo aqui impressões sobre algumas das canções que se encaixaram dentro da minha preferência:
A segunda faixa, "Das Plantas", traz um rítmo de samba em um arranjo a La Hermeto Pascoal, em compasso ímpar, com a psicodelia tênue de um piano Rhodes, sutis efeitos eletrônicos, sons de bricolage e o próprio Hermeto usando a voz borbulhante em cópo d'agua e a escaleta pra temperar o molho. A terceira faixa, "Aluvião", expressa um lirismo lindamente nordestino, tendo como ponto alto o casamento entre a sonoridade do violino de Pedro Mibielli e do violão de Ricardo Silveira. A quarta faixa, "Nascimento de Vênus", é uma bela balada lenta com um instrumental de piano-trio e arranjo de cordas, tendo a participação da cantora escandinava Lisa Nilsson cantando em sua língua nativa, sueco. A sétima faixa, "Mercado", é o ponto alto e expressa ainda mais veemente o leque contemporâneo de sonoridades que Delia quis imprimir: um groove de pegada bossanovina liderado pela bateria de Márcio Bahia, o já citado piano rodes, violino, vozes em efeitos radiofônicos (para passar a atmosfera da "feira" citada na letra), scratches em toca discos e uma pegada mais na levada do pagode nordestino no refrão -- é uma canção de letra politizada, de uma poética figurada em torno dos varios sentidos de feiras humanas, "da...feira que vende sexo, que vende a torto e a direto, que vende todo o respeito, que vende a alma". A oitava faixa é um rápido interlúdio totalmente instrumental, sem canto vocal: Délia no piano acústico e Márcio Bahia na bateria quebrando tudo. Por fim, a faixa-título "Presente" encerra com chave de ouro com a participação de ninguem menos que Egberto Gismonti: a canção traz o uso intimista do canto vocal, piano acústico e um violão de 12 cordas em sonoridade bem "folk", deixando parecer que Gismonti trouxe uma pitada da sonoridade que trabalhou com grande sucesso em suas gravações para a ultra-moderna gravadora ECM.
Sem querer aderir ao vício da comparação estética que infesta as resenhas de crítica musical, não seria exagero dizer que esse novo projeto de Delia Fischer tende a contribuir para alimentar um cenário criativo dentro da nova MPB baseando-se em ícones como Elis Regina, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, impondo uma nova modernidade e resgatando o requinte, criatividade e a identidade da autêntica música popular brasileira com toda sua instrumentação e sua poética rebuscada -- e isso é certeza mesmo que a pianista não tenha sido uma cantora convencional com grande fama na mídia. O que importa é o agora, pois ele pode ditar o futuro: e o agora foi presenteado com este álbum, "Presente", de Delia -- um risco que a pianista correu e que acertou ao fazê-lo. Apreciem sem moderação.
MPB: "brazilian pop" para os gringos ou música popular brasileira para nós, estética que apesar de fazer uso do termo "popular" em sua denominação, está cada vez mais elitista e distante das massas populares. A maioria das pessoas até conhecem quem são os grandes panteões da MPB: Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque e Milton Nascimento -- pelo menos destes elas já "ouviram falar". Mas será que todas essas pessoas saberiam dizer quem são Tavinho Moura, Lô Borges, Beto Guedes, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Wagner Tiso, integrantes do inovador movimento do Clube da Esquina? Duvida-se, e muito, que saibam: mesmo que a música de Milton Nascimento já tenha projetado o Clube da Esquina para todo o Brasil e o resto do mundo, seus ecos ainda permanecem distantes na história recente da música brasileira. Mas isso não é novidade: sabemos que muitos dos nossos músicos inovadores, dentre os quais alguns deles ligados ao inovador reduto mineiro, conseguiram (e ainda conseguem) ter mais credibilidade e reconhecimento no exterior do que aqui, em sua própria terra. Além disso, é recorrente o fato de que a maioria dos brasileiros pseudo-aculturados -- leia-se jornalistas, produtores, alguns dos próprios músicos e apreciadores que se dizem bons conhecedores de música --, embalados por uma mídia dominadora e retrógrada tende a aglutinar, inconsciente ou oportunamente, sempre sob os mesmo cancionistas populares e sob os cancioneiros mais tarimbados, revisitando-os desde sempre ou de época em época e celebrando incessantemente suas fórmulas manjadas -- até parece, por exemplo, que a Bossa Nova e a Tropicália foram as únicas (r)evoluções sintetizantes de toda a música brasileira moderna; e pior: até parece que sempre teremos de reviver seus rítmos e suas poéticas sem exigir que surjam inovações e/ou outras transformações e rupturas, sendo, aí, onde reside o grave problema da nossa estagnação. Quer dizer, mesmo as inovações do cult Clube da Esquina -- que a 35 anos evidenciou um estilo inédito de canção com uma nova harmonia musical e um novo lirismo melódico e poético e, portanto, foi outro dos grandes movimentos transformadores iniciados nos anos 60 -- ainda não são enfatizadas com a mesma ternura e grandeza que as inovações desses movimentos históricos e paralelos: a boemia e o já manjado lirismo da Bossa Nova e a miscelânea politico-musical da polêmica Tropicália parecem ser tedenciosamente mais resenhados e revisitados. Aliás, reitero: não é que o Clube da Esquina seja de todo subestimado, mas, por ter sido um movimento de certa forma "underground" ou por não apresentar uma estrutura homogênea em suas bases -- como foi a Bossa Nova, basicamente um misto de samba e jazz --, ele é um cancioneiro que ainda não foi de todo analisado, estudado e, o mais importante, tradicionalizado e massificado às pessoas simples, à toda população -- e como já foi mencionado, a grande mídia ainda tende a resumí-lo em apenas Milton Nascimento, por ele ser um dos mais famosos cancionistas brasileiros em todo o mundo, haja vista que sua música é celebrada por ícones que vão desde o saxofonista de jazz Wayne Shorter à cantora pop Björk. Mas a dívida que os músicos, a mídia e toda a cultura brasileira têm com o cancioneiro do Clube da Esquina ainda não é o maior dos exemplos de descaso. Exponencialmente pior, existe o fato de que as inovações da nossa música instrumental parecem fadadas a um injusto e eterno ostracismo dentro da grande mídia: as descobertas e criações do já consagrado Hermeto Pascoal e sua "escola", cheia de músicos e compositores inovadores, são exemplos de transformações musicais subestimadas e sufocadas por uma exarcebada exposição de gêneros musicais nocivos ou sem identidade, sem propósitos e valores artísticos. Aliás, hoje em dia até mesmo a MPB -- gênero musical onde se encaixa os próprios movimentos da Bossa Nova, do Clube da Esquina e da Tropicália e que, outrora, era o grande protagonista nos canais midiáticos -- parece ter sido escanteada e substituída por uma exposição desequilibrada de gêneros nocivos ou desprovidos de valores culturais e artísticos: os novos cantores da chamada Música Popular Brasileira já não têm o espaço necessário para apresentar suas novidades, diante de uma exposição desenfreada de estéticas mascaradas e gêneros contraditórios como a música romântica com suas rimas pobres, o pagode romântico e engordurado com versões equivocadas do R'n'B americano e desprovido de todo o requinte harmônico e melódico do samba, o axé (música prá-pular) que padroniza suas "divas" nos mesmos moldes das divas internacionais, o pop e rock internacional que são mais celebrados do que à nossa própria música e um tal de "funk carioca" que é uma das mais degradantes expressões culturais da nossa história -- é isso o que a grande mídia oferece à todas as pessoas, atingindo, claro, mais intensamente as desaculturadas. Por que os canais da nossa grande mídia, a exemplo de como fazem com Roberto Carlos e Ivete Sangalo, não apresentam programas especiais celebrando novos cancionistas como Guinga, a grandeza do Clube da Esquina ou as inovações de Hermeto Pascoal e Moacir Santos? Certamente, para qualquer um dos grandes diretores ou produtores por detrás das grandes emissoras essa idéia soaria como uma paranóia sem tamanho: seria inviável perder alguns pontos no Ibope para apresentar música de boa qualidade para pessoas desaculturadas -- até porque, ao promover sempre a mesmice, os próprios canais acabam sendo os verdadeiros responsáveis pelo desinteresse das massas em relação às correntes mais inovadoras da música e das artes em geral. Aliás é pouco provável que tais diretores e produtores -- assim como a maioria dos jornalistas e outros profissionais da mídia --, tenham algum conhecimento sobre os grandes artistas da nossa criativa música instrumental ou tenham alguma noção do valor artístico que estes representam. Se a genuína MPB já sofre tamanho descaso, a música instrumental, por sua vez, se transformou num tesouro cultural distante e equivocadamente segregado, tesouro esse que só os músicos, cantores e apreciadores mais aculturados e mais atenados parecem valorizar.
Num país como o Brasil, onde a cultura musical de tradição oral é dominante e eminentemente popular, a música instrumental, por si só, acaba sendo tratada como um conjunto de signos sonoros de complexa decodificação. Ora, se considerarmos nosso instrumental desde os tempos do choro até os dias de hoje veremos que temos, sim, uma grande tradição nesta área, mas a falta de cultura e informação, sustentada pela ostentação comercial da grande mídia, faz com que as pessoas simples não conheçam a música puramente instrumental e, por consequência, não tenham nenhuma noção básica em relação à sua instrumentação, às variadedades e variações rítmicas, ao arranjo e aos requintes melódico e harmônico; elas só entendem e consomem a música cantada, gêneros musicais tarimbados e reciclados temporariamente com elementos da música exportada. A história mostra, portanto, que o caminho mais curto para um músico de jazz ou da música instrumental brasileira se impor e criar seu público é fazer uso do cancioneiro popular, fazer uso do standard pop para escolher um repertório de canções sofisticadas e atemporais e transformá-las na linguagem da música instrumental com todos seus arranjos e improvisos: o desafio, porém, reside em fazer uso do repertório alheio impondo uma identidade pópria e inédita. Pois bem: em se tratando de Clube da Esquina, o músico, arranjador e compositor mineiro Dudu Lima tem nos dado os mais recentes e brilhantes exemplos de como é possível fazer uso de um cancioneiro regional para impor uma música instrumental inédita e esteticamente contemporânea. Fazendo uso de composições próprias, composições de amigos e colaboradores e das canções do inovador cancioneiro mineiro, o contrabaixista Dudu Lima, acompanhado por Ricardo Itaborahy (piano, teclados e escaleta) e Leandro Scio (bateria) -- regulares colaboradores que compõem o Dudu Lima Trio --, acaba de lançar o seu quinto CD, chamado “Dudu Lima - Cordas Mineiras”, projeto também documentado em DVD.
Além da assinatura do seu trio, Dudu conta com a participação especial de um dos maiores nomes da música brasileira -- já consagrado internacionalmente, inclusive, como um dos grandes músicos brasileiros --, o compositor, guitarrista, cantor e arranjador mineiro Toninho Horta , além das participações de músicos convidados tais como Chico Curzio, Fofinho Forever, Hermanes Abreu, Juarez Moreira, Luis Leite e Salim; Dudu, por sua vez, atua no contrabaixo acústico, elétrico e fretless e em toda totalidade dos arranjos e da direção musical. Mas é preciso salientar, sobretudo, que acima do oportunismo, das boas intenções ou da própria necessidade de formar um público, a identificação do contrabaixista com o Clube da Esquina é eminentemente de origem nativa e apego cultural: ou seja, é natural que, sendo nascido em Juiz de Fora, Dudu represente suas origens mineiras através da sua arte de compor e do seu talento de interpretar. Contudo, muito mais do que atuar na função de intérprete, ele compõe sua própria música e recria as canções alheias bem ao seu estilo próprio de arranjo, sem transfigurá-las. Especificamente enquanto instrumentista, ele enfatiza o contrabaixo como o principal instrumento solista dentro da banda, colocando-o no centro em todas as linhas de frente: é muito interessante, por exemplo, como ele atua no suporte harmônico usando o contrabaixo elétrico como se este fosse um violão ou um piano, isso sem contar seus solos que são, ao mesmo tempo, virtuosos e líricos. Dentre as técnicas musicais utilizadas pode-se observar o "tapping", técnica ampliada pelo legendário guitarrista americano Stanley Jordan, amigo e constante parceiro de Dudu Lima.
Antecedido pelo magnifico projeto Ouro de Minas, também documentado em CD e DVD, o "Cordas Mineiras" apresenta nove canções, todas na linguagem instrumental: desse total, três delas, Benito (com participação especial deToninho Horta), Alma e Mr. Jordan (em homenagem a Stanley Jordan), são assinadas por Dudu Lima; as outras seis são Amor de Índio (Beto Guedes/ Ronaldo Bastos), Vento de Maio (Lô Borges/ Marcio Borges), Céu de Minas (Luiz Leite), Luar do Caçador (Chico Curzio), Baião Barroco (Juarez Moreira) e Trenzinho do Caipira (Heitor Villa-Lobos). Já em Ouro de Minas, Dudu Lima homenageou Fávio Venturini e, principalmente, Milton Nascimento e João Bosco, os quais também participam como colaboradores: de Venturini foi inclusa "Nascente"; de Bosco foram inclusas as canções "Corsário", "Bala com Bala" e "O Ronco da Cuíca"; enquando de Nascimento foram inclusas "Um Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco", "Fé Cega", "Faca Amolada" e "Cravo e Canela". Enfim, como se pode presenciar, Dudu Lima, que já vinha de uma prolíficua carreira como contrabaixista, acaba por reafirmar seu talento nos meandros da composição e concretiza-se como um estudioso do inovador cancioneiro mineiro. Pois bem: o nosso desejo é que muitos álbuns e DVDS com belas composições próprias e/ou com belas releituras surjam. Como instrumentista, Dudu Lima já tocou com os mais diversos gênios da música brasileira e internacional: entre eles Stanley Jordan, Hermeto Pascoal, Jovino Santos Neto, Arthur Maia, Mauro Senise e Jean-Pierre Zanella.
Dos cantores da nova MPB agraciados pela grande mídia, o carioca Seu Jorge é um dos mais autênticos e originais – menos mal, aliás, para uma mídia infestada por engodos, hipocrisias, fashionismos e atitudes que maquiam a música em prol do lucro e da fama. Contudo, o reconhecimento midiático apenas faz jus à sua originalidade; e o percurso, pelo qual teve de passar para tanto, foi árduo e lhe deixou marcas as quais ele não nunca renegou – elas estão explícitas em sua biografia, discografia e filmografia: a infância pobre em uma favela, a desestruturação da família, a vida como sem-teto e a aproximação com a música através dos pagodes de samba e dos “bailes charmes” (bailes da periferia onde DJs embalam as noites com subgêneros do R’n’B, tais como o soul e o funk). Mas após as várias desventuras, Jorge Mario da Silva conquistou, enfim, sua primeira chance de ingressar no mundo artístico quando foi descoberto pelo recém-falecido clarinetista Paulo Moura, que lhe convidou para um teste de um musical de teatro em meados dos anos 90. Não tendo vocação para ser um artista de música instrumental brasileira – ofício que Paulo Moura logo tratou de lhe sugerir – Seu Jorge deu continuidade à sua pretensão de cantor, haja vista que ele já vinha numa empreitada como cantor de bares noturnos. Foi um início bem sucedido onde o desventurado o Jorge, que já era primo do sambista Dudu Nobre, passou a construir sua rede de relacionamentos no cenário músical do Rio de Janeiro. Seguiram-se o projeto Farofa Carioca (1998) – que teve como objetivo misturar ritmos afros, samba, reggae, jongo, rap e funk –, Tributo a Tim Maia (com vários artistas), participações em shows da extinta banda Planet Hemp (encabeçada pelo rapper Marcelo D2) e os primeiros lançamentos solos, a partir de 2001: os álbuns Samba Esporte Fino (2001) e Cru (2004) , além da sua elogiada aparição no filme Cidade de Deus (2002), do cineasta Fernando Meireles, que já lhe tinha proporcionado destaque nacional e internacional. Outros lançamentos posteriores viriam reafirmar, mais ainda, o sucesso de Seu Jorge no Brasil e no exterior: o DVD MTV Apresenta Seu Jorge (2004), a trilha The Life Aquatic Studio Sessions (para o filme americano Life Aquatic with Steve Zissou, de 2005, constituída por covers das canções de David Bowie), o DVD Seu Jorge Live at Montreaux (2006) e, por fim, o álbum America Brasil, que saiu na versão de estúdio em 2007 e na versão “live” em 2009.
Agora, em 2010, Seu Jorge acaba de lançar mais um projeto distinto, mais um álbum cantado em português e inglês. Trata-se do álbum Seu Jorge and Almaz, uma colaboração com dois músicos do Nação Zumbi, grupo perbambucano de forte identificação percussiva idealizado nos 90 pelo falecido músico e agitador cultural Chico Science, um dos cérebros do "manguebeat". Os músicos são o guitarrista Lucio Maia, o baterista Pupillo e mais o contrabaixista e compositor Antonio Pinto, sendo eles o embrião do Almaz que, anteriormente sem nome, fora formado por Antonio Pinto para compor a trilha sonora de um novo filme de Walter Salles. E é assim mesmo, com um reduzido “quarteto”, que Seu Jorge e seu trio Almaz aprontam toda a travessura. Tá certo que não há nenhum elemento “novo” no álbum que já não tenha sido presenciado na história da música popular ou instrumental, mas há, enfim, um mix criativo de sonoridades e de sutis efeitos tecnológicos, há um mix de texturas vintage – oriundas do soul, samba, rock, funk e até mesmo de um country-rock reverberizante – que, aliados aos respectivos grooves brasileiros e americanos, resultam numa farofa moderna de tempero irresistível. Mas o álbum Seu Jorge & Almaz é interessante não só pela concepção de som, mas, principalmente, pelo repertório super-hiper-maxi-diversificado. Ora, o que você diria de um repertório que mescla temas de Nelson Cavaquinho (“Juízo Final”), Roy Ayers (“Everybody Loves the Sunshine”), Baden Powel (“Tempo de Amor”), Michael Jackson (“Rock with You”), Jorge Ben (“Errare Humanum Est”) e do grupo alemão de tecno-dance Kraftwerk (“The Model”)? Pois bem, o álbum é todo contituído de covers que recebem versões pra lá de originais e iconoclastas: e aí destaque-se, por exemplo, a roupagem que Seu Jorge e o Almaz deram à canção bossanovina “Tempo de Amor”, com uma guitarra elétrica reverberizante, a voz rouca, crua e grave de Jorge, uma desafinação proposital nos acordes e, ao fundo, um “groove aleijado” de bossa nova. O trunfo do álbum, portanto, está em apresentar a façanha de quatro músicos fazendo uma música de fácil audição, mas que soa criativa através de um mix de sonoridades e um repertório muito diversificado -- e o melhor é que tudo isso soa coeso e corente, como se não existisse elos estéticos e culturais entre essas faixas de origens tão distintas.
Produzido pela Cafuné Produções Artísticas e Editoriais, o álbum Seu Jorge & Almaz foi lançado no mês de Julho de 2010 exclusivamente nos EUA, Europa e Japão. Em recente nota na sessão “Firts Listen” no Portal da NPR (National Public Radio), o álbum foi agraciado com críticas muito positivas a respeito da sua concepção sonora: “The album Seu Jorge and Almaz — which doubles as the name of the group — is a continuation of Jorge's melancholy voyages. With its pensive lyrics and wistful guitar twangs, the entire album sounds as though Jorge is singing it from a tavern in a faraway land. He might be in a remote Brazilian town, in the Wild West or on a funky planet in outer space, depending what song you're hearing in a given moment.” Sim, é uma observação interessante, pois, de fato, as várias nuances criadas no álbum nos deixam tais impressões: Seu Jorge poderia estar tanto em uma taverna no distante Velho Oeste, como num clube de uma remota cidade brasileira ou num planeta do espaço embalado pelas batidas do funk, dependendo da faixa que se ouve. Considerando que "Almaz" significa diamante em russo, as nuances do álbum nos faz lembrar do "A Tábua de Esmeralda", mítico a´lbum de Jorge Ben Jor, de onde Seu Jorge tomou emprestada a canção "Errare Humanum Est". Ademais, veja, abaixo um pedaço do curta-metragem do filme The Model dirigido por Kahlil Joseph , especialmente para divulgar este projeto do Almaz.
Um trio aparentemente simples, soando em textura folk e vôos ousados: voz, violão e percussão. Sim, foi assim que Luciana Souza se apresentou pela primeira vez no Rose Hall, Allen Room, um dos palcos do Jazz at Lincoln Center, grande centro do jazz de Nova York dirigido pelo trompetista Wynton Marsalis. Pra quem não é acostumado com as maravilhas da música instrumental ou pra quem está acostumado apenas com sonoridade artificial dessas musas padronizadas do pop que se ouve por aí – aquela instrumentação carregada de recursos e efeitos eletrônicos –, fica difícil acreditar que um trio acústico, nessa formação, venha soar com sustância e com a capacidade de empolgar uma grande platéia. Mas foi acompanhada apenas do virtuoso guitarrista e violonista Romero Lubambo e do cosmopolita percussionista Cyro Baptista, que Luciana Souza mostrou o porquê é sempre indicada ao prêmio Grammy e é uma das cantoras mais bem avaliadas pela crítica do The New York Times, Downbeat, JazzTimes e outros grandes holofotes da mídia norte-americana. Luciana Souza, apesar de também fazer uso da linha do jazz-pop, tenta dissociar-se de ser mais uma “Diana Krall” ou mais uma “Norah Jones”. Ficou evidente que após o sucesso comercial de Diana Krall, já a partir de meados dos anos 90, e de Norah Jones nesse início de século, grandes gravadoras como a Blue Note, Verve e Columbia Records começaram a procurar outras “Dianas” e outras “Norahs”. Isso é, aliás, um fator mercadológico que cristaliza e padroniza a música fazendo dela um objeto moldável estritamente para o lucro, desprezando seu inerente propósito artístico. Sim, o lucro deve existir – já que sem ele a gravadora não teria como financiar novos projetos e nem o artista teria como fazer carreira –, mas a tradição e a personalidade musical devem ser elementos casados em prol de um estilo que não seja moldado pelas regras do mercado, mas seja um desabrochar natural que venha da alma e da formação do próprio artista – o mercado, por sua vez, deveria ter o papel apenas de reconhecer e valorizar a arte resultada desse processo. Luciana Souza mostra bem isso: sua música enfatiza a MPB, a tradição afro-brasileira, a bossa nova, o samba, a música nordestina, bem como conhecimentos, técnicas e substâncias que ela foi adquirindo ao longo da sua formação musical, a qual engloba o pop, o jazz e a música erudita. Não é a toa que Luciana já colaborou com músicos legendários como o compositor erudito Osvaldo Golijov, o saxofonista Miguel Zenon, a bandleader e arranjadora Maria Schneider, os pianistas Herbie Hancock e Danilo Perez, dentre tantos outros músicos excepcionais que a admiram. Trata-se, portanto, de uma cantora não só com bases sólidas, mas com talento e estilo próprios. Pra quem quiser conferir, basta adquirir o último disco da cantora, Tide, lançado em 2009 pela Verve Music. Cantando em inglês e português, Luciana empolgou a grande platéia do Rose Hall ao interpretar clássicos brasileiros e composições próprias acompanhada do violão de Romero Lubambo e do quite de percussão de Cyro Baptista: boa parte do repertório está também em Tide, indicado ao Grammy em 2010. No show é só o trio. Na ficha técnica do novo álbum consta, além de Lumbambo e Baptista, Larry Koonse(guitarra), Larry Goldings(piano, órgão), Larry Klein (baixo eléctrico), Vinnie Colaiuta (bateria) e Rebecca Pigeon (voz). Acesse o link abaixo ouça o show e acompanhe a narração em inglês pelo script (read the script):
André Mehmari: tao sofisticado quanto Brad Mehldau
Geralmente, quando se trata de MPB, o apreciador de música instrumental escolhe a dedo esses cantores e compositores dito populares, na intenção de pôr em sua estante apenas cancioneiros e compositores que prezam por um desenvolvimento mais artístico da canção, ou seja, aqueles que moldam suas canções através de muita sofisticação harmônica e uma instrumentação cheia de belos arranjos. Mas, de fato, existe muitos artistas da música popular que merecem atenção e respeito pelo que fazem. Não podemos julgar a música popular, enfim, pelo estigma dos muitos sucessos comerciais e palatáveis moldados para o lucro e a fama, haja vista que ainda podemos apreciar artistas geniais e sinceros, muitos deles de uma nova geração que preza por tratar a composição popular com a mesma rigidez artística de um Jazz ou de uma Música Erudita. E em São Paulo temos mais um gênio: André Mehmari. Poucos artistas, aos seus 20 e poucos anos de idade, chegaram a alcançar tanto reconhecimento entre os colegas e a crítica especializada como André Mehmari. Multiinstumentista, Mehmari é hoje uma referência quando se fala em técnica: ele é um virtuose do piano da mesma forma em que é proficiente em composição e arranjo. Sua música, que vai do popular ao erudito, divide seu tempo entre trabalhos relacionados à música instrumental com seus dois trios, apresentações solo, à composição de peças populares e eruditas, além de experiências em parcerias como os duos com as cantoras Mônica Salmaso e Ná Ozetti, os quais chegaram a ser lançados em CD com grande sucesso de crítica. Além disso, Mehmari foi escolhido arranjador da Orquestra Jazz Sinfônica e, agora com apenas 30 anos de idade, conseguiu a façanha de receber encomendas pra compor para a grande OSESP (Orquestra Sinfônica de São Paulo), do maestro John Neschling. Segue uma breve resenha postada no espaço musical da Veja on line, onde Mehmari também dá uma entrevista muito interessante:
" pianista fluminense André Mehmari segue duas grandes escolas musicais. Mehmari tem uma sólida formação de música popular brasileira, especialmente a produção do Clube da Esquina – movimento liderado por artistas como Milton Nascimento e Lô Borges. Ele também se aventura pela música erudita (seu compositor predileto é o russo Igor Stravinsky), tendo escrito obras para a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e Banda Sinfônica do Estado.
Mehmari iniciou os estudos aos cinco anos de idade. Ele aprendeu com a mãe, que era professora de piano em Ribeirão Preto – cidade para qual a família de Mehmari mudou pouco tempos depois do seu nascimento. Três anos depois, ele foi estudar num conservatório musical da cidade. Mehmari começou a trabalhar com música quando tinha onze anos de idade. Uma de suas primeiras profissões foi tocar nos bailes de Ribeirão Preto – o repertório, acredite se quiser, era composto de sambas e lambadas. Em meados da década passada, Mehmari mudou-se para São Paulo, a fim de estudar na USP. Desde então, ele tem se destacado em várias vertentes. Tocou ao lado de cantoras como Mônica Salmaso e Ná Ozzetti. Venceu o Prêmio Visa de MPB instrumental e ganhou concursos de composição erudita.
André Mehmari tem seis discos lançados. O último foi ...De Árvores e Valsas, primeiro composto somente de material autoral. No final deste ano, ele terá uma composição sua executada pela Osesp." - Sergio Martins
Confira André Mehmari em entrevista com Sergio Martins naVeja Musica: ouça o pianista interpretando Lullaby e Nasce um Anjo, duas de suas requintadascomposições.
Com apenas 20 anos de idade, André Mehmari conquista o primeiro lugar no Prêmio VISA de MPB Instrumental (1998) em ambito nacional, sendo, a partir daí, amplamente elogiado pela crítica e público. É assim que grava seu primeiro disco, pela Gravadora Eldorado, ao lado do contrabaixista Célio Barros, também premiado no certame. O disco é um instrumental totalmente baseado na MPB, mas fazendo uso de uma tênue improvisação livre: uma sacada de gênio precoce que apenas abriu as portas para uma torrente de idéias que se libertariam nos próximos anos.Pouco depois, os dois se juntam ao baterista Sergio Reze e lançam o CD “ Odisséia” (1998), também baseado na improvisação livre.
André Mehmari: piano, flauta, violão, clarinete, sinth, piano Rhodes, viola, violino, percussão.
Célio Barros: Contrabaixo acústico, Baixolão e Guitarra.
Sérgio Reze: Bateria
Renato Martins: Pandeiro e Caxixi
Luca Raele: Clarinete
Este post visa trazer informações sobre um dos rítmos que podem até ser caracterizados como sendo estéticas da Word Music, mas não se trata de alguma música étnica da Africa ou de outro lugar do mundo afora, mas sim do nosso país: o Coco e o Frevo nordestino. Primeiro deixo um disco daquele que foi considerado o maior ritimista da música Nordestina:
Jackson do Pandeiro nasceu na Paraíba e cresceu em Pernambuco observando os violeiros nas feiras e as rodas de Coco, um rítmo que é um dos subgêneros do Forró Nordestino e, ainda hoje, é a grande herança cultural dos povos antigos de Alagoas e Pernanbumco. Devido a sua paixão por filmes de faroreste americano que via nos cinemas da época, ele adotou o pseudônimo de Jackson do Pandeiro, inspirado no mocinho Jack Perry. Apesar de ser muito popular em Pernambuco já no final dos anos 40, de ser um mestre do repente e ser considerado um cantor de grande voz, Jackson demorou pra lançar seu primeiro disco: em 1953 lançou seu primeiro grande sucesso, "Sebastiana", canção de Rosil Cavalcanti. Logo após esse sucesso Jackson passou colecionar sucessos com boas vendagens e passou a trabalhar nas rádios de Pernambuco, onde divulgou o Coco para todo o Brasil, alcançando sucesso até mesmo no Rio de Janeiro, onde era considerado pelos músicos um inovador da música brasileira. Com o sucesso Jackson do Pandeiro muda-se para o Rio e passa a trabalhar na Rádio Nacional, onde mostrou toda a sua versatilidade e o poder da sua voz, transitando por vários rítmos brasileiros como o baião, o coco, o samba e até mesmo o jazz, já que devido sua experiências em cabarés pode assimilar um pouco do gênero. Essa versatilidade assustavam a todos os seus contemporâneos que, após um período, passaram a considerar uma grande verdade: Jackson do Pandeiro não só estava para o Coco como Luiz Gonzaga estava para o baião, mas foi o pioneiro por fundir a música nordestina com o samba, foi um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento da nossa música popular, trazendo a música nordestina à tona como nenhum outro em sua época, chegando a influenciar até a Música Instrumental Brasileira através de, por exemplo, Sivuca e o grande Hermeto Pascoal que, inclusive, compôs o tema Viva Jackson do Pandeiro, gravado em 1999 no disco Eu e Eles. Por transitar por vários rítmos e ser um mestre do Coco, Jackson do Pandeiro foi apelidade de O Rei do Rítmo.
Documentário sobre o Coco Nordestino por Antonio Nóbrega
Infelizmente hoje não temos mais artistas nordestinos como Jackson do Pandeiro. Mas temos grandes artistas como Antonio Nóbrega, que é considerado um dos nomes mais importantes da cultura nordestina e um dos maioires propagadores e pesquisadores da mesma. Além de tocar violino desde a infância (chegando a tocar com grandes orquestras nordestinas), Antonio Nóbrega é um mestre do espetáculo, fundindo música com teatro e dança numa concepção totalmente própria. Um dos seus primeiros grandes projetos foi o Quinteto Armorial no final dos anos 60: convidado pelo fomentador cultural e escritor Ariano Suassuna, Antonio Nóbrega ajudou esse grande quinteto a propagar a música nordestina numa concepção de música de câmera erudita, chegando a excursionar por vários estados brasileiros e até ao exterior. Com o Quinteto Armorial, Antonio Nóbrega gravou quatro discos e passou a ser o maior expoente do Movimento Armorial desencadeado por Suassuna: tal movimento é uma grande proposta e iniciativa artística que visa trabalhar várias fusões partindo da fusão da música erudita com as sonoridades e rítmos nordestinos, até a valorização da literatura de cordel, dos conjuntos de pifes, do Coco, do Frevo e das artes e espetáculos. Antonio Nóbrega já obteve vários prêmios nacionais e internacionais e é considerado um dos grandes nomes da música e do teatro brasileiro: em 1983 ajudou a formar o Departamento de Artes Corporais da Unicamp em São Paulo e apartir da década de 90 passou a ser amplamente reconhecido através de espetáculos como "Figural", "Brincante", "Segundas Histórias", dentre outros. Enfim, graças a nomes como Ariano Suassuna, Antonio Nóbrega e o maestro Spok é que a cultura nordestina não só se mantém viva, mas é apreciada mundo afora. Baixe, abaixo, o disco Na pancada do Ganzá.
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