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Mostrando postagens com marcador Poesia/ Literatura/ Pintura/ Fotografia. Mostrar todas as postagens
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O performer e artista plástico Christian Marclay e o novo conceito do DJ dentro do noise, da colagem musical e da improvisação livre.

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Antes de ir direto ao assunto faço uma pergunta ao leitor: Um DJ (dee-jay, disc jockey), aquele sujeito que opera/manipula toca-discos, pode ser considerado um músico por excelência? Depende: se a sua concepção de música estiver atrelada APENAS ao modelo-padrão clássico -- onde músico é aquele artista, dito instrumentista ou cantor, que estuda  canto vocal ou um convencional  instrumento dito musical e todas suas técnicas pré-determinadas por movimentos e escolas artísticas históricas, aquele que lê uma partitura de notação musical e se baseia em obras escritas/compostas previamente por ele mesmo ou por compositores terceiros --, talvez você não considere que um DJ como Christian Marclay possa figurar nas categoria de "músico"ou  "improvisador" -- aliás, já salientando: a idéia aqui não é rebater o gosto e a concepção pessoal de ninguém, mas apresentar novas formas de arte musical para quem estiver interessado em sair daquela velha redoma (de padrões, convenções, imposições, falta de opções e etc) na qual as escolas clássicas, a grande mídia e o próprio sistema socio-econômico-político-cultural  nos aprisionam. Mas para quem enxerga a música como uma arte em evolução e como uma arte que tem mesma capacidade de se expandir para diferentes direções da mesma forma como as artes plásticas já demonstraram e continuam demonstrando -- aliás, o jazz e a música erudita moderna do século XX já demonstraram isso --, para esta pessoa existe a necessidade de se atualizar e de se submeter ao processo de fruição artística no que diz respeito à apreciação das várias vertentes da música contemporânea, algo que acaba ficando fácil e até prazeroso, por mais impactante, complexo e/ou ruidoso que uma peça deste naipe venha lhe soar -- artistas como Ornette Coleman, Sun Ra, Frank Zappa, John Zorn e Christian Marclay, dentre tantos outros de artistas vanguardistas, são pra pessoas  com este campo amplo de visão.

A propósito, falando-se em atrelar a música à mesma visão com a qual enxergamos todo o espectro das artes plásticas, é preciso salientar que, antes de mais nada, Christian Marclay é artista plástico, performer e artista de audiovisual: suas instigantes sinestesias entre sons, vídeos,  colagens e instalações refletem seu posicionamento um tanto independente dentro da arte pós-moderna, ainda que no conjunto da sua obra é possível enxergar um mix de influências trançadas oriundas de movimentos como o dadaísmo, o punk rock, a pop art, o movimento Fluxus, a improvisação livre, o noise e obras de idealistas como John Cage e Marcel Duchamp -- sua arte se baseia, sobretudo, em reutilizar, objetos e materiais já concebidos, que vão desde imagens recortadas de filmes e gibis até discos de vinil que ele adquire nos sebos e brechós por onde passa. Segundo a revista Newsweek, Christian Marclay é um dos dez artistas mais influentes dos últimos tempos. Em 2011 o artista ganhou um Globo de Ouro na Bienal de Arte de Veneza pela exibição do vídeo "The Clock", um filme experimental baseado na temática do relógio e editado através de recortes de vários outros filmes hollywoodianos e europeus. Antes, o artista já tinha produzido o interessante vídeo de colagens "Telephone" (1995), que até chegou a ser plagiado recentemente por marketeiros da Apple num comercial para promover o iPhone: "Quando pessoas com muito dinheiro e poder decidem copiar suas idéias, não há muito o que fazer" --  disse Christian Marclay, que acabou desistindo de processar a empresa.

...sem título...

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o lapso sem lembrança
o lado obscuro do vácuo
o traço sem perspectiva
o sapo na garganta
o grito sem garganta para tanto
o manto que sufoca a dor
o pranto frígido
a planta
sem
raiz
o giz
molhado sem risco rígido
no quadro cego
o disco rígido do pedófilo
o enfado sem lida
o neófito de propósito

Free Jazz

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Albert Ayler
(Um poema aos freejazzers saxofonistas, grandes libertários do som...)

numa noite de fim
de semana
a gordura da cidade
prolifera-se e emana
das ruas em polvorosa e luz
(há flashes e buzinas
na cidade de duas faces
há inúmeras pontas de bitucas acesas
nos becos e bares
há muita fumaça de máquina
e fumaça humana
há lixo e ratos nas ruas e lares
há o jazz com açúcar brigando com o pop-adoçante dos garotos púberes
nos clubes...)
e ela esconde um ser sujo no aspecto
mas límpido no espírito
(in)quieto

Divagações poéticas: um poema sobre a arte de escrever poemas...

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Sobre poesia, a primeira vez que falei aqui no blog foi em 2009 indicando aos nossos leitores o livro "Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século 21, de Manuel Costa Pinto -- porque pensei: "nem só de jazz e música improvisada os jazzófilos (os mais ousados) vivem" (rs). Então, até pela proposta básica deste blog, expressa em seu próprio nome "Farofa Moderna", eu senti a necessidade de engrossar a farofa cultural aqui apresentada com outros ingredientes, outras informações e opiniões sobre outros tipos de arte, sendo a música erudita, o cinema e a poesia três dessas artes que eu aqui desejei abordá-las desde o início. Como eu estava muito ocupado com o trabalho, os estudos e com pesquisas e escritos sobre novos músicos e compositores os quais eu estava descobrindo ou acabara de descobrir, exitei em abrir um espaço no blog pra falar de poesia ou de qualquer outro assunto não ligado estritamente ao jazz -- nosso foco principal --, já que não teria o tempo suficiente e, por isso, não poderia fazê-lo eficientemente. Mas como explicitei no recente post que escrevi sobre a poetisa Sylvia Plath, além de escrever ocasionalmente sobre a arte da poesia e seus poetas, agora eu também publicarei aqui alguns dos meus próprios poemas: assim, tiro a poeira dos meus escritos poéticos e os compartilho com os muitos amigos e visitantes brasileiros e portugueses os quais por aqui passam, um público que, acredito eu, já demonstra uma fruição natural para as artes. E pra iniciar, deixo um poema meu sobre a própria arte de escrever poemas:


Visão


um poema
não
nasce um tema de corpo em feto
um poema
nem fato ou certo
de algo
é


uma música com rimas dançantes
não é um poema
senão aos amantes
do dólar


um poema
teima
teima com algo que existe
à maneira da fé
que existe no inexistir realmente
mas é
algo lá dentro


e queima


não mente


um poema
é algo em fermento


é a linguagem em forma de uma criatura vindoura
é a criatura de lingua presa
na manjedoura
de espinhos
e quando ela nasce não traz pão nem vinho
apenas um grito inaudível


a poesia
é uma asia que reaparece
sempre que a vida some ou murcha
ou desvanece
e ela some
ou por pérolas
ou por cinzas
tanto faz


a poesia sempre será a dor transvertida de girassol
e o formol
dos imortais da linguagem


um poema usa tanto a dor para a arte
como parte
também
da ferida para a felicidade
hipócrita
sem nunca alcançar
a verdadeira


ele nem sempre
é honesto
e nem precisa
não é do seu gesto
ser
sempre
ético
ou limpo


a poesia é a arte
de dizer tudo
sem a obrigação de dizer algo
é a arte
de dizer tudo
sem precisar do estandarte
da lógica
é a arte
de como dizer tudo
sem que ninguém entenda uma parte
sequer


(...à Ferreira Gullar)

Por Vagner Pitta (concluído em 04/02/2011)

Divagações sobre poesia: Sylvia Plath, o gênio que não queria viver...

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Diferentemente de quando se trabalha para um editorial de revista ou jornal, um blog -- seja ele atrelado à um grande portal midiático ou não -- é sempre um espaço onde podemos por à mostra nossas próprias opiniões, dissociando-se de um certo formalismo narrativo e uma determinada padronização jornalística. E aqui neste post, venho falar sobre poesia, à minha maneira: dando ênfase para o fascínio que tenho em relação à poesia de Sylvia Plath. Como me ocorre com à música, também tenho preferências e opiniões bem particulares em relação à poesia, uma das formas de arte que mais me fascina e a segunda que mais toma algum tempo de minha vida -- ou seja, quero dizer que, além de ouvir música e escrever sobre música, até me atrevo a escrever alguns poemas nas horas vagas (Aguardem, pois vou publicar alguns aqui blog, em breve!!!). Há, portanto, alguns poetas unânimes dos quais não gosto: um deles, por exemplo, é o lírico Vinicius de Moraes -- não gosto do seu lirismo derretido, assim como não gosto de bossa nova, essa lírica e açucarada estética musical (também unânime), ligada ao cancioneiro carioca, na qual Vinicius reinou como letrista e compositor; aliás, para ser sincero, esse tipo de poesia e música, apesar de ambos terem sido importantes a meio século atrás, não é uma poética e um cancioneiro que eu acho que devam ser louvados eternamente na mídia, como sendo as últimas cerejas da cultura poética e da cultura musical do Brasil, pois enquanto a maioria dos críticos brasileiros dormem sobre o divã do século XX, ao som de uma serene canção bossanovina, há muito o que se pesquisar, questionar e se aprender sobre as últimas décadas, especialmente sobre como andou a música (tanto no que se refere aos cancioneiros da música popular como também a música instrumental e erudita) e, também, como poesia e as artes, em geral, se desenvolveram a partir dos anos 70, entre a passagem do século passado para este século, no qual já adentramos em sua segunda década. Aliás, em relação à poesia, propriamente dita, há muitos poetas ditos "marginais" que estão aguardando algum reconhecimento pela contribuição que deram à esta arte nestas últimas décadas, enquanto a maioria dos resenhístas se deleitam sobre nomes já tarimbados, best-sellers internacionais e obras de apelo popular. Dito isto, friso apenas que tenho uma certa preferência por poetas "rebeldes", iconoclastas e donos de um personalismo que seja no mínimo gritante: Rimbaud, Drummond (o Drummond tardio), Cruz e Souza, Cecília Meireles, Ginsberg, Maiakovski, Paulo Leminski, Roberto Piva...há mais alguns poetas os quais aprecio e os quais ainda quero lê-los e estudá-los a fundo -- frisando, ainda, que também não gosto dos românticos e parnasianos, bem como dos concretistas; gosto mais dos simbolistas e modernos em diante, ou seja, dou um salto na história quando vejo que alguns experimentalistas começam a levar a poesia de encontro à uma programática mecânica, à geometria e às equações matemáticas, à semelhança do conceitualismo que tomou a música no século XX.



Limitando minhas preferências, enfim, digo que, de todos os poetas que já lí, os que mais me impactaram foram eles: o brasileiro Ferreira Gullar e a americana Sylvia Plath, dois dos maiores poetas do século XX -- e na minha opinião particular, portanto, dois maiores de todos os tempos!!! Gullar, vivo aos 80 anos de idade, é genial por sua mobilidade em várias estéticas das quais ele mesmo foi um dos criadores e/ou transformadores: do concretismo ao neo-contretismo, passando pela literatura de cordel e desembarcando em sua poesia mais serena dos últimos tempos, ele procurou despedaçar, renegar e "matar" a linguagem tal como ele a conheceu para depois reencontrá-la à sua forma (e de várias formas, inclusive), ao mesmo tempo em que impôs uma grande carga de expressividade pessoal atrelada ao homem comum e à nossa brasilidade -- uma façanha que, diga-se de passagem, foi difícil de acontecer em todas as formas de arte que sobreviveram às grandes rebeldias do século XX: isto é, só alguns poucos gênios da história das artes foram capazes de inovar com novas estruturações, desmantelar a linguagem convencional afim de criar outra, e fazer isso sem perder a expressividade e ainda impondo uma determinada identificação regional dentro da estética de uma obra (no caso genérico da poesia, essa expressividade é nada mais do que a nostalgia e o poder que a palavra, depois de organizada ou "desorganizada" ao estilo do poeta, adquire para ser capaz de envolver o coração, a mente e a alma das pessoas em seus cotidianos). E sobre Sylvia Plath, morta aos 30 anos de idade em 1963, ouso dizer que ela é a poetisa mais "perfurante" e dolorosa de se ler; e não apenas isso: sua introspectividade, marcada por metáforas por vezes autobiográficas -- muitas vezes regadas à nuances suicidas e agonizantes e, ao mesmo tempo, à uma sofisticada construção imagética --, é algo um tanto complexo, algo complicado de entender logo de início, algo que chega a beirar a abstração em alguns poemas -- tanto que, quando se fala de Plath, fala-se mais das suas crises psiquiátricas, sua história marcada pela ausência do amor paterno, a crise do seu casamento com o também brilhante poeta Ted Hughes, as tentativas de suicídio, entre outros fatos polêmicos..., mas poucos críticos são capazes de analisar seus escritos de forma técnica atingindo o âmago da sua poética, pois realmente essa é uma tarefa um tanto complicada. OK, tá certo que a poesia de Sylvia é decorrente de todos esses fatores agonizantes -- e isso é fácil de conceber, pois é algo que está tarimbado em sua biografia --, mas, daí, analisar tecnicamente como ela cria um desfecho poético tão original -- baseado em sua própria vida e sem ,contudo, banalizá-la através de versos escancarados --, bem como assimilar e esmiuçar suas temáticas e metáforas, aí já são outros quinhentos, como se diz no ditado popular.



Sylvia Plath, americana nascida em Massachusetts, em 1932, foi uma jovem de talento precoce, uma espécie de "Mozart de saias" da poesia americana: seu talento para a poesia foi descoberto ainda em 1941, aos 8 anos de idade, quando ela publicou um poema na sessão reservada à crianças do jornal Boston Herald -- nove anos depois, em 1950, quando ela ganhou uma bolsa de estudos no Smith College, Massachusetts, já era uma poetisa premiada e já tinha uma lista extensa de poemas publicados em editorias de jornais e revistas. Não à toa, em seu segundo ano no Smith College, aos 20 anos de idade, ela foi convidada para ser uma colaboradora regular da revista Mademoiselle, influente revista feminina que durou de 1935 até 2001 e que ficou conhecida por reservar editoriais para estórias e poemas curtos de poetas, escritores e contistas célebres como Truman Capote, William Faulkner, Tenessee Williams, dentre muitos outros. A experiência, ao menos de início, deu muito certo: neste mesmo ano, o conto "Sunday at the Mintons", escrito por Sylvia, foi o primeiro receber um prêmio em dinheiro na revista, sendo este o primeiro grande acontecimento a propagar o nome da jovem poetisa em plano nacional. Em 1953, portanto, Sylvia é convidada para ser editora convidada na Mademoiselle, o que, para tanto, exigiu que ela se mudasse para Nova Iorque: infelizmente, devido à problemas de adaptação com o glamour e agitação da vida urbana e seus problemas psiquiátricos, a empreitada foi um fracasso e durou apenas o verão deste ano, mas as ácidas experiências dessa fase acabaram fornecendo elementos inspiradores para o livro auto-biográfico The Bell Jar, o único romance da carreira da poetisa -- na verdade, o livro só seria publicado na Inglaterra em 1963, um mês antes da sua morte (lembrando, ainda, que este romance, escrito na forma de pseudônimos, seria adaptado ao cinema pelo diretor Larry Peerce, em 1979, tendo recebido o título de "Redoma de Vidro" aqui no Brasil, tradução original para o português). É nesta fase da carreira, em sua breve estadia em Nova Iorque como editora da revista Mademoiselle e ainda concluindo seus estudos no Smith College, que Sylvia começa a ter crises de depressão e, portanto, comete sua primeira tentativa de suicídio, algo que ela, na forma do seu pseudônimo Victoria Lucas, descreve com clareza em The Bell Jar: a experiência suicida consistiu em tomar doses cavalares de pílulas para dormir, mas a tentativa foi frustrada e ela teve de se submeter a tratamentos de eletrochoques para tentar amenizar sua depressão crônica. Contudo, essas desventuras não lhes tiraram o prestígio adquirido até então: tanto, que em 1955, com uma a tese The Magic Mirror: A Study of the Double in Two of Dostoevsky’s Novels ( sobre "O Duplo" de Dostoevsky, que também seria seria material de inspiração para o filme "Partner" (1968), de Bertolucci), Sylvia se formou com honras (summa cum laude), se tornando um nome de orgulho para a instituição e recebendo uma bolsa para continuar seus estudos avançados na Universidade de Cambridge (Inglaterra), onde conheceu seu marido, o também brilhante poeta Ted Hughes. Dois anos depois, em 1957, Sylvia regressa aos EUA, dessa vez já casada com Ted: daí, então, passou a lecionar no Smith College e a frequentar os seminários do poeta Robert Lowell, que logo ficou amigo do casal. No verão de 1959, Sylvia e Ted voltam à Inglaterra, onde fixa residência em Devon: nessa época, a poetisa lança sua primeira coletânea de poemas em vida, chamada The Colossus. A partir daí, a história do casal começaria a entrar em decadência: em 1961 Sylvia sofre um aborto; em 62 ela descobre que o marido está lhe traindo com Assia Wevill, o que pode ser considerado o estopim para que a poetisa de suicidasse no ano seguinte. Aliás, para quem se interessar por conhecer essa fase conturbada de Sylvia Plath, tanto para quem gosta de poesia como para quem ainda não é afeito à arte -- porque a poética plathiana requer, sim, um pingo de apego e paciência --, aconselho assistir ao filme "Sylvia" (EUA/ Reino Unido, 2003), dirigido por Christine Jeffs e estrelado pela adorável atriz Gwyneth Paltrow no papel da poetisa e por Daniel Craig (o mesmo de James Bond, o 007 de Casino Royale) no papel do marido, o poeta Ted Hughes. No Brasil, o DVD dublado pode ser encontrado facilmente sob o título "Sylvia - Paixão além das Palavras". O filme não explicita o poder da poesia de Plath -- ele apenas retrata o conturbado relacionamento do casal entre o período que se conheceram, numa festa na Universidade de Cambridge em 1956, até a morte dela em 1963, causada por um suicídio que ela realizou inalando gáz de cozinha, após proteger o casal de filhos em um outro quarto do seu apartamento (curiosamente ela morava no mesmo prédio que o célebre poeta irlandês William Butler Yeats havia morado décadas antes, o que era motivo de orgulho para ela). Mas é um filme nostálgico sem ser sonífero, sempre acontecendo em diferentes lugares, cheio de diálogos reflexivos, discussões conturbadas...-- enfim, é um daqueles ótimos filmes feitos a baixo custo, um drama bem construído que realmente é capaz de incitar o interesse do telespectador curioso para conhecer quem foi e o que fez Sylvia Plath.



Como se percebe em sua biografia, Sylvia Plath foi uma pessoa de vida complicada que trouxe toda a sua dor, a sua agonia e até sua vivência como mãe e mulher doméstica para a sua arte poética, sem concessões: a perda do pai, quando ela tinha oito anos de idade, deu origem, por exemplo, ao tocante poema "Daddy" ("Papai)"; o aborto sofrido em 1961 refletiria como um tema recorrente em muitos dos seus poemas; a infidelidade do marido Ted Hughes, descoberta em 62, também foi um estopim para sua fase final e mais sofrida, na qual ela passou a morar sozinha com seus filhos pequenos, passou pela falta de dinheiro e começou a destilar a idéia de suicício com mais ímpeto, fatos esses que a inspiraram a escrever incessantemente e desesperadamente muitos dos seus últimos e maiores poemas, os quais foram compilados e lançados postutamente na coletânea "Ariel", em 1966. Quer dizer, Plath transformou sua agonia cotidiana e a sua depressão, diagnosticada ainda na pós-adolescência, em absintos ácidos com os quais se embebecia toda vez que ia criar seus versos -- e o fazia justamente para incitar sua inspiração. Ademais, é preciso considerar que apesar do estilo poético de Sylvia Plath ser classificado no gênero da "poesia confessional" (que além dela própria, há outros poetas expoentes como Allen Ginsberg, Robert Lowell e Anne Sexton), suas agonizantes confissões não são gratuitamente legíveis: há um enorme requinte no estilo da poetisa no que se refere à construção de imagens -- as quais o leitor, involuntariamente, é forçado a tentar imaginá-las -- em contraponto com uma agonia, uma dor ou algum tipo de ânsia que é bem aparente, mas que o leitor sofre um pouco para detectar quais são essas agonias, em meio aos emaranhados de metáforas ou paráfrases indiretas às preferências e referências da poetisa -- pois, apesar de extremamente pessoal, ela também fazia alusões referenciais aos seus poetas preferidos, tais como Dylan Thomas , William Butler Yeats, Marianne Moore e Robert Lowell, esse seu amigo. Com uma poesia muito rica em temáticas e imagens, alguns dos elementos mais recorrentes na poesia plathiana são os relacionados à figura do seu pai (vide os poemas "Papai" e "A Chegada da Caixa de Abelhas", pois seu pai era um biólogo especialista em abelhas), elementos relacionados à morte e ao aborto, tais como "feto", "sangue", "caveira" e "crânios" ( vide os versos "Crânio branco/Comido pelas ervas", no poema "Palavras"), bem como elementos relacionados aos limites e fraquezas do universo feminino, tais como "ovelha", "lua" e "medusa" (vide os poemas "Ovelha na Bruma" e "Medusa").  No Brasil, apenas três livros relacionados  à Sylvia Plath podem ser adquiridos na versão da lingua portuguesa com alguma facilidade: um é "Cartas de Aniversário" (tradução de Paulo Henriques Britto; Record; 399 páginas), uma coletânea de 88 poemas onde Ted Hughes quebra o silêncio sobre sua conturbada relação com Sylvia antes do seu suicídio; o outro é "Ariel", (tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo; Editora Verus; 209 páginas); e o outro é "Redoma de Vidro" (tradução de Beatriz Horta; Record; 272 páginas). Abaixo dois dos seus poemas curtos e geniais:





PAPOULAS DE JULHO


Óh papoulinhas pequenas flamas do inferno,
Então não fazem mal?



Vocês vibram. É impossível tocá-las.
Eu ponho as mãos entre as flamas. Nada me queima.



E me fatiga ficar a olhá-las
Assim vibrantes, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.



Uma boca sangrando.
Pequenas franjas sangrentas!



Há vapores que não posso tocar.
Onde estão os narcóticos, as repugnantes cápsulas?



Se eu pudesse sangrar, ou dormir !
Se minha boca pudesse unir-se a tal ferida !



Ou que seus licores filtrem-se em mim, nessa cápsula de vidro,
Entorpecendo e apaziguando.


Mas sem cor. Sem cor alguma.




ESPELHO


Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.



Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.




Enfim, até agora o que se observou em relação ao mito chamado Sylvia Plath é que o seu fantasma e o seu legado são ressucitados de tempos em tempos -- e isso tem acontecido tanto pelos lançamentos póstumos que foram levados à cabo pelo poeta Ted Hughes (morto em 1998), como pelos fatos polêmicos ligados à sua biografia. Particularmente eu não concordo que Sylvia seja um daqueles ícones da literatura que se deva enquadrar dentro da categoria de um "artista pop", uma poeta cult ou um escritor best-seller -- até porque seu estilo mórbido e complexo já é algo que não agrada a todos --, mas, desde sua morte até hoje, houve uma pá de fatos subsequentes que aumentaram o interesse de críticos, estudiosos e jovens amantes da poesia por sua obra. Na verdade, tudo começou em 1966 com o lançamento póstumo da coletânea de poemas "Ariel", e, depois, fatos sucessivos foram trazendo o fantasma de Plath ao conhecimento das novas gerações: já no final dos anos 60 e durante todos os anos 70 o nome de Sylvia Plath seria atrelado aos movimentos feministas (as feministas passaram não só a usar o nome da poetisa como símbolo da luta feminista, mas passara a acusar Ted Hughes de culpado pela morte dela); em 1979 houve a primeira adaptação do livro The Bell Jar (Redoma de Vidro) para o cinema, levada à cabo pelo diretor Larry Peerce; em 1981/82 Ted Hughes lançou mais um livro póstumo chamado "Collected Poems", pelo qual Sylvia foi a primeira autora póstuma da história a receber o prêmio Pullitzer; em 1998, Ted Hughes falece, já laureado como um dos grandes poetas ingleses do século XX; em 2003, a diretora neo-zelandesa Christine Jeffs lança o filme "Sylvia", estrelado pelas estrelas hollywoodianas Gwyneth Paltrow (fazendo o papel de Sylvia Plath) e Daniel Craig (no papel do marido, Ted Hughes) (inclusive, a filha da poetisa, Frieda Hughes, acusou os produtores do filme de quererem lucrar com base na tragédia da mãe, ou seja, querer transformar a tragédia da sua mãe em um material para entretenimento de massa); por fim, em 2009, o filho da poetisa Nicholas Hughes, notável biólogo e professor na University of Alaska Fairbanks, se suicida através de um enforcamento. Já em 2011, a produtora Plum Pictures anunciou planos para uma nova versão hollywoodiana do romance The Bell Jar: nesta versão a protagonista, Victoria Lucas (pseudônimo de Sylvia Plath), seria estrelado pela atris Julia Stiles.

Andy Warhol, um renegado do jazz? Ele veio à São Paulo...

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Andy Warhol, o mito...


Você é sério com a arte? De jornalistas sérios à músicos sérios, de boêmios sérios -- leia-se: um tipo quase extinto de intelectual um tanto vagabundo que não sai dos botecos de jazz -- à filósofos, historiadores e críticos de arte sérios...todos apreciadores, enfim, que são sérios e que fomentam o fascínio pela evolução das artes já questionaram a arte pretensiosa do multiartista americano Andy Warhol (1928-1987), o expoente maior da chamada Pop Art, uma veia artística tão questionável quanto. Inclusive, falando das minhas próprias indagações, a questão que ainda ecoa em minha cabeça, e que deve ser a mesma questão que não quer calar na cabeça de ninguém, é essa:

"Sob quais argumentos reproduzir a imagem de um frasco de sopa Campbell's ou do rosto de um artista famoso -- fazendo, inclusive, apologia ao consumismo, à ícones e marcas do universo pop -- representa uma arte inovadora, propriamente dita, senão pelo viés daqueles já manjados engodos conceituais que tentaram -- e ainda tentam -- explicar vanguardices e, o pior de tudo, tentam dissociar a importância da técnica e da criatividade do processo artístico nas artes modernas?" Mas, se por um lado sua arte é polêmica e questionável, por outro lado seu nome e sua representatividade dentro do universo das artes plásticas e do showbusiness do século XX é, dessa vez sem engodo, bem maior que sua própria obra. Ou seja, há de se convir que a repercussão e influência de Andy Warhol são inquestionáveis dentro e fora do universo artístico -- isso é um fato até mesmo para os que, como eu, questionam a superficialidade das suas pinturas e gravuras em termos estritamentes artísticos.

Ora, por que? Andy Warhol transitou entre fashionistas, fez sua carreira em torno de polêmicas, apareceu entre personalidades da política e do mais alto escalão da mídia americana, criou e financiou artistas de renome mundial -- sendo Jean-Michel Basquiat (esse, sim, um gênio da pintura) e a banda The Velvet Underground, dois dos maiores exemplos) --, se embrenhou na produção de vários filmes conceituais que se tornaram preciosidades para cinéfilos e colecionadores vanguardistas e até criou bordões futuristas que ficaram célebres, tais como o "In the future everyone will be famous for fifteen minutes (No futuro, toda a gente será famósa durante quinze minutos)" -- e daí, eu pergunto aos leitores: Essa frase, aliás, não vos lembra era dos reality shows que presenciamos nesse início de século 21, onde meras pessoas comuns são transformadas em "artistas" de um dia para o outro? Pois então, são por essas e outras que eu concordo que Andy Warhol tem, sim, sua relevância e merece estar, sim, pregado na história do século 20 -- mesmo sua obra não tendo 1/3 da relevância -- em termos de se prezar a arte pela arte -- que têm obras magníficas de outros gênios da história das artes plásticas como, por exemplo, Henri Matisse e o próprio Jean-Michel Basquiat, seu protégé. Ademais, na minha opinião, revelar ao mundo o grande talento de Basquiat, foi a maior contribuição de Andy Warhol à arte, propriamente dita. A tese de que Warhol é o artista mais superestimado do século 20 é defendida, inclusive, por um dos maiores especialistas em artes plásticas do planeta, o crítico australiano Robert Hughes.


"Warhol foi uma das pessoas mais chatas que já conheci, pois era do tipo que não tinha nada a dizer. Sua obra também não me toca. Ele até produziu coisas relevantes no começo dos anos 60. Mas, no geral, não tenho dúvidas de que é a reputação mais ridiculamente superestimada do século" Robert Hughes à Veja

Exposição de Warhol em São Paulo em 2010

Quem realmente gosta de Andy Warhol -- e também quem não gosta, mas quis presenciá-lo -- não deve ter perdido a maior exposição das suas obras já promovida na América Latina e que passou com louvor pelo Brasil: trata-se da mstra chamada Andy Warhol, Mr. América, exposição que a Pinacoteca do Estado de São Paulo mostrou a partir do dia 20 de Março de 2010 no espaço Estação Pinacoteca, na Estação da Luz, em São Paulo. Organizada pelo The Andy Warhol Museum, de Pittsburgh, nos Estados Unidos, as obras de Warhol passou por  países da como Colômbia e Argentina antes de desembarcar no Brasil. A mostra incluiu um total de 170 obras variadas do artista -- que também fotografava e dirigia filmes. Os destaques, lógico, foram as serigrafias que incluem retratos de Marilyn Monroe, produzidos por Warhol em 1967, das famosas sopas Campbell's, de 1968. Um pouco antes do início da exposição, o MUBE - Museu Brasieiro de Esculturas - promoveu o Ciclo de Filmes de Andy Warhol. As sessões aconteceram todos os sábados do mês de Maio, totalizando oito filmes conceituais do artista, dois longas por sessão. E tentando desmentir as já manjadas impressões que a exposição poderia proporcionar às pessoas, o curador da mostra, o canadense Philip Larratt-Smith, chegou a dizer que "ainda que muitos pensem que o autor da expressão "15 minutos de fama" só retratava a superficialidade do mundo da fama, suas obras refletem a ideologia norte-americana e fazem uma crítica ao narcisismo e ao consumo". O pior, talvez, foi que Andy Warhol, ao apelar para uma arte tão mercadológica e tão superficial em termos artísticos, apenas recriando imagens de ícones e marcas do mundo moderno, acabou por provocar mais apologia ao consumismo e ao narcisimo do que propriamente por combatê-los. Essa mostra mostrou, enfim, o quanto o Brasil -- ainda mais São Paulo -- tem promovido grandes e diversas exposições nesses últimos anos, considerando o grande sucesso que foi a exposição de Henri Matisse em 2009, mostra que incluiu o admirável ciclo de obras chamado Jazz, um trabalho de colagem que faz alusão ao gênero musical, composto na fase final da carreira do mestre fauvista. Quem, enfim, foi mais visitado: o jazz de Henri Matisse ou o pop de Andy Warhol? Eu prefiro Matisse...

Andy Warhol e o Jazz

Mas, considerando o título desse post, qual a ligação que o famigerado Andy Warhol já teve com o jazz? Teria sido ele uma espécie de músico branco renegado que tentou tocar bebop em um trompete, mas não teve sucesso diante das estripulias de negões como Dizzy e Clifford Brown? Não. Muitos não sabem, mas Warhol, antes de entrar na onda da Pop Art, ilustrou várias capas de álbuns de jazz para gravadoras como RCA Victor, Prestige e Blue Note. Quer dizer, ele já estava se destacando no circuito artístico de Nova York desde 1952, quando realizou a sua primeira exposição na Hugo Gallery, os "15 Desenhos baseados nos escritos de Truman Capote", mas como estava num início de carreira, sua tentativa de ganhar algum dinheiro com a arte o levou a se diversificar, trabalhando não só com oportunas exposições, mas criando anúncios para revistas como a Vogue e ilustrando álbuns para gravadoras de jazz. As primeiras capas teriam sido de alguns discos gravados pela RCA Victor: a compilação Booth Feet In The Groove (1959), do clarinetista Artie Shaw; o album I’m Still Swinging do trompetista Joe Newman, com um septeto que incluíam os saxofonistas Al Cohn, Gene Quill e o trombonista Urbie Green; uma outra compilação chamada Progressive Piano, dedicada a mostrar a evolução do piano através de oito pianistas (entre eles Art Tatum e Lennie Tristano); o album Cool Gabriels que trazia uma série de trompetistas ao lado do trio do pianista Elliot Lawrence (entre eles Conte Candoli, Nick Travis, Don Stratton, e Bernie Glow ), gravado pela Groove Records, pequena subsidiária da RCA; e também um album homônimo de Count Basie, gravado no período de 1946 à 1949, numa fase em que o mercado já não era tão receptivo em relação às big bands de Swing: tanto que neste disco, lançado mesmo em 1956, Count Basie aparece com algumas abordagens novas tanto em termos de repertório, arranjos e composição como em termos de formação instrumental, já que ele também aparece com um grupo pequeno, onde se destaca os improvisos do saxtenorista Paul Gonsalves.


Count BasieCool Gabriels
Blue Lights Vol 2
Progressive PianoKenny Burrell - Blue Lights Vol 1
Thelonious Monk with Sonny Rollins
The CongregationTrombone By Three






Kenny BurrellJá para a Prestige, Warhol trabalhou em pelo menos em dois álbuns que se tem notícia: um é o disco Trombone by Three, com os trombonistas J.J. Johnson, Kai Winding e Bennie Green; o outro é o album homônimo de Thelonious Monk com a participação de Sonny Rollins e Frank Foster: e o curioso neste trabalho foi que, trabalhando em conjunto com o designer alemão Reid Miles, Warhol solicitou que sua mãe, Julia Warhola, se encarregasse de criar a caligrafia impressa no disco -- há outras capas, inclusive, onde Julia imprime sua caligrafia sob o comando de Miles.

Reid Miles
Em 1956, Reid Miles assumiu o cargo de diretor de arte da Blue Note, levando consigo Andy Warhol. Na legendária gravadora do produtor Alfred Lion e do fotógrafo Francis Wolff, ele trabalhou as capas dos álbuns do guitarrista Kenny Burrell, o homônimo Kenny Burrell e os dois volumes de Blue Lights, lançado em 1958; em paralelo, ilustrou a capa do disco Congregation (1957), último disco de Jhonny Griffin na Blue Note, inspirado no album The Preacher, de Horace Silver. Foi depois dessa fase, então, que o jovem Warhol antenou-se de vez com o movimento da Pop Art, inicialmente uma tendência inglesa. Em 1961, ele realizou a sua primeira obra em série usando as latas da sopa Campbell's como tema, continuando com as garrafas de Coca-Cola e as notas de Dólar; depois, ele pintaria e reproduziria séries de pessoas famosas: de Jacqueline Kennedy a Marilyn Monroe, passando por Mao Tse-tung, Che Guevara ou Elvis Presley. Já com um estúdio chamado The Factory (A Fábrica), a técnica de Andy Warhol baseava-se em pintar fotos em grandes telas com fundos, lábios, sobrancelhas e cabelo berrantes, transferindo depois por serigrafia essas fotografias para outras telas ou outros planos, sugerindo, assim, meios de reprodução em massa ou uma suposta "reprodução industrial" da arte: paródia à massificação das marcas e à fama de pessoas do showbusiness mundial. A partir do final dos anos 60 e seguindo nos anos 70 e 80, voltaria a trabalhar com ilustrações em capas de albuns de rock e pop: além dos primeiros álbuns do The Velvet Underground, Warhol ilustrou capas para os Rolling Stones, para Aretha Franklin, John Lennon, Madonna, dentre outros ícones da música pop.



O Cinema Francês e o Jazz

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Miles Davis e Jeanne Moreau - Clique aqui para baixar a tilha do filme Ascensor para o Cadafalso!
Cinema, a sétima maravilha no mundo das artes! Ou melhor: cinema com jazz, uma combinação perfeita que, para um jazzófilo, vai além do entretenimento ou da distração! Em se tratando apenas de cinema – independente de ter jazz na trilha ou não – é impossível não citar o protagonismo da influência americana: partindo dos mudos de Charles Chaplin, passando pelo noir de Orson Welles, os suspenses de Alfred Hitchcock... enfim, até chegarmos aos mais “ecléticos” e “comerciais” como Brian De Palma, Robert Altman, David Lynch, Stanley Kubrick, Martin Scorcese, Steven Spielberg, Clint Eastwood...também gosto muito dos dramas de Woody Allen (onde a neurose e comédia são trabalhadas com extrema inteligência) e também adoro os filmes de Tim Burton, um mestre da fantasia e dos contos sombrios (uma espécie de Edgar Allan Poe do cinema, convenhamos). Contudo, quando se trata de “estudar cinema” – e não estou falando no estudo de âmbito acadêmico, mas sim das descompromissadas reflexões e observâncias que todo cinéfilo tem o direito e prazer de fazê-las –, me parece que não há nada mais conceitual e instigante do que o cinema europeu – especialmente o francês e o italiano. Isto é, a despeito das grandes produções hollywoodianas – que algumas vezes são ricas de recursos e efeitos, mas pobres em conceito artístico – o que me encanta no cinema europeu, por exemplo, são as produções baratas que, justamente por não terem tido riqueza de artifícios tecnológicos, inovaram na técnica de filmagem, na fotografia e no conceito com o qual se trabalhou as angústias, os anseios e os pecados humanos.

Em se tratando da compatibilidade do cinema com o jazz, o cinema europeu não chega a ser sonoricamente tão inundado quanto o cinema americano – até porque os EUA, é óbvio, sempre foi o berço e a casa desse gênero musical que, por sinal, se entralaçou com o cinema e cartoon desde o início da era do swing e dos primeiros filmes falados, já no final dos anos 20: tanto que, não por acaso, a primeira produção do cinema falado foi um filme sobre jazz chamado The Jazz Singer (1927), com o cantor e ator Al Johnson. Mas o cinema francês, por exemplo, é um enorme celeiro de produções interessantes onde vários solos de jazz – do bebop ao avant-garde – já apareceram como trilhas frequentes de filmes que, já de imediato ou posteriormente, passaram a ser considerados cults e clássicos eternos do cinema europeu. Se além de gostar de jazz, você também preza por um cinema mais artístico, cheio de indagações, polêmicas e reflexões, o melhor é que, em alguns casos , a trilha jazzistica lhe surgirá apenas como um “tempeiro a mais” em filmes que, conceitualmentes, já são por si só instigantes, reflexivos e até transgressores: como alguns filmes do cineasta Louis Malle, por exemplo. Quem ainda não assistiu Um sopro no Coração (1971), onde o new orleans jazz de Sidney Bechet e o bebop estonteante de Dizzy Gillespie e Charlie Parker fazem fundo para uma temática deveras polêmica: que é o incesto entre mãe e filho? Poizé, Um sopro no Coração, assim como o cool Ascensor para o cadafalso(1958), que tem a trilha assinada por Miles Davis, foi dirigido pelo invetarado Louis Malle, diretor que viveu à margem do movimento Nouvelle Vague.



baixe aqui mesmo a trilha deste filme: com Dexter Gordon
Mas não foram só as composições de Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Miles Davis que deram vida à filmes franceses. O hard bop espirituoso do baterista Art Blakey – com seu quinteto Jazz Messengers – também foi encomendado pelo excelente diretor Roger Vadim – outro expoente da Nouvelle Vague – para dar cor ao filme As Ligações Amorosas (1959), uma adaptação moderna do romance 'Les Liaisons dangereuses', publicado em 1782 pelo escritor Choderlos de Laclos. Já em "Round Midnight: Por Volta da Meia-Noite" (1978), dirigido por Bertrand Tavernier e com trilha sonora assinada por Herbie Hancock, o bebopper Dexter Gordon aparece não só como músico, mas como o ator principal num drama ambientado no início da década de 50, época do bebop e cool jazz. A história, escrita pelo escritor francês Francis Paudras, é inspirada nas vidas dramáticas do saxtenorista Lester Young e do pianista Bud Powell – lembrando que Paudras fora amigo e protetor do pianista Bud Powell em seus tristes dias de exílio em Paris. Enfim, Round Midnight se tornou, de imediato, o maior clássico do cinema mundial inspirado totalmente no Jazz – sem contar que Dexter Gordon foi nomeado o Oscar de Melhor Ator e Herbie Hancock ganhou o prêmio de Melhor Trilha Sonora Original.

ouça a faixa principal do filme de Roger Vadim aqui mesmo no Farofa Modernaclique aqui e assista clipe do filme e da banda Art Ensemble of Chicago

Igualmente interessante é o uso do jazz de aspecto mais vanguardista em alguns filmes franceses. Em Un Eté Sauvage (1970), o cineasta Marcel Camus – que em 1959 já havia filmado Orfeu Negro, inspirado na peça de teatro Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes ( e com música de Tom Jobim) – escalou o altoísta Marion Brown para compor uma trilha sonora que fizesse jus ao título e à história de um garçom que vive entre o mundo dos hippies e artistas de ruas e o mundo de ricos e poderosos, já que ele é seduzido por uma típica madame rica para fomentar os desejos do marido voyeurista – daí que o free jazz de Marion Brown, gravado para esse filme e lançado em disco sob o título de Le Temps Fou, chega a ter uma roupagem um tanto “psicodélica”, ainda que, afora o piano elétrico, os instrumentos usados sejam todos acústicos. Já para Les Stances à Sophie (1970), o diretor israelense Moshé Mizrahi encomenda a trilha aos músicos do magnífico Art Ensemble of Chicago e à cantora de soul Fontella Bass, na época esposa do trompetista Lester Bowie. Les Stances à Sophie, apesar de dirigido por um israelense, é também um filme cult que representa a Nouvelle Vague, já que o próprio Mizrahi, além de radicado na França na época, também era antenado com a estética desse movimento. A propósito, LP, CD e DVD foram reeditados e relançados recentemente pela gravadora Soul Jazz Records: o disco Les Stances à Sophie do Art Ensemble of Chicaco é considerado um clássico da segunda fase do free jazz por sua notável distinção, a qual consiste numa pegada mais soul e funk ascrecentada ao som vanguardista da banda, além de pitadas da influência parisiense – lembrando, aliás, que nessa época não só Lester Bowie e seus companheiros do Art Ensemble of Chicago estavam “exilados” na França, mas vários outros músicos do free jazz norte-americano tais como Cecil Taylor, Steve Lacy, Archie Shepp e Ornette Coleman saíram dos EUA para explorar o mercado europeu, onde eles tinham, de fato, espaços para apresentar um som mais puramente artístico e experimentalista.

Roger VadimEntão, aí estão algumas dicas resultadas da minha apreciação ao cinema francês: Louis Malle, Roger Vadim, Bertrand Tavernier, Marcel Camus e Moshé Mizrahi só foram alguns, dentre tantos, diretores que usaram o jazz como trilha de seus filmes. Para quem ainda não está familiarizado com esse tipo de cinema, imagine a combinação das rústicas paisagens das vilas parisienses e seus velhos prédios barrocos, seus “club du jazz” ou suas lojas de discos com as paisagens mais românticas de jardins, parques, obras de arte e hotéis de luxo, além de um toque puro de lirismo, moralismo e romantismo em conflito com a podridão pecaminosa escondida entre os finos vestidos e paletós da alta burguesia, bem como os lampejos de movimentos sociais, artísticos e filosóficos tais como o feminismo, e a liberação sexual de uma juventude rebelde e, então, dá pra se ter mais ou menos a noção do clima nostálgico e realista de tais filmes – especialmente em filmes que caracterizaram a nouvelle vague dos anos 60 e 70, movimento contestatório da burguesia e dos valores morais levado a cabo por um grupo jovens cineastas – dentre os quais Louis Malle, Roger Vadim e Marcel Camus – que obviamente não tinham muita grana nem tantos incentivos financeiros pra realizar suas filmagens.



Não por acaso, em 1968 os jovens franceses protagonizaram uma das maiores revoluções culturais que o mundo já documentou: a Revolução de 1968 concretizou a liberdade de expressão de uma juventude que desde meados dos anos 50, com o advento do rock’n’roll americano, já vinha aspirando ter uma maior participação da sociedade; mas muito mais do que isso, a Revolução de 1968 foi uma revolução repentina e globalizada que, já de início, passou a ser um marco, um ponto de partida para outros movimentos, acontecimentos e transformações sociais como os movimentos ecologistas, a efetiva explosão do feminismo, o surgimento organizações não-governamentais (ONGs), os protestos sociais em defesa das minorias e dos direitos humanos, bem como os protestos contra as políticas da Guerra Fria, contra guerras regionais e ocupações colonialistas (como a Guerra do Vietnam, por exemplo). Aliás, a Revolução de 1968 não só chegou a ser entendida como uma extensão dos movimentos sociais americanos da década de 60 – dentre as quais a luta de Martin Luther King em favor dos direitos civis dos negros e os protestos contra a Guerra do Vietnã – como também influenciaria, de volta, os movimentos ocorridos nos EUA e no resto do mundo a partir daquela data. E o jazz, assim como o rock’n’roll e o cinema, foram elementos artísticos essenciais para a formação do novo pensamento de mundo instaurado por aquela nova juventude. Clique nas imagens para acessar mais informação e/ou até baixar as trilhas aqui mesmo no Blog Farofa Moderna.



A poderosa crítica de Luciano Trigo ao vale-tudo na arte contemporânea !!!

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Livro do jornalista luciano Trigo: crítica a mediocridade na arte contemporânea!!!



Um novo livro lançado em fins de 2009 chega às livrarias com a missão instigar as pessoas apreciadoras de artes a questionar o que pode ser, verdadeiramente, considerado arte. O livro de que falo -- e que verdadeiramente tem esse poder de nos fazer questionar -- é o A Grande Feira - Uma Reação ao vale-tudo na Arte Contemporânea, do jornalista Luciano Trigo. O que é arte pra você? Uma obra onde se vê apenas uma idéia materializada -- sim, apenas a idéia sem sentido, sem uma técnica específica -- pode ser considerada arte? Resposta: sim, claro que pode! Convidar as pessoas a verem uma instalação numa galeria, na qual a obra é um animal taxidermizado -- sabendo que o artista que assina a tal instalação nunca mexeu na obra, já que ele teve à sua disposição uma equipe de especialistas para fazer isso -- é estar mostrando o real intuito da arte? Resposta: sim, no atual mundo pós-moderno, qualquer idéia que se materialize -- e não importa como a tal idéia se materializou, se ela faz algum sentido ou se houve um trabalho, um processo para tanto -- pode ser considerado arte: é o tal vale-tudo, citado no título do livro; tudo é válido, principalmente se servir aos propósitos de mercado. Isso é bem comum, também, no mundo da música: sobretudo no jazz, onde a busca por inovação e pela transgressão foi um extremo que se instaurou de um lado, enquanto de um outro lado houve uma busca pelo reconhecimento midiático e comercial através da produção de um som sintético, comercial e palatável. Aliás, o livro nos mostra vários exemplos onde o artista despreza virtudes e requisitos como o talento, a criatividade, a técnica e a procura por uma identidade e estilo únicos -- elementos esses que, em outras primaveras, eram indissociáveis do ofício -- para produzir uma arte meramente efêmera ou de teor meramente apelativo. Dois dos exemplos que mais me chamaram a atenção são as obras The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living, do artista plástico inglês Damien Hirst, e Piss Christ, do fotógrafo americano Andres Serrano: a primeira, de Damien Hirst, é apenas um tubarão mergulhado em formol numa redoma de vidro -- obra que, na verdade, foi composta não pelas mãos de Hisrt (que só teve a idéia), mas por uma super-equipe de produção que produziu todo o "aparato" --; já a segunda obra, que exemplifica o teor meramente apelativo na arte contemporânea, é uma infeliz fotografia de Jesus Cristo mergulhado em urina, composta em 1987. Conclusão: Trigo diz, no capítulo "Sobre o estado da Arte", que boa parte da arte de sucesso que se produz hoje, implica em processos de produções caros com equipe de assistentes e financiadores preocupados em lucrar com a tal "produção" -- em compensação, a arte que aí se produz pode até ser algo muito caro e elaborado, economicamente falando, mas totalmente desprovido de técnica, identidade ou conceito (é como muitas produções hollywoodianas ou da música pop, por exemplo). Mas é engraçado como a efemeridade é uma espécie de parente da mentira -- ambas tem pernas curtas. O próprio Tubarão Mergulhado em Formol de Damien Hirst, por exemplo, chegou a ser o trampolim de uma possível "crise de existência" da arte, que teria, de fato, existido, caso não fosse abafada rapidamente. Em 2006, o administrador de fundos Steve Cohen, que se dispôs a comprar a obra por uma fortuna de 12 milhões de dólares, recebeu a notícia de que seu tubarão estava se decompondo: artista e comprador logo negociaram a substituição de um novo cadáver, o que rapidamente abafou o caso -- mas mesmo abafada, a notícia reverberizou em todo mundo como a metáfora do "apodrecimento da arte".

O Cristo mergulhado em urina: ofensa religiosa como ferramente de marketing

Foto do cartaz "O Homem de Marlboro": arte nivelada à uma imagem publicitária.

Piss Christ, de Andres Serrano
O Homem de Malrboro de Richard Prince













Mas Luciano Trigo não só aponta obras contraditórias e efêmeras como também discorre com maestria -- além de uma sinceridade que é incomum no jornalismo brasileiro -- sobre outros assuntos que, de uma forma ou de outra, estão relacionados com o mundo das artes: o leitor ficará esclarecido, por exemplo, sobre o poder que o mercado especulativo exerce sobre a arte contemporânea, já que a aspiração maior do artista contemporâneo não é mais produzir uma arte de reflexão, mas sim enriquecer através de uma exposição de luxo influenciada, inclusive, pela moda. Igualmente escancarada é sua análise sobre os trâmites e os bastidores desse mercado: as negociações, exemplos de obras sem valor artístico que foram absurdamente valorizadas economicamente, as aspirações dos curadores e merchands, bem como a relação desses com os artistas (relações essas que envolvem desde sexo até grandes incentivos financeiros), as ilusões dos novos artistas recém-saídos das escolas de arte, entre muitas outras verdades escondidas, são mostradas sem pudor por Luciano à medida que seu ensaio vai se aprofundando.


Sobre a análise da irreconhecível -- ou não-identificável -- identidade estética da eclética arte contemporânea, bem como as suas características, Luciano Trigo se aprofunda no capítulo intitulado "Arte por Designação" e a "Falência da Crítica da Arte". Nesses capítulos, Trigo discorre a respeito da recorrente designação de qualquer objeto como arte -- em vez de uma obra produzida pelo talento e técnica do artista --, também fala do "desaparecimento da crítica" e a respeito do fato de que toda arte produzida hoje é uma assimilação das inovações e transgressões impostas pelas vanguardas histórias -- o que, num primeiro momento, isso não foi um demérito da arte contemporânea, mas sim uma característica natural, já que a arte em geral chegou ao seu limite criativo e experimental após os tantos "ismos" que a caracterizaram no século XX. O demérito, porém, está na nova forma de julgar e de valorizar a arte: no atual mundo consumista e globalizado, que se instaurou com o neoliberalismo na década de 80 -- vindo a se concretizar com a Queda do Muro de Berlim e o Fim da União Soviética --, além da arte servir estritamente as exigências do mercado -- coisa inadmissível para os artistas conceituais dos anos 60 e 70, época do avant-garde e dos happenings, por exemplo --, a crítica de arte também pegou o mesmo rumo. Se antigamente o crítico de arte podia ser "Deus" ou o "Demônio" pro artista -- pois ele tinha o poder não só de conceituar a arte, mas de classificá-la como boa ou ruim --, atualmente o crítico tem apenas o papel de "descrever" a arte, ou seja, de elaborar uma resenha onde a intuito é vendê-la. Aliás, Trigo diz que tanto o artista quanto o crítico de arte nada mais são do que acessórios do mercado: eles até podem ganhar algum dinheiro com isso -- porque o intuito é apenas esse mesmo --, mas eles já não têm princípios próprios e/ou aquela liberdade ideológica que os artistas de outrora tinham.


Para ilustrar e fundamentar tantos pontos importantes, Luciano Trigo colocou, no meio do livro, um conjunto de páginas com as imagens das obras em questão, além de citar, em vários pontos, frases e provérbios de artistas, escritores, filósofos, poetas e críticos de arte célebres. As fundamentações ganham riqueza com as menções à livros, artigos, ensaios e fatos ocorridos no mundo da arte. Interessante, por exemplo, são as menções aos filósofos Walter Benjamim e Adorno (da Escola de Frankfurt), bem como dos críticos Arthur C. Danto e Hans Belting, que decretaram o fim (da História) da arte e, ainda, a menção do famoso livro O Fim da História e o Último Homem, do historiador americano Francis Fukuyama que, através dos primeiros postulados do filósofo Friedrich Hegel, retomou a polêmica teoria sobre uma possível "fim da História", já que com a queda do socialismo, o advento de um mundo multipolar, a democracia liberal se instauraria como a ultima coisa a ser almejada pelos governos. Mas a análise de Trigo não fica só na arte internacional: ela abrange também aspectos importantes sobre o ainda pequeno universo da arte brasileira (pequeno se comparado ao conceitual universo da arte francesa, por exemplo). Igualmente interessante é a menção aos ensaios do poeta Ferreira Gullar, que também é um dos mais refinados crítico de arte do Brasil: Trigo cita, por exemplo, grandes ensaios do poeta como "Etapas da Arte Contemporânea" e "Argumento contra a morte da arte", que são artigos elucidadores a respeito da arte contemporânea brasileira e mundial. Enfim, em certos momentos, Trigo conclui da seguinte forma: "já que a arte e a crítica de arte perderam seus julgamentos de valores e agora servem estritamente ao mercado, disseminou-se a tese de que não existem mais manifestações artísticas superiores ou inferiores, mas apenas diferentes. Desse modo, Beethoven e Ivete Sangalo se equivalem, cada um na sua estética, e se há algum crítico que diz o contrário é porque esse cara é reacionário". Fazer o que? Nós não queríamos a democracia? Pois então, a axaustão da criatividade e o paralelo do consumismo e da especulação econômica com a democracia permitem que artistas usem e abusem da mediocridade de que qualquer idéia -- ou até mesmo a falta de idéias (como na obra “O Homem de Malrboro”, uma simples foto que o artista Richard Prince tirou do cartaz publicitário da marca de cigarros) -- pode ser arte... e o pior: essa obra de arte sem sentido e efêmera pode se valorizar em milhões de dólares. Pra finalizar, fiquei contente de ler um ensaio tão bem fundamentado e tão sincero a respeito desses e outros abusos da arte contemporânea. Isso é sinal de que, a despeito das rasas críticas mercadológicas que estampam a parte de "cultura" nos jornais brasileiros, nem tudo está perdido: ainda há jornalistas e estudiosos que questionam a mediocridade e prezam pela autenticidade das artes; ainda há críticos de arte que prezam a Arte pela Arte. (Meus agradecimentos e felicitações ao jornalista Luciano Trigo que fez questão de pedir para sua editora me enviar um exemplar do livro!)

Para comprar o livro clique na imagem do mesmo: vale a pena!!! Acesse o blog do jornalista Luciano Trigo no Portal G1: dicas de artes, literatura e cinema!!!


Grafitti: antes Street Art, agora adentra aos museus

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Billie Holiday
A arte é uma consequência da alma humana que não pede licença para brotar em nenhum lugar. Com elegância ou com feiúra . Marginalizada ou legalmente reconhecida. Mais conceitual ou menos conceitual. Enfim: ela simplesmente surge e se faz reconhecer como arte e ponto final. A arte é a expressão da alma do ser humano, o reflexo da sua aspiração e da sua afinidade ou relutância para com o meio terrestre em que ele vive. E uma das expressões artísticas contemporâneas que mais tem fascinado é o grafite, pela sua capacidade de carregar mensagens mais explícitas e pelo volume de criatividade que seus respectivos artistas - a maioria anônimos - tem mostrado nos muros dos grandes centros urbanos e, atualmente, até nas galerias do museus. Sim, queiram ou não, já trata-se de um autêntico nicho artístico, de uma vertente da arte contemporânea rotulada como Arte de Rua ou Street Art, em inglês.


Louis ArmstrongO grafite foi, inicialmente nos anos 70, uma expressão que surgiu como forma de protesto e anarquismo dentro dos redutos do hip hop americano - usando tintas aerosol ou spray, os jovens negros do Bronx costumavam grafitar (ou pixar) mensagens e imagens em muros, prédios e trens do metrô com críticas ao governo e ao sistema como um todo. A partir dos anos 80, o hip hop passou a ser visto não mais como um estilo musical das ruas ou uma música marginal, mas sim um novo estilo que podia ser sofisticado e moldado aos propósitos do mercado como um novo da chamada "cultura de mídia". Se nos EUA até os jovens brancos de classe-média estavam aderindo ao estilo do hip hop, significava que o estilo - e a filosofia como um todo - tinha um grande poder de absorver as aspirações das novas juventudes em qualquer lugar do mundo onde a apreciação musical e as manifestações sociais fossem livres. Foi aí, então, que o rap e hip hop rapidamente se espalharam pelo mundo todo através da globalização, que permitiu com que gravadoras midiáticas - Columbia, Sony, Verve e cia - exportassem-os como as novas propostas de moda e de musica do mundo pop, a partir dos anos 80 e 90. E o grafite, assim como o estilo hip hop de se vestir e a respectiva dança chamada break , foi exportado junto ao rap aos maiores centros do mundo: era como os jovens deveriam se expressar frente à sociedade injusta em que viviam; era o estigma da rebeldia de uma nova juventude prestes ultrapassar o século 21, assim como o rock havia sido nos anos 60 para a juventude da época. No livro A Cultura da Mídia do filósofo americano Douglas Kellner, há capítulos inteiro dedicados aos impactos da cultura pop e da black music, dos cartoons e quadrinhos, da blaxploitation, bem como do grafite, rap e seus afluentes, com menção inclusive do jazz como uma das possíveis fontes de origem junto ao funk, haja vista que o rapper Gill Scott-Heron foi um autêtico músico de jazz em seu início de carreira e, mais tarde, foi considerado um "divisor de águas" para o novo estilo de rhythm'n'poetry que surgiria a partir de meados da década de 70: o rap.

Os Gêmeos



O Grafite - ou grafitti em inglês - também foi se sofisticando na mão de talentosos pixadores de parede nos grandes centros urbanos. As pessoas mais jovens, que cresceram nesses centros, não precisam ser lembradas da má imagem que um pixador de parede tinha - e ainda tem - frente à sociedade: era quase um criminoso. Mas, sem teorias sociais e muito menos leis que pudessem fundamentar a má índole que um pixador de parede pudesse ter, o movimento do grafite foi se expandindo e criando artistas autênticos que deixaram de ser simples pixadores rebeldes para serem autênticos artistas de rua ou os precursores da chamada Street Art - aliás, hoje em dia não só há uma distinção de um autêntico artista de rua em relação à um pixador, como também há rivalidades entre essas duas classes de manisfestantes urbanos: um é artista, o outro um vândalo. E assim como o rap se tornou uma música de mercado e até de pesquisa, o grafite passou a ser visto não mais como uma expressão marginal, mas como uma nova vertente da arte contemporânea, um novo nicho artístico. Trata-se, portanto, de um fenômeno mundial - não é uma especulação. Trata-se de um fato.



Ora, bem antes lá nos anos 80 já ocorrera um fato de sofisticação da arte de rua que ficou mundialmente conhecido: o sucesso do grande pintor Jean-Michel Basquiat, que começou a se expressar com frases e assinaturas nas paredes e metrôs de Nova Iorque e ,logo depois, apadrinhado por Andy Warhol (pioneiro da Pop-Art), chegou com grande sucesso às galerias dos museus de arte moderna, sendo reconhecido como um dos artistas mais originais de todos os tempos. E de uns tempos para cá, então, cada vez mais outros talentosos artistas de rua estão subindo os degraus do reconhecimento midiático e passando a ser contratados por grandes museus e instituições de arte para expor suas pinturas. Inclusive, temos exemplos desse fenômeno aqui mesmo no Brasil: em São Paulo, onde há um relevante pioneirismo do grafite desde o final da década de 70, houve grandes pioneiros do desenvovimento da Street Art: como os artistas paulistanos Allex Valauri e Hudinilson Jr e, mais tarde, Gustavo Pandolfo e Otávio Pandolfo, que assinam como osgêmeos, e Hamilton Yokota, que assina como Titi Freak, foram alguns dos pioneiros do gênero aqui no Brasil.

A Rainha do Frango Assado - Maurício Villaça - Consolação - SPNo caso de Allex Valauri e Hudinilson Jr, a escolha de muros como telas de pintura não foi um reflexo apenas da influencia do hip hop, mas sim uma consequência do estudo às novas formas de se expressar, bem como da necessidade de diversificar a arte e quebrar velhos paradigmas artisticos, impondo outras vias de expressão: os dois artistas trabalhavam com outras expressões como a gravura, a pintura sobre bottons, o uso do papel stencil, adesivos, camisetas e objetos e até foram os pioneiros da pequisa do uso do kitsch dentro do espaço urbano aqui no Brasil. Inclusive eles fizeram parte de um coletivo de artistas trangressores chamado 3NÓS3, que desde o final dos anos 70 já vinham fazendo manifestações como pintar imagens e mensagens em muros da cidade de São Paulo, encapuzar as principais esculturas públicas da cidade com sacos de lixo e escrever mensagens de libertação nas portas das principais galerias de arte: como aconteceu em 1979, quando o grupo deixou um X com fita crepe nas portas das galerias acrescido da mensagem "O que está dentro fica, o que está fora se expande" - era uma petição do reconhecimento à arte performática acabada de surgir nas ruas dos rappers, skatistas, punkers e libertários afins.

 Os Gêmeos - Cambuci - SPJá no caso dos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, os osgêmeos, o movimento hip hop paulistano foi o principal ponto de origem à caminhada para a arte que hoje representam. Moradores do bairro paulistano Cambuci, eles passaram a desenvolver um estilo próprio diferente do já tarimbado estilo do grafite americano. Tanto que em meados dos anos 90 eles passaram a ser reconhecidos pelos principais pesquisadores do gênero e, logo após esse reconhecimento, passaram a ser chamados para desenvolver trabalhos em grandes espaços e galerias internacionais. As fachadas da galeria Tate Modern, em Londres, e do castelo de Kelburn, na Escócia, foram ilustratas pelas mãos dos dois artistas de São Paulo que, quando mais jovens, viviam perambulando entre os points do movimento hip hop e as ruas da cidade à procura de muros que pudessem ser ilustrados. No entanto, apesar de surgirem das ruas e do hip hop, eles são sinceros e condizentes quanto à transposição e sofisticação que os talentosos representantes da chamada Street Art vém recebendo: "Ao sairmos das ruas para os museus, o nosso trabalho deixou de ser Street Art. O grafite sempre foi das ruas e nós nunca esperávamos que ele fosse parar nas galerias. Mas foram uma consquência dos trabalhos que ficaram mais sérios e profissionais. Para nós foi uma experiência trabalhar com novos objetos e com novos espaços".

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