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Mostrando postagens com marcador Mario Pavone. Mostrar todas as postagens
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Arc Suite - Mario Pavone & Orange Double Tenor (2010)

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Já escrevi aqui sobre os trabalhos deste herói do contrabaixo: Mario Pavone (vide tag "Mario Pavone" no final do post). Remanescente do núcleo dos músicos marginais do free jazz a emergir no final dos anos 60 e a sofrer com o ostracismo dos anos 70, Pavone ficara conhecido, pelo menos até meados dos anos 90, apenas como um sideman bem requisitado e benquisto entre músicos progressistas, já tendo trabalhado com o pianista Paul Bley (1968-72), o trompetista Bill Dixon (nos anos 80) e o saxofonista Thomas Chapin (1990-97), além de também ter co-liderado registros com o compositor e multiinstrumentista Anthony Braxton, com o trompetista Wadada Leo Smith, com o saxofonista Marty Ehrlich e, mais recentemente, com o guitarrista Michael Musillami, fundador da gravadora Playscape, selo pelo qual, só agora, nos últimos anos, vem lançando uma bem sucedida sequência de álbuns. Mas trata-se, contudo, de um exemplo de músico que sofreu um raro e benéfico processo de destilação, ou seja, à medida em que envelhecia na idade, ele trabalhava para valorizar-se e renovar-se com os mais recentes espamos de contemporaneidade: ao invés de se cristalizar com os clichês viciosos que o tempo impôs ao mainstream ou, no caso específico dele, ao chamado free jazz (ou avant-garde jazz, ou música improvisada, como queiram), ele se modernizou com a tendência do estruturalismo do jazz contemporâneo, unindo a composição escrita, a instrumentação arranjada e a improvisação livre -- essa em lotes, condicionada como um elemento composicional e não apenas como um elemento independente e abstrato -- para compor uma obra que não só ganhou consistência por sí só, mas que também começou a ser aclamada pelos críticos especializados. Essa tal transição do free jazz para o que chama-se hoje de modern creative -- isto é, se segmentarmos o processo através de rótulos empregados pela própria crítica especializada --, não foi só Mario Pavone quem a experimentou, mas a maioria dos veteranos chamados 'freejazzers' e, dentre estes, outros tantos de novos músicos, os quais também passaram a atuar rumo a uma tendência de dinamização interacional, estruturação composicional e re-arranjo instrumental da estética freejazzística, vide os avanços impostos por músicos que vão desde veteranos como o saxofonista David S. Ware e o contrabaixista William Parker, passa por músicos de transição como os saxofonistas Steve Coleman e Tim Berne e desembarca em músicos da nova geração como Matthew Shipp e Vijay Iyer. Junto à Pavone, por exemplo, alguns dos músicos que contribuem para o desenvolvimento dessa estética são o guitarrista Michael Mussilami, o saxofonista Tonny Malaby, o baterista Michael Sarin, o pianista Peter Madsen, o baterista Gerald Cleaver, o tecladista Craig Taborn, dentre outros.

Mas as curiosidades quanto ao trabalho de Mario Pavone não se dão apenas pelo fato dele ter resolvido deixar a carreira de engenheiro justamente após conhecer John Coltrane (ele esteve no funeral do saxofonista, em 1967, junto com uma multidão de músicos célebres, e ao som do sax tenor gritante e espiritual de Albert Ayler) ou por ele ter ficado três décadas apenas conhecido como um sideman eficiente e só agora, na terceira idade, ter se projetado como um líder e compositor aclamado. Mas questiona-se, também, a vigorosidade do seu toque e da sua técnica. Tanto que uma crítica publicada na revista New Yorker chegou a examinar a técnica de Pavone como "as working the bass strings with the force and persistence of a sculptor chipping away at granite", ou seja, segundo tal definição, ele parece trabalhar o pizzicato nas cordas do contrabaixo com a mesma força e persistência com as quais um escultor lasca e molda uma peça de granito -- essa foi a caracterização metafórica dada à vigorosidade do seu toque. E ele mesmo, em entrevista ao programa JazzSet, apresentado pela cantora Dee Dee Bridgewater, respondeu que seu toque forte e sonoro foi adquirido através da própria necessidade de impor sua sonoridade nos anos 60 e 70, numa época em que, além da estética musical do free jazz ser naturalmente barulhenta, ainda não havia a cultura do uso de amplificadores e pickups: "In the days I started, sometimes as the lone bassist among several horns and a couple of drummers, there weren't amplifiers or pickups. It was all acoustical playing — it just became part of my style, chiseling away" -- ou seja, mesmo que atualmente já haja amplificadores ultramodernos, seu som permaneceu estilizado através da própria necessidade que se tinha de impor um som alto, forte e sonoro no contrabaixo acústico (mais comum no free jazz do que o baixo elétrico, esse naturalmente amplificado).

A NPR (National Radio Public), a excelente rádio pública americana, acaba de disponibilizar, na íntegra, mais um número do programa JazzSet no qual Mario Pavone é abordado: o programa é apresentado originalmente pela cantora Dee Dee Bridgewater na legendária rádio WBGO (88.3 FM), de New Jersey. Este número apresenta o mais novo projeto de Mario Pavone: uma suíte intitulada "Arc Suite", que acaba de ser registrada em album e lançada ao mercado pela Playscape -- sendo esse o sétimo registro do contrabaixista na gravadora. Assim como todas as composições anteriores, Pavone reafirma, mais uma vez, seu estilo um tanto pessoal de composição e arranjo: as peças desta suíte, segundo ele próprio, são uma homenagem às suas quatro décadas e meia de carreira, englobando tanto as influências e experiências advindas do free jazz dos anos 60 e 70 como também os ganhos adquiridos com suas abordagens mais recentes, explorando o modern post-bop e o modern creative -- e é daí que surge, então, o nome 'Arc', pois esse é o nome de uma das suas bandas contemporâneas (vide o álbum Trio Arc, Playscape, 2008): ou seja, no caso desta gravação (registrada no Litchfield Jazz Festival, em Connecticut), o Arc, que é o nome da sua banda constituída de um trio, apenas denominou e estilizou o projeto que, na verdade, é protagonizado pelo seu sexteto chamado Orange Double Tenor, tendo ele, Mario Pavone, como contrabaixista e compositor, Jimmy Greene no saxofone tenor, Tony Malaby no saxofone tenor e soprano, Dave Ballou no trompete, Peter Madsen no piano e Gerald Cleaver na bateria. Ouça o programa através do link abaixo!


Mario Pavone: seus anos se esvaem...e seu jazz é sempre muito jovem

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No quesito jazz contemporâneo americano há, pelo menos, quatro contrabaixistas que, com a áurea de líderes, figuram entre os mais ovacionados pela excelência e criatividade com que dirigem seus projetos: o onipresente Christian McBride (37) - músico que, desde sua revelação sob a batuta de Wynton Marsalis, passou a ser o contrabaixista mais aclamado dos EUA -, o bem articulado Ben Allison (43) - um dos "cabeças" do grupo moderno de compositores Jazz Composers Collective -, o versártil Avishai Cohen (39) - músico israelense evidenciado nos interessantes trabalhos acústicos de Chick Corea no início da década de 90 - e, por fim, o veterano Mario Pavone (70) - músico que, na dúvida, desistiu da profissão de engenharia assim que compareceu ao funeral de John Coltrane em 1967, iniciando, logo em seguida, sua carreira junto ao grande pianista Paul Bley, carreira essa que, entre altos e baixos, nunca mais parou de dar bons frutos.

Ao contrário dos jovens McBride, Allison e Cohen, o veterano Pavone não conheceu o renome em seus anos de mocidade - considerando, aí, que "mocidade" para um músico de jazz seja o período compreendido entre a idade dos 20 até 40 e poucos anos. Mas enquanto sideman, ele sempre foi um dos mais queridos contrabaixistas dos músicos de avant-garde (leia-se free jazz e livre improvisação), colaborando com Paul Bley (1968-72), Bill Dixon (nos anos 80), Thomas Chapin (1990-97), além de co-liderar uma série de notáveis trabalhos com Anthony Braxton, Wadada Leo Smith, Marty Ehrlich e, mais recentemente, Michael Musillami. A criatividade de Mario Pavone, porém, mostrou-se atemporal frente às "ironias dos destino" e os vai-e-vêm estilísticos do jazz que, após os experimentalismos da década de 60 e 70, hoje está mais sóbrio no sentido de estar condensando e tradicionalizando todas as técnicas e inovações impostas pelos grandes exploradores de outrora. E é dessa forma - mostrando trabalhos com um bom apanhado de técnicas e possibilidades sonoras - que Mário Pavone compõe e lidera seus projetos, passando a adquirir, atualmente, considerável renome entre os exigentes críticos do jornal New York Times e dos sites All Music Guide e All About Jazz, entre outros holofotes especializados.

Oriundo do cenário Loft Jazz dos anos 70 - cenário do free jazz nova-iorquino, no qual os músicos se apresentavam apenas em "guetos" e "lofts", já que o rock, o funk e o fusion dominaram a maioria dos espaços de música - Mario Pavone fez parte do conjunto Bill Dixon's Orchestra of the Streets e, em 1975, ele voltou para Connecticut (onde havia ingressado na universidade) para ser um dos membros-fundadores da New Haven - Creative Music Improvisers Forum (CMIF) -,junto à músicos como Wadada Leo Smith, Gerry Hemingway, Wes Brown, Reverend Dwight Andrews, dentre outros. Atualmente, depois de ter atuado com as estéticas do free jazz e da livre improvisação, Mario Pavone concentra seu trabalho entre as estéticas do Modern Creative e o Post-Bop da recente geração de "jovens" como Tonny Malaby, Michael Sarin, Peter Madsen, Gerald Cleaver, Craig Taborn, Matt Wilson, dentre outros. Foi com essas estéticas que Pavone passou a mostrar o tino composicional que hoje o eleva ao rol dos contrabaixistas e compositores mais requintados do jazz contemporâneo. Lançando discos pelo selo Knitting Factory e depois estabelecendo estadia na ainda desconhecida gravadora Playscape - fundada pelo veterano guitarrista Michael Mussilami -, o contrabaixista vem arrancando aplausos da crítica especializada após lançamentos como Dancer's Tales (Knitting Factory 1997), Orange (Playscape 2003) e os excelentes Deez to Blues (Playscape 2006) e Op-Ed (Playscape 2000), esse em parceria com o próprio Mussilami. Enfim, chegando na altura dos 70 anos de idade, Mario Pavone mostra que só sua idade envelheceu: o seu jazz continua cada vez mais jovem! A não perder estão os recém-lançados Trio Arc e Ancestor, ambos pela Playscape. (Clique na imagem do disco e ouça o disco Dezz to Blues no meu site - lembrando que é preciso se cadastrar no Multiply). Ouça, também, o Podcast dos Contrabaixistas do Jazz Contemporâneo, onde eu abordo o nome de Pavone.


Outros Excelentes Sites Informativos (mais sites nas páginas de mídia e links)