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Podcast - Jazz, Samba, Choro, Frevo, Forró...Os diversos rítmos e sonoridades que embalam a Música Instrumental Brasileira !!!

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Airto Moreira, Flora Purim & Hermeto Pascoal
Airto Moreira - I'm Fine How Are You
Hermeto Pascoal - Eu e Eles
Hamilton de Holanda - Brasilianos Vol.2
Bocato - Acid Samba
Teco Cardoso - Quinteto
Léa Freire - Quinteto
Nicolas Krassik - Na Lapa
Alex Buck - Luz da Lua

Spok Frevo Orquestra - Passo de Anjo


E Viva a Copa do Mundo no Brasil em 2014 e as Olimpiadas do Rio de Janeiro em 2016! E gringos de várias partes do mundo terão a oportunidade de conhecer um pouco da diversidade cultural e do calor da nossa terra Brasil! E quando se trata de música, bota diversidade nisso! Vias de regra, todo artista leva consigo um tanto daquilo que sua cultura nativa lhe ensinou. Mas eu, particularmente, sempre defendo que, acima da diversidade cultural do nosso país -- ou além dela; ou juntando-se a ela --, nossos músicos e cantores deveriam expor mais suas personalidades da forma mais evidente, original e contemporânea possível -- afim de renovemos nossa cultura e inovemos nossas formas de expressão, afim de que muitos dos nossos artistas entrem no mapa da música criativa, afim que não fiquemos na letargia do passadismo, no comodismo, ou dormindo sobre o divã da nossa miscelânea regional. Pois bem, em meados do ano 2009, no entanto, eu produzi um podcast para o Portal MTV que mostrava um pouco esta miscelânea, mas sem ressaltar tanto os aspecto da contemporaneidade -- ou seja, eu quis fazer um programa mais documental do que crítico, tentando evidenciar mais a diversidade rítmica e harmônica do que o aspecto temporal inerente à cada músico. Isso porque a música instrumental brasileira é, definitivamente, um dos maiores exemplo de diversidade cultural em relação as músicas de outros países e acho que isso tem de ser mostrado a todos àqueles que não conhecem a panorâmica dessa diversidade: isto é, trata-se de um mix de tantos ritmos e sonoridades que eu simplesmente não gosto de lhe empregar nenhum rótulo mercadológico e nem mesmo estético -- apesar de que o termo "brasilidade" me é totalmente adequado para situar uma determinada produção musical que contenha uma requintada identidade com as sonoridades do nosso Brasil. Ou seja, muitos pesquisadores e apreciadores rotulam nossa música instrumental como "Jazz Brasileiro", mas, na verdade, a influência do jazz é apenas mais um elemento dentre tantos outros como os ritmos e harmonias do frevo, maracatu, samba, choro, forró e etc, rítmos puramentes nacionais -- muitos deles advindos de culturas e folclores regionais. Então, quero dizer que a denominação "jazz brasileiro" chega a ser até mesmo limitante para nossa música instrumental. O que toca atualmente Hamilton de Holanda: "jazz brasileiro" ou "música instrumental brasileira"? Talvez, para o próprio artista, o rótulo a ser empregado seja irrelevante, mas eu prefiro pensar no termo "música instrumental brasileira" de forma genérica e não limitante.

Podcast Perfil - A saga e o estilo do maestro Moacir Santos, um dos maiores mestres da música brasileira !!!

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Coisas (Forma), de 1965
The Maestro (Blue Note), de 1972
Saudade (Blue Note), de 1974
Carnival Of the Spirits (Blue Note), de 1975
Opus 3, nº 1 (Discovery), de 1978 
Ouro Negro (Adventure Music), de 2001
Choros & Alegria (Biscoito Fino), de 2005

Sobre standards, músicos brasileiros que tocam jazz, música instrumental brasileira e a necessidade de haver músicos originais...

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Primeira coisa: um blog, assim como qualquer canal das redes sociais, é sempre um espaço para compartilhar idéias e opiniões -- e temos nossas próprias opiniões, que, aliás, podem não coincidir com as opiniões de todos os nossos leitores. Segunda coisa: este blog sempre teve esse caráter crítico: falar de música por aqui não é apenas afirmar "nossa! que som legal!", mas é, também, mostrar os despropósitos   que existem por detrás dos circuitos musicais -- e muitos despropósitos, como tenho dito sempre por aqui, advêm do descaso e preconceito que a mídia aplica à música instrumental; outros, infelizmente, são ocasionadas pelos próprios músicos, principalmente por aqueles que enxergam a arte da música como escrava do seu próprio ego ou como escrava de uma tendência ou padronização mercadológica, algo que é realmente muito empobrecedor. Digo isso porque não tenho "rabo preso" com nenhum músico ou com nenhum estilo específico de música instrumental: quando sou apenas apreciador de música, eu escuto música de forma atemporal, ouvindo tanto o "novo" quanto o "velho"; já quando escrevo sobre a arte da música e analiso seus cenários atuais, eu prezo por tentar descobrir o que realmente está acontecendo de novidade -- e é esse o caráter principal deste blog. Recentemente, porém, cheguei a participar de alguns debates nas redes sociais -- e até recebi e-mails hostis -- onde alguns "camaradas" e "não-camaradas" tentaram desclassificar minhas considerações contrárias à caretagem de uma grande parcela de músicos brasileiros conservadores: assim como no post anterior a este, eu falava daqueles músicos brasileiros que se limitam a tocar jazz, choro ou bossa nova exatamente como o jazz, o choro e a bossa eram tocados nos anos 50 e 60 -- e pior: o fazem malfeito, de forma morna e sem espirituosidade, sem energia ou originalidade alguma.  Quem já deu uma circulada pelo circuito de bares de São Paulo sabe que há vários espaços onde só se toca aquele tipo de jazz convencional com aquele swing ou bebop de walking bass manjado ou aquele dito samba-jazz advindo da década de 60: se algum músico ou banda chegar para propor um jazz de estilo mais ousado, de grooves mais inusitados, com composições próprias e com identidade sonora contemporânea, os donos desses bares, os promoters e os produtores desses espaços   acabam descartando no ato, pois o que eles precisam para lotar a casa não é uma música que soe novidade, impressione, choque ou traga questionamentos, mas o que eles precisam é apenas uma bossa ou um jazzinho standard ambiente -- é a porra da "música ambiente", algo que nos faz acreditar que esses ditos produtores e "promoters" ou "gerentes" de bares só podem ter tirado essa concepção de "música de fundo" das novelas, onde se ouve canções de bossa, MPB e chorinho como fundo para cenas medíocres. É um aspecto de mercado que acaba ajudando no comodismo daquele tipo de músico parasita: o cara passa quatro anos no conservatório ou na faculdade aprendendo a improvisar sobre temas de Pixinguinha, Miles Davis, Wayne Shorter e Tom Jobim...depois de quatro anos ele vai pros bares e teatros... e continua tocando Pixinguinha, Miles Davis, Wayne Shorter e Tom Jobim do mesmo jeito, sem nenhuma pegada nova, sem nenhuma harmonização nova, nenhum arranjo novo. Ok, esses músicos também tem de existir -- e muitas vezes, tocar só isso é uma forma de sobreviver --, mas isso nunca deveria ser algo quase que totalmente generalizado: senão, a música enquanto arte não evolui, fica no passado; senão, os músicos e bandas que estão criando sons frescos e novos ficam sem seu espaço; senão, o público é descaradamente enganado com versões equivocadas de contemporaneidade. 

Entrevista com o crítico musical Carlos Calado: Música Popular Brasileira, Jazz, Black Music e um desnude da mídia impressa.

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Queridos amigos e visitantes do blog Farofa Moderna, até a dois anos atrás eu nunca poderia imaginar que este espaço não-remunerativo pudesse se apresentar como um canal alternativo sinônimo de informação para apreciadores de jazz, música instrumental brasileira e outros tipos de música de qualidade -- tampouco imaginei que, através dele, um dia receberia a possibilidade de entrevistar grandes músicos e profissionais da mídia, nacionais e estrangeiros. Para quem quiser ler nossas entrevistas, basta acessar a página ENTREVISTAS no topo do blog, onde vocês constatarão que já realizamos entrevistas com grandes músicos e jornalistas, tais como o trompetista Christian Scott, o contrabaixista Christian McBride, a cantora Ithamara Koorax, o saxofonista Ken Vandermark e o jornalista Roberto Muggiati e o guitarrista Michel Leme. E agora, trago-vos uma entrevista com o jornalista-crítico-musical Carlos Calado neste mês de setembro.

Tem me sido muito gratificante ter um espaço como este blog, onde, além de constatar uma média de 400 a 500 visitantes diários de vários países, tenho o prazer de constatar, também, que meus textos são lidos por verdadeiros apreciadores (iniciantes e veteranos) e diletantes músicos e jornalistas brasileiros -- com alguns dos quais, diga-se de passagem, mantenho contato e/ou amizade com ótimos diálogos e aprendizados --, pessoas que encaram a música como uma arte necessária para a vida e, mais ainda, como uma arte suprema dentro do rol das sete artes, embora o pobrismo do nosso cenário brasileiro, encabeçado pela ostentação comercial da grande mídia, pouco nos ajude a elevar essa arte ao patamar de sofisticação que ela merece, o que também nos rebaixa em relação a outros países onde a arte, como um todo, é uma das prioridades. Um reclame constante em meus ensaios neste blog é, justamente, contra o pobrismo cultural encrustado na nossa mídia, algo que, em termos de música, chega a beirar ao preconceito e à segregação -- ou seja, se já tivemos uma ditadura política, agora parece ser o momento de questionarmos se não vivemos uma ditadura midiática onde discursos de defesa à democracia e liberdade de imprensa são apenas um disfarce por cima da manipulação: como a maioria da população é desprovida de educação e cultura, o contingente de pessoas que são capazes de reclamar por uma mídia mais sofisticada em termos culturais e artísticos é muito pequeno, o que faz com que essa mídia tenha poderes para escantear verdadeiros artistas e nos enfiar, goela abaixo, aquilo que ela dita como modinha e espetáculo. Sim, claro, o governo tem sua parcela de culpa: se ele investisse mais em educação e no incentivo à cultura -- algo que ele faz, mas não o faz suficientemente, além de ser combalido por corruptos que enriquecem às custas desse investimento --, teríamos um número maior de verdadeiros artistas sendo valorizados e um número maior de pessoas reclamando por um cenário artístico mais rico e sofisticado. Mas convenhamos que, se por um lado devem existir políticas públicas de incentivo à cultura, nunca foi papel do governo financiar ou promover a carreira de nenhum artista -- as vezes que o governo o fez foi, tendenciosamente, para promover a si mesmo. O artista tem que se valer do seu próprio talento, esforço e trânsito no circuito artístico afim de que, em algum momento da sua carreira, ele venha a ser reconhecido: e seria a mídia (jornais, canais de TV e rádio, mercado editorial e, agora, a internet), enfim, a grande responsável por mostrar ao público as novidades que os novos e verdadeiros artistas estão empreendendo; ela é, ou deveria ser, a grande responsável por reconhecer valor aos verdadeiros artistas e apresentar ao público um cenário diversificado onde a sofisticação da arte fosse o termo principal -- é aí onde entra o papel dos jornalistas, dos críticos, dos editores e, em certa medida, da mídia independente via blogueiros mais sérios.


Foi pensando em tudo isso que me deparei com a necessidade de, eventualmente, realizar uma entrevista com um grande profissional que tivesse a liberdade de nos testemunhar todo o descaso em relação à música de qualidade -- principalmente em relação ao jazz, à MPB e à música instrumental brasileira -- que ocorre nos bastidores da mídia brasileira. E para minha surpresa, o cara que encontrei para realizar uma entrevista deste porte foi ninguém menos que o jornalista Carlos Calado, um dos grandes pioneiros da crítica musical relacionada ao jazz e à MPB nas últimas décadas: em recentes diálogos, tivemos o prazer de compartilhar idéias, satisfações e indignações -- e nesses diálogos, o meu maior prazer foi aprender de alguém que é veterano na arte de escrever sobre música! Nesta entrevista, que está num formato mais de um bate papo do que formalmente uma entrevista metódica, Carlos Calado discorre sobre o que acredita e sobre o que já presenciou em três diferentes campos da música: MPB (música popular brasileira), jazz e black music, temas que ele aborda com propriedade tanto em grandes holofotes midiáticos, como os jornais Folha de São Paulo e Valor Econômico, como em seu blog pessoal chamado Música de Alma Negra (um dos blogs que indico aqui em nossa lista de sites); nesta entrevista, enfim, ele fala da sua própria visão crítica, das suas experiências como correspondente cultural em grandes festivais, fala dos descasos que presencia nos bastidores da mídia e do mercado editorial em relação à música de qualidade e da sua esperança de que um dia esse cenário mude completamente para melhor. E ainda no final há uma breve enquete onde o jornalista lista suas preferencias musicais. Leiam!

A brasilidade contemporânea do guitarrista João Paulo Gonçalves: do jazz post-bop aos rítmos tradicionais brasileiros, sem soar folclórico!

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Estou para acreditar que a guitarra -- falo da elétrica, semi-acústica, muito usada no jazz moderno e recentemente resgatada com ímpeto no jazz americano contemporâneo -- finalmente está fincando seu espaço na música instrumental brasileira contemporânea, isso desde o início dos anos  2000. Não que nunca tivemos bons guitarristas -- Hélio Delmiro foi um dos pioneiros, e quem acompanha a música instrumental sabe que há outros excelentes, inclusive contemporâneos --, mas é animador perceber que no Brasil, país onde o reino das cordas era sempre dominado pelos violonistas do samba e choro, a guitarra de estilo mais contemporâneo começa a ganhar mais adeptos e mais expoentes. Recentemente, por exemplo, conheci João Paulo Gonçalves, mais um guitarrista de fluência e musicalidade excelentes. Era maio de 2010, quando eu estava cobrindo o festival Bridgestone Music, em Moema: na ocasião, fui convidado por João para ouvir algumas faixas do seu primeiro disco que estava em gestação -- sem muito tempo disponível, ouvi apenas uma faixa, a "Samba em Corda Bamba", e logo de cara ví que tratava-se de um samba instrumental com nuances contemporâneas e, a partir daí, pensei: se o restante do disco for assim, será interessante. Com a correria, não me inteirei da carreira de João -- apenas trocamos algumas idéias curtas sobre música e, ao despedirmos, eu lhe desejei sucesso e disse que ficaria no aguardo do disco para, se possível, divulgar aqui no blog. Pois bem: acaba de me chegar às mãos o disco Sincronicidades, lançado por João e seu quarteto em meados de 2010 -- e para a alegria daqueles que buscam escutar novos músicos brasileiros que sejam capazes de compor e tocar já fora dos clichês do choro, bossa nova e samba-jazz, este disco apresenta uma sonoridade de mix muito interessante: ele apresenta, sim, rítmos tradicionais brasileiros, mas o faz de uma maneira tênue, contemporânea, sem arestas folclóricas, sem soar antiquado e passadista. Proveniente do Conservatório de Tatuí, um dos mais renomados celeiros da música no Brasil, João Paulo Gonçalves desponta não apenas como um dos mais novos dentre os principais guitarristas paulistanos, mas como mais um  dos novos representantes do jazz brasileiro de nuances contemporâneas -- ou da música instrumental brasileira contemporânea, se assim o preferirem chamar.

Podcast - Perfil: Hermeto Pascoal, o "Bruxo dos Sons", e sua música revolucionária, cosmopolita e... Universal !!!

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E aí, Galera?! Seja bem vindos a mais um programa do nosso Podcast Farofa Moderna, este originalmente produzido  para o Portal MTV em meados de 2009 -- e foi um post que teve milhares de acessos imediatos. Este programa fez parte da série "Perfil", onde eu tentei traçar uma série de perfis musicais de grandes mestres do jazz e da música instrumental brasileira. Trata-se do primeiro programa onde eu traço um perfil de um músico brasileiro: o escolhido, claro, não poderia deixar de ser o maior deles: o compositor e multiinstrumentista Hermeto Pascoal, o grande inovador da Música Instrumental Brasileira. Hermeto além de grande compositor e arranjador, é um experimentalista que toca uma infinidade de instrumentos como flauta, bombardino, escaleta, saxofone, trompete, piano, acordion, violão, além de fazer uso de uma infinidade de recursos como os sons da voz, sons do corpo, sons de animais, de brinquedos e etc.

Sem querer fazer um programa necessariamente cronológico, inicio tocando faixas do álbum Montreaux Jazz Festival de 1979, época que Hermeto Pascoal já ficara famoso internacionalmente - ele chegou até a tocar com Miles Davis e participar de uma das suas gravações anos antes nos EUA. Depois toco as faixas "Minxing Pot", "Slave Mass" e "Chorinho Pra Ele", do lengendário disco Slave Mass (Missa dos Escravos), um clássico da discografia de Hermeto. Seguem-se as faixas "Suíte Paulistana" e "Alexandre, Marcelo e Pablo" do disco Zabumbe-buá, um dos mais experimentais dos discos de Hermeto. Depois exploro sua volta ao Brasil com faixas dos álbuns Festa dos Deuses (1992), Hermeto Pascoal & Grupo (1989) e Cérebro Magnético (1980). Por fim, termino o pograma com faixas de álbuns mais recentes como Eu e Eles (1999) e Mundo Verde Esperança (2003). Caso queiram saber mais sobre Hermeto Pascoal, ouçam o Podcast Miscelânea Vanguardiosa, onde o músico Ricardo Sá Reston traça um perfil cronológico do grande mestre.

Hamilton de Holanda Quinteto e o projeto Brasilianos: selo independente; sonoridade inovadora!!!

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Quanto tempo leva para que um músico construa sua identidade sonora? Resposta: muitos anos de estudo, e muitos altos e baixos. E depois que este músico adquire sua identidade, quantos anos demora para que ele encontre e/ou forme um grupo de uma sonoridade inovadora e adequada às suas pretensões? Resposta: também pode levar muitos anos, e muitas decepções. E o sucesso e a grana que um músico obtém costuma ser proporcional a todo esse trabalho? Resposta: não...infelizmente ser um instrumentista num país como o Brasil, que tem sua tradição musical mais focada na oralidade, não é nada fácil, ou seja, ser um representante da chamada "Música Instrumental Brasileira" implica, ainda, em estar relegado à uma classe menor da música em termos econômicos: a educação ralé e as manipulações mercadológicas da mídia, unicamente a favor de "ondinhas pop", são fatores que ainda não permitem que os brasileiros degustem a música instrumental com tanta naturalidade quanto a música cantada, o que, por consequência, resulta em poucos espaços para se apresentar, em um público minúsculo e em vendas ainda mais minúsculas que este público. Mas alguns poucos músicos, justamente por conta de um trabalho de requinte -- leia-se a busca por uma sonoridade própria e por uma banda que passe uma mensagem direta --, conseguem sobreviver e impor mais massivamente sua sonoridade, atraindo até a atenção de grandes holofotes midiáticos e, por consequência, atraindo um público maior. É o caso do bandolinista Hamilton de Holanda, que nos últimos tempos tem sido um dos modernizadores da Música Instrumental Brasileira. Compositor de mão cheia, melodista dos mais inspirados e instrumentista dos mais virtuoses, o bandolinista é um dos instrumentistas brasileiros mais reconhecidos nacional e internacionalmente: ele até foi, recentemente, relacionado numa lista de "50 álbuns que formaram a identidade musical brasileira dos anos 2000" organizada pela Folha de São Paulo  -- ele está lá com o álbum homônimo Hamilton de Holanda (2001), na oitava posição, entre pérolas e baboseiras de todos os tipos.


Mas aqui neste post quero falar de um projeto muito mais recente e personalizado do bandolinista: trata-se do projeto Brasilianos. Através das suas conexões com as tradições do choro e da MPB, que resultaram em discos com inúmeras releituras aos mestres brasileiros representantes destas vertentes -- de Villa-Lobos, Pixinguinha e Jacob do Bandolim até Hermerto Pascoal e Egberto Gismonti, abordando também cancionistas como Gilberto Gil e Milton Nascimento --, Hamilton já vinha construindo sua identidade própria desde meados da década de 90, início da ascensão da sua carreira. Mas é em 2006, ao meu ver, que o bandolinista dá início ao ápice atual pelo qual passa sua carreira atualmente: através do projeto "Brasilianos", ele evidenciou a grande modernidade do seu atual Quinteto, um dos mais aclamados grupos instrumentais brasileiros da atualidade. O impacto que o Hamilton de Holanda Quinteto me causou ao ouvir os dois discos do projeto "Brasilianos" foi tão emocionante, que já me arrisco a clássificá-los como um dos grupos mais emblemáticos da história da nossa música instrumental, ao lado de, por exemplo, Zimbo Trio e Hermeto Pascoal & Grupo, só para citar dois grupos instrumentais inovadores de épocas e estilos diferentes: um do samba-jazz, o outro da chamada "música universal". E qual o segredo do sucesso deste Quinteto empreendido por Hamilton de Holanda? Ao meu ver, o sucesso consiste no fato de que o badolinista, que já vinha mostrando sua originalidade como compositor e suas idiossincrasias como instrumentista -- como, por exemplo, o fato dele ter aumentado o número de cordas do seu bandolim, de 8 para 10 cordas --, encontrou, com este quinteto, não apenas uma concepção de som contemporâneo -- construído à base de harmonias contemporâneas e grooves inusitados e personalíssimos --, mas uma voz de mensagem tão clara quanto a da música popular cantada -- e o resultado, então, é que sua música tem ecoado além dos montes estéticos e preconceituosos. O fato principal é que, embora o choro seja seu estigma natural, ainda não há uma rotulagem perfeita para classificar a estética do som criado por Hamilton de Holanda nestes últimos anos: há o samba e o choro, mas também há a melodiosidade das canções da MPB, há requintes harmônicos provenientes da bossa-nova, há improvisos que remetem ao jazz e há situações rítmicas e melódicas que se remetem aos progressos da "música universal" de Hermeto Pascoal -- ou seja, há a dificílima faceta de criar todo um requinte unindo a composição escrita, o arranjo instrumental e harmônico e a liberdade da improvisação: então, o mais conveniente é que o tenhamos apenas como um novo mestre da Música Instrumental Brasileira e ponto final. Ainda assim, com toda essa "construção", suas composições atingem a proeza de chegar com muita facilidade aos ouvidos dos neófitos e menos acostumados com as intrincâncias da música instrumental contemporânea -- "costumo compor melodias que possam tanto ser assobiadas por uma pessoa comum, como também possam ser orquestradas para uma grande orquestra sinfônica", é como, mais ou menos, teria dito Hamilton certa vez.




Como já citado, o projeto Brasilianos parece fazer parte de uma nova áurea a que passa a carreira de Hamilton de Holanda: uma nova fase da sua carreira, onde ele tem buscado lançar seus álbuns de forma independente, através da sua própria gravadora -- que não por acaso recebe o nome Selo Brasilianos -- e onde ele tem buscado impor sua própria concepção de som e suas próprias composições, sem esquecer, contudo da tradição dos grandes mestres brasileiros. Dois volumes compõe o projeto "Brasilianos": o primeiro foi lançado em 2006 através da parceria deste seu novo selo com a gravadora Biscoito Fino; o segundo, Brasilianos 2, foi lançado em 2008 e representa a maturidade dessa nova áurea original e totalmente independente do bandolinista. Embora os dois volumes, lançados em discos separados, constituam um só projeto, é o segundo volume que mais me impressiona: tanto que o incluí na minha lista recente dos discos mais interessantes da última década -- vide a resenha Retrospectiva 2000-2010 - 21 Álbuns Indispensáveis da Música Instrumental Brasileira.



No primeiro volume, as canções expelem grandes volumes de virtuosismo e tradição, dando-nos a entender que trata-se, afinal, de uma bem estruturada ponte entre o antigo e o moderno: trata-se de um trabalho onde Hamilton de Holanda deixa claro que o intuito foi compor canções de roupagem e sonoridade jovens, mas que expressassem, com alegre ternura, uma grande devoção à toda brasilidade e tradição adquiridas em seus anos de experiência com os vários rítmos e estilos da música popular brasileira -- as canções "Baião Brasil" e "Valsa em Si" nos remetem à tradição do baião e da valsa, mas suas melodias são lindas e contemporâneas; enquanto que em "Trenzinho do Caipira" e em "Hermeto Tá Brincando", o bandolinista presta homenagens, com muito arranjo e virtuosismo, a dois grandes gênios da música brasileira: ao maestro erudito Heitor Villa-Lobos, que quebrou as barreiras entre a composição escrita e a música popular; e ao experimentalista Hermeto Pascoal, o mestre que experimentou brincar com o jazz-fusion e toda a variedade de músicas do nosso Brasil, criando seu conceito de "música universal" e abrindo caminhos para uma multidão de novos instrumentistas. Já o segundo volume, embora ainda mantenha ecos da tradição em sua sonoridade, mostra-se inspirado mais pelos sentimentos e nostalgias da vida pessoal de Hamilton do que por temáticas brasilianistas: ele alia, com mais personalidade, a beleza da sua própria veia cancionista -- porque as composições deste disco são canções ainda mais belas e marcantes do que as do volume anterior -- com a sua já conhecida capacidade de criar harmonias lindas, arranjos instrumentais sofisticados e improvisos estonteantes -- e o resultado é que estas características aparecem mais carregadas de sutilezas, de dinâmica musical, de lirismo, de sentimento e originalidade neste segundo volume do que no primeiro. Isto é, Brasilianos 2 soa como se, após ter estruturado uma ponte entre a tradição e o moderno no primeiro volume, Hamilton de Holanda tivesse resolvido compor um material ainda mais pessoal e contemporâneo, com melodias e grooves personalíssimos e contemporâneos: é o que mostra a reflexiva canção "A vida tem dessas coisas", a nostálgica "Tamanduá" e a linda balada "Rafaela", composta para sua filha. Ademais, uma outra observância, patente tanto no primeiro como no segundo volume de Brasilianos, é a estrutura moderna e o fluxo imprevisível das composições, que já fogem dos rigores e padrões das velhas formas AABA e/ou tema-improviso-tema: dentro da construção das canções, há sempre transições -- introduções, mudanças rítmicas, mudanças de tons, interlúdios improvisados -- entre uma frase e outra, mas todos esses "fragmentos" unem-se num fluxo que parece soar retilíneo, sem arestas.


O Hamilton de Holanda Quinteto, grupo protagonista deste bélissimo projeto Brasilianos, é formado por Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas, composições e arranjos), Daniel Santiago (violão), André Vasconcellos (contrabaixos elétrico e acústico), Marcio Bahia (bateria) e Gabriel Grossi (harmônica). A configuração é mais ou menos como um quinteto de jazz: o bandolim representa a voz altiva e aguda do trompete, a harmônica representa a voz lírica do saxofone e o violão representa o suporte harmônico do piano, formando a "cozinha" com a bateria e o contrabaixo (acústico ou elétrico). Foi através deste grupo e dos dois volumes do projeto Brasilianos que Hamilton inicia seu mais recente ápice, ganhando muito mais notoriedade através de diversos prêmios e reconhecimentos nacionais e internacionais: o primeiro volume de Brasilianos levou o Prêmio TIM nas categorias de "Melhor Solista" e "Melhor Grupo", além de uma indicação ao Grammy Latino de "Melhor CD Instrumental; já Brasilianos 2, ganhou o Premio da Música Brasileira na categoria "Melhor Solista" e foi gloriosamente nominado ao Grammy Latino na categoria "Melhor Discos de Jazz Latino". Para quem ainda nao conhece o Hamilton de Holanda Quinteto ou para quem já conhece e gosta sempre de presenciá-lo, o grupo se apresentou recentemente no programa Instrumental Sesc Brasil: os vídeos de todas as faixas tocadas no show estão disponíveis através do link abaixo. Para ouvir os dois volumes de Brasilianos, basta clicar sobre a imagen dos álbuns, acima. Boa Viagem!!!

O instrumental de Ed Motta: scat vocal soulful, altas doses de funky e improvisos jazzísticos razantes!!!

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Genialidade e talento são virtudes inerentes às artes. Assim sendo, pessoas geniais em idéias originais e talentosas em técnicas de como se fazer arte merecem ser veneradas e imortalizadas -- não como "deuses" ou como "entidades" perfeitas, intocáveis e acima de quaisquer suspeitas (como muitas vezes o genial e errático Miles Davis é errôneamente tratado, por exemplo), mas como heróis que transpuseram um mar de dificuldades a aprendizados em busca de transformar o mundo, ainda que esse mundo seja um restrito mundo de artistas e apreciadores de gêneros e espécies de arte. E o cantor e multiinstrumentista Ed Motta é um daqueles artistas brasileiros pelo qual devemos ter orgulho: ele não apenas traz, em sua voz de estilo soulful, a celebração e a continuidade à arte do seu tio, Tim Maia -- aquele que misturou soul e funk com música brasileira e criou, portanto, um novo gênero nacional --, mas ele também traz uma mente abençoada, uma visão de música que é aberta a vários estilos, várias técnicas, várias vertentes: das vertentes comerciais às vertentes vanguardistas, passando pelas vertentes da música negra de raiz -- do nosso brasileiro samba à black music americana. Aliás, muito além da sua concepção de cantor brasileiro, do talento vocal e da visão musical aberta, ele próprio é um excelente compositor e multiinstrumentista que se dá ao trabalho de se experimentar por caminhos mais ousados, como é o campo da música instrumental -- isso sem contar que ele também é produtor, além de nutrir paixão por hobbies diversos, como ser colecionador de discos e apreciador inveterado de vinhos, história em quadrinhos, chás e cervejas. Falando estritamente da sua obra, sua discografia já conta com uma dezena de lançamentos: entre eles, há pelo menos dois álbuns dedicados totalmente à música instrumental, os quais são os álbum Dwitza (2002) e Aystelum (2005). Abaixo, deixo um link de acesso aos videos do show instrumental que Ed Motta realizou no SESC com base nestes dois álbuns -- e,sim, ele não apenas toca, mas também usa a sua voz explendorosa, mas a usa como um instrumento, entoando e improvisando na forma de scat vocal, técnica que domina com maestria. Sinceramente, fiquei surpreso com o som instrumental idealizado por Ed -- e não o fiquei por não saber que ele fosse capaz de sair dos limites da música cantada, mas justamente por constatar que seu trabalho instrumental chega a ter mais requinte e mais modernidade que muitos trabalhos de músicos especializados totalmente em jazz e música instrumental brasileira. O segredo, ao meu ver, é o seguinte: Ed não se prende aos elementos do folclore e nem aos manjados cancioneiros da música popular, pois ele tem uma concepção urbana de música -- e à essa concepção, ele acrescenta pitadas de brasilidade, resultando no seu estilo próprio e cativante. Acesse o link abaixo: lá no site do Instrumental Sesc Brasil , basta apenas clicar sobre as músicas para assistir todos os vídeos! Ouçam e assistam!


Ed Motta no Instrumental Sesc Brasil

Retrospectiva 2000-2010 – Uma crítica à falta de crítica: 21 álbuns indispensáveis da Música Instrumental Brasileira!

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Sem nenhuma pretensão heróica, todos aqui sabem que nós, deste blog, sempre debatemos e protestamos em favor de mais espaço para o jazz contemporâneo na mídia brasileira – e agora, essa mesma ênfase se faz necessária, também, para a nossa música instrumental genuinamente tupiniquim. Quem andou observando os editoriais de alguns jornais e revistas, sabe que o ano de 2010 foi deveras representativo para a música em geral: isso porque os críticos, jornalistas, editores e pesquisadores musicais foram tocados a formular suas listas dos “mais relevantes álbuns e projetos musicais da primeira década do século 21”, listas essas que, como sempre, acabam levantando debates e suscitando inconformismos, mas que às vezes, quando a lista é mais acurada, tem-se um panorama ideal de quais artistas estão sendo valorizados num determinado momento – se eles continuarão a ser lembrados e se serão imortalizados no dia de amanhã, isso já é outra história... Como já explicitei várias vezes a todos que por aqui já passaram, eu mesmo não sou muito afeito a rankings e listas prontas do tipo “Os Melhores Álbuns do Ano”, “... da Década”, “...do Século” e nem do tipo “2001 Álbuns que você tem que escutar antes de morrer”, “10 álbuns que você levaria para uma ilha deserta” e etc... -- e não sou afeito à tais listas e rankings por três fatores: primeiro porque os melhores álbuns para as pessoas são aqueles os quais cada uma delas gosta e se identifica, e, por questões de déficits culturais e educacionais históricos, nem sempre as pessoas escolhem gostar dos melhores e mais trabalhados projetos, escolhendo, quase sempre, os mais palatáveis e mais pobres, musicalmente falando; segundo porque a mídia e o mercado fonográfico, ao constatarem a pobreza cultural das pessoas, também se tornam propositalmente “pobres” para tirar proveito comercial disso, enaltecendo e divulgando mais projetos e álbuns conservadores e palatáveis, e deixando de lado o valor da crítica sincera, aquela que deveria ser no mínimo imparcial e prezar, também, pela divulgação de projetos realmente inovadores e ousados; e terceiro porque: se por um lado as influências contemporâneas e, por consequência, as reminiscências estéticas (harmônia, poesia, rítmo, composição e arranjos gerais) deveriam ser os único critérios para se medir a relevância de um projeto musical relacionado à uma época específica, por outro lado a boa música deve ser sempre encarada como uma arte universal e atemporal. Mas daí é o seguinte: como estamos no Brasil, país com uma elite conservadora que prefere importar a música internacional e investir na cultura do entretenimento a investir na cultura da arte e em nossa própria identidade musical – e todos nós sabemos a mesquinharia que é quando o assunto é divulgar um material nacional ou algo de verve mais artística, em contrapartida da mesmice e abundância quando o assunto é a musica pop e dançante – qualquer lista que venha a ser divulgada é automaticamente suspeita de manipulação e heresia, pois preza-se mais tendências comerciais do que o desenvolvimento estético da música em si. No caso específico da nossa música instrumental tupiniquim, como ela não é uma música de aporte comercial, percebe-se que a mídia e o mercado nacionais conseguem ser ainda mais deficitários, deficientes, esnobes e ausentes: não há absolutamente um só grande canal brasileiro que dê importância para os avanços da música instrumental brasileira; não há absolutamente um só canal que tenha divulgado uma lista de álbuns e projetos determinantes para a arte da música instrumental – aliás, falar em 'arte musical' no Brasil parece ser algo muito avançado para nós brasileiros, pois enquanto os europeus, por exemplo, valorizam os fatores 'técnica' e 'inovação' na música com a mesma visão de que eles são fatores indispensáveis nas artes plásticas, em contrapartida aqui em solo tupiniquim a única música relevante e valorizada é aquela que se atrela apenas ao cancioneiro popular, ao folclore e, quando muito, à cultura pop internacional. Isto é, a música é nada mais do que um produto de entretenimento e sua relevância fica intrinsecamente ligada à sua capacidade de ser comercializada. Ou seja, não se preza o requinte artístico, não há uma democracia que permita que trabalhos tecnicamente e esteticamente mais desenvolvidos tenham a mesma igualdade de espaços – ou, pelo menos, tenham alguma modesta porcentagem do espaço – que os projetos de apelo popular detêm.


Hoje em dia a crítica está a favor das tendências mercadológicas, da globalização: crítica, hoje, é marketing pra vender discos. Mas já houve um tempo em que a crítica jornalística estava acima dos poderes do mercado, dos próprios artistas, das rédeas dos editores-chefes e não se importava em agradar o público: a missão da crítica era estar a favor da arte, julgar a favor da qualidade, da inovação; a missão era levar a melhor arte às pessoas. Já houve um tempo na história do jornalismo em que o papel do jornal e da revista era informar o presente e se especular o futuro de forma imparcial. Porém, no jornalismo brasileiro dos último anos, principalmente nos editoriais de arte e cultura, a onda do ofício tem sido ser extremamente segregalista e parcial e, quando se informa, informa-se o passado – visto que, quando se trata de música, a maioria dos jornalistas, supostamente“especializados”, parecem ápitos apenas para indicar os mesmos panteões de 50 ou 60 anos atrás, tais como Miles Davis, Tom Jobim, Frank Sinatra, Billie Holiiday, John Coltrane, João Gilberto, Roberto Carlos, Chico Buarque... como se atualmente não houvesse grandes nomes a serem resenhados, documentados e divulgados – parece que há um certo medo de ferir os ouvidos do público com trabalhos mais experimentais, inovadores e contemporâneos. Mas nem tudo está perdido: a tendência irreversível é a de que a internet passe a ser vista, cada vez mais, como o principal meio de comunicação a enriquecer e modernizar a cultura das pessoas e, consequentemente – enfim! –, parece que uma meia dúzia de jornalistas tem feito um mínimo possível para sofisticar o jornalismo cultural brasileiro em prol de uma amostragem mais ampla das variabilidades da música contemporânea: o veterano jornalista e pioneiro crítico musical Luiz Orlando Carneiro (Jornal do Brasil) e os jovens jornalistas Fabrício Vieira (Folha de São Paulo) e Sergio Martins (Revista Veja) são alguns dos quais tem conseguido enxergar nitidamente os requintes artísticos do jazz contemporâneo e explicitá-los nas páginas midiáticas, ainda que o tamanho e a regularidade dos espaços cedidos nem sempre façam jus à atenção que o gênero precisa para atingir cada vez mais pessoas – ou seja, a atenção dada ao jazz ainda é infimamente pequena se comparado à atenção dada a gêneros como sertanejo, axé e pop music e outras purpurinas sonoras de preponderância comercial; e se formos levar a crítica estritamente na direção da música instrumental brasileira propriamente dita, veremos que praticamente não há nenhuma atenção e preocupação concreta em mostrá-la. Mas não dizem que estamos a caminho de uma democracia plena e moderna? Então, tenhamos esperança, oras bolas!!! Parece impossível, mas quem sabe os editoriais de arte e cultura, num eventual inventário comparativo em relação aos abrangentes editoriais dos países desenvolvidos, caiam na real e venham sofisticar seus espaços com novos espasmos de igualitarismo, né? Há um “new jornalism” rolando lá fora...



Vejam bem: não estamos pedindo que os grandes canais midiáticos deixem de dar ênfase nos gêneros que lhes dão lucros comerciais – no pop, no rock, no axé, no pagode, no sertanejo e afins – , mas estamos lhes chamando atenção para o fato de que uma regular e mais diversificada amostragem musical, incluindo de gêneros estritamente artísticos como o jazz e a música instrumental brasileira, os colocaria em outro plano de sofisticação, pois uma abordagem mais variada da música contemporânea não se faz necessária só por que há um público ávido por novas informações – porque no Brasil há, sim, um público em formação que está procurando gostar de jazz e música instrumental –, mas uma abordagem rica e diversificada se faz necessária, sobretudo, pela própria missão que a mídia tem de enriquecer o conhecimento e a cultura das pessoas – é um princípio óbvio; não é demagogia; é um ônus! O mais interessante é que, na contramão de um revival e uma ênfase exarcebada ao samba e à bossa nova – em 2008, por exemplo, teve-se 50 anos de aniversário do gênero, às vezes considerado o principal sinônimo de música sofisticada brasileira – a revolução musical sessentista a qual parte da mídia ainda insiste em considerar moderna e contemporânea, a tendência que já vinha mostrando as garras através dos lançamentos dos principais músicos brasileiros foi, justamente, uma maior atenção às variabilidades da música como um todo – das estéticas vanguardistas ao mainstream –, procurando alçá-las a novos patamares de contemporaneidade: e é por esse caminho que o jazz, a MPB e a música instrumental brasileira acabam encontrando terreiros férteis, pois são gêneros nos quais os músicos e musicistas sempre estão em constante evolução, sempre procurando renovar seus estilos e inovar suas abordagens com novos ingredientes e experimentos. É isso, aliás, que os lançamentos mais reveladores da música instrumental brasileira tem deixado claro. 










Na lista abaixo, onde levantei 21 dos mais interessantes lançamentos da nossa música instrumental – na minha pesquisa e opinião –, o que se pode constatar é o trabalho de veteranos e jovens progressistas em favor de uma música nova: quem veio do tradicional choro, inovou o choro (caso do bandolinista Hamilton de Hollanda); quem se filiou à “música universal” de Hermeto Pascoal, procurou levá-la adiante como um dos mais novos e mais influentes avanços da música brasileira (casos do Trio Curupira, do grupo Armazem Abaporu e da Itiberê Orquestra Família); quem veio da influência da bossa-nova e do samba-jazz procurou diversificar e atualizar seus trabalhos com versões modernas de frevos, latinidades e pitadas de jazz contemporâneo (casos do guitarrista Michel Leme e do baterista Alex Buck); quem procurou focar seu trabalho em releituras da MPB, valorizou não só a bossa nova, mas o cancioneiro mineiro e a música nordestina (casos do saxofonista Carlos Malta, do contrabaixista Dudu Lima e do Duo Gisbranco); e ainda houve aqueles que não foram adeptos à nenhuma escola específica e, por consequência, acabaram trazendo estilos diferentes de fazer música (caso do trio pernambucano Rivotrill). Enfim, como a mídia brasileira não documenta e não veicula a música instrumental brasileira, até parece que não temos uma música instrumental ousada, moderna, diversificada e desenvolvida tal como está acontecendo no jazz contemporâneo. Mas as evoluções estão aí, em curso! Talvez as passadas da música instrumental brasileira sejam mesmos mais lentas se comparadas às passadas evolutivas do jazz – já que, como citamos anteriormente,  no Brasil a música que é relevante para receber financiamento e espaços na mídia é aquela que se limita entre os meandros do folclore, do cancioneiro popular e da música pop importada, enquanto as músicas americanas e européias, além de dar muito mais espaço e financiamento para o desenvolvimento do jazz e da música erudita, prezam por uma abordagem mais urbana e vanguardista –, mas há de se convir que, genealógicamente, depois das experiências que tivemos com o choro, com o samba-jazz e com a miscelânea inovadora de Hermeto Pascoal, podemos dizer que  já temos uma linguagem de música instrumental própria e bem desenvolvida, e a culpa, portanto, nem sempre é dos músicos: a culpa é da mídia que, ao não informar o público sobre o que acontece na seara instrumental, acaba limitando o conhecimento das pessoas comuns, o que restringe o crescimento deste nicho musical e forçam os próprios músicos a trabalharem numa linha mais conservadora para poderem sobreviver do seu ofício – e daí, as pessoas ficam achando, por exemplo, que bossa nova e jazz são a mesma coisa (acham que é apenas música ambiente ou música para idosos), isso sem considerar que muitas destas pessoas, ao ouvir uma banda instrumental, acaba achando que a banda está incompleta, pois estão acostumados apenas a ouvir a voz –  na forma simples, cantada – como o sujeito principal da música – e os canais de rádio não estão nenhum pouco preocupados em mudar essa visão ignorante e limitada que a maioria das pessoas tem. Ora, como se já não bastasse a população ser ludibriada com esta visão simplória dos canais de rádio e com os limites dos canais de televisão aberta – onde a programação é limitada a quatro ou cinco novelas diárias (pra quê tanta novela, Senhor!?), duas ou três séries ou programas de comédia pobre, um ou dois jornais sensacionalistas e alguns programas de auditório, vitrines que insistem em divulgar sempre o mesmo cast de artistas e celebridades – será que nossos jornais e revistas, meios de informação comprados por pessoas mais curiosas, nunca tomarão as vias da sofisticação cultural? Enfim, assim como a música erudita e a própria música popular cunharam seus mestres imortais, a musica instrumental brasileira também está repleta de mestres à espera do respeito, da importância e da imortalidade que só a mídia lhes pode conferir – afinal, não é à toa que pessoas de várias partes do planeta sempre se lembrarão de Bach, Beethoven, Wagner, Stravinsky, Duke Ellington, Villa-Lobos, Tom Jobim, Beatles, Bob Dylan, Miles Davis,  Hermeto Pascoal, Moacir Santos, Milton Nascimento, Chico Buarque...e muitos outros compositores universais.






















Abaixo, sem nenhuma sequência numérica, listo 21 álbuns indispensáveis da Música Instrumental Brasileira lançados entre 2000 e 2010. Esta lista servirá de guia para nossa série de posts chamada Retrospectiva dos anos 2000, só que com foco nos principais músicos, bandas e álbuns brasileiros da década. Os critérios para a escolha de tais álbuns foram os básicos: quando estamos falando nas artes do jazz e da música instrumental brasileira contemporânea, estamos falando em inovação, arranjo, composição, harmonia, rítmo, improvisação, contemporaneidade, estilo próprio e etc – 21 dos trabalhos nacionais desta década que mostraram algum requinte nesses critérios foram selecionados. Não é uma lista com a pretensão de ser um “Top 20”, uma lista fechada ou definitiva, mas pode ser considerada uma lista por onde se poderia começar a montar uma discoteca básica de música instrumental brasileira contemporânea, pois prezei por mostrar desde trabalhos de músicos veteranos até os de músicos jovens, desde o brazilian jazz até as últimas abordagens do choro, passando por releituras modernas do cancioneiro popular e pelas bandas e músicos influenciados pelas inovações de Hermeto Pascoal – ou seja, são projetos interessantes que podem ser considerados verdadeiras pontes entre a nossa tradição popular e a música contemporânea, com realce para nossa brasilidade. Confiram e estejam atentos, pois esses álbuns, bandas e músicos, se já não foram citados, serão todos resenhados no nosso blog no Portal MTV! Caso queiram indicar mais discos, a sessão de comentários está aberta a sugestões!


Mundo Verde Esperança (Rob Digital, 2003) – Hermeto Pascoal & Grupo
Pedra Grande (Editio Princeps, 2004) – Armazém Abaporu
Calendário do Som (Maritaca, 2005) – Itiberê Orquestra Família
Curupira (Jam Music, 2000) – Trio Curupira
Brasilianos Vol. 2 (Adventure Music, 2008) – Hamilton de Holanda Quinteto
Curva de Vento (Trama, 2008) – Rivotrill
...de árvores e valsas (Estúdio Monteverdi/ Tratore, 2008) – André Mehmari
“5º” (Independente, 2010) – Michel Leme
Trio + 1 (Núcleo Contemporâneo/ Adventure Music, 2009) – Benjamin Taubkin Trio & Joatan Nascimento
Luz da Lua (Maritaca, 2006) – Alex Buck
In Set (Independente, 2010) – Bruno Migotto
Horizonte Artificial (Tratore, 2007) – Sinequanon
Ouro Negro (Adventure Music, 2001) – Moacir Santos (projeto de Mario Adnet e Zé Nogueira)
Cordas Mineiras (Blues Time +/ Tratore, 2010) – Dudu Lima
Acid Samba (L177 Records, 2001) – Bocato
Pimenta (Independente/ Malta, 2000) – Carlos Malta
Terra Amantiquira (Maritaca, 2006) – Orquestra Mantiqueira
Passo de Anjo (Biscoito Fino, 2004) – Spok Frevo Orquestra
El Negro Del Blanco (Biscoito Fino, 2004) – Paulo Moura & Yamandú Costa
Choro Ímpar (Acari Records, 2007) – Maurício Carrilho
Gisbranco (Delira Musica, 2008) – Duo Gisbranco


Grupo Um: a banda e sua 'trilogia', um tratado do "fusion vanguardista" brasileiro!!!

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Os brasileiros adeptos aos sons mais fusionistas e progressivos, no que diz respeito à revolução musical advinda da exploração -- livre, interativa e composicional -- das várias sonoridades instrumentais possibilitadas pelo aparato parafernálico que os anos 70 revelou, não podem se queixar da falta de um material que represente o pioneirismo tupiniquim nos campos da música experimental e de fusão: além da música revolucionária de Hermeto Pascoal -- o 'sumo sacerdote', o 'mago', o 'bruxo' da música criativa brasileira --, pelo menos três grupos, dentre os tantos, são obrigatórios nas estantes dos amantes da música instrumental brasileira: o pioneiro trio Azymuth, do baterista Ivan Conti "Mamão", o Grupo Um, dos irmãos Lelo e Zé Eduardo Nazário, e o Cama de Gato, do saxofonista Mauro Senize. Neste post, falo do Grupo Um, uma banda incendiária de jazz-fusion totalmente independente e de cunho vanguardista, considerada um dos ícones representantes da chamada "Vanguarda Paulistana", movimento de São Paulo constituído de um circuito rico de cantores, músicos e bandas tais como Luiz Tatit (fundador do Grupo Rumo), Ná Ozzeti, Arrigo Barnabé, Divina Increnca e vários outros, todos adeptos às novas sonoridades e às artes vanguardistas as quais o Brasil e o mundo puderam conhecer a partir dos anos 60, mais propriamente a partir do advento da miscelânea musical setentista: essa emergente galera de artistas, surgidas em São Paulo após o boom tropicalista, curtiam desde as novas harmonias do dodecafonismo, passando pela poesia marginal, englobando as distorções psicodélicas do rock, a miscelânea do fusion até a música eletroacústica, diferindo dos tropicalistas no sentido de adotar uma identidade urbana e não antropofágica.

O contrabaixista Dudu Lima e seu rebuscado lustre às pepitas mineiras!

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MPB: "brazilian pop" para os gringos ou música popular brasileira para nós, estética que apesar de fazer uso do termo "popular" em sua denominação, está cada vez mais elitista e distante das massas populares. A maioria das pessoas  até conhecem quem são os grandes panteões da MPB: Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque e Milton Nascimento -- pelo menos destes elas já "ouviram falar". Mas será que todas essas pessoas saberiam dizer quem são Tavinho Moura, Lô Borges, Beto Guedes, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Wagner Tiso, integrantes do inovador movimento do Clube da Esquina? Duvida-se, e muito, que saibam: mesmo que a música de Milton Nascimento já tenha projetado o Clube da Esquina para todo o Brasil e o resto do mundo, seus ecos ainda permanecem distantes na história recente da música brasileira. Mas isso não é novidade: sabemos que muitos dos nossos músicos inovadores, dentre os quais alguns deles ligados ao inovador reduto mineiro, conseguiram (e ainda conseguem) ter mais credibilidade e reconhecimento no exterior do que aqui, em sua própria terra. Além disso, é recorrente o fato de que a maioria dos brasileiros pseudo-aculturados -- leia-se jornalistas, produtores, alguns dos próprios músicos e   apreciadores que se dizem bons conhecedores de música --, embalados por uma mídia dominadora e retrógrada tende a aglutinar, inconsciente ou oportunamente, sempre sob os mesmo cancionistas populares e sob os cancioneiros mais tarimbados, revisitando-os desde sempre ou de época em época e celebrando incessantemente suas fórmulas manjadas --  até parece, por exemplo, que a Bossa Nova e a Tropicália foram as únicas (r)evoluções sintetizantes de toda a música brasileira moderna; e pior: até parece que sempre teremos de reviver seus rítmos e suas poéticas sem exigir que surjam inovações e/ou outras transformações e rupturas, sendo, aí, onde reside o grave problema da nossa estagnação. Quer dizer, mesmo as inovações do cult Clube da Esquina -- que a 35 anos evidenciou um estilo inédito de canção com uma nova harmonia musical e um novo lirismo melódico e poético e, portanto, foi outro dos grandes movimentos transformadores iniciados nos anos 60 -- ainda não são enfatizadas com a mesma ternura e grandeza que as inovações  desses movimentos históricos e paralelos: a boemia e o já manjado lirismo da Bossa Nova e a miscelânea politico-musical da polêmica Tropicália parecem ser tedenciosamente mais resenhados e revisitados. Aliás, reitero: não é que o Clube da Esquina seja de todo subestimado, mas, por ter sido um movimento de certa forma "underground" ou por não apresentar uma estrutura homogênea em suas bases -- como foi a Bossa Nova, basicamente um misto de samba e jazz --, ele é um cancioneiro que ainda não foi de todo analisado, estudado e, o mais importante, tradicionalizado e massificado às pessoas simples, à toda população -- e como já foi mencionado, a grande mídia ainda tende a resumí-lo em apenas Milton Nascimento, por ele ser um dos mais famosos cancionistas brasileiros em todo o mundo, haja vista que sua música é celebrada por ícones que vão desde o saxofonista de jazz Wayne Shorter à cantora pop Björk.  Mas a dívida que os músicos, a mídia e toda a cultura brasileira têm com o cancioneiro do Clube da Esquina ainda não é o maior dos exemplos de descaso. Exponencialmente pior, existe o fato de que as  inovações da nossa música instrumental parecem fadadas a um injusto e eterno ostracismo dentro da grande mídia: as descobertas e criações do já consagrado Hermeto Pascoal e sua "escola", cheia de músicos e compositores inovadores, são exemplos de transformações musicais subestimadas e sufocadas por uma exarcebada exposição de gêneros musicais nocivos ou sem identidade, sem propósitos e valores artísticos. Aliás, hoje em dia até mesmo a  MPB -- gênero musical onde se encaixa os próprios movimentos da Bossa Nova, do Clube da Esquina e da Tropicália e que, outrora, era o grande protagonista nos canais midiáticos -- parece ter sido escanteada e substituída por uma exposição desequilibrada de gêneros nocivos ou desprovidos de valores culturais e artísticos: os novos cantores da chamada Música Popular Brasileira já não têm o espaço necessário  para apresentar suas novidades, diante de uma exposição desenfreada de estéticas mascaradas e gêneros contraditórios como a música romântica com suas rimas pobres, o pagode romântico e engordurado com  versões equivocadas do R'n'B americano e desprovido de todo o requinte harmônico e melódico do samba, o axé (música prá-pular) que padroniza suas "divas" nos mesmos moldes das divas internacionais, o pop e rock internacional que são mais celebrados do que à nossa própria música e um tal de "funk carioca" que é uma das mais degradantes expressões culturais da nossa história -- é isso o que a grande mídia oferece à todas as pessoas, atingindo, claro, mais intensamente as desaculturadas. Por que os canais da nossa grande mídia, a exemplo de como fazem com Roberto Carlos e Ivete Sangalo, não apresentam programas especiais celebrando novos cancionistas como Guinga, a grandeza do Clube da Esquina ou as inovações de Hermeto Pascoal e Moacir Santos? Certamente, para qualquer um dos grandes diretores ou produtores por detrás das grandes emissoras essa idéia soaria como uma paranóia sem tamanho: seria inviável perder alguns pontos no Ibope para apresentar música de boa qualidade para pessoas desaculturadas -- até porque, ao promover sempre a mesmice, os próprios canais acabam sendo os verdadeiros responsáveis pelo desinteresse das massas em relação às correntes mais inovadoras da música e das artes em geral. Aliás é pouco provável que tais diretores e produtores -- assim como a maioria dos jornalistas e outros profissionais da mídia --, tenham algum conhecimento sobre os grandes artistas da nossa criativa música instrumental ou tenham alguma noção do valor artístico que estes representam. Se a genuína MPB já sofre tamanho descaso, a música instrumental, por sua vez, se transformou num tesouro cultural distante e equivocadamente segregado, tesouro esse que só os músicos, cantores e apreciadores mais aculturados e mais atenados parecem valorizar.


 Num país como o Brasil, onde a cultura musical de tradição oral é dominante e eminentemente popular, a música instrumental, por si só, acaba sendo tratada como um conjunto de signos sonoros de complexa decodificação. Ora, se considerarmos nosso instrumental desde os tempos do choro até os dias de hoje veremos que temos, sim, uma grande tradição nesta área, mas a falta de cultura e informação, sustentada pela ostentação comercial da grande mídia, faz com que as pessoas simples não conheçam a música puramente instrumental e, por consequência, não tenham nenhuma noção básica  em relação à sua instrumentação, às variadedades e variações rítmicas, ao arranjo e aos requintes melódico e harmônico; elas só entendem e consomem a música cantada, gêneros musicais tarimbados e reciclados temporariamente com elementos da música exportada. A história mostra, portanto, que o caminho mais curto para um músico de jazz ou da música instrumental brasileira se impor e criar seu público é fazer uso do cancioneiro popular, fazer uso do standard pop  para escolher um repertório de canções sofisticadas e atemporais e transformá-las na linguagem da música instrumental com todos seus arranjos e improvisos: o desafio, porém, reside em fazer uso do repertório alheio impondo uma identidade pópria e inédita. Pois bem: em se tratando de Clube da Esquina, o músico, arranjador e compositor mineiro Dudu Lima tem nos dado os mais recentes e brilhantes exemplos  de como é possível fazer uso de um cancioneiro regional para impor uma música instrumental inédita e esteticamente contemporânea. Fazendo uso de composições próprias, composições de amigos e colaboradores e das canções do inovador cancioneiro mineiro, o contrabaixista Dudu Lima, acompanhado por Ricardo Itaborahy (piano, teclados e escaleta) e Leandro Scio (bateria) -- regulares colaboradores que compõem o Dudu Lima Trio --, acaba de lançar o seu quinto CD, chamado “Dudu Lima - Cordas Mineiras”, projeto também documentado em DVD.






Além da assinatura do seu trio, Dudu conta com a participação especial de um dos maiores nomes da música brasileira -- já consagrado internacionalmente, inclusive, como um dos grandes músicos brasileiros --, o compositor, guitarrista, cantor e arranjador mineiro Toninho Horta , além das participações de músicos convidados tais como Chico Curzio, Fofinho Forever, Hermanes Abreu, Juarez Moreira, Luis Leite e Salim; Dudu, por sua vez, atua no contrabaixo acústico, elétrico e fretless e em toda totalidade dos arranjos e da direção musical. Mas é preciso salientar, sobretudo, que acima do oportunismo, das boas intenções ou da própria necessidade de formar um público, a identificação do contrabaixista com o Clube da Esquina é eminentemente de origem nativa e apego cultural: ou seja, é natural que, sendo nascido em Juiz de Fora, Dudu represente suas origens mineiras através da sua arte de compor e do seu talento de interpretar. Contudo, muito mais do que atuar na função de intérprete, ele compõe sua própria música e recria as canções alheias bem ao seu estilo próprio de arranjo, sem transfigurá-las. Especificamente enquanto instrumentista, ele enfatiza o contrabaixo como o principal instrumento solista dentro da banda, colocando-o no centro em todas as linhas de frente: é muito interessante, por exemplo, como ele atua no suporte harmônico usando o contrabaixo elétrico como se este fosse um violão ou um piano, isso sem contar seus solos que são, ao mesmo tempo, virtuosos e líricos. Dentre as técnicas musicais utilizadas pode-se observar o "tapping", técnica ampliada pelo legendário guitarrista americano Stanley Jordan, amigo e constante parceiro de Dudu Lima.




Antecedido pelo magnifico projeto Ouro de Minas, também documentado em CD e DVD, o "Cordas Mineiras" apresenta nove canções, todas na linguagem instrumental: desse total, três delas, Benito (com participação especial deToninho Horta), Alma e Mr. Jordan (em homenagem a Stanley Jordan), são assinadas por Dudu Lima; as outras seis são Amor de Índio (Beto Guedes/ Ronaldo Bastos), Vento de Maio (Lô Borges/ Marcio Borges), Céu de Minas (Luiz Leite), Luar do Caçador (Chico Curzio), Baião Barroco (Juarez Moreira) e Trenzinho do Caipira (Heitor Villa-Lobos). Já em Ouro de Minas, Dudu Lima homenageou Fávio Venturini  e, principalmente, Milton Nascimento e João Bosco, os quais também participam como colaboradores:  de Venturini foi inclusa "Nascente"; de Bosco foram inclusas as canções  "Corsário", "Bala com Bala" e "O Ronco da Cuíca"; enquando de Nascimento foram inclusas "Um Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco", "Fé Cega", "Faca Amolada" e "Cravo e Canela". Enfim, como se pode presenciar,  Dudu Lima, que já vinha de uma prolíficua carreira como contrabaixista, acaba por reafirmar seu talento nos meandros da composição e concretiza-se como um estudioso do inovador cancioneiro mineiro. Pois bem: o nosso desejo é que muitos álbuns e DVDS com belas composições próprias e/ou com belas releituras surjam. Como instrumentista, Dudu Lima já tocou com os mais diversos gênios da música brasileira e internacional: entre eles Stanley Jordan, Hermeto Pascoal, Jovino Santos Neto, Arthur Maia, Mauro Senise e Jean-Pierre Zanella.

In Set, de Bruno Migotto: sete composições, sete músicos – beleza, frescor e descontração!

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O cenário musical de São Paulo, no âmbito da MPB underground ou da música instrumental, tem se renovado e crescido de forma muito animadora nos últimos dez anos. Além de ter surgido novos espaços – onde sarais e apresentações passaram a acontecer –, alem dos novos bares e clubes, além dos novos músicos e bandas – os quais têm a sinceridade e a coragem de encarar a música estritamente como arte e não como produto –, novos registros estão aparecendo no restrito mercado independente da música instrumental – algo, aliás, que é o mais desejável, pois não adianta ter um cenário rico de novidades sem ter registros que confirmem e projetem essa riqueza artística. E o contrabaixista e compositor Bruno Migotto é uma das provas vivas de renovação e riqueza desse novo cenário: uma das novas revelações da música instrumental brasileira, ele é o baixista do quarteto do baterista Bob Wyatt, do quinteto do guitarrista Djalma Lima, do cantor e compositor Fabio Cadore, do trio do guitarrista Michel Leme, da Sound Scape Big Band, uma das big bands paulistanas que integram o fenomenal Projeto Elefantes, e acaba de gravar seu primeiro álbum, In Set, um registro com sete músicos paulistanos do mais alto calibre, alguns membros do seu atual Bruno Migotto Septeto – são eles o trompetista Daniel D’Alcantara, o guitarrista Michel Leme, os saxofonistas Cássio Ferreira e Josué dos Santos, o trombonista Jorginho Neto e o baterista Alex Buck.


In Set, um projeto de sete músicos e sete composições originais – e daí o título que, além semelhança fonética, também denota “em conjunto” ou “em set”, em um cenário de gravação – constituiu-se em um álbum fantástico. O álbum traz uma sonoridade um tanto agradável, o frescor do jazz contemporâneo casado com a nossa brasilidade rítmica e harmônica – progressões harmônicas inteligentes e marcantes, diálogos e solos sobrepostos, grooves contemporâneos que fogem da obviedade dos ritmos tradicionais brasileiros sem renegá-los como influência, esses são os ingredientes. E o que proporcionou o resultado final foram duas coisas: primeiro, o equilíbrio perfeito entre arranjo e improviso; segundo, a interação descontraída dos sidemans – lembrando que descontração, nesse caso, não significa falta de concentração, mas sim aquele bom-humor nostálgico que explicita bem os sentimentos de amizade e de alegria. Em entrevista ao jornalista Luís Delcides, no site de eventos Paulicéia do Jazz, o próprio contrabaixista salientou o orgulho de ter trabalhado com esses músicos, todos grandes companheiros na luta pela arte: “Acredito que as composições e arranjos do disco são 40% do resultado final, pois a maneira que eles tocaram os arranjos, a interação, a liberdade de criação que foi criada no momento, foi o que completou as composições para ficar da maneira que imaginei. Fiquei muito feliz com o resultado, foi a imagem mais fiel do que acredito na música, e consegui ter isso no meu primeiro disco; foi uma grande felicidade”disse Migotto. De certo, a porcentagem aí creditada à suas composições e arranjos é modesta, o que só mostra sua humildade diante dos elogios ao registro bem feito. Mas o fato é que In Set apresenta composições e arranjos maduros que parecem desmentir a pouca idade do músico, ao mesmo tempo em que reafirmam seu talento e um início de carreira bem direcionado: Bruno, apesar de ter apenas 24 anos, já acumula experiência através de uma lista grande de colaborações ao mesmo tempo em que já começa a se projetar como um líder de banda e como um proeminente compositor.






Num estilo de composição como esse, uma escrita para a interação de sete músicos, o desafio é achar o lugar de cada instrumento com o intuito de que o resultado final apresente junção e diálogo coesos. Bruno não apenas supera esse desafio como também nos reserva momentos inusitados e bem humorados. O álbum apresenta a seguinte sequência de faixas: Do Fim ao Começo, El Samba Como me Gusta, Acidental, Caixote de Surpresas, Quase Roxo, Paz de Cristo e Canto do Abacate. Apesar de haverem bons momentos e bons solos em todas as faixas, os destaques, a meu ver e sentir, ficam por conta das faixas 1, 4 e 6. “Do Fim ao Começo” inicia-se com uma breve introdução, seguido de um belo tema compartilhado e dialogado entre os sopros, enquanto o guitarrista Michel Leme tempera o fundo com a tênue ressonância dos seus pedais de efeitos; logo após, Michel aplica um improviso desconcertante e Cassio Ferreira um melodioso solo de sax soprano; a faixa termina com a última exposição do tema seguida de um epilogo bem cadenciado num tradicional compasso binário, fazendo um contraste com o groove aparentemente indefinido, apresentado em quase toda a extensão da faixa. “Caixote de Surpresas” apresenta aquele clima descontraído e indefinido dos ensaios musicais, até que o ouvinte realmente começa a ter boas surpresas: flauta, guitarra e bateria iniciam uma melodia, o que seria já o começo do tema, até ser interrompida... surgem risos e notas dispersas numa indefinição, como se os músicos estivessem indecisos entre tocar uma determinada música ou outra qualquer, mas daí o contrabaixo elétrico de Bruno toma a iniciativa de organizar a sessão, chamando cada instrumento a entrar em sua vez até todos começarem o tema de fato; nessa faixa o destaque fica não só por conta do swing vibrante, mas por conta do improviso lírico do saxtenorista Josué dos Santos. “Paz de Cristo”, a sexta e penúltima faixa do álbum, soa melodiosa e com notas longas em compasso binário, parecendo ser uma saudação e, ao mesmo tempo, uma homenagem e agradecimento ao Senhor do Evangelho: o destaque fica para o excelente solo do trompetista Daniel D’Alcantara. Por fim, o álbum termina com a faixa “Canto do Abacate”, um samba-jazz com nuances e variações rítmicas que lembram, remotamente, elementos do samba, dos choros e congadas; surgem tema, improvisos de trombone, trompete e guitarra e, já perto do fim, o som vai sumindo através de um fade out... há um silêncio e, em seguida, um fade in que desabrocha num final cacofônico; destaque para o solo inicial do trombonista Jorginho Neto. Em contraste com esses momentos mais pujantes, porém, há momentos intimistas e delicados: como na terceira faixa, “Acidental”, repleta de solos suaves e recheada com o complemento das vassourinhas de Alex Buck. E assim, Bruno Migotto conclui seu primeiro registro como líder, arranjador e compositor: um álbum de estética contemporânea que expressa de forma muito bela os climas de alegria, amizade e descontração! Para saber mais e adquirir o disco, só clicar nas imagens, acessar o site e mandar um e-mail para Bruno Miggoto ( bmigotto@yahoo.com.br).


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