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Podcast - Jazz Contemporâneo: John Hollenbeck, Ted Nash, Alex Sipiagin, Donny McCaslin & Ben Allison!!!

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O baterista e compositor John Hollenbeck
Olá queridos colegas! Sejam bem vindos a mais um podcast do Blog Farofa Moderna, editado para o  Portal MTV em meados do ano de 2010. Este programa é mais um dedicado ao jazz contemporâneo, mostrando cinco geniais músicos e compositores que não nos chegam ao conhecimento aqui em solo brasileiro. Ou seja, esses músicos -- bem conhecidos em solo americano, diga-se de passagem -- ou são menos "famosos" fora de Nova Iorque ou são lembrados  mais como músicos preferidos de outros músicos mais mundialmente famosos, os chamados musician's musician  -- e/ou suas carreiras solo não são divulgadas como mereciam. Há vários músicos nas condições de musician's musician, mas os músicos de que falo têm carreiras solos que deveriam ser mais celebradas, haja vista a importância e a contribuição das suas obras para o jazz contemporâneo. Os músicos apresentados são: o trompetista russo e naturalizado americano Alex Sipiagin, o baterista John Hollenbeck, oo saxtenorista Ted Nash, o saxtenorista Donny McCaslin e, por fim, do contrabaixista Ben Allison -- todos músicos experientes, passados da idade dos quarenta anos e que fazem um som muito inteligente e contemporâneo, com a cara do século 21. Abaixo, os músicos e seus respectivos álbuns apresentados no podcast:

O trompetista Alex Sipiagin (disco: Equilibrium, de 2003) 
O baterista John Hollenbeck (disco: For, de 2007, com o The Claudia Quintet)
O saxofonista Ted Nash (disco: Ted Nash & Double Quartet - Rhyme and Reason, de 1999)
O saxtenorista Donny McCaslin (disco: Declarations, de 2009)
O contrabaixista Ben Allison (disco: Think Free, de 2010)

Gênios do jazz na década 2000-2010: O trombonista Wycliffe Gordon, sua fluência e seu leque de tradições!!!

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Mais um breve post da série Gênios do jazz na década 2000-2010, que iniciei em meados de 2010 na intenção de mostrar os principais músicos do jazz contemporâneo. O extraordinário trombonista Wycliffe Gordon, músico nascido em Geórgia, foi descoberto pelo trompetista, compositor e bandleader Wynton Marsalis no final dos anos 80. Por mais de 10 anos, Gordon fez parte do legendário combo Wynton Marsalis Septet e da big band Lincoln Center Jazz Orchestra, sendo que, ainda hoje, ele é um dos colaboradores regulares nos projetos de Wynton e do Jazz at Lincoln Center, em Nova Iorque. Após lançar os últimos álbuns com o Wynton Marsalis Septet no final dos anos 90, o jovem trombonista deu um novo gás à sua carreira solo iniciada em 1996, passando a lançar, nesta década de 2000, excelentes álbuns pelos selos Nagel-Heyer e Criss Cross, além de participar de diversos projetos paralelos, dentre os quais projetos dirigidos pelo grupo progressista de compositores chamado Jazz Composers Collective (Ted Nash, Ben Allison, Michael Blake, Ron Horton, Frank Kimbrough). Sendo um dos principais trombonistas dos últimos tempos, Wycliffe Gordon, assim como o próprio Wynton Marsalis, é um adepto do tradicionalismo moderno, tocando, portanto, desde os velhos estilos do new orleans jazz, passando pelo gospel até abordagens de jazz mais contemporânos, com ênfase no neo-bop e no modern post-bop. Em sua discografia Wycliffe Gordon mostra uma vasta excelência musical: ora tocando tuba, ora se aventurando ao trompete e outrora se aventurando na voz, cantando e improvisando no melhor estilo do scatting vocal (improvisando frases jazzísticas com a voz) -- vide, por exemplo, o álbum The Joyride (Nagel-Heyer, 2003).

Gênios do jazz na década 2000-2010: O guitarrista Kurt Rosenwinkel e seu post-bop de som reverberante, único!!!

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O guitarrista Kurt Rosenwinkel, nascido em 1970, é um dos grandes e mais originais músicos do jazz contemporâneo a emergir em meados da década de 90, no meio da trupe de músicos como Mark Turner, Brian Blade, Brad Mehldau, Jeff Ballard e Joshua Redman. Quem foi no Festival Tudo é Jazz de 2008, em Ouro Preto (MG), pôde conhecê-lo. Inicialmente, ele cogitou por caminhar sobre os trilhos traçados pelos célebres guitarristas Pat Metheny e John Scofield. Mais adiante, Kurt passou a buscar seu próprio estilo de improvisar e sua prórpia sonorização de guitarra, incorporando em seus improvisos doses tênues de distorções, reverb, delay, efeitos de sintetizadores, trêmolos, dentre outros efeitos... -- porém, cada um desses efeitos são aplicados em dosagens suaves e com uma especialidade muito bem elaborada, o que lhe permite ter uma sonoridade pós-moderna de guitarra semi-acústica que é considerada totalmente única e, ao mesmo tempo, antenada com a tradição dos grandes guitarristas do jazz acústico.  Não sendo um músico velocista ou tecnicamente virtuose, Kurt Rosenwinkel pode ser considerado um dos principais jazzistas que ajudaram a definir as roupagens do estilo contemporâneo do "modern post-bop",  construindo uma aclamada reputação não só pelo seu som levemente reverberante e único, mas também por suas composições que trazem um lirismo ímpar.

Gênios do jazz na década 2000-2010: A pianista Hiromi Uehara e seu virtuoso "new fusion"!!!

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A japonesinha Hiromi Uehara, talvez a pianista mais 'endiabrada' do jazz contemporâneo, nasceu em 1979,  em Shizuoka, no Japão. Aprendendo inicialmente piano erudito aos 6 anos de idade, aos 17 anos ela já tocava profissionalmente dando concertos com a Orquestra Filarmônica Checa: ou seja, ela tinha tudo pra ser mais uma dos poucos jovens prodígios da música erudita que existem no mundo -- e que, quando estão tocando, não parecem pessoas deste mundo (rs)... Mas foi, enfim, o jazz quem lhe tocou o coração e a alma: ainda aos 17 anos, ela conheceu o pianista Chick Corea em Tóquio: e conta-se que ele ficou pasmo com a técnica da garota. Em 1999, aos 20 anos, ela decidiu mudar-se para os EUA para focar no seu estudo extensivo e avançado do jazz: daí, ela começa a estudar na renomada Berklee School of Music, em Boston, e conhece seus ídolos e influenciadores, os pianistas veteranos Oscar Peterson e Ahmad Jamal (seu mentor). Atualmente, Hiromi Uehara é nada menos do que uma das renomadas mestras que lecionam na Berklee e uma das pianistas de jazz mais ovacionada em todo o mundo. A velocidade e precisão técnica da moça são impressionantes!!!

Ambrose Akinmusire: De quando o coração abraça o cérebro, e o sentimento abraça a técnica...

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Esqueçam, por um momento, a Blue Note das décadas passadas, de quando ela era a principal etiqueta das primeiras gerações de progressistas do jazz: isso desde o bebop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie nos anos 40, passando pelo hard bop de Art Blakey e Horace Silver nos anos 50, até o post-bop de Wayne Shorter e Herbie Hancock nos anos 60. Esqueçam também aquele beat swingante de bateria e aquele walking bass manjado, pois há tempos que aqueles grooves de swing e bebop -- que vigoraram nas décadas 30, 40, 50 e 60 -- não são a tônica da linguagem dos músicos: não só dos músicos da geração 2000, mas até músicos veteranos, como os próprios Wayne Shorter e Herbie Hancock, há muito tempo se libertaram das cadeias quadradinhas do swing e bop. Feito isso, aí sim você estará apto para ouvir o que tem a dizer o álbum When the Heart Emerges Glistening, debut do trompetista Ambrose Akinmusire (pronuncia-se ah-kin-MOO-senhor-ee), pela Blue Note. Descoberto aos 19 anos por Steve Coleman (pai do inovador conceito M-Base) num workshop na Berkeley School of Music, Ambrose Akinmusire passou por um lento e constante processo de revelação, desde 2001, até ser recentemente alçado à categoria de principal "rinsing star" nos rankings da Downbeat e noutros principais holofotes americanos especializados: para tanto, além de conquistar a primeira colocação na Thelonious Monk Competition de 2007, ele colecionou uma quantidade considerável de participações como sideman, tocando em shows de imporantes músicos veteranos, como Herbie Hancock e Terence Blanchard (uma das suas principais influências), viajando em turnês ao lado de Steve Coleman (como membro do seu The Fives Elements) e participando de alguns dos álbuns mais interessantes deste início de século, como, por exemplo, Resistence Is Futile (Labeu Bleu, 2001) de Steve Coleman, In What Language (Pi Recordings, 2003) de Vijay Iyer e Mike Ladd, Esperanza (Heads Up, 2008) de Esperanza Spalding, bem como dos álbuns do saxofonista Walter Smith III, seu sideman e parceiro de projetos, para o selo Criss Cross. Antes de ser contratado pela Blue Note, sua primeira empreitada aconteceu em Prelude...to Cora (2007), album lançado pela Fresh Sound New Talent, a qual, como o próprio nome diz, tem sido uma das principais gravadoras a descobrir novos talentos do jazz, assim como a Criss Cross passou a fazer desde meados dos anos 90.

Gênios do jazz na década 2000-2010: O contrabaixista Ben Allison e suas sacadas vindas do pop e rock!!!

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Seguindo com nossa série retrospectiva de posts sobre os principais músicos de jazz desta primeira década do século 21, eu vos apresento o versátil contrabaixista e compositor Ben Allison, um dos principais músicos a transitar entre as vertentes jazzísticas conhecidas como modern post-bop e  modern creative. Residente em Nova Iorque, e nascido em 1966, Allison é um daqueles músicos que, apesar de estarem saindo dos 40 para a casa dos 50 anos de idade, ainda permanecem joviais tanto na aparência física quanto na musica a que se propõe criar. Apesar dele ser pouco conhecido fora dos EUA, ele é indubitavelmente um dos mais notáveis músicos de Nova Iorque, um instigante inovador do jazz contemporâneo, um músico e compositor de voz e estilo únicos que, ano a ano e a cada disco que lança, mostra como e o quanto é possível produzir um jazz jovem, com o rosto do século 21, usando, como influência, resquícios elementares da música popular moderna e pós-moderna: isto é, além dos arranjos e improvisos genuinamente jazzísticos (que vão do estilos post-bop à livre improvisação), suas composições também trazem elementos do rock (vide sonoridades que vão de Beatles até Coldplay e Radiohead, por exemplo), do pop contemporâneo de vertente mais sofisticada (vide sonoridades que se aproximam dos arranjos pop da cantora Björk, por exemplo) e, em alguns álbuns,  até tênues citações sonoras de estilos musicais afros, étnicos ou urbanos (rhythm'n'blues, world music, funk, hip hop e reggae, por exemplo). Mas é preciso frisar, contudo, que Ben Allison toca e compõe em favor unicamente do desenvolvimento do jazz: embora em álbuns mais recentes, como Action-Refraction (Palmetto, 2011), ele trabalha em cima de temas de artistas do pop e rock -- temas como "Philadelphia", do roqueiro e cantor folk Neil Young, "We've Only Just Begun", da dupla de soft-rock The Carpenters, e "Missed" da criativa cantora do pop-rock britânico PJ Harvey --, sua contribuição ao jazz contemporâneo não se resume apenas em criar meras releituras instrumentais de temas alheios; o barato dele é compor temas originais onde ele usa, como já citado, elementos musicais modernos e pós-modernos do pop e do rock contemporâneos, mas os quais, ao final do processo de arranjo e improviso, convertem-se em temas genuinamente jazzísticos, com fraseados e grooves (pegadas rítmicas) que desafiam classificações.

O trompetista Maurice Brown, nova revelação do jazz, e seu álbum inspirado no "ciclo do amor"!!!

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Se a década 90 foi o ápice de uma leva de trompetistas talentosos -- os quais, tirando de fora Dave Douglas, quase todos, à época, se mostraram influenciados pelo neo-tradicionalismo de Wynton Marsalis: Terence Blanchard, Nicholas Payton, Roy Hargrove, entre outros --, a década de 2000 já foi mais favorável para a categoria dos pianistas, os principais agentes da evolução do jazz neste início de século. Contudo,  os últimos anos estão evidenciando o surgimento de uma nova geração de trompetistas, sendo que estes, por sua vez, deixaram o neo-tradicionalismo para trás e estão transitando sob as  mais contemporâneas e pós-modernistas influências que permeiam a atual cultura americana: ou seja, o pop, o rock alternativo, o hip hop e o neo-soul. Além do já famoso Christian Scott e do recém-chegado Ambrose Akimusire, eis que surge mais um excelente trompetista na "New York jazz scene": trata-se de Maurice Brown, trompetista natural de Chicago e nascido em 1981. Em 1999, após a high school,  Maurice começou seus estudos avançados na Northern Illinois University, transferindo-se, depois, para a Southern University, em New Orleans, cidade onde morou e começou sua carreira como líder de banda,  no clube Snug Harbor. Antes,  ele vencera a competição National Miles Davis Trumpet Competition para jovens trompetistas, se tornando, então, um sideman requisitado tanto por músicos da nova geração como por veteranos, chegando a tocar com Clark Terry, Johnny Griffin, Curtis Fuller, Stefon Harris, Ellis Marsalis, Lonnie Plaxico, Fred Anderson, Roy Hargrove, entre outros. Com a catástrofe do Furacão Katrina, Maurice teve de tentar a sorte em Nova Iorque, a "meca" mundial do jazz. E deu certo: sua reputação como músico e compositor lhe rendeu uma agenda cheia em colaborações não apenas com os músicos de jazz, mas com os mais variados artistas e grupos de soul e hip hop: entre eles, Aretha Franklin, Talib Kweli, Wyclef Jean, Cee-Lo, De La Soul, The Roots e P. Diddy.

Com o lançamento do seu primeiro álbum, Hip to Bop, em 2004,  Maurice Brown deixou claro que seguiria a tendência de produzir um som que estivesse antenado com o contexto atual da música afro-americana: como o próprio título sugere, o álbum evidencia um jazz que engloba pegadas que vão do bebop às batidas do hip hop, passando pelo lirismo do neo-soul.  Esta é a tendência que tem norteado a maioria dos projetos da nova geração de jazzistas afro-americanos, inicialmente capitaneados por músicos como o vibrafonista Stefon Harris, o contrabaixista Christian McBride, o pianista Robert Glasper e, mais recentemente, o trompetista Christian Scott. Categoricamente, trata-se de  uma espécie de post-bop regado de influências contemporâneas presentes na cultura afro-americana: o  fraseado -- os improvisos -- ainda trazem sotaques e inflexões oriundos da linguagem bebop, mas os grooves (as levadas rítmicas) são inusitadamente baseados nas batidas do funk e hip hop, bem como a harmonia e a melodia são inspiradas pelos climas sonoros do neo soul e do rhythm'n'blues -- a exemplo de como o hard bop fora uma linguagem bebop mais flexível,  inspirada pelo blues, gospel e soul dos anos 50 e 60. Contudo, é preciso frisar que Maurice Brown tem uma predileção mais retrô (estilo categorizado como straight-ahead), uma pegada  mais visceral e uma performance mais gestual, mais improvisativa e menos lírica que o estilo de Christian Scott, por exemplo.  Após lançamento de Hip to Bop, em 2004, só agora, em 2010, Maurice Brown conseguiu lançar o seu segundo álbum, The Cycle of Love: durante os seis anos que separaram um registro do outro, o trompetista foi interrompido pelas perdas com a desgraça do  Furacão Katrina e depois, já em Nova Iorque, pela agenda cheia de projetos enquanto arranjador e produtor -- considerando que, além de sideman bem requisitado, ele também foi contratado pela Atlantic Records para ser diretor musical da cantora irlandesa Laura Izibor, com quem fez turnês por vários países.


Lançado de forma independente através do seu próprio selo, o Brown Records, o álbum The Cycle of Love foi considerado um dos 10 melhores álbuns de 2010 National Public Radio (vide resenha na página MÍDIA). Mas é preciso frisar aos apaixonados que este The Cycle of Love não é um disco do tipo "jazz for lovers". Ao contrário da impressão que o título do álbum pode passar, as músicas aí contidas não trazem nenhuma sonoridade romantizada do amor: como, por exemplo, aquelas manjadas baladas melosas, um tanto "smooth jazz", baseadas na melancolia amorosa entre um homem e uma mulher. Segundo o próprio Maurice Brown, as músicas também são inspiradas no amor entre um homem uma mulher, mas a principal inspiração é a busca pela felicidade e o amor humano como um todo. Para tanto, o clima do álbum procura casar sentimentalismo com descontração através de melodias de fácil audição e memorização, e através de grooves inusitados, basicamente baseados nas batidas funky e hip hop. A banda presente é um quinteto acústico: com ele, Maurice Brown ao trompete, Chris Rob ao piano, Derek Douget no saxofone tenor, Solomon Dorsey no contrabaixo e Joe Blaxx na bateria. O clipe abaixo foi produzido com base na faixa "Time Tick Tock", um dos destaques do álbum. Clique aqui para visitar o site do trompetista e ouvir outras faixas.


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Donny McCaslin e seu "moto perpétuo": nuances de um post-bop "funkeado"!!!

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Acaba de chegar em minhas mãos o ótimo álbum Perpetual Motion, gravado no final de 2010 pelo saxofonista colossal -- porém ainda pouco conhecido do grande público -- Donny McCaslin, um dos músicos do qual falo sempre de forma muito adjetivada -- e o faço simplesmente porque ele realmente se tornou, por sí só, um jazzista adjetivado. Pra quem ainda não o conhece, McCaslin (44 anos) é, atualmente, a principal estrela do sax tenor no jazz contemporâneo a contracenar com os já cultuados Mark Turner, Chris Potter e Joshua Redman (inclusive, os brasileiros que estiveram no Savassi Jazz Festival 2009, em Belo Horizonte, puderam conhecê-lo de perto). Como sideman ele tem brilhado em diversos combos e coletivos, tais como o Steps Ahead (onde ele substituiu Michael Brecker, em 1994) a Maria Schneider Orchestra, a Mingus Big Band e o Dave Douglas Quintet. Já como líder, seus últimos lançamentos, a considerar desde 2006, tem reafirmado não só seu talento e originalidade -- deixando mais evidente suas idéias, seus arranjos, suas composições e seu estilo próprio como improvisador, o que já lhe tirou fora do estigma de, eventualmente, vir a ser considerado apenas um seguidor de Michael Brecker --, mas tem sido aclamados como sendo pérolas primorosas do jazz contemporâneo no sentido de enriquecê-lo nos contextos do post-bop e do modern creative, principalmente porque, afora seus arranjos primorosos, o saxofonista tem empregado o uso de formações instrumentais inusitadas, sem contar, também, seu solos estonteantes os quais sempre são um deleite à parte: estes lançamentos são Solar (Sunnyside Records, 2006), In Pursuit (Sunnyside Records, 2007), Recommended Tools (Greenleaf Music, 2008), Declaration (Sunnyside Records, 2009) e Perpetual Motion (Greenleaf Music, 2010) -- são pelo menos nestes quatro álbuns onde pode-se analisar, com mais nitidez, a busca do saxofonista em se tornar diferenciado nas três frentes  que completam um músico de jazz:  como improvisador, compositor e arranjador.


Como eu bem disse que resenharia alguns lançamentos, dentre os tantos que forem noticiados aqui -- e os que forem resenhados serão organizados para consulta na sessão LANÇAMENTOS deste blog --, este Perpetual Motion é o primeiro de 2011 que recebe uma notinha especial. Já há algum tempo que eu venho me surpreendendo com Donny McCaslin, nao apenas por constatar que ele é um grande saxofonista, mas por constatar sua grande capacidade como compositor. Isso porque a cada álbum que lança, McCaslin leva à cabo configurações instrumentais diferentes para dar vazão às suas composições e arranjos requintados: um quinteto acrescido da ênfase rítmica da percussão em In Pursuit; trio de sax, bateria e contrabaixo em Recommended Tools; uma compacta brass band de oito instrumentos, metais mais saxofone, em Declaration -- são, enfim, distintas as idéias que a cada disco surgem, o que nos leva a crer que o saxofonista tem um grande desafio de trabalhá-las sem destoar seu estilo próprio, sem soar incoerente em idéias dispersas. Para Perpetual Motion, ele leva à cabo uma espécie de quinteto "semi-elétrico" -- uma banda que combina fraseados e nuances da instrumentação acústica com uma tênue psicodelia proporcionada pelo piano elétrico (Fender Rhodes), mais algumas pitadas de efeitos eletrônicos --, escalando, para tanto, David Binney (saxofone alto, manipulação electrônica), Adam Benjamin e Uri Caine (ambos revezando-se entre o piano e o Fender Rhodes), Tim Lefebvre (baixo elétrico) e Antonio Sanchez e Mark Guiliana (ambos revezando na bateria). Gravado em Setembro de 2010, Perpetual Motion foi lançado na última semana de Janeiro de 2011, sendo portanto um dos ótimos lançamentos que poderá constar nas listas dos melhores álbuns deste ano -- quer dizer, desde já ele passa a ser uma aposta deste blog. Co-produzido pelo altoísta David Binney, o álbum traz dez faixas: sete delas são composições unicamente de McCaslin; a oitava faixa é um rápido interlúdio, um fragmento idealizado por Mark Guiliana; a nona faixa, "Impossible Machine", foi escrita e arranjada em parceria com Binney; e, por fim, décima faixa, "For Someone" é um epílogo de autoria do pianista Uri Caine, com ele ao piano acústico apenas.



Mas, aprofundando-se na síntese deste álbum, qual é o significado do título "Perpetual Motion"? Em italiano "perpetual motion" quer dizer "moto perpétuo", que em português diz-se "movimento perpétuo". Na música, "moto perpétuo" está relacionado à uma técnica musical compositiva, um fluxo contínuo de notas em andamentos rápidos que são aplicadas em uma determinada parte da composição; ou pode ser, também, pedaços de peças, partes inteiras, que são tocados repetidamente por inúmeras vezes -- como um ciclo que se repete indefinidamente. Já na ciência, "perpetual motion" está relacionado à um sistema cíclico que utiliza-se da energia gerada através do seu próprio movimento: seria como uma hipotética maquina que pudesse trabalhar sem energia elétrica, mas unicamente através de uma suposta energia gerada por seu próprio movimento. Perpetual Motion, de Donny McCaslin é assim: um álbum de identidade post-bop, mas que pode ser analisado basicamente como uma espécie de um mosaico de nuances em torno do funk e fusion, tendo, como tempero, vaporosos, reverberantes, inebriantes e tênues efeitos de eletrônica e piano rhodes -- é como um ciclo de variações em torno, principalmente, da rítmica do funk, mas sem soar repetitivo em demasiado. É  curioso, portanto, o modo como McCaslin pincela as suas várias idéias em torno dessas influências sempre deixando-as implícitas através de grooves e arranjos inusitados. Ou seja, não se trata, aqui, de reviver tais influências -- o funk, o fusion, os efeitos elétricos e eletrônicos... -- tal como foram originadas ou como são tarimbadamente exploradas no mundo da música afora, mas trata-se de configurá-las para o idioma do jazz contemporâneo -- e o melhor de tudo é que o saxofonista realiza essas configurações deixando nítida a sua originalíssima personalidade musical, já constatada em seus álbuns anteriores. Dito isto, é preciso delinear, a seguir, como são trabalhadas essas influências, fazendo uma análise auditiva em algumas faixas do álbum. A primeira faixa,  "Five Hands Down", começa com uma introdução numa sonoridade e pegada um tanto "funk-rock": aí os protagonistas são o piano Fender Rhodes, baixo elétrico e a bateria, vindo em seguida o sax de McCaslin intervindo com o tema e, logo após, improvisos calmos e bem pontuados que vão atingindo um êxtase mais ou menos estável, até que se volta ao tema e se desemboca num final com agudas distorções cacofônicas, onde o baixo elétrico acrescenta um grave efeito de amplificador na última nota -- destaque, como coadjuvante, para o baterista Antonio Sanches, que se destacará, ainda, por outras faixas do álbum. A faixa-título Perpetual Motion, a segunda faixa, é protagonizada pelo sax, bateria e contrabaixo, com suaves intervenções do Fender Rhodes: trata-se de um canção melodiosa que desemboca em um funky polirrítmico, um pano de fundo para os improvisos velozes e viscerais de McCaslin -- e ele não economiza no registro, indo do grave ao agudo com muita alma, imprevisibilidade e emoção. Já em "Firefly", quarta faixa do álbum, McCaslin cria uma atmosfera um tanto inebriante: trata-se de uma balada lenta e melodiosa entoada ao seu sax tenor, enquanto, ao fundo, o pianista Adam Benjamin aplica as texturas levemente psicodélicas do Fender Rhodes e David Binney aplica ecos de efeitos eletrônicos: a canção nos soa como se estivéssemos flutuando em alguma dimensão exótica ou em nossas próprias lembranças (boas lembranças, claro!) -- um efeito que, aliás, se repete em outras faixas, em alguns pontos melódicos e bem harmonizados. O álbum prossegue, enfim, com sua veia rítmica um tanto "funk", voltando a se notabilizar através da soulful e bluesy "Memphis Redux": trata-se de uma melancólica canção ambientada em bases melódicas e harmônicas do rhythm'n'blues -- é o tema mais "assobiável" do álbum, embora o desenvolvimento de improvisos caminhe para a mesma angularidade presenciada nas faixas mais complexas. A faixa seguinte, "L.Z.C.M", traz um funk de clima um tanto "noir", como se fosse uma dessas trilhas sonoras que ouvimos em inícios ou fins de filmes de aventura com abordagem retrô. O álbum termina, enfim, com "For Someone", uma bela balada impressionista destilada aos dedos experientes de Uri Caine, um breve epílogo ao piano acústico.


Bridgestone Music: Podcast & Entrevista com o trompetista Christian Scott – O "new jazz" e a necessidade de uma mídia atuante...

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Por Vagner Pitta & Luís Delcides
Fotos: Mila Maluhy
O apoio que a MTV deu à iniciativa do Blog Farofa Moderna em 2009 e 2010, nos proporcionou muitos bons frutos:  além da credencial para conhecer e entrevistar músicos, documentar shows e estar antenado com o cenário e os bastidores, tivemos o privilégio de divulgar essa forma de arte chamada jazz para mais pessoas interessadas, as quais, antes, só tinham ouvido falar de um ou outro panteão de ouro – Miles Davis, por exemplo, sempre foi o músico mais superestimado na mídia mundial e, portanto, o mais conhecido pelo público em geral. Pois bem, essa galera “mais esperta” (constituída, em sua maioria, de jovens que vão de adolescentes a pessoas na casa dos 40 anos de idade), que usa a internet para conhecer meios alternativos de arte – como o jazz e a música instrumental brasileira –, agora tem a oportunidade de estar antenada não só com a história do jazz, mas principalmente com o jazz contemporâneo: o som feito pra nós e com as características populares do nosso tempo, já que o jazz é nada mais do que uma música-arte que desde sempre se baseou na cultura popular americana – hoje juvenilmente entendida como a “cultura pop”, o cerne principal da MTV. E no primeiro dia do Brigestone Music Festival, acontecido de 19 à 22 de Maio de 2010, eu e o fotógrafo-jornalista Luiz Delcides, responsável pelo site de eventos Paulicéia do Jazz, conversamos com o trompetista Christian Scott, um dos novos músicos adeptos à tendência de fazer um “novo jazz”, onde as influências da cultura pop e da chamada música urbana (o neo-soul, o hip hop, a música eletrônica) são os elementos principais.


O Bridgestone Music e a Mídia

É sempre maravilhoso escutar um swingão, um hardbop dos anos 50 com solos transcendentais de John Coltrane e Lee Morgan “quebrando tudo”! Mas esse som, que antes era antenado com a soul music e a cultura popular da sua época, já está eternizado na história do jazz, enquanto o jazz atual, repleto de músicos excepcionais e inovadores, precisa de mais atenção na grande mídia para que mais pessoas cheguem até ele. E o festival Bridgestone Music, se não tivesse sido interrompido em 2011, já se configuraria como um dos mais importantes eventos do gênero na América Latina, um evento de nível internacional patrocinado pela Bridgestone Brasil, que foi idealizado para não deixar o público brasileiro de “mãos abanando” em termos de jazz contemporâneo: tanto que o requinte, o sucesso e o clima de ineditismo com os quais essa terceira edição se realizou, só evidenciaram que no Brasil há, definitivamente, um público ávido, uma demanda por esse tipo de música. Mas os canais midiáticos ainda precisam atualizar esse público. Aliás, em se tratando da mídia como um todo, da mesma forma que canais do pop e rock – como a MTV, por exemplo, – já não vêem mais lógica em falar do rock’n’roll de Elvis Presley e Beatles mais do que falam de bandas de rock contemporâneo como Radiohead e The Libertines – a não ser em um ou outro programa ou documentário especial –, os divulgadores mais reacionários do jazz aqui no Brasil deveriam “cair na real” e parar com a repetição de falar sempre e sempre e sempre do jazz de 50 anos atrás, de jazzistas como Miles Davis, John Coltrane, Billie Holliday e etc. No jazz, mais do que em qualquer outro gênero musical, é importantíssimo nunca se esquecer dos mestres e da história, mas os divulgadores deveriam ter, pelo menos, um equilíbrio em mostrar tanto a tradição quanto o atual, pois o jovem também quer conhecer a música da sua época, a música que tenha sua cara, a música que sintetize seu atual contexto social; e os novos músicos e as novas bandas, por suas vezes, precisam formar seus públicos. Esses divulgadores deveriam, portanto, mostrar mais bandas e músicos do jazz contemporâneo, pois o que presenciamos na mídia especializada em música no Brasil é que ou ela nunca fala de jazz ou, quando fala, é sempre sobre o jazz dos anos 50 e 60, enquanto novas bandas e novos músicos que estão mudando a cara do jazz nos últimos anos ficam à mercê, são desprezados. Atualmente, aliás, quem faz esse papel de informar previamente as pessoas sobre o jazz contemporâneo é a internet: os poucos sites, blogs e portais que constituem a chamada “mídia alternativa”, onde as pessoas mais curiosas acabam encontrando arte e cultura de qualidade. Mas há, com a tendência da plena inclusão digital no Brasil, uma demanda crescente de pessoas que gostam de jazz – ou que estão procurando conhecê-lo – e querem estar por dentro, sim, do que anda acontecendo atualmente com essa música que é um fenômeno mundial. E foi exatamente o resultado desse paradigma que presenciamos na terceira edição do excelente e extinto Bridgestone Music Festival, acontecido do dia 19 ao 22 de Maio de 2010 no bairro de Moema, em São Paulo: só uma minoria – digamos que 1/3 da galera – conhecia, efetivamente, o som de Christian Scott, Don Byron, Dave Holland, Jason Moran, Christian McBride e outros músicos presentes no evento; a grande maioria das pessoas que foram prestigiar o festival até tinham a informação de que aquele evento acabava de lhes dar a oportunidade de presenciar importantíssimos músicos do jazz contemporâneo, mas elas não tinham nem idéia de como se configura o jazz atualmente – muitas nunca nem tinham ouvido tais músicos, e outro tanto delas, movidas pelo glamour do evento, estavam ali em sua primeira audição “live” em relação à uma banda de jazz. O festival, em si, foi um sucesso: o organizador acertou na escolha de músicos criativos, grandes portais e jornais – como o Estadão, Folha, Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, Radio Eldorado, MTV e o Portal UOL – o divulgaram, os ingressos foram bem procurados, a produção foi excelente e pontual nos bastidores e o público, mesmo os que não conheciam tanto o jazz, mostraram entusiasmo nos shows, o que mostra que as pessoas não precisam ser ricas ou intelectuais pra começar a ouvir e curtir jazz. Mas é óbvio que depois do evento, ao fazer nossas reflexões, concluímos que se a mídia brasileira já tivesse o hábito de divulgar mais a música instrumental que anda acontecendo – mesmo que ocasionalmente –, o público do jazz e da música instrumental brasileira seria bem maior e bem mais informado. Pessimista com essa situação, um colega, o músico Rubens Akira, chegou a dizer que muitas pessoas chegaram ali no Bridgestone Music achando que iam ouvir algo parecido com aquele tipo de música divulgado na excelente série/ coleção “Clássicos do Jazz” do Jornal Folha de São Paulo, porque o ultimo grande feito da mídia com relação à divulgar o jazz massivamente foi, justamente, esse tipo de série promocional que a Folha lançou alguns anos atrás, e muitas pessoas ali presentes acharam que iam compreender aqueles sons simplesmente por terem uma coleção de clássicos do jazz em sua estante . Exemplo: não fossem os críticos, os blogueiros e os divulgadores mais antenados, poucas pessoas seriam capazes de enxergar as influencias de Miles Davis no som de Christian Scott apenas por ter adquirido o CD dessa coleção que vem com um encarte e uma compilação de temas do mítico trompetista. Mas se por um lado a Folha lançou essa coleção promocional sobre os mestres do jazz – com CD’s de Miles Davis, John Coltrane, Art Blakey, Chick Corea, John McLaughlin, Herbie Hancock e etc –, por outro lado em seu editorial o jazz e a música instrumental brasileira não têm nenhum espaço regular ou ocasional, a não ser quando um ou outro jornalista mais antenado resolve usar o rodapé do jornal para registrar o óbito de algum músico representativo ou quando há um evento anual, há algum festival importante, como aconteceu com o Bridgestone: aí nosso colega, o jornalista Fabricio Vieira ou jornalistas veteranos do porte de Roberto Mugiatti, por exemplo, têm a oportunidade de usar um pequeno espaço no caderno Ilustrada ou do caderno de cultura do Estadão pra tratar o jazz com o devido respeito e atenção que ele merece. Resultado: como o Estadão, a Folha, a Abril e todos os grandes veículos jornalísticos segregam a música instrumental contemporânea, documentando apenas o sertanejo, o pop e rock internacional, a maioria do público do jazz só conhece bossa nova (porque essa ainda é divulgada ocasionalmente como se fosse a ultima cereja da cultura e canção brasileira), o jazz produzido nos anos 40, 50, 60 e o fusion comercial dos anos 70 – como se o jazz contemporâneo e a música instrumental produzida no Brasil nessas últimas décadas fossem algo inferior ou não merecessem nenhuma atenção. Se em São Paulo há esse descaso, nesse sentido os cariocas interessados em música instrumental – ao menos os que lêem jornal – têm o privilégio de estarem antenados através da coluna dominical que o jornalista Luiz Orlando Carneiro – também um dos presentes no Bridgestone – mantém no Jornal do Brasil, onde são divulgados novos discos, novos músicos e novos acontecimentos do jazz em território nacional e internacional. Já para os visitantes do Blog Farofa Moderna, não existe esse problema, pois em três anos de existência, e agora com o apoio da MTV, conseguimos atingir a meta de ser um espaço alternativo para pessoas que gostam de jazz: e nossa meta tem sido alcançar a excelência em informar os apreciadores sobre o que anda acontecendo no jazz contemporâneo – tanto, que músicos como Christian McBride, Dave Holland, Jason Moran, Don Byron e Uri Caine, todos os presentes no Bridgestone Music 2010, já vinham sendo mostrados aqui a bastante tempo.


Entrevista com Christian Scott


Ao encontrarmos com o trompetista Christian Scott, após o ensaio para a passagem de som, falamos do Blog Farofa Moderna e do site de eventos Paulicéia do Jazz. Falamos de como o jazz era visto como uma musica elitista no Brasil. Ele, curioso, por se tratar de um blog ligado à MTV: disse que divulgar aos jovens, independente de classes, era o caminho. Eu disse que fazíamos nossa parte e estávamos dando uma pequenina contribuição, oferecendo 80 ingressos gratuitos para os visitantes do blog Farofa Moderna e do Portal MTV através de um concurso cultural. Ele elogiou nossa iniciativa e disse que “gostaria muito de conversar com essa galera” (os ganhadores dos ingressos). A entrevista com Christian e seu quinteto – composto por jovens de 20 a 27 anos – começou em tom de conversa, já que eu estava sem o equipamento de gravação. Já no camarim, o jornalista Luiz Delcides nos apresentou e deu às boas vindas aos membros da banda. Minha primeira observação foi a respeito do curioso design do trompete de Christian, que ele mesmo nomeou como “Katrina” (em alusão ao tsunami que devastou New Orleans em 2005): ele disse ter se inspirado no trompete de Dizzy Gillespie, mas o design era dele mesmo. Também perguntei de onde vinha aquele sopro intimista, quando ele sopra suave, a maioria das vezes com surdina, e sai “ar” e “som” juntos (conferir isso na balada “Isadora”): ele me disse que essa técnica de sopro se chama “whisper” e o primeiro músico a desenvolvê-la foi, curiosamente, o trompetista Clifford Brown – depois, Miles Davis seria um dos grandes adeptos. “Por falar em Clifford Brown, quais os trompetistas que lhe influenciam? Miles Davis seria o principal deles”? Christian me disse que não gostava dessa palavra “influência”, pois a achava “perigosa”, tendenciosa; disse-me que eles não queriam ser vistos como uma “influência” de algo já estabelecido, mas queriam ser vistos como eles mesmos. Retifiquei-me, substituindo a palavra “influência” por “inspiração”. Ele sorriu e disse-me: “Ah ok, ok, essa palavra é bem melhor...bem, não só Miles Davis me inspira, mas também Dizzy Gillespie, Clifford Brown e Booker Little – você conhece Booker Little? Antes que eu respondesse, Christian olhou para o baterista e disse: “Pergunte algo à esse cara; ele é o grande cara da banda, ele é a nossa grande influência” – todos eles deram risadas quase em tom de algazarra. Perguntei ao baterista Jamire Williams qual musico da história do jazz o inspirava e também perguntei, descaradamente, onde estava o “swing” da banda e a resposta foi: “Não ligamos pra essa coisa de swing, cara! Mas um cara que me inspira é o baterista Baby Dodds”. Fiquei curioso pelo fato dele citar um dos primeiros grandes bateristas do jazz: Baby Dodds. Em seguida, para provocar mais ainda eu lhes joguei a máxima: “Mas o Wynton Marsalis diz que jazz sem swing não é jazz”. Christian Scott olhou para os companheiros, todos olharam pra ele desconfiados e deram risadas quase em tom de algazarra, outra vez. Christian virou pra mim e disse: “Ok, man! He said that...voce conhece Louis Armstrong? Voce conhece Kid Ory? Eles foram músicos do início, anos 10 e 20, quando essa música já se chamava jazz, e no som da época deles ainda não tinha o swing. O swing foi um elemento que surgiu depois; então não precisamos ter esse “swing” pra sermos rotulados como músicos de jazz”. Falei que conhecia, sim, Louis Armstrong e Kid Ory e aproveitei, para perguntar se ele, por nascer em New Orleans, se sentia influenciado pela tradição dos trompetistas da cidade e pela riqueza cultural que sempre existiu por lá: “Sim, de certo modo fui influenciado, pois nasci em New Orleans e meu tio (o legendário saxofonista Donald Harrison) e meu pai, Clinton Scott, eram músicos, saxofonistas. Mas apesar de ter tido educação musical em casa, nós não tínhamos muitas condições; após a high scholl tive que me mudar de New Orleans para estudar na Berklee School of Music em Boston e, depois, para Nova Iorque para tentar ganhar algum dinheiro; por isso não me vejo como um músico representante de um lugar só.” Em seguida, perguntei sobre a concepção da banda: “Vocês usam batidas de hip hop e elementos do rock e da música pop, como, por exemplo, a canção “The Eraser”, de Thom Yorke (vocalista do Radiohead), umas das faixas do seu último disco Yesterday You Said Tomorrow. Isso é uma tendência ou uma tentativa de deixar o som mais acessível aos jovens? Qual o contexto da banda?”O guitarrista Matthew Stevens tomou a frente para explicar: “Nós não estamos preocupado com os rótulos; queremos apenas fazer a música que tenha a ver com nosso contexto, por isso usamos tais elementos, pois crescemos ouvindo rock, pop e hip hop, mas nada disso importa mais do que nossa música”. Christian Scott, por sua vez, emendou dizendo: “Cada músico da banda é também compositor, e eu escrevo a maioria das músicas. O que importa pra gente é a improvisação, é criar nossa música com a nossa história”. Em seguida falei que os pianistas Robert Glasper e Aaron Parks pareciam trilhar o mesmo caminho. Perguntei pra eles o que eles achavam do jazz dos últimos anos: eles disseram que não se interessavam pelo jazz dos outros músicos e que tinha muito “lixo” acontecendo; disseram que não iam opinar sobre outros músicos, que podiam falar apenas da música deles e que eles nem gostam tanto de ouvir o jazz produzido nessas ultimas décadas, preferiam ouvir outros estilos de música (bandas pop, hip hop e etc). Perguntei ainda ao Christian: “Se você pudesse dizer algo para os jovens brasileiros, para que eles ouvissem mais jazz, o que você falaria? Christian apenas me disse: “Não falaria nada, pois, se eu falasse, eles não iam obedecer – os jovens não obedecem imposições –; o que podemos fazer é apresentar nosso som e deixar que as pessoas escolham ou não escutar nosso jazz”. O jornalista Luiz Delcides encerrou a entrevista perguntando quais músicos brasileiros eles gostavam: Christian Scott citou Seu Jorge; o guitarrista citou Romero Lubambo e “um músico branco de cabelão até os ombros”. Perguntei: “Seria o Hermeto Pascoal?”. Ele disse: “Yes, yes, he is a genius; he is too crazy, man”! Luiz Delcides os alertou para o fato de que Hermeto Pascoal estaria em São Paulo na semana seguinte fazendo apresentações em uma das unidades dos Sescs da cidade. Eles lamentaram dizendo que não poderiam vê-lo porque teriam que ir direto para Nova Iorque. Saímos de lá com a seguinte conclusão: enquanto esses músicos, jovens, querem fazer um som atual, necessariamente rebelde, e querem virar a página dos anos 80 e 90, nós brasileiros ainda estamos focados no jazz dos anos 60...


Christian Scott Quintet: o Show

jO show de Christian foi estupendo. Esteticamente, já sabíamos que as inspirações no acid jazz, no fusion, no pop e hip hop lembram a ultima fase de Miles Davis, só que a sonoridade acústica, a interatividade dos músicos e a quantidade de improviso afastam-nos da possibilidade de acharmos o jazz do Christian Scott Quintet uma música de teor estritamente comercial, como foram alguns projetos da fase pop de Miles. E no show, imperou a arte. As baladas encantaram os mais serenos. Lampejos de funky, hip hop e texturas do pop e rhythm’n’blues ficaram evidentes, mas ficou óbvio para o público, principalmente aos que já conheciam a banda ou algo de jazz contemporâneo, que a concepção ali era transformar esses elementos em algo estritamente instrumental, algo estritamente jazzístico e contemporâneo -- algo que os críticos norte-americanos ja rotularam de "New Fusion". Mas os temas e os improvisos foram totalmente acessíveis às pessoas, apesar da estética contemporânea. Enquanto solista principal, o trompetista Christian Scott não foi aquele improvisador de sequências abruptas de notas ou de fraseados intrincados – algo que, realmente, não é sua característica –, mas seus solos, a maioria composto por notas longas e melódicas, se limitaram à ditar dinâmica da banda: ditando quando que ela poderia soar mais suave e ou com mais intensidade. A influência de Miles Davis no uso da surdina, no registro médio e no uso de escalas ficou evidente no trompete de Christian; mas ele também mostrou quase a capacidade de um Dizzy Gillespie no quesito de atingir as notas mais agudas com uma sonoridade forte e penetrante, momentos esses onde os músicos atingiram um certo clímax e a platéia os presentearam com palmas efusivas. O baterista Jamire Williams era o que dava a intensidade sonora junto ao trompete de Christian: sua bateria era ritmicamente carregada e conseguia evidenciar os ritmos citados, sem impor um groove ou um swing repetitivo. Já a função do guitarrista Matthew Stevens foi “temperar” a banda com uma textura mais “elétrica” e “rocky”, sutilmente psicodélica em algumas partes. Quanto ao repertório, composto quase inteiramente por composições próprias, os destaques foram os temas K.K.P.D, onde o baterista aplicou uma explosiva introdução, e a bela balada “The Eraser” (canção de Thom Yorke, da banda Radiohead). Porem, em determinado momento, Christian incitou os colegas a tocarem algo no ritmo do bebop, puxando um tema de Miles Davis, “Milestone”, o que provocou uma salva de palmas na platéia – aí o trompetista realmente impressionou com frases mais cheia de notas, uma certa dose de bop virtuosístico. Em suma, o Christian Scott Quintet impressionou os que não os conheciam e superou as expectativas de quem já tinha adquirido seus discos. Não foi um show de exibicionismo técnico. Foi um show de mais dinâmica, mas com muitos momentos de êxtases. Foi uma das mais aplaudidas entre as oito bandas que participaram da 3ª edição do Brigestone Music. Para quem não foi ao show e quer conhecer o som do Christian, só acessar o link abaixo e ouvir um podcast no Blog Farofa Moderna do Portal MTV.





Outros Excelentes Sites Informativos (mais sites nas páginas de mídia e links)