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Entrevista com o crítico musical Carlos Calado: Música Popular Brasileira, Jazz, Black Music e um desnude da mídia impressa.

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Queridos amigos e visitantes do blog Farofa Moderna, até a dois anos atrás eu nunca poderia imaginar que este espaço não-remunerativo pudesse se apresentar como um canal alternativo sinônimo de informação para apreciadores de jazz, música instrumental brasileira e outros tipos de música de qualidade -- tampouco imaginei que, através dele, um dia receberia a possibilidade de entrevistar grandes músicos e profissionais da mídia, nacionais e estrangeiros. Para quem quiser ler nossas entrevistas, basta acessar a página ENTREVISTAS no topo do blog, onde vocês constatarão que já realizamos entrevistas com grandes músicos e jornalistas, tais como o trompetista Christian Scott, o contrabaixista Christian McBride, a cantora Ithamara Koorax, o saxofonista Ken Vandermark e o jornalista Roberto Muggiati e o guitarrista Michel Leme. E agora, trago-vos uma entrevista com o jornalista-crítico-musical Carlos Calado neste mês de setembro.

Tem me sido muito gratificante ter um espaço como este blog, onde, além de constatar uma média de 400 a 500 visitantes diários de vários países, tenho o prazer de constatar, também, que meus textos são lidos por verdadeiros apreciadores (iniciantes e veteranos) e diletantes músicos e jornalistas brasileiros -- com alguns dos quais, diga-se de passagem, mantenho contato e/ou amizade com ótimos diálogos e aprendizados --, pessoas que encaram a música como uma arte necessária para a vida e, mais ainda, como uma arte suprema dentro do rol das sete artes, embora o pobrismo do nosso cenário brasileiro, encabeçado pela ostentação comercial da grande mídia, pouco nos ajude a elevar essa arte ao patamar de sofisticação que ela merece, o que também nos rebaixa em relação a outros países onde a arte, como um todo, é uma das prioridades. Um reclame constante em meus ensaios neste blog é, justamente, contra o pobrismo cultural encrustado na nossa mídia, algo que, em termos de música, chega a beirar ao preconceito e à segregação -- ou seja, se já tivemos uma ditadura política, agora parece ser o momento de questionarmos se não vivemos uma ditadura midiática onde discursos de defesa à democracia e liberdade de imprensa são apenas um disfarce por cima da manipulação: como a maioria da população é desprovida de educação e cultura, o contingente de pessoas que são capazes de reclamar por uma mídia mais sofisticada em termos culturais e artísticos é muito pequeno, o que faz com que essa mídia tenha poderes para escantear verdadeiros artistas e nos enfiar, goela abaixo, aquilo que ela dita como modinha e espetáculo. Sim, claro, o governo tem sua parcela de culpa: se ele investisse mais em educação e no incentivo à cultura -- algo que ele faz, mas não o faz suficientemente, além de ser combalido por corruptos que enriquecem às custas desse investimento --, teríamos um número maior de verdadeiros artistas sendo valorizados e um número maior de pessoas reclamando por um cenário artístico mais rico e sofisticado. Mas convenhamos que, se por um lado devem existir políticas públicas de incentivo à cultura, nunca foi papel do governo financiar ou promover a carreira de nenhum artista -- as vezes que o governo o fez foi, tendenciosamente, para promover a si mesmo. O artista tem que se valer do seu próprio talento, esforço e trânsito no circuito artístico afim de que, em algum momento da sua carreira, ele venha a ser reconhecido: e seria a mídia (jornais, canais de TV e rádio, mercado editorial e, agora, a internet), enfim, a grande responsável por mostrar ao público as novidades que os novos e verdadeiros artistas estão empreendendo; ela é, ou deveria ser, a grande responsável por reconhecer valor aos verdadeiros artistas e apresentar ao público um cenário diversificado onde a sofisticação da arte fosse o termo principal -- é aí onde entra o papel dos jornalistas, dos críticos, dos editores e, em certa medida, da mídia independente via blogueiros mais sérios.


Foi pensando em tudo isso que me deparei com a necessidade de, eventualmente, realizar uma entrevista com um grande profissional que tivesse a liberdade de nos testemunhar todo o descaso em relação à música de qualidade -- principalmente em relação ao jazz, à MPB e à música instrumental brasileira -- que ocorre nos bastidores da mídia brasileira. E para minha surpresa, o cara que encontrei para realizar uma entrevista deste porte foi ninguém menos que o jornalista Carlos Calado, um dos grandes pioneiros da crítica musical relacionada ao jazz e à MPB nas últimas décadas: em recentes diálogos, tivemos o prazer de compartilhar idéias, satisfações e indignações -- e nesses diálogos, o meu maior prazer foi aprender de alguém que é veterano na arte de escrever sobre música! Nesta entrevista, que está num formato mais de um bate papo do que formalmente uma entrevista metódica, Carlos Calado discorre sobre o que acredita e sobre o que já presenciou em três diferentes campos da música: MPB (música popular brasileira), jazz e black music, temas que ele aborda com propriedade tanto em grandes holofotes midiáticos, como os jornais Folha de São Paulo e Valor Econômico, como em seu blog pessoal chamado Música de Alma Negra (um dos blogs que indico aqui em nossa lista de sites); nesta entrevista, enfim, ele fala da sua própria visão crítica, das suas experiências como correspondente cultural em grandes festivais, fala dos descasos que presencia nos bastidores da mídia e do mercado editorial em relação à música de qualidade e da sua esperança de que um dia esse cenário mude completamente para melhor. E ainda no final há uma breve enquete onde o jornalista lista suas preferencias musicais. Leiam!

Entrevista com o guitarrista Michel Leme: A liberdade, o processo e o desafio de sermos nós mesmos...

3 Comentários
...dentro de uma "democracia"
condicionada pela padronização capitalista
      e  segregação midiática...

Caros leitores, como vocês podem ver, eu coloquei marcadores, páginas, abas no topo do blog: e uma delas é a de ENTREVISTAS, onde estarei organizando os links para as entrevistas que vamos realizar daqui para frente -- aliás, já tem várias delas realizadas por mim e pelos colaboradores Leonardo Alcântara e Rubens Akira; entrevistas muito bacanas e sinceras, diga-se de passagem! Já entrevistamos, por exemplo, o improvisador americano Ken Vandermark, a cantora brasileira de renome internacional Ithamara Koorax, o trompetista americano Christian Scott, o contrabaixista americano Christian McBride, o jornalista Roberto Muggiati, o contrabaixista brasileiro Dudu Lima, dentre outras feras relacionadas ao jazz e à música instrumental brasileira. Agora, seguindo com essa empreitada, apresento-vos abaixo uma entrevista com ninguem menos que o guitarrista paulistano Michel Leme, um dos principais mestres da improvisação no Brasil e já considerado, por músicos e críticos, um mestre maior do seu instrumento. Leme, que acaba de completar 39 anos de idade e 20 anos de carreira, acumula uma sucessão de shows e gravações que, hoje, lhe possibilita ter um público próprio, tendo lançado, de 2002 para cá, uma quantidade de cinco álbuns solos: Um Dois Trio (em co-liderança com o contrabaixista Tiago do Espírito Santo e o baterista Cuca Teixeira), Michel Leme Quarteto (2004), Trocando Idéias (lançado em 2005 em co-liderança com o baterista Alex Buck), Michel Leme e a Firma (2007) e o homônimo "5º" (2010), álbum esse que celebra seu quinto lançamento e que foi, inclusive, resenhado recentemente aqui no Farofa Moderna (clicar na tag "Michel Leme" ou acessar a página de "LANÇAMENTOS" para saber mais).

Pois bem, ainda antecedo vossa leitura às minhas perguntas e às respostas de Michel explicitando a satisfação de ter realizado esta entrevista: nela, presenciei um real exemplo de sinceridade -- do artista para consigo e para com as pessoas -- e, sobretudo, de integridade -- do artista para com a arte e para com a sociedade, de um modo geral. O real propósito desta entrevista -- aparentemente curta, mas rica em argumentos gerais -- não é tratar de forma específica a discografia do guitarrista e muito menos falar de música de forma massante, técnica ou conceitual, mas sim explicitar, para todos nossos leitores, alguns ecos sinceros da experiência e responsabilidade que ele adquiriu nesses vários anos de caminhada: sua visão sucinta de arte, de democracia, de liberdade de criação, dos circuitos e do cenário da música instrumental, de mercado e do que venha ser "ousadia" em sua obra, procurando deixar claro suas facetas como instrumentista, professor e compositor. Portando, espero que todos fiquem a vontade com o que o compositor e guitarrista Michel Leme tem a dizer.











Você tem, claramente, uma visão e um estilo um tanto únicos em relação à música – como um todo – e ao modo de tocar guitarra. Qual seu conceito de liberdade, dentro da música? Quais suas inspirações? Você se identifica com alguma vertente da música moderna improvisada, da música instrumental brasileira, do jazz, ou de alguma outra vertente em especial?

Pra alguém ter liberdade tocando é preciso ter bases como saber tocar sobre todos os tipos de acordes, no tempo e na forma, primeiramente. E isso não leva duas semanas, é um processo. E o acúmulo de repertório irá ajudar muitíssimo nessa busca. Muitos têm o ímpeto de tocar livre, mas querem fazê-lo antes da hora e por razões que vão desde o ego inflado até questões de sobrevivência - acham que se "sobressaindo" terão grana e prestígio rapidamente; mera ilusão. Tem muitos rapazotes que chegam pra tocar e falam em tocar um "free", quando, de fato, ainda não sabem sequer tocar dentro da forma de um blues. Por outro lado, após algumas centenas de músicas decoradas, o ímpeto de liberdade começa a se harmonizar com a grande responsabilidade que é tocar em grupo; é a criatividade de cada um agregando valores ao coletivo. Aí, sim, rola música.

Quanto às minhas inspirações, elas vêm de diversas fontes, não só da música. Elas vêm da vida, do convívio com minha família e amigos, e vêm através da apreciação de outras formas de arte como cinema, pintura, literatura etc. Tem muitos caras que ficam "bitolados" em música e acabam ficando confusos, porque ouvem tanto a música de outros que nunca têm o silêncio necessário pra ouvir a música interior.
Quanto a me identificar com alguma vertente musical, não identifico-me com nenhuma em especial, procuro manter a mente aberta pra aprender sempre.

Em conversas com colegas, em amplas entrevistas em jornais, fanzines e sites especializados em música, você sempre diz que, na situação de um músico em constante evolução, é mais enriquecedor pra um guitarrista ouvir articulações e fraseados de outros instrumentistas como, por exemplo, um trompetista, pianista ou saxofonista, do que ficar tentando tirar frases já conhecidas e imitar sonoridades e improvisos de guitarristas já consagrados. Por quê? Na situação de professor, como você norteia o aluno em sua busca por uma identidade própria? O que é mais fácil: o músico encontrar sua própria voz, ou reproduzir a voz dos mestres?

Tem muitos guitarristas bebendo na fonte da visão única, a visão do Capital. Estes são os que saem moldados de algumas empresas da área educacional imitando caras como Pat Metheny (o preferido desta rapaziada), por exemplo. Pessoalmente, sinto uma grande vergonha alheia quando ouço mais um menino usando as frases, as escolhas e até os tiques de outros guitarristas. Logo no começo da minha profissão já saquei que isso é algo patético, uma grande roubada. Por isso fico atento e aberto a todas linguagens musicais com as quais consigo entrar em contato, pra reciclar, pra trazer novos ares ao que toco.
Como professor, procuro fazer o aluno ter as bases que cito na resposta anterior. Assim, naturalmente, as características individuais, únicas, vão aparecendo ao longo da prática.

Respondendo à terceira parte da pergunta, é claro que é mais fácil imitar. Tocar o que você é significa ir contra tudo hoje, onde a padronização é a grande ordem do dia. É um ato de coragem ser você mesmo e é preciso ter estrutura para assimilar as consequências dessa escolha. Se você simplesmente imitar ou se adequar às tendências de mercado, vai ter respostas da sociedade mais rapidamente, porque está fazendo algo em consonância com a mediocridade reinante. Por outro lado, insistir no que é mais verdadeiro implica em estar mais exposto ao erro, assim como implica em entrar num processo dentro do qual as respostas não são mais a prioridade, mas, sim, começar a fazer as perguntas certas. E essa escolha também implica em aceitar não ser o "queridinho" de quem que que seja que esteja inserido no sistema, ou seja, ser você mesmo tocando incomoda muita gente. Imitar ou, pior, adequar-se é para quem almeja estar entre "os mais vendidos" – o caráter dúbio deste termo “vendidos” é um deleite, não acha?

Como você enxerga o contexto atual da música instrumental brasileira? E, sendo um dos principais músicos de São Paulo, como você analisaria o circuito paulista e paulistano dentro do contexto nacional relacionado à música instrumental? Há um movimento – um conjunto de músicos e espaços – animador hoje em dia?

Vejo surgir novos verdadeiros talentos; vejo bares e mais bares fechando as portas para a música; vejo muitos músicos que nasceram com um certo talento se rendendo ao sistema e tornando-se mera mercadoria, fazendo música de elevador para inserir-se; vejo muitos músicos sem o menor talento batendo carteiras sob as poses mais diversas; vejo músicos mais velhos que eu dando o exemplo e tocando por aí, incansavelmente; vejo espaços ótimos para tocar e que têm verba para pagar bons cachês acolhendo apenas uma turminha de mafiosos que fazem uma música morna e excluindo gente que de fato é representativa e faz música; vejo alguns poucos donos de escola abrindo seus auditórios para receber o som instrumental; vejo algumas marcas ligadas à música acolhendo artistas honestos e dando-lhes apoio cultural; vejo outras marcas que só se associam aos batedores de carteira, passando uma imagem distorcida do que é música para a molecada; enfim, tem muita coisa acontecendo, mas não tenho dados para falar do "contexto atual da música instrumental brasileira" de uma forma mais abrangente. Falo sobre o que vejo, e, sob este ponto de vista, digo que a música está acontecendo, especialmente fora dos holofotes da mídia!

Convivo com pessoas que realmente amam a música e que têm consciência do grande processo que é envolver-se com ela. E quando toco, toco com quem toca para a música - não toco pela segunda vez com quem está afim de "fazer o nome" ou idiotices do gênero. Tocamos em lugares onde é possível tocar e sinto que o fogo musical está ali, semana a semana, com um grupo de uns 20 e poucos caras que se revezam – e este grupo está aberto a novos músicos, claro; é só chegar e tocar para o som. Então, no contexto onde atuo, modesto e sem a mínima atenção dos meios de comunicação – com exceção de alguns sites e blogs -, a música instrumental vai muito bem, sim! Só que, por enquanto, está relegada ao gueto. E é legal estar no gueto? Não. Mas estamos tocando onde é possível. E o importante é essa continuidade, essa sequência dos sons; é ela que nos traz lucidez.

Em São Paulo o que acontece é que a maioria dos locais que tem a palavra "jazz" em seus sobrenomes não têm nada a ver com o espírito dessa música. Parei de tocar em diversos bares ao longo do processo por ser roubado no couvert artístico; porque rolou tratamento imbecil por parte de gerentinhos e/ou proprietários; porque alguns locais não tem estrutura física para receber música de fato; porque alguns proprietários querem que você faça música ambiente para conversas de gente mal-educada; enfim, em relação ao circuito de bares ditos de "jazz", o que se vê, infelizmente, é uma conduta de mediocridade galopante por parte dos proprietários. O que nos resta é um ou outro bar onde ainda é possível tocar dignamente, além dos auditórios de escolas de música e afins.

E em relação à classe musical, reparo numa coisa: o diálogo entre as várias "turmas" existentes, ou a"facções" da música instrumental, por exemplo, não existe! Existe muito ranço ainda e uma "escola" de tocar não interage com a outra. Geram-se rótulos, dogmas, “manuais de procedimentos” e, consequentemente, vêm à tona os estranhamentos entre os grupos de músicos e, assim, infelizmente, o gênero instrumental (e a música honesta de um modo geral) perde muito como um todo. É necessário sair de casa pra ouvir as pessoas tocando "in loco"; é aí que se tem a dimensão real das coisas. Só que os próprios músicos, em sua grande maioria, não fazem isso; não saem de casa pra ouvir o que o colega está fazendo. E alguns músicos não saem pra isso porque alegam estar “cansados de música”, talvez por apenas "trabalharem" com algo que chamam música. Aí eu pergunto: será que trabalham com música de fato? Falo por mim: posso tocar 5 vezes na semana, mas, se tenho uma folga, vou assistir som, vou dar canja, enfim, vou abrir a mente! A música não me enjoa, jamais. Então, é necessário saber distinguir o que é música do que é apenas trabalho para sobrevivência. Aí, talvez, a mente se abra pra sacar outras vertentes e a interação passe a acontecer. De um modo geral, não há interação e intercâmbio entre os músicos; só que isso poderia ser o início da (mais do que necessária) união dessa classe.


Voltando ao seu estilo, mas agora abordando sua composição e seu repertório, gostaria de saber como se dá – ou se dão – seus processos criativos. Por que, ao contrário de outros músicos, você não apresenta standards e temas populares em seus discos solos?

Minhas músicas são composições feitas para as pessoas criarem sobre. Elas surgem quando estou estudando algo que preciso estudar ou surgem de inspirações diversas como paisagens, pessoas ou situações. Quando surge a idéia inicial, eu fico tocando muito até a música ir me mostrando o caminho a seguir. Quando mostro a música pros caras que tocam comigo é porque já toquei muito, decorei, e tenho certeza de que ela é gostosa de tocar - mesmo as que têm alguma complexidade (e, complexa ou não, a idéia deve estar clara). Daí em diante, estamos no grande processo que é tocar as músicas e assistir às mudanças que acontecem sobre elas a cada vez que tocamos.

Não gravo standarts ou temas já conhecidos para não ter despesas com direitos autorais. Por um lado, isso incentiva a composição, o que é ótimo; por outro, é chato porque eu gosto muito de tocar os standarts e seria legal ter isso em disco.

Como você bem sabe, é natural o fato de músicos virtuoses e/ou geniais receberem críticas positivas e negativas de apreciadores e críticos especializados. As críticas negativas, nesse caso, sempre se vão contra um suposto desequilíbrio do artista: um exemplo clássico é o trompetista Miles Davis que, em contrapartida à sua genialidade em termos de idéias e arranjos, foi amplamente criticado por sua falta de técnica apurada, de um certo virtuosismo; por outro lado, virtuoses como o trompetista Wynton Marsalis e o guitarrista Stanley Jordan, por exemplo, já foram tratados como tecnocratas, velocistas demais e, por isso, músicos sem sensibilidade. Você, por ser um adepto à espontaneidade e por ser um dos principais virtuoses brasileiros, também recebe ou já recebeu tais críticas? Como você lida com elas?

Das críticas que chegaram até mim o assunto é, na grande maioria das vezes, "o Michel toca notas demais". Talvez algumas pessoas tenham estipulado um limite de notas para a guitarra; talvez eu tenha tocado informações além do que eu estava preparado para responder em algumas oportunidades – ouvi isso em algumas gravações de shows, o que é ótimo, já que reconhecer erros é algo importantíssimo no processo; talvez as pessoas que criticam sejam incapazes ou tenham medo de tocar o que sentem que deveriam tocar; talvez quem critica seja apenas estúpido... Enfim, não sei ao certo, mas fato é que são raras as pessoas que criticam de frente. Na maioria do tempo, criticam pelas costas; são covardes e não se expõem para iniciar um diálogo a respeito, baseado em argumentos. Não tenho problemas com críticas; já aprendi muito por receber críticas de quem eu confio – e sempre foram construtivas, ou seja, o problema foi apontado e algumas possíveis soluções sugeridas. O problema é a crítica leviana, baseada em argumentos pífios e com o puro objetivo de polemizar. Ora, polemizar por polemizar é artifício de quem quer simplesmente aparecer. Mas, enfim, no meio musical, em geral, fala-se muito e toca-se pouco. De minha parte, prefiro tocar e expor-me às eventuais críticas a ficar em casa sem fazer nada para evoluir. Deixemos essa inércia para os críticos.

Vamos falar de mercado. Você demoniza o mainstream e suas padronizações, mas é um músico que tem um público amplo, com apoio de marcas e com um considerável sucesso no mercado independente, nicho que proporciona aos músicos criarem seus próprios estúdios e selos. Essa é a única saída para o músico que quer ter total liberdade sobre sua carreira? É mais difícil, para o músico independente, encontrar mais espaços, patrocínio e apoios?


A música honesta poderia ser amplamente veiculada no mainstream, só que a máquina (mídia, corporações, bancos etc.) quer artistas substituíveis (descartáveis) para ter controle absoluto sobre o que vende; a máquina precisa de peças para repor rapidamente no mercado, e o grande objetivo é o lucro. Agora, imagine um tema meu tocando na abertura de uma novela, por exemplo, e, consequentemente, o público de um programa dominical esperando em suas casas as mudanças que eu e meu grupo faríamos sobre esse tema na hora... Não seria lindo? Só que, obviamente, falar disso nesse momento parece pura utopia, mas, perceba, a própria música não proíbe isso! Quem proíbe é a meia dúzia de burgueses que detém os meios. E o que demonizo é a verdadeira lavagem cerebral que cada indivíduo sofre desde tenra infância e todas as suas funestas consequências. É um massacre ideológico calculado precisamente e que acontece sem cessar, um verdadeiro massacre. Vivemos um Matrix, um Admirável Mundo Novo, um Truman Show. É triste. Mas é melhor saber disso do que continuar dormindo.

Quanto ao que você diz sobre eu ter um "público amplo", não sei. Qual o parâmetro? Note que eu, pessoalmente, estou muitíssimo feliz por constatar que algumas pessoas curtem o som que faço e que, também, ao tocar, toco com a mesma intensidade para 600 ou 6 pessoas. O objetivo não é massificar; é tocar. Só que a proibição que existe em relação a essa música nos grandes meios é algo nefasto. Pegue o guia cultural dos principais jornais de São Paulo do final de semana e veja se você vê alguma data minha publicada, por exemplo. Resposta: não tem! Só que a realidade é outra: só nesta semana, tocarei 6 datas. Não existe democracia, entende? A idéia de sucesso incutida na mente da massa é a porra da Ivete Sangalo lotando o Maracanã; as pessoas não têm mais a noção de que o sucesso está no processo, não se interessam mais em buscar o prazer que há nas minúcias de um som, não ouvem mais as delicatessens da música. O que é veiculado como a visão única de música é o “grande espetáculo do show business”, e tudo que estiver fora disso é, irrevogavelmente, fracasso. E enquanto essa inversão de valores imperar, restará a nós o gueto. Ok, façamos arte onde é possível, mas é preciso que as pessoas saibam, no mínimo, de que existe uma grande censura rolando, um grande controle sobre o que deve ou não ser veiculado. Não é você que escolhe o que vai ouvir; isso já foi escolhido pela visão única! As opções que chegam até as pessoas através dos meios são apenas o que é do interesse destes meios e de quem os banca; são empresas, e empresas visam o lucro, custe o que custar. Logo, para um jornal ou para uma TV, não interessa informar, interessa veicular o que lhes é conveniente, ou, em última análise, o que é conveniente para o controle das classes dominantes – a meia dúzia que manda em tudo - continuar inabalável.

Quanto aos apoios de marcas, isso é algo que nos proporciona bons equipamentos, além de viabilizar lançamentos de produtos como CDs e DVDs (estou com 2 DVDs sendo produzidos no momento) e alguns eventos. Não tenho um puta carro por conta de apoios de marcas, por exemplo – aliás, não tenho um puta carro! Minhas despesas são pagas com as aulas com as quais trabalho no Souza Lima e na EM&T. O que quero dizer é que estou na batalha, e que nada vem fácil.

Respondendo à segunda parte da pergunta, tudo é mais difícil para o músico independente quando se trata de grana. Mas, por outro lado, sendo um artista independente pode-se manter a qualidade do que se lança, além de ser possível manter a integridade de todas as fases do processo, desde a composição até a distribuição de um CD, por exemplo.

Bem... você nos parece ser um cara que continuará sempre jovem no modo e nas reflexões, mas já são 39 anos de idade, 20 anos de carreira, um rítmo de mais de 150 apresentações anuais em espaços especializados ou alternativos, 5 discos próprios e mais algumas dezenas de participações em discos e shows de músicos geniais – jovens e veteranos, brasileiros e gringos -- como Bocato, Bruno Migotto, Alex Buck, Tiago do Espírito Santo, Gary Willis, Michael Brecker, Toninho Horta, Nenê, Lee Konitz, Joe Lovano, entre outros. Como é estar chegando na casa dos 40? Dentro dessa sequência de anos em atividade, há momentos especiais da sua carreira que gostaria de citar?

Acabei de completar 39 anos de idade e digo que não troco minhas condições atuais pelas de 20 anos atrás, por exemplo. Pratico yoga – menos do que deveria, mas pratico -, tenho amigos maravilhosos e venho conhecendo muita gente que acrescenta muitas coisas boas à minha vida. Toco com uns caras que me ensinam muito a cada vez, e sou agradecidíssimo por tudo o que a música me dá. E dizem que a vida começa aos 40! Então vou curtir essa ‘gestação’ dos 39 até lá, assim como venho curtindo todo o processo.

Quanto aos momentos especiais, eles estão em franca continuidade agora! Acesse a minha agenda e apareça num som; as coisas estão rolando com os caras mais novos e também com alguns amigos de mais de década que ainda mantém a mente lúcida e pró-som. O passado me traz lembranças ótimas, muito aprendizado e emoções aos montes, claro; mas meu foco é no presente.


Todos seus discos – Um Dois Trio, Michel Leme Quarteto, Trocando Idéias e o Michel Leme e a Firma – apresentam facetas interessantes em diversas formações e, principalmente, no que diz respeito à sua visão de improvisação e interação entre os músicos. Mas é no seu disco intitulado 5º (“Quinto”), do qual já falamos aqui no Farofa Moderna, que você sai da normalidade das formações ao usar guitarra, baixo e duas baterias, tendo que mostrar uma guitarra ainda mais forte frente a massa percussiva. É um sinal de que você chegou num ponto da carreira onde irá se arriscar por caminhos menos trilhados, por novos desafios e experimentos ou essa ousadia foi algo que surgiu independente de qualquer plano de carreira?

O que você e outras pessoas chamam de "ousar", "arriscar" ou "experimentar", eu chamo apenas de continuidade. E não existe o tal "plano de carreira" para mim. Simplesmente estou atento à música e lutando pra ficar cada vez mais em sintonia com a divina, pra tocar o que é realmente preciso tocar no momento. Cada disco é um registro de uma fase, e o “5°” é um disco que vem recebendo ótimas críticas de todos os lados, mesmo com essa formação menos usual com os dois bateras. Acredito que isso seja um sintoma de que a honestidade ao tocar ainda cativa - mais uma razão para seguir em frente e fazer o que acredito ser o mais verdadeiro, sem concessões.

Tocar é estar em solo sagrado. Então, recomendo a todos que façam o que realmente amam fazer e com a maior lucidez possível para não ser tragados pelo modo de vida estúpido que nos é impelido, totalmente ilógico, abjeto, desumano. Paguemos as nossas contas e, depois, façamos o que amamos fazer – longe da lógica da mercadoria, que é totalmente ilógica.

Muito obrigado pela oportunidade e longa vida ao Farofa Moderna!
Um grande abraço a todos que nos lêem,

Michel

Entrevista - Melissa Walker & Christian McBride: a conexão entre músico e cantor e o desafio de "jazzificar" o pop moderno!

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Entrevista: Vagner Pitta & Luís Delcides
Fotos: Mila Maluhy & Luís Delcides


Seguindo com mais uma das entrevistas que realizamos com os músicos presentes na 3ª edição de Brigestone Music Festival, ocorrida de 19 à 22 de Maio de 2010, apresento-vos as respostas da cantora canadense Melissa Walker e do seu marido, o já legendário contrabaixista norte-americano Christian McBride. Melissa, na condição de cantora benquista pela crítica, e McBride, como um dos contrabaixistas mais requisitados das últimas décadas, nos falaram sobre o porquê de ser tão comum o fato dos músicos e cantores de jazz abastecer seus repertórios de canções da música pop, haja vista que o show daquela noite não seria pautado apenas por standards antepassados, mas por canções do pop moderno, entre elas, por exemplo, “Don't Give Up”, de Peter Grabriel (um dos cérebros da banda de pop e rock progressivo Gênesis, antes de seguir carreira solo) –- isso, segundo eles, é um dos elementos inerentes à própria tradição e cultura do jazz. Além disso, o casal também explicitou suas impressões sobre a música e o povo brasileiro, bem como falaram de algumas das suas influências –- Melissa até nos adiantou que cantaria “Flor de Lis” de Djavan, o que ocorreu, de fato, sem a pegada do nosso samba, mas com graça e requinte. Na verdade, a entrevista beirou a um bate papo descontraído, apesar de ter sido realizada num período apertado, de mais ou menos vinte minutos. Christian e Melissa foram super simpáticos e víamos que eles se sentiam a vontade conosco ali nos estofados do camarim. Melhor assim.

Após apresentações formais, Christian não deixou de notabilizar a presença do gaitista Gregoire Maret junto à sua banda naquela noite, já que a formação do seu quinteto, o Inside Straight, não pôde estar presente com ele dessa vez aqui no Brasil. Ele disse: “Você conhece esse cara? Esse cara toca Charlie Parker na harmônica como ninguem”! Tímido, o gaitista apenas deu um sorriso modesto e acompanhou a entrevista quase todo tempo calado. E de fato, a presença de Maret no show foi um adendo mais do que especial: algumas pessoas com as quais conversei lá no evento, e outras com as quais troquei mensagens no Twitter acharam que sua performance superou até mesmo a presença da cantora, Melissa Walker – quando, na verdade, seus solos deveriam ser apenas um complemento. A cada solo efusivo – com vôos que pareciam querer romper os limites do pequeno instrumento – a platéia presenteava Maret com aplausos mais do que calorosos.

O companheiro jornalista Luis Delcides, também presente na entrevista, havia sido o contato pela produção do Bridgestone naquele mesmo dia para fazer toda uma correria atrás de um contrabaixo elétrico de confiança que atendesse às recomendações de McBride. Atuante no segmento de Assessoria de Imprensa, Delcides explicou ao contrabaixista como funcionou a “correria”: uma busca em sua agenda, contatos via telefone, e-mail, Twitter e Facebook com alguns dos maiores contrabaixistas paulistanos, entre eles Bruno Migotto, Nino Nascimento e Arismar do Espírito Santo. Por fim, o legendário Arismar foi quem emprestou seu experimentadíssimo instrumento ao contrabaixista americano. McBride, por sua vez, agradeceu Delcides e elogiou todo o empenho da produção.


Segue, abaixo, a entrevista:

Qual são as impressões e expectativas de vocês em relação ao publico brasileiro? É a primeira vez que vocês vem ao Brasil?

Melissa Walker: É minha segunda vez. Chris já veio ao Brasil três vezes. Na verdade, aqui em São Paulo é primeira vez. A primeira vez que vim ao Brasil foi em 98, através do consulado americano. As pessoas aqui são muito alegres e gentis. Na época que fiz turnê aqui, era a época do campeonato mundial de futebol – Copa do Mundo que o Brasil ganhou --, e fiquei impressionada com a festa gigantesca que presenciei aqui, pois parece maior que qualquer festa que já presenciei nos EUA. Passei por Vitoria, Rio de Janeiro e Amazonas. Mas nessa época eu ainda não conhecia e não era casada com Chris (risos).

É sabido que, além de líder de banda, você tem muita experiência em acompanhar cantoras e cantores. Qual a diferença entre acompanhar cantores e tocar música puramente instrumental?

Christian McBride: São muitas. Acompanhar cantores exige grande sensibilidade e dinâmica. Mas o que eu tento fazer é trazer pra atualidade a tradição dos grandes contrabaixistas -- como Ray Brown, por exemplo --, que escutavam os cantores e os considerava como parte da banda, como se fosse mais um instrumento, mais uma voz da banda do que algo à parte dela -- por essa prática, aliás, Ray Brown foi um dos mais requisitados contrabaixistas da história. Percebo que em algum momento da história da música essa conexão forte entre cantores e a banda passou a inexistir ou já não existe de forma tão integrada como era antes, pois hoje em dia ou os músicos se colocam à parte ou o cantor se coloca distante da banda, como algo superior. Não tem sentido isso, não sei como isso foi acontecer...

Na década de 1980 e 1990 presenciamos uma geração de jovens que tiveram como ênfase estudar as tradições do jazz.Você é um dos principais contrabaixistas das últimas décadas e tem lançado interessantes discos de vertente contemporânea. Quais as tendências do jazz neste inicio de século?

Christian McBride: Não acho que dê pra segmentar, agora, todas as tendências do jazz – é uma tarefa para depois. E também, as tendências variam de lugar pra lugar. Mesmo nos EUA não há uma tendência dominante: New York, San Francisco, Chicago, New Orleans... -- nesses lugares há um grande público de jazz e as tendências variam conforme a cultura de cada região. Há tendências que surgem em outros países também. No Brasil mesmo há um público considerável de jazz. A bossa nova foi uma das grandes tendências nos anos 60, por exemplo. Todo músico de jazz passou a ser influenciado pela bossa nova.

Vocês gostam da música brasileira? Gostam de algum músico brasileiro em especial?

Melissa Walker: Sim gostamos muito da música brasileira. Gostamos de Ivan Lins, Milton Nascimento, Djavan e muitos outros...Christian tocou com Ivan Lins há dois anos atrás e também tocou com Tom Tobim dois meses antes dele falecer. Eu, particularmente, adoro a música de Djavan. Lembro quando ele estourou, quando o sucesso dele chegou na América: foi um grande impacto para mim; achei uma música linda, de um lirismo impressionante.

Gregoire Maret: Eu acho impressionante o lirismo da música brasileira. Como eu toco harmônica, um instrumento lírico, esse é um dos fatores que mais me inspiram...

Christian McBride: Wow, man, Tom Jobim! Lembro desse show com Tom Jobim. Foi um show no Carneggie Hall com vários músicos em homenagem ao 50 anos de aniversário da Verve Records. O contrabaixista convidado era Charlie Haden, que não pôde estar presente em todas as faixas. Pat Metheny, então, me convidou para uma curta substituição. Dois meses depois ele faleceu: foi um grande choque. (partes desse shows foram compilados no excelente disco Carnegie Hall Salutes The Jazz Masters: Verve 50th Anniversary)


Seus repertórios contém temas da música “pop”. Há uma tendência dos cantores e músicos de jazz atualizar o repertório do jazz inserindo temas de outros gêneros? Por quê?

Melissa Walker: Acontece que o jazz sempre foi popular. Os cantores e músicos de jazz escreviam para a Brodway e muitos temas de cantores e compositores populares também viraram standards do jazz. E até hoje essa conexão não acabou. Ella Fitzgerald é pra mim um grande exemplo: ela cantou inúmeras canções populares que não foram escritas por músicos de jazz – de Beatles à Tom Jobim.

Então, pop é só uma questão de rótulo? Assim como os músicos de jazz usavam temas populares de Cole Porter e Irving Berlin, é natural vermos temas do pop contemporâneo no jazz?

Christian McBride: Sim...veja... Cole Porter, Frank Sinatra, Stevie Wonder, Irving Berlin, Harold Arlen, Beatles, Sting, Peter Gabriel...todos foram ou são “pop”. Assim, como os músicos de antigamente, temos nossas referências na música popular atual e a usamos, traduzimos para nossa linguagem...

Melissa Walker: Na verdade, sabemos que desde o início o jazz também se baseava através de elementos populares que não são do jazz, propriamente dito, mas que foram traduzidos para nossa linguagem. E fazer isso não é fácil: isso sempre será um desafio.

O seu ultimo disco, Kind Of Brown, é uma paráfrase do Kind of Blue de Miles Davis ou uma homenagem ao contrabaixista Ray Brown?

Christian McBride: Ao contrario do que alguns críticos estão dizendo, meu ultimo álbum não faz uma homenagem exclusiva ao Ray Brown, nem à James Brown e nem parafraseia o Kind of Blue do Miles Davis: não foram essas as intenções. Mas lógico que Ray Brown é uma referência importante: não só pra mim, mas para todos os contrabaixistas. No meu caso, Ray Brown foi pra mim mais do que uma grande influencia, foi um mestre, um amigo pessoal com o qual toquei e convivi (no projeto Super Bass, principamente, com o também contrabaixista John Clayton).

Curiosidades: para quem quiser saber mais sobre a biografia, discografia e ouvir faixas da cantora Melissa Walker e do contrabaixista Christian McBride, clique nas imagens e acesse seus respectivos sites. Acesse também resenha em português, aqui do Farofa Moderna, sobre os excelentes lançamentos de McBride.


Bridgestone Music: Podcast & Entrevista com o trompetista Christian Scott – O "new jazz" e a necessidade de uma mídia atuante...

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Por Vagner Pitta & Luís Delcides
Fotos: Mila Maluhy
O apoio que a MTV deu à iniciativa do Blog Farofa Moderna em 2009 e 2010, nos proporcionou muitos bons frutos:  além da credencial para conhecer e entrevistar músicos, documentar shows e estar antenado com o cenário e os bastidores, tivemos o privilégio de divulgar essa forma de arte chamada jazz para mais pessoas interessadas, as quais, antes, só tinham ouvido falar de um ou outro panteão de ouro – Miles Davis, por exemplo, sempre foi o músico mais superestimado na mídia mundial e, portanto, o mais conhecido pelo público em geral. Pois bem, essa galera “mais esperta” (constituída, em sua maioria, de jovens que vão de adolescentes a pessoas na casa dos 40 anos de idade), que usa a internet para conhecer meios alternativos de arte – como o jazz e a música instrumental brasileira –, agora tem a oportunidade de estar antenada não só com a história do jazz, mas principalmente com o jazz contemporâneo: o som feito pra nós e com as características populares do nosso tempo, já que o jazz é nada mais do que uma música-arte que desde sempre se baseou na cultura popular americana – hoje juvenilmente entendida como a “cultura pop”, o cerne principal da MTV. E no primeiro dia do Brigestone Music Festival, acontecido de 19 à 22 de Maio de 2010, eu e o fotógrafo-jornalista Luiz Delcides, responsável pelo site de eventos Paulicéia do Jazz, conversamos com o trompetista Christian Scott, um dos novos músicos adeptos à tendência de fazer um “novo jazz”, onde as influências da cultura pop e da chamada música urbana (o neo-soul, o hip hop, a música eletrônica) são os elementos principais.


O Bridgestone Music e a Mídia

É sempre maravilhoso escutar um swingão, um hardbop dos anos 50 com solos transcendentais de John Coltrane e Lee Morgan “quebrando tudo”! Mas esse som, que antes era antenado com a soul music e a cultura popular da sua época, já está eternizado na história do jazz, enquanto o jazz atual, repleto de músicos excepcionais e inovadores, precisa de mais atenção na grande mídia para que mais pessoas cheguem até ele. E o festival Bridgestone Music, se não tivesse sido interrompido em 2011, já se configuraria como um dos mais importantes eventos do gênero na América Latina, um evento de nível internacional patrocinado pela Bridgestone Brasil, que foi idealizado para não deixar o público brasileiro de “mãos abanando” em termos de jazz contemporâneo: tanto que o requinte, o sucesso e o clima de ineditismo com os quais essa terceira edição se realizou, só evidenciaram que no Brasil há, definitivamente, um público ávido, uma demanda por esse tipo de música. Mas os canais midiáticos ainda precisam atualizar esse público. Aliás, em se tratando da mídia como um todo, da mesma forma que canais do pop e rock – como a MTV, por exemplo, – já não vêem mais lógica em falar do rock’n’roll de Elvis Presley e Beatles mais do que falam de bandas de rock contemporâneo como Radiohead e The Libertines – a não ser em um ou outro programa ou documentário especial –, os divulgadores mais reacionários do jazz aqui no Brasil deveriam “cair na real” e parar com a repetição de falar sempre e sempre e sempre do jazz de 50 anos atrás, de jazzistas como Miles Davis, John Coltrane, Billie Holliday e etc. No jazz, mais do que em qualquer outro gênero musical, é importantíssimo nunca se esquecer dos mestres e da história, mas os divulgadores deveriam ter, pelo menos, um equilíbrio em mostrar tanto a tradição quanto o atual, pois o jovem também quer conhecer a música da sua época, a música que tenha sua cara, a música que sintetize seu atual contexto social; e os novos músicos e as novas bandas, por suas vezes, precisam formar seus públicos. Esses divulgadores deveriam, portanto, mostrar mais bandas e músicos do jazz contemporâneo, pois o que presenciamos na mídia especializada em música no Brasil é que ou ela nunca fala de jazz ou, quando fala, é sempre sobre o jazz dos anos 50 e 60, enquanto novas bandas e novos músicos que estão mudando a cara do jazz nos últimos anos ficam à mercê, são desprezados. Atualmente, aliás, quem faz esse papel de informar previamente as pessoas sobre o jazz contemporâneo é a internet: os poucos sites, blogs e portais que constituem a chamada “mídia alternativa”, onde as pessoas mais curiosas acabam encontrando arte e cultura de qualidade. Mas há, com a tendência da plena inclusão digital no Brasil, uma demanda crescente de pessoas que gostam de jazz – ou que estão procurando conhecê-lo – e querem estar por dentro, sim, do que anda acontecendo atualmente com essa música que é um fenômeno mundial. E foi exatamente o resultado desse paradigma que presenciamos na terceira edição do excelente e extinto Bridgestone Music Festival, acontecido do dia 19 ao 22 de Maio de 2010 no bairro de Moema, em São Paulo: só uma minoria – digamos que 1/3 da galera – conhecia, efetivamente, o som de Christian Scott, Don Byron, Dave Holland, Jason Moran, Christian McBride e outros músicos presentes no evento; a grande maioria das pessoas que foram prestigiar o festival até tinham a informação de que aquele evento acabava de lhes dar a oportunidade de presenciar importantíssimos músicos do jazz contemporâneo, mas elas não tinham nem idéia de como se configura o jazz atualmente – muitas nunca nem tinham ouvido tais músicos, e outro tanto delas, movidas pelo glamour do evento, estavam ali em sua primeira audição “live” em relação à uma banda de jazz. O festival, em si, foi um sucesso: o organizador acertou na escolha de músicos criativos, grandes portais e jornais – como o Estadão, Folha, Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, Radio Eldorado, MTV e o Portal UOL – o divulgaram, os ingressos foram bem procurados, a produção foi excelente e pontual nos bastidores e o público, mesmo os que não conheciam tanto o jazz, mostraram entusiasmo nos shows, o que mostra que as pessoas não precisam ser ricas ou intelectuais pra começar a ouvir e curtir jazz. Mas é óbvio que depois do evento, ao fazer nossas reflexões, concluímos que se a mídia brasileira já tivesse o hábito de divulgar mais a música instrumental que anda acontecendo – mesmo que ocasionalmente –, o público do jazz e da música instrumental brasileira seria bem maior e bem mais informado. Pessimista com essa situação, um colega, o músico Rubens Akira, chegou a dizer que muitas pessoas chegaram ali no Bridgestone Music achando que iam ouvir algo parecido com aquele tipo de música divulgado na excelente série/ coleção “Clássicos do Jazz” do Jornal Folha de São Paulo, porque o ultimo grande feito da mídia com relação à divulgar o jazz massivamente foi, justamente, esse tipo de série promocional que a Folha lançou alguns anos atrás, e muitas pessoas ali presentes acharam que iam compreender aqueles sons simplesmente por terem uma coleção de clássicos do jazz em sua estante . Exemplo: não fossem os críticos, os blogueiros e os divulgadores mais antenados, poucas pessoas seriam capazes de enxergar as influencias de Miles Davis no som de Christian Scott apenas por ter adquirido o CD dessa coleção que vem com um encarte e uma compilação de temas do mítico trompetista. Mas se por um lado a Folha lançou essa coleção promocional sobre os mestres do jazz – com CD’s de Miles Davis, John Coltrane, Art Blakey, Chick Corea, John McLaughlin, Herbie Hancock e etc –, por outro lado em seu editorial o jazz e a música instrumental brasileira não têm nenhum espaço regular ou ocasional, a não ser quando um ou outro jornalista mais antenado resolve usar o rodapé do jornal para registrar o óbito de algum músico representativo ou quando há um evento anual, há algum festival importante, como aconteceu com o Bridgestone: aí nosso colega, o jornalista Fabricio Vieira ou jornalistas veteranos do porte de Roberto Mugiatti, por exemplo, têm a oportunidade de usar um pequeno espaço no caderno Ilustrada ou do caderno de cultura do Estadão pra tratar o jazz com o devido respeito e atenção que ele merece. Resultado: como o Estadão, a Folha, a Abril e todos os grandes veículos jornalísticos segregam a música instrumental contemporânea, documentando apenas o sertanejo, o pop e rock internacional, a maioria do público do jazz só conhece bossa nova (porque essa ainda é divulgada ocasionalmente como se fosse a ultima cereja da cultura e canção brasileira), o jazz produzido nos anos 40, 50, 60 e o fusion comercial dos anos 70 – como se o jazz contemporâneo e a música instrumental produzida no Brasil nessas últimas décadas fossem algo inferior ou não merecessem nenhuma atenção. Se em São Paulo há esse descaso, nesse sentido os cariocas interessados em música instrumental – ao menos os que lêem jornal – têm o privilégio de estarem antenados através da coluna dominical que o jornalista Luiz Orlando Carneiro – também um dos presentes no Bridgestone – mantém no Jornal do Brasil, onde são divulgados novos discos, novos músicos e novos acontecimentos do jazz em território nacional e internacional. Já para os visitantes do Blog Farofa Moderna, não existe esse problema, pois em três anos de existência, e agora com o apoio da MTV, conseguimos atingir a meta de ser um espaço alternativo para pessoas que gostam de jazz: e nossa meta tem sido alcançar a excelência em informar os apreciadores sobre o que anda acontecendo no jazz contemporâneo – tanto, que músicos como Christian McBride, Dave Holland, Jason Moran, Don Byron e Uri Caine, todos os presentes no Bridgestone Music 2010, já vinham sendo mostrados aqui a bastante tempo.


Entrevista com Christian Scott


Ao encontrarmos com o trompetista Christian Scott, após o ensaio para a passagem de som, falamos do Blog Farofa Moderna e do site de eventos Paulicéia do Jazz. Falamos de como o jazz era visto como uma musica elitista no Brasil. Ele, curioso, por se tratar de um blog ligado à MTV: disse que divulgar aos jovens, independente de classes, era o caminho. Eu disse que fazíamos nossa parte e estávamos dando uma pequenina contribuição, oferecendo 80 ingressos gratuitos para os visitantes do blog Farofa Moderna e do Portal MTV através de um concurso cultural. Ele elogiou nossa iniciativa e disse que “gostaria muito de conversar com essa galera” (os ganhadores dos ingressos). A entrevista com Christian e seu quinteto – composto por jovens de 20 a 27 anos – começou em tom de conversa, já que eu estava sem o equipamento de gravação. Já no camarim, o jornalista Luiz Delcides nos apresentou e deu às boas vindas aos membros da banda. Minha primeira observação foi a respeito do curioso design do trompete de Christian, que ele mesmo nomeou como “Katrina” (em alusão ao tsunami que devastou New Orleans em 2005): ele disse ter se inspirado no trompete de Dizzy Gillespie, mas o design era dele mesmo. Também perguntei de onde vinha aquele sopro intimista, quando ele sopra suave, a maioria das vezes com surdina, e sai “ar” e “som” juntos (conferir isso na balada “Isadora”): ele me disse que essa técnica de sopro se chama “whisper” e o primeiro músico a desenvolvê-la foi, curiosamente, o trompetista Clifford Brown – depois, Miles Davis seria um dos grandes adeptos. “Por falar em Clifford Brown, quais os trompetistas que lhe influenciam? Miles Davis seria o principal deles”? Christian me disse que não gostava dessa palavra “influência”, pois a achava “perigosa”, tendenciosa; disse-me que eles não queriam ser vistos como uma “influência” de algo já estabelecido, mas queriam ser vistos como eles mesmos. Retifiquei-me, substituindo a palavra “influência” por “inspiração”. Ele sorriu e disse-me: “Ah ok, ok, essa palavra é bem melhor...bem, não só Miles Davis me inspira, mas também Dizzy Gillespie, Clifford Brown e Booker Little – você conhece Booker Little? Antes que eu respondesse, Christian olhou para o baterista e disse: “Pergunte algo à esse cara; ele é o grande cara da banda, ele é a nossa grande influência” – todos eles deram risadas quase em tom de algazarra. Perguntei ao baterista Jamire Williams qual musico da história do jazz o inspirava e também perguntei, descaradamente, onde estava o “swing” da banda e a resposta foi: “Não ligamos pra essa coisa de swing, cara! Mas um cara que me inspira é o baterista Baby Dodds”. Fiquei curioso pelo fato dele citar um dos primeiros grandes bateristas do jazz: Baby Dodds. Em seguida, para provocar mais ainda eu lhes joguei a máxima: “Mas o Wynton Marsalis diz que jazz sem swing não é jazz”. Christian Scott olhou para os companheiros, todos olharam pra ele desconfiados e deram risadas quase em tom de algazarra, outra vez. Christian virou pra mim e disse: “Ok, man! He said that...voce conhece Louis Armstrong? Voce conhece Kid Ory? Eles foram músicos do início, anos 10 e 20, quando essa música já se chamava jazz, e no som da época deles ainda não tinha o swing. O swing foi um elemento que surgiu depois; então não precisamos ter esse “swing” pra sermos rotulados como músicos de jazz”. Falei que conhecia, sim, Louis Armstrong e Kid Ory e aproveitei, para perguntar se ele, por nascer em New Orleans, se sentia influenciado pela tradição dos trompetistas da cidade e pela riqueza cultural que sempre existiu por lá: “Sim, de certo modo fui influenciado, pois nasci em New Orleans e meu tio (o legendário saxofonista Donald Harrison) e meu pai, Clinton Scott, eram músicos, saxofonistas. Mas apesar de ter tido educação musical em casa, nós não tínhamos muitas condições; após a high scholl tive que me mudar de New Orleans para estudar na Berklee School of Music em Boston e, depois, para Nova Iorque para tentar ganhar algum dinheiro; por isso não me vejo como um músico representante de um lugar só.” Em seguida, perguntei sobre a concepção da banda: “Vocês usam batidas de hip hop e elementos do rock e da música pop, como, por exemplo, a canção “The Eraser”, de Thom Yorke (vocalista do Radiohead), umas das faixas do seu último disco Yesterday You Said Tomorrow. Isso é uma tendência ou uma tentativa de deixar o som mais acessível aos jovens? Qual o contexto da banda?”O guitarrista Matthew Stevens tomou a frente para explicar: “Nós não estamos preocupado com os rótulos; queremos apenas fazer a música que tenha a ver com nosso contexto, por isso usamos tais elementos, pois crescemos ouvindo rock, pop e hip hop, mas nada disso importa mais do que nossa música”. Christian Scott, por sua vez, emendou dizendo: “Cada músico da banda é também compositor, e eu escrevo a maioria das músicas. O que importa pra gente é a improvisação, é criar nossa música com a nossa história”. Em seguida falei que os pianistas Robert Glasper e Aaron Parks pareciam trilhar o mesmo caminho. Perguntei pra eles o que eles achavam do jazz dos últimos anos: eles disseram que não se interessavam pelo jazz dos outros músicos e que tinha muito “lixo” acontecendo; disseram que não iam opinar sobre outros músicos, que podiam falar apenas da música deles e que eles nem gostam tanto de ouvir o jazz produzido nessas ultimas décadas, preferiam ouvir outros estilos de música (bandas pop, hip hop e etc). Perguntei ainda ao Christian: “Se você pudesse dizer algo para os jovens brasileiros, para que eles ouvissem mais jazz, o que você falaria? Christian apenas me disse: “Não falaria nada, pois, se eu falasse, eles não iam obedecer – os jovens não obedecem imposições –; o que podemos fazer é apresentar nosso som e deixar que as pessoas escolham ou não escutar nosso jazz”. O jornalista Luiz Delcides encerrou a entrevista perguntando quais músicos brasileiros eles gostavam: Christian Scott citou Seu Jorge; o guitarrista citou Romero Lubambo e “um músico branco de cabelão até os ombros”. Perguntei: “Seria o Hermeto Pascoal?”. Ele disse: “Yes, yes, he is a genius; he is too crazy, man”! Luiz Delcides os alertou para o fato de que Hermeto Pascoal estaria em São Paulo na semana seguinte fazendo apresentações em uma das unidades dos Sescs da cidade. Eles lamentaram dizendo que não poderiam vê-lo porque teriam que ir direto para Nova Iorque. Saímos de lá com a seguinte conclusão: enquanto esses músicos, jovens, querem fazer um som atual, necessariamente rebelde, e querem virar a página dos anos 80 e 90, nós brasileiros ainda estamos focados no jazz dos anos 60...


Christian Scott Quintet: o Show

jO show de Christian foi estupendo. Esteticamente, já sabíamos que as inspirações no acid jazz, no fusion, no pop e hip hop lembram a ultima fase de Miles Davis, só que a sonoridade acústica, a interatividade dos músicos e a quantidade de improviso afastam-nos da possibilidade de acharmos o jazz do Christian Scott Quintet uma música de teor estritamente comercial, como foram alguns projetos da fase pop de Miles. E no show, imperou a arte. As baladas encantaram os mais serenos. Lampejos de funky, hip hop e texturas do pop e rhythm’n’blues ficaram evidentes, mas ficou óbvio para o público, principalmente aos que já conheciam a banda ou algo de jazz contemporâneo, que a concepção ali era transformar esses elementos em algo estritamente instrumental, algo estritamente jazzístico e contemporâneo -- algo que os críticos norte-americanos ja rotularam de "New Fusion". Mas os temas e os improvisos foram totalmente acessíveis às pessoas, apesar da estética contemporânea. Enquanto solista principal, o trompetista Christian Scott não foi aquele improvisador de sequências abruptas de notas ou de fraseados intrincados – algo que, realmente, não é sua característica –, mas seus solos, a maioria composto por notas longas e melódicas, se limitaram à ditar dinâmica da banda: ditando quando que ela poderia soar mais suave e ou com mais intensidade. A influência de Miles Davis no uso da surdina, no registro médio e no uso de escalas ficou evidente no trompete de Christian; mas ele também mostrou quase a capacidade de um Dizzy Gillespie no quesito de atingir as notas mais agudas com uma sonoridade forte e penetrante, momentos esses onde os músicos atingiram um certo clímax e a platéia os presentearam com palmas efusivas. O baterista Jamire Williams era o que dava a intensidade sonora junto ao trompete de Christian: sua bateria era ritmicamente carregada e conseguia evidenciar os ritmos citados, sem impor um groove ou um swing repetitivo. Já a função do guitarrista Matthew Stevens foi “temperar” a banda com uma textura mais “elétrica” e “rocky”, sutilmente psicodélica em algumas partes. Quanto ao repertório, composto quase inteiramente por composições próprias, os destaques foram os temas K.K.P.D, onde o baterista aplicou uma explosiva introdução, e a bela balada “The Eraser” (canção de Thom Yorke, da banda Radiohead). Porem, em determinado momento, Christian incitou os colegas a tocarem algo no ritmo do bebop, puxando um tema de Miles Davis, “Milestone”, o que provocou uma salva de palmas na platéia – aí o trompetista realmente impressionou com frases mais cheia de notas, uma certa dose de bop virtuosístico. Em suma, o Christian Scott Quintet impressionou os que não os conheciam e superou as expectativas de quem já tinha adquirido seus discos. Não foi um show de exibicionismo técnico. Foi um show de mais dinâmica, mas com muitos momentos de êxtases. Foi uma das mais aplaudidas entre as oito bandas que participaram da 3ª edição do Brigestone Music. Para quem não foi ao show e quer conhecer o som do Christian, só acessar o link abaixo e ouvir um podcast no Blog Farofa Moderna do Portal MTV.





O lema: jazz para todos os gostos e ao alcance de todos... O livro: Jazz ao seu Alcance.

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Que o jazz no Brasil cresceu e estar a crescer com a inclusão virtual, disso nós não temos dúdiva. No entanto, muitos mitos, preconceitos e tabus precisam ser quebrados a respeito dessa música de origem norte-americana que se renova a cada geração e se expande pelos arredores do mundo: entre eles a idéia de "que jazz é uma música de elite ou de que jazz é uma música dificil de ouvir que só músicos são capazes de apreciar". Aqui no Brasil, um dos caras que está ajudando a "descomplicar" a apreciação ao jazz é o jornalista paulistano Emerson Lopes, editor do eficiente site Guia do Jazz, produtor e apresentador do Podcast Jazzy, no Portal do Estadão. Desde 2001, Emerson edita o Guia do Jazz no Portal Sobresites: lá existe uma compilação de sites de jazz, blogs, rádios, podcasts, dicas de CD's, dicas de DVD's, dicas de revistas e muitas outras curiosidades para oa iniciantes e amantes do jazz que querem ficar por dentro das mais variadas formas do gênero. O trunfo, aliás, é Emerson ter reunido todas essas dicas em portugues -- já que antes, a maioria das informações a respeito do jazz estavam disponíveis apenas em ingles e em sites que o internauta brasileiro -- principalmente o ouvinte iniciante -- dificilmente encontraria sem a ajuda de um guia. Pois bem, o Guia de Jazz cresceu e a dois anos atrás Emerson teve a idéia de transformá-lo em livro. Sim, dois anos se passaram até que Emerson juntasse toda a informação coletada, coletasse mais material, fizesse entrevistas com personalidades da mídia que têm ou tiveram experiência ampla com o jazz, formatasse todas essas informações para a forma de livro, bem como vencesse as dificuldades econômicas e os embaraços do mercado editorial para encontrar uma editora que se interessasse pelo projeto. No segundo semestre de 2009, então, Emerson Lopes lança o livro Jazz ao seu Alcance. Com uma abordagem despreconceituosa do jazz, o livro traz vários capítulos organizados por temas que serão de grande valia para os que estão começando a ouvir jazz e para os que já são fãs a algum tempo do gênero mas querem ampliar seus horizontes. Para comprar o livro Jazz ao seu Alcance clique na imagem acima e adquira direto da Editora Multifoco. O livro também poderá ser encontrar na Livraria Cultura. Clique no link a seguir para saber mais detalhes do livro ou para falar diretamente com Emerson Lopes: http://nosreme73.multiply.com/reviews/item/59



Considerando que Emerson é um dos leitores assíduos do Farofa Moderna e um parceiro na causa da divulgação do Jazz, é um prazer trazer mais essa dica especial para todos que passam por aqui. Indagado sobre a possibilidade de mostrar esse projeto, mandei-lhe uma entrevista curta e direta: nela o jornalista fala do Guia do Jazz, do livro Jazz ao seu Alcance e da antiga sua experiência como vendedor de discos em grandes lojas da capital paulistana, deixando suas impressões sobre o jazz, os mitos e preconceitos relacionados ao gênero e sobre o impacto dos downloads compartilhados na internet. Leiam e comprem o livro!


Vagner Pitta: Como foi sua aproximação com o jazz e como foi o processo de se tornar um dos divulgadores do gênero no Brasil?

Emerson Lopes: O jazz apareceu naturalmente, sem traumas ou imposições. Não fui atrás dele. Quando percebi, já estava escutando alguns músicos da gravadora GRP, como Lee Ritenour, Dave Grusin, Acoustic Alchemy e Chick Corea Elektric Band. Em seguida comecei a me interessar pelos jazzistas mais tradicionais e a procurar mais informações. A criação do Guia de Jazz foi um acaso. Encontrei uma nota no jornal Folha de S. Paulo sobre o portal SobreSites. Eles procuram editores voluntários para desenvolver guias com endereços de sites sobre “qualquer” assunto. Na época, estava desempregado e tinha tempo suficiente para fazer “qualquer coisa”. Achei a idéia interessante e resolvi tentar. A escolha pelo tema jazz foi resolvida depois que percebi a falta de informação em português sobre o assunto. É claro que eu ouvia jazz, mas minha “viagem” pelo gênero só aconteceu realmente depois que comecei a pesquisar mais a fundo para a criação do Guia de Jazz.

Em seu site Guia de Jazz e no Podcast Jazzy, no Portal do Estadão, você orienta os ouvintes com dicas as mais variadas: englobando desde o jazz tradicional, passando pelo mais comercial smooth jazz até o jazz contemporâneo. Considerando sua forma ampla de abordar o jazz, essa pergunta traz implícita algumas questões: sobre sua concepção de qualidade, sobre suas preferências musicais e como você acha que as pessoas devem se situar na atual era do ecletismo em que vivemos. Você se considera um eclético? Qual sua concepção sobre o que venha a ser qualidade musical? Quais seus artistas de jazz e de música popular preferidos que você costuma indicar pra galera (independente de época) ?

Essa questão da qualidade eu escuto desde o meu tempo de vendedor de CDs, no início dos anos 90. Eu sempre “rezei” pela cartilha que você deve escutar aquilo que lhe agradar e dá prazer. Simples assim. Não interessa se este ou aquele artista, disco, gênero ou gravadora é “respeitado” ou não pela crítica especializada. Não é uma questão de ser eclético, mas sim de não ser “elitista” ou preconceituoso. É claro que escuto e gosto de músicos aplaudidos pelos especialistas como geniais, de vanguarda e mestres do jazz, mas isso não me impede de ter prazer em escutar algo menos rebuscado ou com qualidade duvidosa. Apesar do meu raciocínio, imagino que para um músico, que pode entender a complexidade de um arranjo ou a genialidade de algo novo em uma frase de um jazzista, deve ser difícil digerir uma música com uma melodia ou harmonia mais simples. Meus músicos favoritos no universo do jazz são os saxofonistas Joe Henderson e Benny Golson, o guitarrista Pat Metheny, as cantoras Dianne Reeves e Casandra Wilson e o pianista McCoy Tyner. Fora do jazz, escuto Bruce Springsteen, Sade, Vinnie Moore, Maxwell, Cult, Sting e tantos outros.

Você acaba de lançar um livro onde, pelo visto, você está se metendo, corajosamente, com utopias e tabus tipicamente brasileiros em relação ao jazz e à música de teor mais artístico. Quais são os propósitos do seu recém-lançado livro O Jazz ao seu Alcance? Você considera mitos e mentiras esses jargões que a mídia brasileira tenta impregnar na cabeça das pessoas de que “jazz é uma música de elite” ou “jazz é uma música difícil de ouvir, é uma música somente para músicos”?

O livro tem como principal objetivo trazer o jazz para um público não familiarizado com ele. O meio que encontrei para fazer isso foi a internet. Hoje, só não escuta jazz quem não quer. Bem diferente do que acontecia até o meio dos anos 90, quando a maioria não tinha acesso a este gênero, já que ele não toca em rádio, não aparece na TV e muito menos na mídia impressa (como jornais e revistas). Além disso, a linguagem usada no livro tem um tom informal e leve de se ler. O leitor vai encontrar um livro informativo e longe daquela áurea didática ou erudita que muitas vezes, mesmo sem querer, rondam os textos sobre jazz.

Sobre o mito de que o jazz é música de elite e difícil de ouvir, isso não será fácil de ser mudado por ora. Sem a massificação do jazz, que só vai acontecer com a mídia divulgando mais os festivais pelo país, o jazz dificilmente conseguirá sair do gueto a que está confinado. O mesmo acontece com a música erudita. A minha função – não uma missão –, é ajudar o ouvinte, independentemente de cor, credo, sexo ou posição social, a ter acesso às mais variadas formas do jazz. Por meio do podcast Jazzy, do Guia de Jazz e do livro, sei que o ouvinte terá ótimas ferramentas para começar a ver o jazz com outros olhos. Eu mostro o caminho, o resto depende do interesse do leitor/ouvinte.

Fale-nos do conteúdo: como você estruturou as diversas dicas e os assuntos no livro. O livro é direcionado apenas para o público iniciante em jazz ou também traz coisas interessantes aos mais antenados? Quais os atrativos que o livro O Jazz ao seu Alcance pode proporcionar aos jazzófilos?

O livro segue a mesma estrutura do site. São capítulos divididos por tópicos, como jazz em português, rádios online, gravadoras, artistas, portais e etc. Em cada capítulo, indico sites de jazz correspondentes ao tópico. Assim como escrevo no site Guia de Jazz, “muitos sites” podem ter ficado de fora, mas serão incluídos nas futuras edições do livro ou a qualquer momento no Guia de Jazz. Além da indicação de cerca de 600 sites, dicas de CDs, livros e DVDs, o livro também traz entrevistas com 17 personalidades que têm algo a dizer sobre o jazz e a música instrumental brasileira. As entrevistas tocam em assuntos pertinentes e tentam desconstruir alguns mitos e afirmações sobre o jazz. O livro é indicado para iniciantes e para os que já são fãs do gênero. É claro que para os novatos, ele abre um universo imenso, mas os ouvintes mais assíduos, cativos e conhecedores do jazz também vão aproveitar muitas informações, em especial o capítulo das entrevistas.

Tenho percebido que, apesar do público de jazz no Brasil estar crescendo e estar tomando conhecimento via internet dos inúmeros músicos e bandas que estão em alta nos EUA e Europa, as lojas ainda mantém um acervo um tanto modesto no que diz respeito aos lançamentos de jazz. O seu site e livro tentam descomplicar a apreciação e o acesso ao jazz sem indicar blogs ou sites que infrinjam o copyright disponibilizando downloads gratuitos. Considerando sua atual atuação na internet e comparando com sua experiência adquirida na área comercial – já que você já trabalhou como vendedor e gerente de boas lojas de discos em São Paulo –, como você vê a influência do atual paradigma da internet na apreciação dos amantes de jazz no Brasil? Porque é mais fácil achar discos raríssimos de jazz em blogs da net do que comprar lançamentos nas lojas? As dicas de discos e DVD’s do livro O Jazz ao seu Alcance são todas encontráveis nas grandes lojas?

A questão do download ilegal na internet não tem mistério. É ilegal, e pronto. Isso não quer dizer que sou contra o download de músicas pela rede, mas isso precisa ser legalizado. Usar como desculpa o valor do CD para fazer algo contra a lei não é certo. Se usarmos esse raciocínio, vai ter gente falando – e olha que já ouvi muito isso por ai – que sonega imposto porque todo mundo faz isso. Não censuro quem faz download ilegal, não sou da polícia e muito menos tenho alguma pretensão de ser politicamente correto, mas não incentivo e por isso não indico sites que oferecem de graça esses downloads. Por outro lado, sei que eles têm ajudado o jazz a se difundir mais no país. Com eles, é possível escutar coisas que dificilmente teríamos acesso ou até mesmo conheceríamos.

Essa questão vem se arrastando desde o fim dos anos 90 e parece que não haverá uma solução amistosa nos próximos anos. O que precisa ser feito é um acordo entre artistas e gravadoras para vender legalmente suas músicas. O consumidor tem que ter o direito de comprar uma única música se ele quiser. Isso já pode ser feito em vários sites legais na internet. Foi um grande avanço, mas ainda longe de ser a solução para o impasse.

Outra questão dos downloads é a praticidade e a economia. Quem não gosta de ouvir um disco de graça e ao alcance do mouse? Especificamente sobre o jazz, a questão do download tem um pouco mais de lógica, já que grande parte dos títulos não são editados ou encontrados no Brasil. Mas hoje em dia temos dezenas de lojas virtuais gringas com tudo aquilo que queremos comprar ao nosso alcance. É claro que o preço ainda é caro e esse é o maior problema, a grana.

A questão financeira sempre foi um entrave neste país. Mas não podemos culpar apenas a falta de dinheiro. Conheço muita gente que tem grana para pagar por um CD ou DVD importado, mas prefere baixar pela internet de graça ou comprar uma cópia pirata. Em resumo, o problema é mais em baixo, é uma questão de princípios e cidadania. Mas não vou entrar nesta discussão aqui.

A falta de títulos de CDs de jazz no Brasil é uma questão puramente comercial. Eles vendem pouco e as gravadoras não se importam como esse tipo de disco. Elas não pensam que seria bom, mesmo vendendo pouco, ter mais títulos de jazz em seu catálogo e assim ajudariam a criar uma nova geração de ouvintes de jazz. O raciocínio não é esse. É tudo uma questão de cifras, ou seja, qual é o potencial de venda deste disco?

Sobre o download de discos fora de catálogo. É óbvio que neste caso não há o que fazer. Tem que baixar mesmo. Culpa das gravadoras que poderiam editar esses discos históricos com preços populares e aliviarem um pouco o prejuízo que a indústria fonográfica tem sentido desde 2000. A maior parte dos CDs e DVDs que indico no livro é encontrada nas principais lojas do país, e o que não for encontrado você pode encomendar em alguma loja ou comprar em sites gringos na internet (como Amazon, CD Universe, E-Bay e tantos outros indicados no próprio livro O Jazz ao seu Alcance).


Michel Leme concede entrevista exclusiva ao Paulicéia do Jazz

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Após um ano da primeira entrevista concedida ao jornalista Luís Delcides, no bar Tupinikim ,em Santo André, o guitarrista Michel Leme novamente é entrevistado e dessa vez no formato "ping-pong": pergunta e resposta.

O guitarrista lança , seu novo CD, um projeto peculiar com dois bateristas -- Wagner Vasconcelos e Bruno Tessele -- e o contrabaixista Bruno Migotto. Michel conta detalhes sobre o processo de gravação desse novo trabalho e o seu dia-a-dia como músico.

O editor do Paulicéia do jazz resolveu mais uma vez romper com as regras estílisticas do webjornalismo e decidiu disponibilizar a postagem neste formato. É uma forma de passar ao leitor a impressão correta e transparente da palavra do verdadeiro artista.


Clique aqui para ler a entrevista!

Bruno Migotto concede entrevista exclusiva ao Paulicéia do Jazz

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Em seu mais recente projeto de entrevistas o blog Paulicéia do Jazz mostra uma entrevista exclusiva com o contrabaixista Bruno Migotto, umas das boas revelações dos últimos anos da música instrumental brasileira. Em sua ainda curta carreira profissional -- dado que ele tem 23 anos --, Migotto já tocou com diversos nomes da música instrumental nacional e internacional, como Wilson das Neves, Filó Machado, Naylor Proveta, Bob Wyatt, Djalma Lima, Michel Leme, Nelson Faria, Edu Ribeiro, Felipe Lamoglia, Steve Cardenas, Ohad Talmor, David Richards, Victor Biglione, Giba Favery, Fábio Torres, Alex Buck, Thiago do Espírito Santo, Idris Boudrioua, Ray Moore, Michel Freidenson, Hector Costita, Jarbas Barbosa, Bocato, Cacá Malaquias, Carlos Alberto D’Alcântara, Vitor Alcântara, Daniel D’Alcântara, Lílian Carmona, Rodrigo Dominguez, Fernando Corrêa, Roberto Sion, Pepe Rodrigues, Cuca Teixeira, Wilson Teixeira e muitos outros. Também acompanhou alguns nomes da música popular brasileira como Frejat, Zélia Duncan e Fernanda Takai. Atualmente, Bruno é o baixista da Sound Scape Big Band, integra a Orquestra Arte Viva, regida pelo maestro Amilson Godoy, o Quarteto do baterista Bob Wyatt, o Quinteto do guitarrista Djalma Lima, o trio do guitarrista Victor Biglione e o trio do guitarrista Michel Leme.

Migotto, paulista de origem, conta um pouco sobre os seus seis anos na metrópole paulistana, sobre sua iniciação musical, carreira, seu novo site e sobre seu novo CD, chamado In Set. Clique aqui para ler a entrevista:



John Zorn: o Trabalho, a Arte...

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Após um longo período que o compositor, saxofonista e proprietário do selo Tzadik se afastou das entrevistas, a JazzTimes publicou neste último mês de Maio, uma entrevista feita por Bill Milkowski onde Zorn costumeiramente deixa muito claro os seus conceitos. Abaixo um trecho da entrevista:

"But the music is not jazz music, it’s not classical music, it’s not rock music. It’s a new kind of music that was loved by people like yourself and other writers who were on that scene in the late ’70s-early ‘80s. You loved this music, you were stimulated by it, it said something to you because it came from your experience. But where can you write about this music that you love? What are the outlets? The only outlets were jazz magazines. Even though it didn’t belong in that tradition or in that format, it was the only format that there was. So I feel like that created a deep misunderstanding in what this music is. People started judging this new music with the standards of jazz, with the definitions of what jazz is and isn’t, because stories about it appeared in jazz magazines. And now I’ll do a gig at the Marciac Jazz Festival and I’ll get offstage and Wynton Marsalis will say, “That’s not jazz.” And I’ll say, “You’re right! But this is the only gig I’ve got, man. Give me another festival and I’ll play there.”



Outros Excelentes Sites Informativos (mais sites nas páginas de mídia e links)