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Happy Birthday (2) - O selo que criou sua própria concepção de som

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Clique aqui para visitar o site da ECM Records

Manfred Eicher






















Selo fonográfico de Munique fundado em 1969 por Manfred Eicher permanece como referência do jazz, do experimentalismo e da música clássica.


Egberto Gismonti, um dos grandes nomes da música instrumental no Brasil também foi uma revelação dos históricos festivais promovidos pela televisão nos anos 1960. Mas foi de um estúdio em Oslo, na Noruega, em 1976, que ele armou o salto para a conquista do prestígio internacional. Ao lado do percussionista Naná Vasconcelos, gravaria Dança das Cabeças, que já nascia premiado por sair sob a tutela de uma gravadora muito especial: a alemã ECM Records.

Para comemorar seus 40 anos, a ECM (Edition of Contemporary Music) lançou há pouco uma série de 40 títulos, batizada de Touchstones. O pacote traz parte de seu suntuoso acervo em formato digipack com cds que vão de Chick Corea ao cultuado trio Codona, formado por Naná Vasconcelos e os músicos norte-americanos Don Cherry e Collin Walcott. O álbum Duas Vozes (1984), outra parceria de Vasconcelos com Egberto Gismonti, também foi incluído na série comemorativa.



A consagração de um visionário


Em 1969, a ECM não se tratava só de uma sigla ambiciosa numa Alemanha que já estava restabelecida econômica e tecnologicamente depois das desgraças da Segunda Guerra Mundial. O principal trunfo do selo era mesmo o seu criador, o produtor musical Manfred Eicher, nascido em 1943 em Lindau, no sul da Alemanha.

Eichner, de caráter empreendedor e de muito senso estético, foi talhado para revolucionar o sistema de gravação analógico sob o lema The most beatiful sound next to silence (o som mais bonito parecido com o silêncio). Ele mesmo era um habilidoso contrabaixista e, posteriormente, foi diretor de cinema.

Além disso, iria alavancar a carreira de artistas do quilate de Keith Jarrett, Pat Metheny e Jan Garbarek, além dos citados Gismonti e Vasconcelos, nas correntes mais progressistas da música mundial.

Ex-integrante da Filarmônica de Berlim, Eicher começou a perceber que o seu papel na cena musical iria mais além do que tocar contrabaixo, ao assistir aos 18 anos uma apresentação do Bill Evans Trio em Nova York. Seu entusiasmo pela questão da sonoridade, que já se prenunciava quando Eicher não arredava o pé da sala de gravações em que a orquestra berlinense registrava suas peças, só precisava de um suporte financeiro para virar realidade.


Full Force - Art Ensemble of Chicago Codona - Colin Walcott, Don Cherry e Naná VasconcellosFacing You - Keith JarrettExtensions - Dave Holland












Produzir discos, por que não?

Foi aí que Karl Egger, comerciante de Munique proprietário da loja em que Eicher costumava comprar seus long-plays, entrou na história, acenando com um investimento de, na época, 16 mil marcos. Não era muito, mas o suficiente para soltar Free at Last, do pianista norte-americano Mal Waldron, que seria o primeiro passo rumo àquilo que se convencionou chamar o som ECM.

Intuitivo, Eicher sempre tentava encontrar as condições técnicas e ambientais – a temperatura e a iluminação adequadas dentro ou fora do estúdio – para atingir o êxtase musical. "Todos os discos que Codona gravou foram feitos em apenas três dias. Dois deles para gravação e o último para fazer a mixagem. Era assim que a ECM trabalhava", conta Naná Vasconcelos.

O resultado era fantástico. A concepção acústica deveria ser encarada como verdadeira escultura sonora, assim como as capas dos discos. Estas combinavam majoritariamente sugestivos motivos fotográficos em preto-e-branco com a música contemplativa que é característica do selo.



O estouro de Jarrett

A determinação, o talento e a coragem que Manfred Eicher sempre investiu nos trabalhos de músicos que considera extraordinários – independente do grau de fama deles –, iriam ser coroados definitivamente seis anos depois da criação da ECM, com o álbum Köln Concert, gravado ao vivo por Keith Jarrett em Colônia no dia 24 de janeiro de 1975.

O disco ultrapassou a marca dos três milhões de exemplares vendidos, um fenômeno, considerando o fato de ser um disco-solo de um pianista de jazz. Hoje, Jarrett pode se orgulhar de ter 44 álbuns lançados pela ECM, o que atesta o propalado nível de boa convivência que Eicher mantém com os músicos de seu selo, algo raro no meio fonográfico.

"Todo produtor tinha que ser músico e já ter ficado, ele mesmo, de frente para o microfone", sentenciou o "pai" da ECM. Os artistas que trabalham com ele sabem que têm ao seu lado um verdadeiro parceiro musical, disposto e, principalmente, capaz de dar opiniões oportunas. "Eu os influencio no sentido de fazer questionamentos, de dar sugestões e apontar novas direções. Mas é claro que eu só posso dar cabo da tarefa se for com a intensidade que se espera de mim, com empatia", declarou ao diário suíço Neue Zürcher Zeitung.

A ECM Records, que a partir de 1984 também passou a se dedicar à música clássica, instaurando a chamada New Series, sempre deu ótima acolhida aos brasileiros Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos. O primeiro chegou a ter 12 discos de seu selo Carmo licenciados para a ECM (com títulos como Alma, Circense e Nó Caipira, de Gismonti, e Violão, de Nando Carneiro).

Já Naná Vasconcelos se faz presente no catálogo com o seu solo Saudades, com a trilogia de Codona, agora relançada em estojo de luxo, os três álbuns divididos com Gismonti (Dança das Cabeças, Sol do Meio-Dia e Duas Vozes), mais os cinco discos com o saxofonista Jan Garbarek e outros cinco com o baixista norueguês Arild Andersen.

"A ECM representa muito para a música mundial", afirma Vasconcelos. "A equipe deles era fantástica e as gravações eram em Oslo porque lá o telefone não tocava. E só quem ia para lá eram os músicos", completou o percussionista.


Fonte: Felipe Tadeu (Deutsche Welle)

As Mulheres no Jazz - Talentosas, porém discriminadas

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Muitos dos maiores talentos em ascensão no gênero são 
mulheres. Agora só falta seus colegas machistas admitirem o fato 
Por Sergio Martins
A General da Banda

Esperanza Spalding, que lidera um grupo formado por quatro homens: uma batalha para eles reconhecerem que ela sabe o que está fazendo

A cantora e compositora americana Esperanza Spalding foi um dos destaques de um festival de jazz e pop realizado no fim de outubro em São Paulo e no Rio de Janeiro. Esperanza interpretou canções de sua autoria e fez uma releitura de Ponta de Areia, de Milton Nascimento e Fernando Brant; alternou-se entre o baixo elétrico e o acústico e se esmerou no scat, aquele improviso vocal celebrizado por Ella Fitzgerald. Mas um detalhe chamou tanta atenção quanto seu incontestável talento: a jazzista comandou uma banda de quatro instrumentistas, todos homens. No mundo do jazz, isso ainda é raridade. "Há músicos que pensam duas vezes antes de admitir que sou uma boa baixista. Convencê-los das minhas qualidades como líder de banda é ainda mais complicado", disse Esperanza a VEJA.

Vanguarda musical por definição, os jazzistas são um bocado antiquados no que toca à presença feminina em seu meio. Cantoras sempre foram bem-vindas, e cantoras-pianistas também são toleradas, em especial quando fazem o gênero sexy – regra bem ilustrada pelo sucesso da canadense Diana Krall, que até a semana passada vinha se apresentando no Brasil. Mas a mulher que se arrisca a trabalhar como instrumentista corre o risco de ser rechaçada. O argumento mais comum – e tacanho – é que as moças não têm a mesma "pegada". A tese cai por terra quando se revê a história. Nos anos 30, já havia bandas de sopro femininas que tocavam com a mesma assiduidade e força que as masculinas. As mulheres também contribuíram para a evolução do gênero. Tome-se como exemplo a compositora e arranjadora Mary Lou Williams (1910-1981), autora de clássicos do repertório das orquestras de Benny Goodman e Tommy Dorsey, entre outros mestres do suingue. Aliás, hoje em dia, as mulheres são as grandes inovadoras do jazz. Entre elas, a regente e compositora Maria Schneider, que recentemente musicou os poemas de Carlos Drummond de Andrade; a trompetista Ingrid Jensen, que mistura jazz e música eletrônica; e a própria Esperanza, que combina soul music e MPB. Mas os comentários que elas ouvem continuam velhíssimos. Quando têm um bom desempenho, seus colegas dizem que até que tocaram bem para uma mulher. Já numa noite ruim, o veredicto é que, claro, tinha de ser uma mulher a estragar a apresentação.


Muitas jazzistas driblam esse machismo falando grosso e desafiando os companheiros de banda. Diana Krall é conhecida pela ferocidade com que cobra empenho dos seus músicos. No ano passado, num festival de jazz em Ouro Preto, Ingrid deu um nó em um naipe de trompetistas. "Ela estava ali como convidada. Ainda assim, ficou nos sabatinando para ver se estávamos no mesmo nível dela", diz o trompetista Junior Galante. Outras, como Maria, recorrem ao estilo maternal, persuadindo seus músicos com fala mansa e termos suaves – e arranjos intrincados. A desvantagem é que a moça banca a mãe deles também fora dos ensaios. "Tenho de lembrá-los das coisas mais banais, como levar o passaporte em uma viagem internacional", diz ela. Esperanza alterna estilos conforme a ocasião. Como líder, faz a linha durona e trabalha o dobro do que qualquer um de seus músicos. No palco, a atitude de general da banda dá lugar à de menina sorridente, sensual e companheira dos músicos. "Meu desejo é que as pessoas reconheçam meu trabalho, independentemente de eu ser mulher", diz. Pelo que mostrou na turnê brasileira, ela está longe de ficar só na vontade.

Os estilos de Liderança: como as divas se impõe

As Duronas


Ingrid Jensen (à dir.) sabatina os colegas, enquanto Diana Krall (à esq.) é conhecida pela ferocidade com que cobra empenho









A Mãezona


A regente Maria Schneider: ela desafia os músicos com seus arranjos, mas cuida do passaporte deles

A Dinastia Marsalis: Wynton revoluciona a escrita do Jazz

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Por João Marcos Coelho


Você pensa no jazz atual e, quase automaticamente, alguém com sobrenome Marsalis lhe vem à cabeça. O trompetista Wynton é o diamante mais genial da família constituída pelo pianista Ellis Marsalis e dona Dolores Ferdinand, em Nova Orleans, o berço histórico do jazz pouco mais de um século atrás. Pianista, professor e educador célebre, Ellis, hoje com 73 anos, formou cada filho com especial carinho: o saxofonista Branford, o trompetista Wynton, o trombonista Delfeayo e o caçula Jason, baterista. Mas Ellis foi bem mais do que um pai de grandes talentos familiares. Ele também iniciou na música nomes como os trompetistas Nicholas Payton e Terence Blanchard, além do cantor e pianista Harry Connick Jr. Todos nascidos em Nova Orleans.

Nas últimas três décadas o domínio desta dinastia de músicos nascidos na mesma cidade de Louis Armstrong sobre a cena jazzística é incontestável. É verdade que as tribos mais especializadas de platéias jazzísticas costumam torcer o nariz para tamanho sucesso. Ainda mais que aparentemente os Marsalis soam passadistas. Construíram suas carreiras basicamente cultuando o passado. Ora, o aparentemente conservador de Wynton só agora deixa entrever suas metas artísticas de modo mais claro. Posso estar enganado, mas pela primeira vez sinto que o reizinho dos Marsalis está operando o milagre de levar o jazz, música historicamente oral, para os domínios da música escrita.

Torcidas de nariz são apenas demonstração de ranço. Uma olhadela rápida no primeiro semestre deste ano não deixa dúvidas. Eles dominam mesmo a cena musical. O patriarca Ellis Marsalis acaba de lançar o CD An Open Letter to Thelonious, um maduro e pessoal tributo a Monk, rodeado por um trio onde destaca-se o caçula Jason na bateria (ELM Records). Wynton ataca em várias frentes. Seus últimos lançamentos são maravilhosos: o DVD Congo Square, onde sua Jazz at Lincoln Center Orchestra une forças com o grupo Odadaa! de percussionistas e cantores de Gana; e o CD, lançado simultaneamente nos EUA e no Brasil (Blue Note/EMI) intitulado Two with the Blues, reunindo o quinteto de Wynton Marsalis e o country man Willie Nelson.

Além disso, a Sony-BMG não perde tempo, apela para Lavoisier e relança a todo momento picadinhos, sobretudo de Wynton e de Branford. Este mês chegaram ao mercado internacional as coletâneas Standards and Ballads, de Wynton, e Classic Branford, onde o irmão mais velho interpreta só música clássica, de Rachmaninov a Villa-Lobos.

A música dos Marsalis em geral comenta e se alimenta do nascimento, evolução e clímax do jazz como um universo à parte. Eles jogam com todos estilos como músicos eruditos pulam do barroco para o romantismo ou para o classicismo. Seria esta uma atitude pós-moderna? A grosso modo, encaram Armstrong e Ellington como pais fundadores do gênero, os beboppers Charlie Parker, Thelonious Monk e Dizzy Gillespie como clássicos modernos e entronizam o hard bop como ponto de chegada. Mais do que isso: Wynton coloca-se sempre como o contador de histórias. Mas ele é musicalmente inquieto, renova-se a todo instante. Enquanto Ellington empilhava temas, dava-lhes títulos sugestivos e os enfeixava numa suíte, Marsalis faz da narração de uma história ou da múltipla abordagem de uma temática o núcleo de suas obras formalmente mais extensas. Foi assim com Blood on the Fields, uma das suas primeiras e mais ambiciosas incursões nas formas longas, em 1997, que o levou a ser o primeiro músico de jazz a ganhar um Pulitzer. Em três horas, o espetáculo reúne solistas vocais e instrumentais para contar a história dos negros africanos de várias etnias escravizados nos EUA. Tese central: a escravidão define a identidade americana.

No ano passado, Wynton lançou um CD genial, inesperadamente atual e chocante: From the Plantation to the Penitentiary (Blue Note) traz seu quinteto atual e a cantora convidada Jennifer Sanon, de 21 anos. Uma feroz e ácida radiografia da sociedade americana atual. As canções, letra e música de Wynton, transformam o grande trompetista praticamente num rapper jazzístico em termos de letras (confira Supercapitalism). Musicalmente, a atitude é pós-moderna, no sentido de passear pelos estilos jazzísticos históricos.

Congo Square, agora lançada em DVD a partir de uma apresentação no Festival de Jazz de Montreal do ano passado, é uma obra-prima de duas horas de duração estreada em 25 de agosto de 2006 na Congo Square, a praça de Nova Orleans, exatamente um ano após a tragédia do Katrina. Recria, num magnífico encontro entre a Jazz at Lincoln Center Orchestra e o grupo Odadaa! de Gana, o que seriam as músicas, a percussão, a dança e as letras cantadas ainda em dialetos africanos, na praça central de Nova Orleans, nos século 18 e 19.

Se tivesse nascido no século 19, com certeza Wynton Marsalis seria compositor de óperas. ''Dramma in musica'', este é seu destino irremediável. Neste sentido, ele constrói uma curiosa ponte com a música dita clássica. Enquanto suas criações formalmente extensas são inteiramente escritas, ultrapassando a tão celebrada oralidade do jazz, de outro lado um compositor contemporâneo como Osvaldo Golijov escreve uma Paixão Segundo São Marcos, em 2000, adotando uma escrita claramente popular. Alguém aí lembra da Missa Criolla de Ariel Ramírez? Ela misturava músicas populares e folclóricas num esquema formal sacro. Pois Golijov vai mais longe: mistura várias tradições populares, convoca a brasileira Luciana Souza, põe pitadas de música judaica sefardita, enfatiza a percussão. A parceria com o grupo Odadaa! de Gana em Congo Square sugere que Marsalis vai na mesma direção.

Sem dúvida, uma convergência bem-vinda. Cai por terra uma dicotomia histórica entre as músicas de tradição oral e as de tradição escrita. A partitura na música clássica é o roteiro de uma obra musical ideal, que Platão diria estar no mundo das idéias e que os intérpretes perseguem sem jamais alcançar sua essência. Nas músicas orais, ela é mero lembrete para economizar tempo, como dizia Duke Ellington. Com Marsalis, o jazz chega ao que o francês Christian Béthune chama de ''segunda oralidade''. Ou seja, a partitura passa a ser tão rigorosa e complexa quanto a da música clássica européia branca; mas não é mais o roteiro de uma obra musical ideal à la Platão. Ela fixa os momentos coletivos, mas abre espaço para o improviso contra este pano de fundo organizado. Sem esquecer o swing, é lógico. Porque hoje compositores como Wynton Marsalis e Osvaldo Golijov não têm mais a vergonha que o filósofo Walter Benjamin sentiu nos anos 30, ao se pilhar marcando o ritmo com os pés ao ouvir uma big band: ''Isso não bate com minha educação''.


IRMÃOS DE SUCESSO

WYNTON MARSALIS: A grande estrela da família nasceu em 1961 e começou a estudar trompete aos 6 anos. Aos 14, já tocava com a Filarmônica de Nova Orleans e, aos 17, mudou-se para Nova York, onde freqüentou a Juilliard School. Em seguida, trabalhou com lendas do jazz: Herbie Hancock, Sarah Vaughan, Dizzy Gillespie e Sonny Rollins. Além da carreira de intérprete e compositor, ele é desde o início dos anos 90 diretor artístico da série Jazz at Lincoln Center, à frente da qual tem promovido pesquisas sobre a história do jazz. Criou e apresentou diversos programas de televisão.

JASON MARSALIS: Nascido em 1977, o baterista desenvolveu um estilo fruto da associação da musicalidade herdada da família com os estudos formais na Universidade Loyola. Alguns de seus melhores trabalhos saíram da parceria com o pianista Marcus Roberts.

BRANFORD MARSALIS: O saxofonista é o mais velho dos irmãos Marsalis. Começou a carreira no início dos anos 80 tocando na big band de Art Blakey. Trabalhou também com Miles Davis em suas últimas aparições públicas e, durante alguns anos, acompanhando o cantor Sting. Branford participou também de shows com a banda Grateaful Dead. Criou um selo, o Marsalis Records e, atualmente, trabalha com o Branford Marsalis Quartett. Ganhou o Grammy de melhor instrumentista de jazz em 1993. Nos últimos anos tem se dedicado a arrecadar fundos para as vítimas do Katrina.

Delfeayo Marsalis: Trombonista, atuou na big band de Art Blakey e com Ray Charles. Aos 43 anos, dedica-se ainda à função de engenheiro de gravação, sendo um dos mais assediados produtores de Nova Iorque. É autor de balé inspirado em Um Bonde Chamado Desejo.


Carla Bley traz de volta ironia e humor ( dessa vez prestes a desfigurar músiquinhas de Natal )

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CARLOS CALADO
Colaboração para a Folha de S.Paulo

Na última apresentação em São Paulo, em 2000, ela encerrou o show de maneira insólita, com a ironia e o humor que identificam sua obra há quatro décadas: tocou uma composição inspirada no assassinato de uma garotinha, no interior dos EUA, que mais parecia trilha sonora de filme de terror.

"Só me lembro de que já era muito tarde e eu estava exausta. Devo ter errado bastante naquela noite", diz à Folha a compositora e pianista norte-americana Carla Bley, 70, atração escalada para o Tim Festival (dia 22/10, em São Paulo; 24/ 10, no Rio de Janeiro; e 25/10, em Vitória).

Se estivessem prestes a se apresentar no país, como ela, outros artistas se apressariam em dizer o quanto adoram a música brasileira, mas a idiossincrática miss Bley --sobrenome de seu primeiro marido, o pianista Paul Bley, que manteve apesar de terem se separado em 1967-- é capaz de dar respostas tão inusitadas quanto suas composições.

"Não tenho lembranças musicais daquela turnê, exceto de que foi meu último concerto em duo. Mas me recordo de ter ido a um grande mercado, onde comprei cinco tipos de feijão e mangas incríveis.

Naquela época, eu estava muito interessada em comida e me deliciei provando diversas frutas", diz. Agora miss Bley virá com seu quinteto, o Lost Chords, que inclui Steve Swallow (baixo), Billy Drummond (bateria), Andy Sheppard (sax tenor) e Michael Rodriguez (trompete).

"O repertório desse concerto vai sair de nossos dois álbuns. Talvez eu toque algo inédito e alguma composição mais antiga", adianta. Desde o início de sua trajetória, nos anos 60, o nome dessa irreverente compositora esteve associado ao jazz de vanguarda de músicos, como o saxofonista Steve Lacy ou o baixista Charlie Haden.

Não é à toa que ela ainda escreve arranjos para a Liberation Music Orchestra (banda criada por Haden, em 1969, com um repertório de canções de protesto e hinos revolucionários), que foi reativada, em 2004, como reação ao belicismo do governo Bush.

Miss Bley conta que a orquestra tem realizado concertos com renda revertida para a campanha do candidato democrata Barack Obama à presidência dos EUA, embora ela própria não tenha muita fé no poder militante de sua música. "Charlie [Haden] acredita nisso, mas eu sou meio cética, duvido que isso seja possível.

Sinto que só os eleitores já decididos a votar em Obama vão nos ouvir, num clube de jazz. Mas fazer algo assim leva você a se sentir melhor. Como não temos dinheiro, isso é o que podemos oferecer à campanha." Ainda assim, ela também duvida da possibilidade de Obama virar o jogo político no país.

"Não sei se ele vai conseguir encarar um jogo tão pesado, porque ele é inteligente demais para isso. Nos EUA, um candidato precisa fazer coisas estúpidas para conseguir o apoio das pessoas mais estúpidas." Com essa mesma acidez, ela encara o panorama atual do jazz. "Sem dúvida, a cena de hoje é muito mais conservadora do que a da década de 50 ou a de 60.

Eu ainda não fazia parte do mundo musical nos anos 50, outro grande período, mas tive sorte de já estar presente na década de 60, a mais excitante de todos os tempos."



Pianista grava álbum de Natal

Habituada a gravar e tocar composições próprias ou dos músicos de sua banda, a jazzista Carla Bley prepara uma surpresa de final de ano para os apreciadores de sua música: um álbum de Natal.

"Já estou trabalhando nos arranjos, com Steve Swallow e um quinteto de metais. Vamos gravar antigas canções de Natal, como "Noite Feliz" e "Jingle Bells", que serão adaptadas ao meu estilo", revela a pianista e arranjadora norte-americana. Papai Noel e suas renas que se cuidem...

Carla Bley no Tim Festival
Quando: dia 22, às 20h30
Onde: auditório Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 2, pq. Ibirapuera, São Paulo; tel. 0/xx/11/6846-6000)
Quanto: R$ 150 (ingressos esgotados)
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 18 anos


Você encontra exemplos de vida no Jazz? R. Mugiatti, sim!

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Recorte do Jornal Valor Econômico (Fim de semana) - 4/10/2008

Trane, Shorter, Rollins, Miles, Hancock e a "Parábola da Pizza"

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Uma crítica-comentário do Sonórica, blog com opiniões sobre política, arte e vanguarda, me chamou a atenção para o fato da não-variabilidade da nossa apreciação ou, pra ser mais simples, da nossa superestimação à músicos que se repetem insenssantemente nos holofotes, capas de revistas, livros de biografias, posts de blogues e nas estantes das lojas de discos. Ou seja, as pessoas costumam sintetizar o universo do Jazz - que, por si só, é de uma imensidão quase imensurável - em três, quatro, cinco nomes manjados, como por exemplo: Sonny Rollins, Wayne Shorter, Miles Davis e John Coltrane. A revista Downbeat, por exemplo, sempre coloca no pódio de Melhores Saxofonistas do Ano esses veteranos ativos desde 50 anos atrás como Wayne Shorter e Sonny Rollins, deixando novos jovens e brilhantes músicos e compositores na obscuridade. Pat Metheny, desde os anos 80, perdeu as contas de quantas vezes já esteve no topo da lista. O mesmo fato se repete com o trompetista Wynton Marsalis que parecia ser imbatível desde os anos 80, recentemente deixando o posto ora para Dave Douglas, outrora para alguns dos trompetistas já conhecidos como Terence Blanchard e Nicholas Payton, enquanto outros jovens brilhantes como Jeremy Pelt e Alex Sipiagin foram pouco ou nunca lembrados. Mas afinal quais são os critérios? O critério é técnica? O critério é criatividade? O critério é vendagem? Porque insistem em colocar em evidência sempre os mesmos veteranos, enquanto há novos e brilhantes músicos tentando conquistar o seu espaço? Não, na verdade não dá para aprofundar o julgamento à Revista Downbeat, já que ela nem sempre comete injustiças: novos e brilhantes músicos-compositores como Wycliffe Gordon, Jason Lindner, Vijay Iyer, Maria Schneider foram alguns que conseguiram boas colocações nos rankings da revista e, consequentemente, passaram a ser mais amplamente apreciados pelo grande público de Jazz, diversificando, assim, o leque para apreciação ao novo Jazz. Mas quanto à superestimação à veteranos como Sonny Rollins e Wayne Shorter, dá-nos a impressão que o que prevalece é o puxasaquismo dos delegados contratados pela "Bíblia do Jazz". Não que Shorter e Rollins não possam ser mais considerados expoentes do Jazz Contemporâneo apenas pelo fato de já serem veteranos desde os anos do Hard Bop - haja vista que eles são músicos que, ao invés de envelhecerem, atualizaram suas sonoridades e sintonizaram-se com as roupagens impostas pelos jovens das ultimas décadas -, mas os anos passam e novos e brilhantes músicos vão sendo esquecidos, ou ainda velhos músicos que poderiam ser lembrados ficam ainda mais afundados na obscuridade.

Outro fato problemático, é aqui mesmo no Brasil. Nas cidades urbanas como São Paulo, onde temos a oportunidade de assistir e compartilhar novas sonoridades, comprar discos variados e nos aventurar por novos dialetos do Jazz e da Música Instrumental Brasileira, as pessoas são infectadas pelo comodismo. A questão já começa a ficar clara pela falta de atenção que a mídia brasileira dá à musica instrumental: bandas pop como Cansei de Ser Sexy, Sandy & Júnior e NXZero têm total divulgação e respaldo da mídia onde quer que sejam os shows; já as apresentações de música instrumental que acontecem nos Sescs, nas poucas casas de Jazz e nos grandes festivais , raramente encontram espaços em jornais como o Folha de São Paulo ou Estado de São Paulo, ou ainda na popular Revista Veja, revista que tem uma abrangência nacional e de classes variadas. Quando há alguma divulgação, o espaço é tão pequeno que chega a ser insignificante como meio de incentivo à cultura e música bem elaborada.

clique para ampliarA propósito, aconteceu um caso raro: a Revista Veja dedicou uma página de entrevista com seis perguntas para o grande saxofonista Sonny Rollins que veio se apresentar no Tim Festival de 2008. Pequenas dedicações como estas seriam importantes para ampliar o público do Jazz se acontecessem regularmente: ao menos iria despertar curiosidade em pessoas que estão em busca de conhecer mais o gênero ou que não ainda nunca tiveram contato com a música instrumental. Mas o que caracteriza o comodismo da mídia especializada em cultura e das pessoas em geral é que o jazz é resumido em três, quatro ou, no máximo, cinco nomes manjados do gênero. Contra esse fato, o grande Festival Tudo é Jazz de Ouro Preto é um dos eventos que mais têm procurado mostrar os novos músicos e as novas sonoridades que estão despontando no Jazz Contemporâneo e na Música Instrumental Brasileira. Mas as maiorias das pessoas, que dizem gostar de jazz, se limitam a comprar apenas clássicos de músicos conhecidos como A Love Supreme e Kind of Blue - e só estão comprando agora por causa de um incentivo impulsionado pelo marketing da editora que lançou as recentes biografias de John Coltrane e Miles Davis - pois, passado essa onda, as pessoas estacionam, não compram mais nada, não se dão ao luxo de conhecer músicos novos, ou mesmo músicos que ficaram na obscuridade (como a maioria dos músicos de Free Jazz), ou seja, não se dão ao luxo nem correm o risco de conhecer novas sonoridades, novas aventuras sonoras, novas esperiências e, por consequência, novas descobertas. E aí se encaixa a “Parábola da Pizza”: As injustiças na música chamada Jazz, sempre existirão, nunca terão fim, isto é fato. Mas a questão aqui não é sobre injustiça, mas sobre o comodismo, a rotina, a falta de interesse em buscar novas experiências, principalmente entre os paulistanos. É triste, pois a música oferece um amplo campo de apreciação, mas parece que muitos preferem passar décadas escutando só A Love Supreme e Kind Of Blue... Pegue um cardápio de qualquer pizzaria de bairro que entrega à domicílio, tem mais de 30 tipos de combinações e não é nada que seja gritante ao paladar do brasileiro, como partes intestinais de animais e insetos, como se vê na culinária chinesa, mas há muitas há muitas pessoas que sempre pedem muzzarella, calabreza, catupiry ou portuguesa, uma coca ou guaraná... e os anos passam...e as pessoas acabam se limitando e padronizando a vida em alguns poucos clichês" Conclusão: para a maioria das pessoas conhecer apenas Wayne Shorter, Miles Davis, Herbie Hancock, Sonny Rollins e John Coltrane, parece ser o essencial ( e os outros músicos como ficam?). Esse comodismo se constata até nos grandes foruns de Jazz que acontecem no Orkut: as comunidades paralisam depois de um certo tempo, pois as pessoas falam tanto nos mesmos músicos que depois já não têem mais o que discutir. E o tempo passa...e nada...apenas vemos que nós brasileiros nos costumamos com tão pouco... tão pouco em termos de arte, em termos de ambição profissional e educação, em termos de política, e por aí vai. Aqui no Brasil, por exemplo, a mídia e a maioria do público também estacionaram-se na Bossa-Nova, um gênero que revolucionou a música brasileira a 50 anos e, ainda hoje, é vista, por essa maioria desavisada, como o modelo definitivo de modernidade. E só tem essa atenção porque esteve, desde o início, ligada mais à canção e boemia carioca do que à música instrumental em si: Stan Getz, que Deus o tenha! Os discos e nomes seminais da Música Instrumental Brasileira Contemporânea não costumam aparecer aos fascículos na TV nem nos Jornais e nem nas revistas; e as pessoas, por sua vez, também não se interessam em novas descobertas.



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