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In Set, de Bruno Migotto: sete composições, sete músicos – beleza, frescor e descontração!

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O cenário musical de São Paulo, no âmbito da MPB underground ou da música instrumental, tem se renovado e crescido de forma muito animadora nos últimos dez anos. Além de ter surgido novos espaços – onde sarais e apresentações passaram a acontecer –, alem dos novos bares e clubes, além dos novos músicos e bandas – os quais têm a sinceridade e a coragem de encarar a música estritamente como arte e não como produto –, novos registros estão aparecendo no restrito mercado independente da música instrumental – algo, aliás, que é o mais desejável, pois não adianta ter um cenário rico de novidades sem ter registros que confirmem e projetem essa riqueza artística. E o contrabaixista e compositor Bruno Migotto é uma das provas vivas de renovação e riqueza desse novo cenário: uma das novas revelações da música instrumental brasileira, ele é o baixista do quarteto do baterista Bob Wyatt, do quinteto do guitarrista Djalma Lima, do cantor e compositor Fabio Cadore, do trio do guitarrista Michel Leme, da Sound Scape Big Band, uma das big bands paulistanas que integram o fenomenal Projeto Elefantes, e acaba de gravar seu primeiro álbum, In Set, um registro com sete músicos paulistanos do mais alto calibre, alguns membros do seu atual Bruno Migotto Septeto – são eles o trompetista Daniel D’Alcantara, o guitarrista Michel Leme, os saxofonistas Cássio Ferreira e Josué dos Santos, o trombonista Jorginho Neto e o baterista Alex Buck.


In Set, um projeto de sete músicos e sete composições originais – e daí o título que, além semelhança fonética, também denota “em conjunto” ou “em set”, em um cenário de gravação – constituiu-se em um álbum fantástico. O álbum traz uma sonoridade um tanto agradável, o frescor do jazz contemporâneo casado com a nossa brasilidade rítmica e harmônica – progressões harmônicas inteligentes e marcantes, diálogos e solos sobrepostos, grooves contemporâneos que fogem da obviedade dos ritmos tradicionais brasileiros sem renegá-los como influência, esses são os ingredientes. E o que proporcionou o resultado final foram duas coisas: primeiro, o equilíbrio perfeito entre arranjo e improviso; segundo, a interação descontraída dos sidemans – lembrando que descontração, nesse caso, não significa falta de concentração, mas sim aquele bom-humor nostálgico que explicita bem os sentimentos de amizade e de alegria. Em entrevista ao jornalista Luís Delcides, no site de eventos Paulicéia do Jazz, o próprio contrabaixista salientou o orgulho de ter trabalhado com esses músicos, todos grandes companheiros na luta pela arte: “Acredito que as composições e arranjos do disco são 40% do resultado final, pois a maneira que eles tocaram os arranjos, a interação, a liberdade de criação que foi criada no momento, foi o que completou as composições para ficar da maneira que imaginei. Fiquei muito feliz com o resultado, foi a imagem mais fiel do que acredito na música, e consegui ter isso no meu primeiro disco; foi uma grande felicidade”disse Migotto. De certo, a porcentagem aí creditada à suas composições e arranjos é modesta, o que só mostra sua humildade diante dos elogios ao registro bem feito. Mas o fato é que In Set apresenta composições e arranjos maduros que parecem desmentir a pouca idade do músico, ao mesmo tempo em que reafirmam seu talento e um início de carreira bem direcionado: Bruno, apesar de ter apenas 24 anos, já acumula experiência através de uma lista grande de colaborações ao mesmo tempo em que já começa a se projetar como um líder de banda e como um proeminente compositor.






Num estilo de composição como esse, uma escrita para a interação de sete músicos, o desafio é achar o lugar de cada instrumento com o intuito de que o resultado final apresente junção e diálogo coesos. Bruno não apenas supera esse desafio como também nos reserva momentos inusitados e bem humorados. O álbum apresenta a seguinte sequência de faixas: Do Fim ao Começo, El Samba Como me Gusta, Acidental, Caixote de Surpresas, Quase Roxo, Paz de Cristo e Canto do Abacate. Apesar de haverem bons momentos e bons solos em todas as faixas, os destaques, a meu ver e sentir, ficam por conta das faixas 1, 4 e 6. “Do Fim ao Começo” inicia-se com uma breve introdução, seguido de um belo tema compartilhado e dialogado entre os sopros, enquanto o guitarrista Michel Leme tempera o fundo com a tênue ressonância dos seus pedais de efeitos; logo após, Michel aplica um improviso desconcertante e Cassio Ferreira um melodioso solo de sax soprano; a faixa termina com a última exposição do tema seguida de um epilogo bem cadenciado num tradicional compasso binário, fazendo um contraste com o groove aparentemente indefinido, apresentado em quase toda a extensão da faixa. “Caixote de Surpresas” apresenta aquele clima descontraído e indefinido dos ensaios musicais, até que o ouvinte realmente começa a ter boas surpresas: flauta, guitarra e bateria iniciam uma melodia, o que seria já o começo do tema, até ser interrompida... surgem risos e notas dispersas numa indefinição, como se os músicos estivessem indecisos entre tocar uma determinada música ou outra qualquer, mas daí o contrabaixo elétrico de Bruno toma a iniciativa de organizar a sessão, chamando cada instrumento a entrar em sua vez até todos começarem o tema de fato; nessa faixa o destaque fica não só por conta do swing vibrante, mas por conta do improviso lírico do saxtenorista Josué dos Santos. “Paz de Cristo”, a sexta e penúltima faixa do álbum, soa melodiosa e com notas longas em compasso binário, parecendo ser uma saudação e, ao mesmo tempo, uma homenagem e agradecimento ao Senhor do Evangelho: o destaque fica para o excelente solo do trompetista Daniel D’Alcantara. Por fim, o álbum termina com a faixa “Canto do Abacate”, um samba-jazz com nuances e variações rítmicas que lembram, remotamente, elementos do samba, dos choros e congadas; surgem tema, improvisos de trombone, trompete e guitarra e, já perto do fim, o som vai sumindo através de um fade out... há um silêncio e, em seguida, um fade in que desabrocha num final cacofônico; destaque para o solo inicial do trombonista Jorginho Neto. Em contraste com esses momentos mais pujantes, porém, há momentos intimistas e delicados: como na terceira faixa, “Acidental”, repleta de solos suaves e recheada com o complemento das vassourinhas de Alex Buck. E assim, Bruno Migotto conclui seu primeiro registro como líder, arranjador e compositor: um álbum de estética contemporânea que expressa de forma muito bela os climas de alegria, amizade e descontração! Para saber mais e adquirir o disco, só clicar nas imagens, acessar o site e mandar um e-mail para Bruno Miggoto ( bmigotto@yahoo.com.br).


Luciana Souza, Romero Lubambo & Cyro Baptista: Tide.

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Um trio aparentemente simples, soando em textura folk e vôos ousados: voz, violão e percussão. Sim, foi assim que Luciana Souza se apresentou pela primeira vez no Rose Hall, Allen Room, um dos palcos do Jazz at Lincoln Center, grande centro do jazz de Nova York dirigido pelo trompetista Wynton Marsalis. Pra quem não é acostumado com as maravilhas da música instrumental ou pra quem está acostumado apenas com sonoridade artificial dessas musas padronizadas do pop que se ouve por aí – aquela instrumentação carregada de recursos e efeitos eletrônicos –, fica difícil acreditar que um trio acústico, nessa formação, venha soar com sustância e com a capacidade de empolgar uma grande platéia. Mas foi acompanhada apenas do virtuoso guitarrista e violonista Romero Lubambo e do cosmopolita percussionista Cyro Baptista, que Luciana Souza mostrou o porquê é sempre indicada ao prêmio Grammy e é uma das cantoras mais bem avaliadas pela crítica do The New York Times, Downbeat, JazzTimes e outros grandes holofotes da mídia norte-americana. Luciana Souza, apesar de também fazer uso da linha do jazz-pop, tenta dissociar-se de ser mais uma “Diana Krall” ou mais uma “Norah Jones”. Ficou evidente que após o sucesso comercial de Diana Krall, já a partir de meados dos anos 90, e de Norah Jones nesse início de século, grandes gravadoras como a Blue Note, Verve e Columbia Records começaram a procurar outras “Dianas” e outras “Norahs”. Isso é, aliás, um fator mercadológico que cristaliza e padroniza a música fazendo dela um objeto moldável estritamente para o lucro, desprezando seu inerente propósito artístico. Sim, o lucro deve existir – já que sem ele a gravadora não teria como financiar novos projetos e nem o artista teria como fazer carreira –, mas a tradição e a personalidade musical devem ser elementos casados em prol de um estilo que não seja moldado pelas regras do mercado, mas seja um desabrochar natural que venha da alma e da formação do próprio artista – o mercado, por sua vez, deveria ter o papel apenas de reconhecer e valorizar a arte resultada desse processo. Luciana Souza mostra bem isso: sua música enfatiza a MPB, a tradição afro-brasileira, a bossa nova, o samba, a música nordestina, bem como conhecimentos, técnicas e substâncias que ela foi adquirindo ao longo da sua formação musical, a qual engloba o pop, o jazz e a música erudita. Não é a toa que Luciana já colaborou com músicos legendários como o compositor erudito Osvaldo Golijov, o saxofonista Miguel Zenon, a bandleader e arranjadora Maria Schneider, os pianistas Herbie Hancock e Danilo Perez, dentre tantos outros músicos excepcionais que a admiram. Trata-se, portanto, de uma cantora não só com bases sólidas, mas com talento e estilo próprios. Pra quem quiser conferir, basta adquirir o último disco da cantora, Tide, lançado em 2009 pela Verve Music. Cantando em inglês e português, Luciana empolgou a grande platéia do Rose Hall ao interpretar clássicos brasileiros e composições próprias acompanhada do violão de Romero Lubambo e do quite de percussão de Cyro Baptista: boa parte do repertório está também em Tide, indicado ao Grammy em 2010. No show é só o trio. Na ficha técnica do novo álbum consta, além de Lumbambo e Baptista, Larry Koonse(guitarra), Larry Goldings(piano, órgão), Larry Klein (baixo eléctrico), Vinnie Colaiuta (bateria) e Rebecca Pigeon (voz). Acesse o link abaixo ouça o show e acompanhe a narração em inglês pelo script (read the script):

O 5º, de Michel Leme: improvisação, interatividade e indiferença em suas plenitudes !

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Acaba de chegar ao mercado o quinto disco do guitarrista Michel Leme, não por acaso intitulado simplesmente . Para quem ainda não o conhece, o paulistano Michel Leme é um dos poucos guitarristas brasileiros adeptos à arte literal da improvisação no âmbito do “brazilian jazz” contemporâneo, além de também ser um dos músicos que traduz mais perfeitamente o significado do “músico independente” no Brasil: isso, aliás, é dito não só por sua música – que, apesar de beber das fontes da tradição brasileira, segue independente em suas linhas de composição e de improviso –, mas também por sua trajetória marcada por atitudes que esnobam os padrões impostos pelo mercado fonográfico. Na música e na personalidade de Michel Leme não há submissões – a não ser à seus próprios instintos; não há maquiagens, não há “pose”, fashionismos, engodos ou aquela gordura de glamour com a qual alguns músicos se lubrificam depois de um certo tempo de carreira. No seu estilo de improvisar e frasear também não há convencionalismos, frases pré-construídas ou progressões padronizadas de acordes: essa “liberdade” é, no mínimo, muito interessante em um guitarrista que se estabeleceu através das bases do rock e do “brazilian jazz”, estilo esse que sempre foi muito cadenciado nos ritmos do samba e na harmonia da bossa nova, por exemplo. Michel, ao contrário dos que regurgitam numa linha sempre tradicional, usa e abusa de ritmos tradicionais como samba e o cha-cha-chá (um ritmo latino) sem soar exarcebadamente suingante ou tradicional: suas frases são livres, contemporâneas e chegam a desconstruir, em certa dose ou em determinados momentos, o suingue dos temas.


Com a sonoridade crua e comprimida de sempre – característica já manjada em todos os álbuns de Michel –, o 5º parece chegar homonimamente para solidificar não só a discografia do guitarrista, mas um estilo único de tocar guitarra perante ao seleto público que gosta desse instrumento e da música instrumental no Brasil. Esse estilo foi construído através de tocar a música sem vícios ou estigmas, geralmente adquiridos com ensaios rigorosos ou com formalidades que engessam a criatividade: ou seja, o tema é apenas um pretexto para um improviso central que se torna livre e único a cada performance, já que não há arranjos pré-determinados e as músicas são, muitas vezes, compostas ou conhecidas durante as apresentações. Para um purista fã de jazz, essa atitude pode parecer desleixo, mas era tocando assim que Charlie Parker e Ornette Coleman criavam seus temas, impondo seus estilos únicos de fazer jazz, os quais ficaram conhecidos por estabelecerem o bebop e o free jazz, respectivamente. Além dessa característica “desleixada” de Michel Leme, a novidade do 5º está na formação da banda: trata-se de um quarteto com guitarra, baixo elétrico e duas baterias. Apesar de na Música Instrumental Brasileira não haverem tantos registros com instrumentos em dobro dentro de uma banda, a faceta de aumentar a massa sonora da banda, dobrando ou triplicando a quantidade de certos instrumentos, já é bem conhecida desde os primórdios do jazz moderno: Art Blakey, por exemplo, usou mais duas baterias (além da sua) no disco Drums Around the Corner (1958) e John Coltrane usou dois contrabaixos no disco Olé Coltrane (1961), além de também ter tocado com dois bateristas em sua última fase no free jazz. Dessa forma, Michel Leme mostra que o fator interatividade se torna um outro diferencial muito bem trabalhado no disco 5º: ou seja, o baterista da esquerda surge para preencher as frestas daquilo que seria um convencional trio guitarra-baixo-bateria, interagindo com a outra bateria à direita, enquanto a guitarra tenta soar mais forte e cheia, na intenção de não ser “engolida” por essa massa sonora percussiva; o baixo de Bruno Migotto, por sua vez, dispõe-se com a base harmônica e ajuda a definir a marcação e o suingue. Aliás, considerando que os bateristas Waguinho Vasconcelos e Bruno Tessele não se conheciam até a data da gravação, a interatividade, aí, ocorre quase que sem nenhuma prévia – todos tiveram de se ouvir bem, já que não houveram ensaios prévios a não ser apresentações fragmentadas aqui e acolá, onde os músicos passaram a conhecer os temas. Afora esses aspectos, é preciso ressaltar, também, o uso sutil de pedais de efeitos na guitarra de Michel, o que só ajudou a dar um toque especial em varios trechos dos temas e improvisos.


"Chica Hermosa" & "3 Notas"

Envolto num encarte ilustrado por uma bela aquarela, de autoria da artista plástica Cintia Crelier, o CD traz um material composto por quatro faixas extensas – “Deixem o Coltrane em Paz” (7:09), “Samba dos Excluídos” (9:31), Chica Hermosa (9:35) e Ananda Moy Ma (14:12) –, duas faixas curtas – “Aos Poucos” (5:56) e “3 Notas” (4:05) – e uma faixa bônus em vídeo MPEG chamada “Blues de Ocasião”, diferindo-se, portanto, de alguns lançamentos anteriores de Michel Leme, onde a maioria das faixas são curtas e não há bônus adicionais. Dessa forma, com faixas longas, Michel ganhou muito mais tempo para dinamizar suas músicas e expressar seus improvisos como solista principal na plenitude do seu estilo. Alguns destaques, por exemplo, são: “Deixem o Coltrane em Paz”, faixa onde há algumas frases em referência ao já citado mestre do sax tenor; “Samba dos excluídos (dedicada “para todos que fazem arte de forma sincera”), um samba-jazz que intercala acordes percutidos com linhas bem melódicas, desenvolvendo-se depois em improvisos quase que inteiramentes através de acordes cheios; “Chica Hermosa”, um tema desenvolvido no clima e ritmo do cha-cha-chá, com o qual o guitarrista gosta de expressar seu estilo canastrão e debochado; e “3 Notas”, tema ligeiro com uma pegada meio bop, quase que inteiramente improvisado (dedicado aos fãs internautas). Por fim, o disco termina com a mais extensa das faixas: Ananda Moy Ma (dedicado “aos que buscam a verdade acima das religiões”), é uma faixa cheia de dinâmica –  improviso e melodia, forte e piano, por exemplo – dedicada à santa indiana de mesmo nome, de quem Michel emprestou a frase “eu sou tudo o que você achar que sou” para endossar sua indiferença às críticas daqueles que se fecham sob o fórceps do mainstream. Gravado no segundo semestre de 2009, em São Paulo, no Auditório EM&T e no Estúdio Cantareira, o álbum 5º veio para celebrizar e concretizar a carreira e a obra de Michel Leme como uma das mais cruciais para a atual música instrumental brasileira. Clique nas imagens para acessar o site do guitarrista e encomendar seu disco!


Trio+1: contemporaneidade através da modernização da tradição !

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Trio+1: um dos principais lançamentos brasileiros em 2009

A Música Instrumental Brasileira não pára de lançar novidades: e uma das boas novidades dos últimos anos tem sido o trio – de conexão sudeste-nordeste – Trio+1 que, na verdade, é um quarteto constituído por um convencional piano-trio – piano, contrabaixo e bateria – mais um trompete que acrescenta ainda mais consistência aos solos e improvisos. O trio é sudestino e é constituído pelos veteranos mestres Benjamim Taubkin ao piano, Zeca Assumpção no contrabaixo acústico e Sérgio Reze na bateria e percussão. No trompete e flugelhorn: o alagoano Joatan Nascimento, grande revelação dos últimos anos. Eles lançaram recentemente o disco homônimo que é, nada mais nada menos, o resultado do sucesso que já vinham recebendo na mídia através das suas apresentações no Brasil e no exterior.


Visite o site do Núcleo Contemporâneo, selo de Benjamin Taubkin!!!O que impressiona neste disco, Trio+1 (lançado nos EUA pela Adventure Music, em 2009), é a contemporaneidade dos arranjos, obtida de forma espontânea, serena e natural através do casamento do jazz contemporâneo com ritmos tradicionais da música popular brasileira que vão muito além da já manjada influência da bossa-nova carioca. Sim, essa afirmação “contemporaneidade obtida através do casamento do jazz contemporâneo com ritmos tradicionais brasileiros” pode ter soado, de certa forma, redundante, mas assim é dita propositalmente para enfatizar o feito, pois convenhamos que, dos muitos músicos brasileiros que exploram o jazz, poucos estão criando obras que exprimam a atual modernidade do jazz contemporâneo sem desprezar, contudo, aspectos tradicionais da música regional brasileira, como fez o Trio+1 neste disco. Aliás, o que presenciamos no Brasil nessas últimas décadas é uma tendência da modernização da tradição, tendência essa que é levada à cabo por uma minoria de músicos e bandas sofisticadas que se deixam influenciar por aspectos do jazz contemporâneo tais como a espontaneidade da livre improvisação, a atonalidade, a busca por uma total assimilação das estéticas vanguardistas, a exploração coerente de texturas e timbres inusitados obtidos dos instrumentos convencionais, bem como o uso de outros instrumentos não-convencionais, além de uma elaboração cada vez mais sofisticada nos arranjos, na harmonia e na escrita – tudo isso casado com o uso dos exóticos ritmos e sonoridades regionais e tradicionais do nosso Brasil. É dessa forma que o Trio+1, liderado por Taubkin, soa magistralmente contemporâneo: é interessante a forma como eles soam coesos, integrados quase que de forma telepática, casando líricas melodias e lindas harmonias com animados rítmos nordestinos e improvisações jazzísticas mais livres.

Compre o CD de choros  de Joatan Nascimento
Um disco cheio de dinâmicas, que mescla sutilezas com improvisos carregados, o Trio+1 começa com a faixa O Deserto é Aqui: a introdução é caracterizada por um clima contemporâneo com improvisos em intensidade pianíssimo, onde Benjamim Taubkin explora a região aguda do piano, Sergio Reze aplica a suave sonoridade das “vassourinhas”, Zeca Assumpção explora uma espécie de “timbre brilhante” em seu contrabaixo (usando uma técnica chamada “sul ponticello”), para depois toda a banda entrar no tema desenvolvido em ritmo nordestino; aí o trompetista Joatan também brilha nos improvisos. A faixa seguinte é Pérolas, composição de Jacob do Bandolim: o tradicional choro é transformado pelo piano-trio em uma balada jazzística, onde o pianista Benjamin Taubkin dá uma aula de como improvisar de forma lírica e minimalista. A terceira faixa é Baianinho: composição assinada pelo trompetista Joatan, ela imprime com mais evidência o tradicional ritmo do baião.A quarta faixa, O Sabiá Voa, segue mais ou menos a mesma dinâmica que a primeira faixa (O Deserto é Aqui), com Zeca Assumpção improvisando no contrabaixo, Sérgio Reze aplicando suas sutilezas percussivas, e o convidado especial Fernando Sardo colorindo o fundo com seus instrumentos inusitados; nos improvisos, mais uma vez destaque para o fraseado do trompete de Joatan Nascimento que, por ora, deixa evidente a influência do trompetista Wynton Marsalis, sem deixar de mostrar seu lado puramente pessoal, seu requintado toque nordestino. A quinta faixa, O Circo Chegou, novamente protagonizada pelo piano-trio, inicia com o baterista Sérgio Reze numa tênue improvisação livre, desenvolvendo-se depois em um lindo tema: é aí que a o piano de Benjamin Taubkin atinge seu ponto alto. Por fim, o disco termina com uma versão nada convencional de Consolação, composição de Baden Powell e Vinícius de Moraes. Concluindo: o Trio+1 criou uma obra de primeira grandeza com reais condições de virar um clássico indispensável para completistas; trata-se do mais novo "brazilian jazz", trata-se de jazz brasileiro com rosto jovial – ainda que artisticamente sério e bem elaborado –, trata-se de jazz brasileiro com rosto de música contemporânea retocado com uma quantidade sóbria de elementos tradicionais, um exemplo de como é possível fazer música contemporânea valorizando, também, aspectos regionais e culturais brasileiros – um encontro da arte com a cultura em âmbito musical!

Miramari, de André Mehmari: lirismo ímpar com suaves temperos italianos e brasileiros!

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Clique aqui para comprar este disco!No ar que um pinça o outro pedala.
Um é mio bambino, o outro é meu guri.
Mira unge o solo brasileiro com óleo da Umbria
Mari adoça o mediterrâneo com apátrida garoa
Miramari
Lacrimari
Mira
Baci

Guinga

Participações: André Mehmari - piano; Gabrielli Mirabassi - clarinete; Guinga - violão; Luiz Tatit - composição; Zé Alexandre Carvalho - contrabaixo; Ricardo Mosca - bateria; e etc...

Não foi sempre - digo ano a ano e até década a década - que a humanidade presenteou a história da música com músicos e compositores exepcionalmente criativos e originais. Exemplos? Pois bem, vamos aos exemplos: pra surgir um compositor inventivo como Duke Ellington passou-se anos até a ascensão de Charles Mingus, sua extensão; da mesma forma, não foi sempre que surgiram compositores norte-americanos como Charles Ives, Aaaron Copland, Leonard Berstein e Wynton Marsalis; e falando do Brasil, há décadas que não surgem novos "Heitores Villa-Lobos", novos "Tom Jobins", novos "Hermetos Pascoais" ou novos "Miltons Nacimentos". Atualmente, no entanto, a música instrumental e popular brasileira tem alguns nomes a que se orgulhar. Neste post cito dois deles: o cancionista Guinga e o jovem pianista e compositor André Mehmari.

Sim, claro! Você, desavisado, poderá dizer: "Guinga já é um aclamado veterano, mas André Mehmari eu nem conheço!". Ora, então, essa é a função deste post: apresentar o trabalho de um dos mais fantásticos pianistas e compositores da atual Música Instrumental Contemporânea. E para isso deixo a indicação de um dos seus mais novos discos: trata-se de Miramari, recém-lançado no Brasil e Itália numa parceria do pianista brasileiro com o clarinetista italiano Gabrielli Mirabassi. Lembro, ainda, que eu já tinha discorrido sobre André Mehmari aqui no blog Farofa Moderna: na ocasião deixei disponível as faixas em mp3 do fantástico disco Premio Visa MPB Instrumental, resultado do prêmio que revelou Mehmari em 1998 ao lado de seu amigo contrabaixista Célio Barros, também um jovem promissor da época.

O clarinetista Gabriele Mirabassi, um entusiasta da música brasileira, conheçeu André Mehmari através do seu então parceiro violonista Guinga, no lançamento nacional do álbum Graffiando Vento (2004), gravado pelos dois em parceria e lançado pelo selo europeu Egea. Tanto Mehmari como Mirabassi se impressionaram um com o outro e, no decorrer dos anos, passaram a "trocar figurinhas" sobre suas concepções de música contemporânea. O resultado foi esse disco chamado Miramari. Gravado de forma independente no próprio estúdio de Mehmari, o Stúdio Monteverdi, o disco é um exemplo da "música popular de câmera", ou seja, com união de aspectos da música erudita cameristica com características do cancioneiro popular, tendo um leve tempeiro jazzístico aí no meio. Das 17 músicas (todas instrumentais), 12 são assinadas pelo pianista, sendo uma delas, Brilha o Carnaval, em parceria com o excelente compositor paulistano Luiz Tatit. Algumas delas ele escreveu nitidamente influenciado pela viagem recente que fez à Itália na companhia de Mirabassi: caso de Um dia em Assis, Perugia Notturna e Quando em Gubbio, todas referências a cidades ou regiões do país – as outras, Mirabilis Mirabassi e Rondoletto Per i Bambini, sugerem a mesma fonte de inspiração. Já o clarinetista responde com Chove na Minha Valsa, Disarmati e Subindo a Cantareira. Completam o repertório duas músicas de Guinga, que se tornou padrinho do duo: Canção Desnecessária (com Mauro Aguiar) e Rasgando Seda (com Simone Guimarães). Os sidemans são Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo) e Ricardo Mosca (bateria): eles participam em cinco das dezessete faixas do disco.

Miramari, assim como todos os discos de Mehmari - não é um disco pra se baixar em blogs, mas sim um disco pra ser comprado! E digo isto porque os discos desse pianista é a mais atual referência da excelência em composição musical brasileira e, lógico, daqui a alguns anos serão clássicos imprescindíveis nas estantes de qualquer colecionador e amante do gênero. Miramari - com nome que surge da junção dos acrônimos do sobrenomes Mehmari e Mirabassi - é um disco que une dois músicos de nacionalidades diferentes, mas com uma compreensão única: a ecleticidade e pluralidade da música instrumental contemporânea, sem perder a noção histórica da música. Essa tal compreensão permite com que Mehmari trabalhe um estilo que é todo seu, mesclando a sua noção de estilos históricos como o choro, as canções e as valsas brasileiras com sua sensibilidade e lirismo erudito, bem como também evidencia uma inventiva introspectividade caracterizada pela sua compreensão do improviso jazzístico contemporâneo. Ou seja: é um estilo único no atual cenário da Música Instrumental Brasileira. Ora, o que dizer de um músico que une influências tão distantes como o lirismo barroco do compositor veneziano Claudio Monteverdi (1567 - 1643) com as características harmônicas das canções de Clube da Esquina e a sensibilidade pianística e improvisacional do piano jazzístico contemporâneo?  Às vezes errôneamente comparado com o pianista americano Brad Mehldau, só há uma coisa a dizer quando o assunto é André Mehmaru: a partir dessas e outras influências da música erudita e da música popular brasileira, este pianista criou um estilo único de tocar e compor marcado por um lirismo ímpar que por muito tempo será só seu, sem risco de imitadores. Sem querer exagerar ou fazer comparações, digo que trata-se, realmente, de uma espécie de "Milton Nascimento da Música Instrumental Brasileira" ou, por que não?, de um "Brad Mehldau do piano brasileiro" e, também, não seria exagero dizer que Mehmari, se continuar a elevar a sua arte, estará para se transformar numa espécie de "Heitor Villa-Lobos contemporâneo", haja vista que ele vem sendo super aclamado por suas composições encomendadas por grandes orquestras como a Banda Sinfônica e Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), composições nas quais ele mistura, com maestria impressionante, elementos da cultura popular com a escrita e interpretação erudita.

A rica bateria de Alex Buck, que também é um excelente compositor...!

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A Música Instrumental Brasileira, mais propriamente a contemporânea, desde sempre alcançou um público enxuto e seleto: isso é tanto uma verdade quanto um problema. Vemos hoje na mídia um grande revival ao cancioneiro popular que começou a modernizar-se nos grandes centros urbanos através dos redutos de boemia nas décadas de 50 e 60, mas em se tratando de Música Instrumental Brasileira, pouco se comenta, pouco se ouve no rádio, pouco se vê na televisão e pouco se lê nos jornais. Contudo, desde a década de 70 nossa música instrumental vem se desenvolvendo de forma a unir nossos rítmos tradicionais com os elementos da música contemporânea como um todo. Tal como o jazz sofreu suas modernizações nas décadas anteriores, a Música Instrumental Brasileira passou a sofrer suas transformações estéticas a partir da década de 70 quando novos representantes pós-bossa nova como Hermeto Pascoal, Sivuca, Airto Moreira, Arismar do Espírito Santo e Nenê passaram a dar uma cara mais genuinamente brasileira à nossa música instrumental, rechaçando o jazz como elemento par do samba em troca de uma maior abrangência de rítmos brasileiros: o jazz, por sua vez, continuaria a ser uma fonte de influência, mas, dessa vez, estaria menos presente em nossa música do que na década de 60, época caracterizada pela geração do Samba-Jazz. E é dessa linha de modernidade mesclada de Jazz com Samba, MPB e rítmos nordestinos que o baterista paulistano Alex Buck surgiu: inicialmente ele passou pela escola denominada CLAM regida pelo legendário Zimbo Trio; aos 17 anos ele se foi premiado em duas categorias no Festival Batuka (composição e performance), sendo esse o maior concurso brasileiro no ramo da bateria; a partir daí, Alex Buck procurou seguir uma carreira calcada na música instrumental brasileira, onde, eventualmente, personagens importantes como o baterista Nenê e a pianista Silvia Góes estariam presentes tanto como professores como, também, colaboradores.


Luz da Lua (2005) - clique para comprar no SubmarinoTrocando Idéias - clique para comprar no submarinoIrmãos de Som (2008) - clique para comprar no Submarino












Alex Buck não é só um dos maiores bateristas da nova geração, um dos mais requisitados colaboradores ou, como se diz no jazz, um musician's musician, mas também é pianista e um compositor de mão-cheia que já começa a dar a sua contribuição para o repertório contemporâneo. O exemplo mais interessante, dentre todos os exemplos de proficiência já presentes em sua curta carreira, é o disco que ele lançou pelo selo Maritaca em 2005, o CD Luz da Lua: trata-se de um registro fantástico que mostra todo aquele conjunto sofisticado de arranjos, harmonias e rítmos, além de ser um dos discos que mais se destaca em improvisação dentre todos os discos lançados nesse início do século 21. Alex já teria mostrado a que veio apenas com a partipação como co-lider no disco Trocando Idéias (também gravado em 2005) ao lado do fantástico guitarrista Michel Leme, mas com o disco Luz Da Lua ele mostrou que acabava de deixar de ser apenas uma promessa da bateria e composição para ser um dos mais novos talentos a contribuir em ambas às partes dentro da Música Instrumental Brasileira. Destacando a sua técnica, vê-se uma bateria crua, com batidas sempre bem destacadas - ainda que algumas vezes livres e polirrítmicas - e uma configuração que mostra sua completude adquirida através do gosto pelo frevo, pelo samba, pelo jazz e por outros estilos de "beats" brasileiros e latinos.

O conjunto de discos solos de Alex Buck é composto por Luz da Lua (2005), o mais recente Irmãos de Som (2008) e outros dois como co-líder: o disco Trocando idéias (também gravado em 2005 junto ao guitarrista Michel Leme) e Resistindo (gravado em 2003 com um trio ao lado da pianista Silvia Góes e do multiinstrumentista Tiago do Espírito Santo). Ademais Buck já deixou a marca da sua bateria em vários trabalhos com gente do quilate de Dominguinhos, Yamandú Costa, Arismar do Espírito Santo, Filó Machado, Wilson das Neves, Jair Rodrigues, Jane Dubock, Fabiana Cozza, Alessandro Penezzi, Germano Mathias, Guilherme Vergueiro, Raul de Souza, Heraldo Du Monte, Naylor Proveta, Sandro Haick, Michel Leme, Thiago Espírito Santo entre outros. Enfim, para quem é fascinado pela pluralidade de rítmos e arranjos que constituem a Música Instrumental Brasileira Contemporânea , Alex Buck é mais um dos nomes a não perder de vista.

Live at the Village Gate - Sivuca 1973

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Natural de Itabaiana , interior da Paraíba, Severino dias de Oliveira começou a tocar sanfona aos 9 anos de idade, em feiras, festas, batizados etc., e tornou-se um dos estilistas do instrumento. Aos 15 anos foi para Recife, onde começou a carreira profissional na Rádio Clube de Pernambuco, e adotou o nome artístico de Sivuca. Aos 18 tornou-se aluno do maestro Guerra-Peixe, com quem aprendeu arranjo e composição. Gravou o primeiro LP em 1950, em parceria com Humberto Teixeira, que gerou o primeiro sucesso, "Adeus, Maria Fulô", regravada em versão psicodélica pelos Mutantes em seu disco de 1968 . Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1955, sendo contratado pela Rádio e TV Tupi. Gravou mais três LPs e fez algum sucesso, até que em 1958 foi pela primeira vez para a Europa com o grupo Os Brasileiros, de que era o acordeonista. Acabou radicando-se em Lisboa, e em seguida em Paris, onde gravou discos e fez diversas apresentações. Em 1964 mudou-se para Nova York, e lá viveu por 12 anos. Trabalhou com Miriam Makeba, para quem fez o célebre arranjo do mega sucesso "Pata Pata" e com ela excursionou pela Ásia, África, Europa e Américas, até 1969. Nos Estados Unidos trabalhou com outros artistas brasileiros, como Hermeto Pascoal, Airto Moreira e Gloria Gadelha, com quem se casou e compôs " Feira de Mangaio", considerado um dos clássicos do forró. Outras parceria bem-sucedidas são "João e Maria" (com Chico Buarque), "No Tempo dos Quintais" (com Paulo Tapajós), "Energia" (com Glória Gadelha) e "Cabelo de Milho" (com Paulo Tapajós). Na década de 70 tornou-se popular nos países escandinavos, gravando discos ao vivo e fazendo muitos shows. Compôs trilhas para os filmes Os Trapalhões na Serra Pelada (1982) e Os Vagabundos Trapalhões (1982). Em 20 de novembro de (2006) lança o DVD “Sivuca – O Poeta do Som”, totalmente produzido na Paraíbaem em homenagem aos seus 75 anos, que contou com a participação de 160 músicos convidados. Foram gravadas 13 faixas, além de duas reproduzidas em parceria com a Orquestra Sinfônica da Paraíba. Faleceu em 14 dezembro de 2006, depois de dois dias internado para tratamento de um câncer, que já o acometia desde 2004. Sivuca deixa uma filha, Flavia, que atualmente está levantando o acervo do pai e mais três netos, Lirah, Lívia e Pedro. É chamado no meio artistico de "O maestro da sanfona". É amado por Caetano Veloso, Jorge Ben, e Gilberto Gill. Se essa referência não é o suficiente para que os reis da Tropicália têm todos reconheceram a influência da Sivuca, ele foi um dos primeiros artistas brasileiros jazz para estabelecer uma carreira na E.U.A. nos anos 60.

O fantástico Live at the Village Gate de 1973, traduz um Sivuca de primeira linha para os americanos que o aplaudiu de pé ao desgusta a cultura brasileira nas veias desse multinstrumentista do sertão da paraiba como o codnome de Sivuca. Além de vocalizar, surpriende como acordianista, guitarrista, e compositor, para o espanto dos gringos. Simplesmente um album album impecável para qualqur coleção e o melhor, uma viagem pela bossa nova e um passeio pelas raizes tupinique. "Live at Village Gate" é magistral e uma obra prima na carreira de Sivuca. Selo: Vanguard (EUA) / Copacabana (Brazil). Caso você queira baixar este álbum, procure-o no excelente buscador Captain Crawl.

Vale apena ler o texto do jornalista Arnaldo DeSouteiro sobre Sivuca: "Ontem eu soube da morte de 2 amigos meus, o saxofonista Frank Vicari e o produtor Ahmet Ertegun (fundador da gravadora Atlantic), mas nada sabia sobre o Sivuca. Tomei conhecimento somente agora. Eu poderia escrever até um livro sobre Sivuca, conheço profundamente a obra dele. Mas agora, só dá pra sair um pequeno comentário" ...

01 - Adeus Maria Fulo
02 - Berimbau
03 - It Might Have Been
04 - Rancho Fundo
05 - Ain's No Sunshine
06 - Marina
07 - Coisa nº 10
08 - Batucada
Sivuca - Vocais, Guitarra, Accordion, Piano e Percussões
Cindy Kimball - Vocais e Percussões
Morris Goldberg - Woodwind (inst. de sopro de madeira)
Mervin Bronson - Baixo
Angel Allende - Percussões
Sadiq Shabazz- Bateria

Uma Colaboração do Blog Borboletas de Jade

J.T. Meirelles, o Rei do Samba-Jazz

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Um dos maiores saxofonistas brasileiros, J.T. Meirelles, como era conhecido, iniciou sua carreira bem jovem colaborando com arranjos para Jorge Ben Jor no seu sucesso "Mas que Nada". Foi com o sucesso dos arranjos que Meirelles pôde iniciar sua carreira de líder: ele acabaou recrutando um conjunto que viria a batizar Os Copa 5, composto por músicos de alto calibre, todos ligados à bossa nova: Luiz Carlos Vinhas, Dom Um Romão, Manoel Gusmão e Pedro Paulo. Foi a formação que criou o conciso "O Som" (64), com seis clássicos instrumentais de Meirelles. Esse foi um de seus poucos discos que marcou o seu pioneirismo e sua contribuição à formação da nossa música instrmental, pela qual J.T é considerado por muitos o "pai" do Samba-Jazz ou, como prefere dizer alguns, um dos maiores precursores do Brazilian Jazz.

Apesar de ter trabalhado toda a sua vida com a música, J.T Meirelles se imortalizou, justamente, através do seu álbum "o Som" de 1964. Poucos álbuns podem ser creditados como marcos iniciais exatos deste ou daquele gênero. Mas já parece haver um consenso que este O Som, disco de estréia do grupo Meirelles & Os Copa 5, é a "pedra de Rosetta" do samba-jazz, fusão da fluidez jazzistica com o drive ritmico do samba - um som único, elegante, juntando o melhor de dois mundos. E que - também por ser filho indireto da bossa nova - transformou-se em um dos estilos de música brasileira mais apreciados mundo afora. Em grande parte, por causa deste disco. O álbum, gravado em 1964, reúne o saxofonista J.T.Meirelles com um quarteto de literais monstros: Manuel Gusmão (baixo), Luiz Carlos Vinhas (piano), Dom Um Romão (bateria) e Pedro Paulo (trompete). Sua edição original, com seis faixas, tornou-se um dos mais cultuados álbuns de jazz dos anos 60. J.T. Meirelles morreu de complicações no estômago, terça-feira, dia 4 de junho de 2008, aos 67 anos.




Quanto à sua tragetória, Meirelles não seguiu em proporção ao legado de seus poucos discos. Depois de ter lançado "O Som" em 1964 e "O novo Som" em 1965, J.T. Meirelles seguiu sem grandes perspectivas na carreira de solista. Daí em diante, o saxofonista foi diretor artístico da gravadora EMI-Odeon em 1969 e , a partir do início da década de 70, atuou como músico de big bands, professor, arranjador e produtor musical. Assim, apesar de ter dedicado toda a sua vida à música, o saxofonista não acreditava que a profissão de músico e nem que a Musica Instrumental pudesse ser bem reconhecida no Brasil, chegando até a vender seu saxofone na década de 90 para estudar informática. Foi através desse ceticismo que Meirelles também ficou sem compor desde meados da década de 60 até 2000. A sua volta como líder e compositor se dá justamente nessa época em que pôde perceber que havia uma nova geração de fãz de Música Instrumental Brasileira e, mais propriamente, fãs de Samba-Jazz. Se não fosse pela iniciativa do compositor e produtor Ronaldo Bastos que, através do seu selo Dubas, relançou "O Som" e lançou obras inéditas do saxofonista como "Samba-Jazz" (2003) e "Esquema Novo" (2005), talvez J.T. Meirelles continuasse a ficar fadado ao esquecimento, sendo cultuado apenas pelos amigos de seu tempo no Beco das Garrafas e alguns poucos colecionadores de Música Instrumental Brasileira. Entre as influências desse grande músico estão saxtenoristas Stan Getz, Sonny Rollins e Johnny Griffin. Entre os grandes músicos que receberam suas instruções estão Mauro Senise, Zé Nogueira, Raul Mascarenhas e Nilson da Matta, entre outros.


Festa para o General: conhecendo Marcio Montarroyos

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Saiba mais sobre Marcio Montarroyos/ English and Portuguese VersionsO ano de 2007 foi o ano negro para o Jazz, Música Instrumental Brasileira e as artes em geral. É pesaroso fazer esse exame, esse tipo de balanço, mas o ano de 2007 foi um ano de muitas perdas, nos deixando aquela impressão de que uma boa geração - aliás, uma grande geração de mestres e veteranos das artes - estavam indo embora sem nos deixar opção ou esperança no que diz respeito ao surgimento de novos talentos e de grandes artistas como eles foram. Entre os muitos mestres falecidos de 2007 podemos destacar alguns: no teatro perdemos Paulo Autran, no Jazz perdemos Oscar Peterson, Andrew Hill e Michael Brecker; no cinema perdemos Michelangelo Antonioni e Ingman Bergman e na música brasileira perdemos um dos nossos maiores instrumentistas, o trompetista Marcio Montarroyos, em 12 de Dezembro de 2007, com 59 anos de idade. O trompetista foi um dos músicos mais brilhantes e mais presentes em toda a nossa música popular e instrumental e fez inúmeras participações em trabalhos nacionais e internacionais, tocando com Sergio Mendes, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Milton Nascimento e Tom Jobim, Stevie Wonder, Sarah Vaughan, Nancy Wilson, Carlos Santana e Ella Fitzgerald. Além disso participou de inúmeros discos com artistas da música instrumental e popular com Roberto Carlos, Ney Matogrosso, Gabriel o Pensador, Cidade Negra, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Tom Jobim, Ivan Lins, Leo Gandelman, Wagner Tiso, João Bosco, Luiz Bonfá, Edu Lobo, Maria Bethânia, Simone, Azimuth, Eugénia Melo e Castro, Vitor Assis Brasil, Marcos Resende, Don Grusin, Jon Hiseman, Sérgio Mendes e Ricardo Silveira. Enfim, a presença de Montarroyos foi tão constante na música brasileira que, pouco antes de falecer, alguns dos seus amigos fizeram um show no Mistura Fina em sua homenagem para arrecadar fundos que foram usados para custar o tratamento do artista na batalha contra o câncer do pulmão: em 19 de Novembro, artistas como Ney Matogrosso, Léo Gandelman, Celso Fonseca, Marcos Valle, Paulinho Trompete, Edu Lobo, Fafá de Belém, Leila Pinheiro, Arthur Maya, João Donato entre outros, fizeram um show intitulado "Festa para o General", fazendo alusão ao seu apelido comum entre parentes e amigos: General , apelido originado do aspecto e fama de durão e grande líder pela disciplina que impunha em relação à música, apesar de estar sempre sorridente e radiante com os colegas .





Não obstante, Marcio deixou seu nome cravado na história da Música Instrumental Brasileira com uma pá de bons discos que para a minoria não é novidade, mas para nós, que as vezes já ouvimos falar mas não corremos atrás para ouvir, será não só novidade mas uma prova de que perdemos um grande artista, um refinado trompetista brasileiro. Assim, antes de apresentá-los ao disco desse post é necessário traçar um breve resumo da carreira do carioca Márcio Montarroyos: o trompetista começou a carreira no final dos anos 60 quando a nossa música instrumental estava sofrendo grandes transformações, adquirindo uma indentidade própria, mas ainda fortemente marcada pelo Jazz e a Bossa Nova instrumental, chamado por muitos de Jazz Brasileiro ou Brazilian Jazz. Se dedicando inicialmente ao piano e ao estudo da música clássica, Montarroyos viu na música popular o seu espaço e a sua paixão de vida e, já apartir de 1968, fazia parte do conjunto A Turma da Pilantragem que tinham nomes como Zé Roberto Bertrami, Alexandre Malheiros, Vitor Manga, Fredera e Ion Muniz e as cantoras Regininha, Málu Balona e Dorinha Tapajós: com esse grupo ele gravou três LPs. Nos anos 70 ele foi estudar jazz na Berklee School of Music, nos Estados Unidos e logo de cara se firma como o mais proeminente trompetista brasileiro participando da gravação da trilha sonora da novela "Carinhoso" da TV Globo e lançando seus primeiros grandes discos que foram Sessão Nostalgia (1973) e esse Stone Alliance(1977), discos marcados não só pelo Brazilian Jazz, mas já com algumas acentuações da nossa chamada Música Instrumental Brasileira, recém-criada por expoentes como os multiinstrumentistas Sivuca e Hermeto Pascoal. Nos anos 80 Montarroyos lançou discos como "Trompete internacional" (1981), "Magic moment" (1982), "Carioca" (1984), "Samba Solstice" (1987) e "Terra Mater" (1989), sendo que esse ultimo significou seu ápice não só como um grande trompetista, mas, sobretudo, como um grande compositor, registrando canções como "The fourteenth day" e "One more light". Vale lembrar que alguns dos discos de Márcio Montarroyos eram inicialmente gravados nos Estados Unidos e só depois relançados e distribuídos no Brasil. Aliás, é curioso notar que Montarroyos foi o primeiro músico brasileiro contratado pela Columbia Records (companhia americana pertencente a gigante Sony BMG). O seu ultimo grande disco de sucesso foi o homônimo "Marcio Montarroyos" de 1995, onde registrou belas composições próprias como "Slave ritual", "Pantanal" e "Congo do Serro", entre outras. E para nossa alegria, está pra sair, quentinho do forno, um lançamento póstumo, já que pouco antes de falecer Marcio gravou um disco institulado "Rio e o mar", com a participação de Léo Gandelman.



Esse , Stone Alliance, é o seu segundo disco e foi lançado pela PM Records em 1977. A sonoridade do disco é magnífica: em certos momentos contemplamos umas sonoridade mais tropical e latina como na primeira faixa "Hey Bicho, Vamos Nessa", outras vezes relaxamos ao som de faixas mais suaves como "Rua da Boa Hora" e "A Child is Born" e ainda tem algumas faixas com uma "pegada" mais fusion e mais groove, como é o caso da "On the Foot Peg". Enfim o disco é rico de rítmos e sonoridades. É um daqueles discos pra se ouvir várias e várias vezes, guardar, colecionar e vira-e-mexe ouvir de novo. A sonoridade do trompete e flugelhorn de Marcio é suavíssima e marcada por efeitos eletrônicos (na época entendida como uma influência de Miles Davis) usados não com demasia, mas com clareza e beleza. O disco se torna ainda mais interessante quando vemos sua ficha técnica, onde estão presentes nomes como Hermeto Pascoal tocando flauta e piano e o saxtenorista Steve Grossman. Para baixar este disco basta apenas clicar sobre sua imagem. Segue a ficha técnica:

Steve Grossman - Soprano and Tenor Saxophones
Gene Perla - Bass and Keyboards
Don Alias - Drums, Congas, Guitar, Voice and Percussion
Marcio Montarroyos - Trumpet, Flugelhorn, Melophone
Hermeto Pascoal - Piano and Flute
Erasto de Holanda Vasconcelos - Percussion

01 Hey Bicho, Vamos Nessa
02 Rua da Boa Hora
03 A Child is Born
04 On the Foot Peg
05 Menina Ilza
06 Risa
07 Libra Rising
08 The Greeting

Esperanto - Victor Assis Brasil 1970

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Saiba mais sobre Victor Assis Brasil/ English Version
1. Ginger Bread Boy
2. Marília
3. Quarenta Graus À Sombra
4. Ao Amigo Quartin

Victor Assis Brasil - sax soprano
Dom Salvador - piano and organ
Edison Lobo - bass
Hélio Delmiro - guitar
Edison Machado - drums


O maior saxofonista brasileiro foi ele: Victor Assis Brasil. Num país que começou a conhecer o jazz apartir da década de 60, era natural, ainda mais naquela época, não ter bons instrumentistas na área da improvisação e linguagem jazzística. Mas nos anos 60 surge Victor para mudar definitivamente a história do saxofone no Brasil: desde pequeno ele já tinha aspirações musicais; na adolescência passou a frequentar o famoso reduto de sambistas Beco das Garrafas onde dava suas "canjas" e participava das jam sessions dominicais do "Little CIub", fora outras jams e apresentações em colégios cariocas que foram importante no seu amadurecimento enquanto improvisador.

Em 1965 tocou na inauguração do "Clube de Jazz e Bossa", tornando-se figura obrigatória em suas atividades. Deixou uma obra preciosíssima: oito discos lindíssimos muito difíceis de se encontrar atualmente. O seu primeiro LP - "Desenhos" - hoje uma peça de colecionador e foi gravado em janeiro de 1966. Nesse mesmo ano foi convidado a participar do Concurso Internacional de Viena, patrocinado pelo maestro e pianista austríaco Friedrich Gulda, obtendo o terceiro prêmio na categoria dos saxofonistas. Ficou quase um ano na capital austríaca. Ainda em 1966 foi considerado o melhor solista do Fest Jazz Berlin, o que lhe valeu receber uma bolsa de estudos para Berkley School of Music, que usaria em 1969. Com esses lauréis, retorna ao Brasil, ganha publicidade na imprensa pela repercussão de sua atuação na Europa e profissionaljza-se definitivamente, vislumbrando a possibilidade de tocar exclusivamente jazz. Em 1967 e 1968 apresentou-se continuamente com quartetos e quintetos nos teatros, clubes e universidades do Rio de Janeiro, estendendo suas atuações a outras capitais brasileiras. Ainda em 68 grava o disco "Trajeto", outra raridade nos dias atuais. Ganha maior divulgação no noticiário jornalístico e toca em shows de televisão. Em 1969 foi vencedor do Festival de Montreux, sendo considerado o melhor saxofonista do festival. Seus parceiros foram Salvador ao piano, Hélio Delmiro na guitarra, Edilson Lobo no baixo e Edison Machado na bateria.

A seguir muda-se para os Estados Unidos, onde vai cursar a Berkley School of Music até 1974. Nos Estados Unidos tocou com Dizzy Dillespie, Jeremy Steig, Richie Cole, Clark Terry, Chick Correa, Ron Carter, Bob Mover e outros. Teve oportunidade de escrever arranjos de suas composições para todo tipo de formações orquestrais, ganhando inestimável experiência. Paralelamente, lecionou improvisação em geral na J. D. 5. School of Music, de Boston. Em 1970 passou três meses de férias no Brasil, quando gravou dois LPs: um deles, Victor Assis Brasil toca Antonio Carlos Jobim, que marca sua estréia em discos no sax soprano, foi editado imediatamente. E esse aqui postado, intitulado "Esperanto", aguardou alguns anos para ver a luz do dia. As faixas deste disco são apenas quatro, mas já mostra um músico experiente com uma linguagem jazzística-improvisativa sem precendentes e sem paralelos até nos dias de hoje. Aqui ele já mostra seu lado compositor com um jazz estritamente brasileiro, mas sem aquela marcação característica da bossa e do samba. Além disso é aqui, em Esperanto, que ele inicia o uso do sax soprano em sua obra.

Outros Excelentes Sites Informativos (mais sites nas páginas de mídia e links)