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Entrevista com o guitarrista Michel Leme: A liberdade, o processo e o desafio de sermos nós mesmos...

...dentro de uma "democracia"
condicionada pela padronização capitalista
      e  segregação midiática...

Caros leitores, como vocês podem ver, eu coloquei marcadores, páginas, abas no topo do blog: e uma delas é a de ENTREVISTAS, onde estarei organizando os links para as entrevistas que vamos realizar daqui para frente -- aliás, já tem várias delas realizadas por mim e pelos colaboradores Leonardo Alcântara e Rubens Akira; entrevistas muito bacanas e sinceras, diga-se de passagem! Já entrevistamos, por exemplo, o improvisador americano Ken Vandermark, a cantora brasileira de renome internacional Ithamara Koorax, o trompetista americano Christian Scott, o contrabaixista americano Christian McBride, o jornalista Roberto Muggiati, o contrabaixista brasileiro Dudu Lima, dentre outras feras relacionadas ao jazz e à música instrumental brasileira. Agora, seguindo com essa empreitada, apresento-vos abaixo uma entrevista com ninguem menos que o guitarrista paulistano Michel Leme, um dos principais mestres da improvisação no Brasil e já considerado, por músicos e críticos, um mestre maior do seu instrumento. Leme, que acaba de completar 39 anos de idade e 20 anos de carreira, acumula uma sucessão de shows e gravações que, hoje, lhe possibilita ter um público próprio, tendo lançado, de 2002 para cá, uma quantidade de cinco álbuns solos: Um Dois Trio (em co-liderança com o contrabaixista Tiago do Espírito Santo e o baterista Cuca Teixeira), Michel Leme Quarteto (2004), Trocando Idéias (lançado em 2005 em co-liderança com o baterista Alex Buck), Michel Leme e a Firma (2007) e o homônimo "5º" (2010), álbum esse que celebra seu quinto lançamento e que foi, inclusive, resenhado recentemente aqui no Farofa Moderna (clicar na tag "Michel Leme" ou acessar a página de "LANÇAMENTOS" para saber mais).

Pois bem, ainda antecedo vossa leitura às minhas perguntas e às respostas de Michel explicitando a satisfação de ter realizado esta entrevista: nela, presenciei um real exemplo de sinceridade -- do artista para consigo e para com as pessoas -- e, sobretudo, de integridade -- do artista para com a arte e para com a sociedade, de um modo geral. O real propósito desta entrevista -- aparentemente curta, mas rica em argumentos gerais -- não é tratar de forma específica a discografia do guitarrista e muito menos falar de música de forma massante, técnica ou conceitual, mas sim explicitar, para todos nossos leitores, alguns ecos sinceros da experiência e responsabilidade que ele adquiriu nesses vários anos de caminhada: sua visão sucinta de arte, de democracia, de liberdade de criação, dos circuitos e do cenário da música instrumental, de mercado e do que venha ser "ousadia" em sua obra, procurando deixar claro suas facetas como instrumentista, professor e compositor. Portando, espero que todos fiquem a vontade com o que o compositor e guitarrista Michel Leme tem a dizer.











Você tem, claramente, uma visão e um estilo um tanto únicos em relação à música – como um todo – e ao modo de tocar guitarra. Qual seu conceito de liberdade, dentro da música? Quais suas inspirações? Você se identifica com alguma vertente da música moderna improvisada, da música instrumental brasileira, do jazz, ou de alguma outra vertente em especial?

Pra alguém ter liberdade tocando é preciso ter bases como saber tocar sobre todos os tipos de acordes, no tempo e na forma, primeiramente. E isso não leva duas semanas, é um processo. E o acúmulo de repertório irá ajudar muitíssimo nessa busca. Muitos têm o ímpeto de tocar livre, mas querem fazê-lo antes da hora e por razões que vão desde o ego inflado até questões de sobrevivência - acham que se "sobressaindo" terão grana e prestígio rapidamente; mera ilusão. Tem muitos rapazotes que chegam pra tocar e falam em tocar um "free", quando, de fato, ainda não sabem sequer tocar dentro da forma de um blues. Por outro lado, após algumas centenas de músicas decoradas, o ímpeto de liberdade começa a se harmonizar com a grande responsabilidade que é tocar em grupo; é a criatividade de cada um agregando valores ao coletivo. Aí, sim, rola música.

Quanto às minhas inspirações, elas vêm de diversas fontes, não só da música. Elas vêm da vida, do convívio com minha família e amigos, e vêm através da apreciação de outras formas de arte como cinema, pintura, literatura etc. Tem muitos caras que ficam "bitolados" em música e acabam ficando confusos, porque ouvem tanto a música de outros que nunca têm o silêncio necessário pra ouvir a música interior.
Quanto a me identificar com alguma vertente musical, não identifico-me com nenhuma em especial, procuro manter a mente aberta pra aprender sempre.

Em conversas com colegas, em amplas entrevistas em jornais, fanzines e sites especializados em música, você sempre diz que, na situação de um músico em constante evolução, é mais enriquecedor pra um guitarrista ouvir articulações e fraseados de outros instrumentistas como, por exemplo, um trompetista, pianista ou saxofonista, do que ficar tentando tirar frases já conhecidas e imitar sonoridades e improvisos de guitarristas já consagrados. Por quê? Na situação de professor, como você norteia o aluno em sua busca por uma identidade própria? O que é mais fácil: o músico encontrar sua própria voz, ou reproduzir a voz dos mestres?

Tem muitos guitarristas bebendo na fonte da visão única, a visão do Capital. Estes são os que saem moldados de algumas empresas da área educacional imitando caras como Pat Metheny (o preferido desta rapaziada), por exemplo. Pessoalmente, sinto uma grande vergonha alheia quando ouço mais um menino usando as frases, as escolhas e até os tiques de outros guitarristas. Logo no começo da minha profissão já saquei que isso é algo patético, uma grande roubada. Por isso fico atento e aberto a todas linguagens musicais com as quais consigo entrar em contato, pra reciclar, pra trazer novos ares ao que toco.
Como professor, procuro fazer o aluno ter as bases que cito na resposta anterior. Assim, naturalmente, as características individuais, únicas, vão aparecendo ao longo da prática.

Respondendo à terceira parte da pergunta, é claro que é mais fácil imitar. Tocar o que você é significa ir contra tudo hoje, onde a padronização é a grande ordem do dia. É um ato de coragem ser você mesmo e é preciso ter estrutura para assimilar as consequências dessa escolha. Se você simplesmente imitar ou se adequar às tendências de mercado, vai ter respostas da sociedade mais rapidamente, porque está fazendo algo em consonância com a mediocridade reinante. Por outro lado, insistir no que é mais verdadeiro implica em estar mais exposto ao erro, assim como implica em entrar num processo dentro do qual as respostas não são mais a prioridade, mas, sim, começar a fazer as perguntas certas. E essa escolha também implica em aceitar não ser o "queridinho" de quem que que seja que esteja inserido no sistema, ou seja, ser você mesmo tocando incomoda muita gente. Imitar ou, pior, adequar-se é para quem almeja estar entre "os mais vendidos" – o caráter dúbio deste termo “vendidos” é um deleite, não acha?

Como você enxerga o contexto atual da música instrumental brasileira? E, sendo um dos principais músicos de São Paulo, como você analisaria o circuito paulista e paulistano dentro do contexto nacional relacionado à música instrumental? Há um movimento – um conjunto de músicos e espaços – animador hoje em dia?

Vejo surgir novos verdadeiros talentos; vejo bares e mais bares fechando as portas para a música; vejo muitos músicos que nasceram com um certo talento se rendendo ao sistema e tornando-se mera mercadoria, fazendo música de elevador para inserir-se; vejo muitos músicos sem o menor talento batendo carteiras sob as poses mais diversas; vejo músicos mais velhos que eu dando o exemplo e tocando por aí, incansavelmente; vejo espaços ótimos para tocar e que têm verba para pagar bons cachês acolhendo apenas uma turminha de mafiosos que fazem uma música morna e excluindo gente que de fato é representativa e faz música; vejo alguns poucos donos de escola abrindo seus auditórios para receber o som instrumental; vejo algumas marcas ligadas à música acolhendo artistas honestos e dando-lhes apoio cultural; vejo outras marcas que só se associam aos batedores de carteira, passando uma imagem distorcida do que é música para a molecada; enfim, tem muita coisa acontecendo, mas não tenho dados para falar do "contexto atual da música instrumental brasileira" de uma forma mais abrangente. Falo sobre o que vejo, e, sob este ponto de vista, digo que a música está acontecendo, especialmente fora dos holofotes da mídia!

Convivo com pessoas que realmente amam a música e que têm consciência do grande processo que é envolver-se com ela. E quando toco, toco com quem toca para a música - não toco pela segunda vez com quem está afim de "fazer o nome" ou idiotices do gênero. Tocamos em lugares onde é possível tocar e sinto que o fogo musical está ali, semana a semana, com um grupo de uns 20 e poucos caras que se revezam – e este grupo está aberto a novos músicos, claro; é só chegar e tocar para o som. Então, no contexto onde atuo, modesto e sem a mínima atenção dos meios de comunicação – com exceção de alguns sites e blogs -, a música instrumental vai muito bem, sim! Só que, por enquanto, está relegada ao gueto. E é legal estar no gueto? Não. Mas estamos tocando onde é possível. E o importante é essa continuidade, essa sequência dos sons; é ela que nos traz lucidez.

Em São Paulo o que acontece é que a maioria dos locais que tem a palavra "jazz" em seus sobrenomes não têm nada a ver com o espírito dessa música. Parei de tocar em diversos bares ao longo do processo por ser roubado no couvert artístico; porque rolou tratamento imbecil por parte de gerentinhos e/ou proprietários; porque alguns locais não tem estrutura física para receber música de fato; porque alguns proprietários querem que você faça música ambiente para conversas de gente mal-educada; enfim, em relação ao circuito de bares ditos de "jazz", o que se vê, infelizmente, é uma conduta de mediocridade galopante por parte dos proprietários. O que nos resta é um ou outro bar onde ainda é possível tocar dignamente, além dos auditórios de escolas de música e afins.

E em relação à classe musical, reparo numa coisa: o diálogo entre as várias "turmas" existentes, ou a"facções" da música instrumental, por exemplo, não existe! Existe muito ranço ainda e uma "escola" de tocar não interage com a outra. Geram-se rótulos, dogmas, “manuais de procedimentos” e, consequentemente, vêm à tona os estranhamentos entre os grupos de músicos e, assim, infelizmente, o gênero instrumental (e a música honesta de um modo geral) perde muito como um todo. É necessário sair de casa pra ouvir as pessoas tocando "in loco"; é aí que se tem a dimensão real das coisas. Só que os próprios músicos, em sua grande maioria, não fazem isso; não saem de casa pra ouvir o que o colega está fazendo. E alguns músicos não saem pra isso porque alegam estar “cansados de música”, talvez por apenas "trabalharem" com algo que chamam música. Aí eu pergunto: será que trabalham com música de fato? Falo por mim: posso tocar 5 vezes na semana, mas, se tenho uma folga, vou assistir som, vou dar canja, enfim, vou abrir a mente! A música não me enjoa, jamais. Então, é necessário saber distinguir o que é música do que é apenas trabalho para sobrevivência. Aí, talvez, a mente se abra pra sacar outras vertentes e a interação passe a acontecer. De um modo geral, não há interação e intercâmbio entre os músicos; só que isso poderia ser o início da (mais do que necessária) união dessa classe.


Voltando ao seu estilo, mas agora abordando sua composição e seu repertório, gostaria de saber como se dá – ou se dão – seus processos criativos. Por que, ao contrário de outros músicos, você não apresenta standards e temas populares em seus discos solos?

Minhas músicas são composições feitas para as pessoas criarem sobre. Elas surgem quando estou estudando algo que preciso estudar ou surgem de inspirações diversas como paisagens, pessoas ou situações. Quando surge a idéia inicial, eu fico tocando muito até a música ir me mostrando o caminho a seguir. Quando mostro a música pros caras que tocam comigo é porque já toquei muito, decorei, e tenho certeza de que ela é gostosa de tocar - mesmo as que têm alguma complexidade (e, complexa ou não, a idéia deve estar clara). Daí em diante, estamos no grande processo que é tocar as músicas e assistir às mudanças que acontecem sobre elas a cada vez que tocamos.

Não gravo standarts ou temas já conhecidos para não ter despesas com direitos autorais. Por um lado, isso incentiva a composição, o que é ótimo; por outro, é chato porque eu gosto muito de tocar os standarts e seria legal ter isso em disco.

Como você bem sabe, é natural o fato de músicos virtuoses e/ou geniais receberem críticas positivas e negativas de apreciadores e críticos especializados. As críticas negativas, nesse caso, sempre se vão contra um suposto desequilíbrio do artista: um exemplo clássico é o trompetista Miles Davis que, em contrapartida à sua genialidade em termos de idéias e arranjos, foi amplamente criticado por sua falta de técnica apurada, de um certo virtuosismo; por outro lado, virtuoses como o trompetista Wynton Marsalis e o guitarrista Stanley Jordan, por exemplo, já foram tratados como tecnocratas, velocistas demais e, por isso, músicos sem sensibilidade. Você, por ser um adepto à espontaneidade e por ser um dos principais virtuoses brasileiros, também recebe ou já recebeu tais críticas? Como você lida com elas?

Das críticas que chegaram até mim o assunto é, na grande maioria das vezes, "o Michel toca notas demais". Talvez algumas pessoas tenham estipulado um limite de notas para a guitarra; talvez eu tenha tocado informações além do que eu estava preparado para responder em algumas oportunidades – ouvi isso em algumas gravações de shows, o que é ótimo, já que reconhecer erros é algo importantíssimo no processo; talvez as pessoas que criticam sejam incapazes ou tenham medo de tocar o que sentem que deveriam tocar; talvez quem critica seja apenas estúpido... Enfim, não sei ao certo, mas fato é que são raras as pessoas que criticam de frente. Na maioria do tempo, criticam pelas costas; são covardes e não se expõem para iniciar um diálogo a respeito, baseado em argumentos. Não tenho problemas com críticas; já aprendi muito por receber críticas de quem eu confio – e sempre foram construtivas, ou seja, o problema foi apontado e algumas possíveis soluções sugeridas. O problema é a crítica leviana, baseada em argumentos pífios e com o puro objetivo de polemizar. Ora, polemizar por polemizar é artifício de quem quer simplesmente aparecer. Mas, enfim, no meio musical, em geral, fala-se muito e toca-se pouco. De minha parte, prefiro tocar e expor-me às eventuais críticas a ficar em casa sem fazer nada para evoluir. Deixemos essa inércia para os críticos.

Vamos falar de mercado. Você demoniza o mainstream e suas padronizações, mas é um músico que tem um público amplo, com apoio de marcas e com um considerável sucesso no mercado independente, nicho que proporciona aos músicos criarem seus próprios estúdios e selos. Essa é a única saída para o músico que quer ter total liberdade sobre sua carreira? É mais difícil, para o músico independente, encontrar mais espaços, patrocínio e apoios?


A música honesta poderia ser amplamente veiculada no mainstream, só que a máquina (mídia, corporações, bancos etc.) quer artistas substituíveis (descartáveis) para ter controle absoluto sobre o que vende; a máquina precisa de peças para repor rapidamente no mercado, e o grande objetivo é o lucro. Agora, imagine um tema meu tocando na abertura de uma novela, por exemplo, e, consequentemente, o público de um programa dominical esperando em suas casas as mudanças que eu e meu grupo faríamos sobre esse tema na hora... Não seria lindo? Só que, obviamente, falar disso nesse momento parece pura utopia, mas, perceba, a própria música não proíbe isso! Quem proíbe é a meia dúzia de burgueses que detém os meios. E o que demonizo é a verdadeira lavagem cerebral que cada indivíduo sofre desde tenra infância e todas as suas funestas consequências. É um massacre ideológico calculado precisamente e que acontece sem cessar, um verdadeiro massacre. Vivemos um Matrix, um Admirável Mundo Novo, um Truman Show. É triste. Mas é melhor saber disso do que continuar dormindo.

Quanto ao que você diz sobre eu ter um "público amplo", não sei. Qual o parâmetro? Note que eu, pessoalmente, estou muitíssimo feliz por constatar que algumas pessoas curtem o som que faço e que, também, ao tocar, toco com a mesma intensidade para 600 ou 6 pessoas. O objetivo não é massificar; é tocar. Só que a proibição que existe em relação a essa música nos grandes meios é algo nefasto. Pegue o guia cultural dos principais jornais de São Paulo do final de semana e veja se você vê alguma data minha publicada, por exemplo. Resposta: não tem! Só que a realidade é outra: só nesta semana, tocarei 6 datas. Não existe democracia, entende? A idéia de sucesso incutida na mente da massa é a porra da Ivete Sangalo lotando o Maracanã; as pessoas não têm mais a noção de que o sucesso está no processo, não se interessam mais em buscar o prazer que há nas minúcias de um som, não ouvem mais as delicatessens da música. O que é veiculado como a visão única de música é o “grande espetáculo do show business”, e tudo que estiver fora disso é, irrevogavelmente, fracasso. E enquanto essa inversão de valores imperar, restará a nós o gueto. Ok, façamos arte onde é possível, mas é preciso que as pessoas saibam, no mínimo, de que existe uma grande censura rolando, um grande controle sobre o que deve ou não ser veiculado. Não é você que escolhe o que vai ouvir; isso já foi escolhido pela visão única! As opções que chegam até as pessoas através dos meios são apenas o que é do interesse destes meios e de quem os banca; são empresas, e empresas visam o lucro, custe o que custar. Logo, para um jornal ou para uma TV, não interessa informar, interessa veicular o que lhes é conveniente, ou, em última análise, o que é conveniente para o controle das classes dominantes – a meia dúzia que manda em tudo - continuar inabalável.

Quanto aos apoios de marcas, isso é algo que nos proporciona bons equipamentos, além de viabilizar lançamentos de produtos como CDs e DVDs (estou com 2 DVDs sendo produzidos no momento) e alguns eventos. Não tenho um puta carro por conta de apoios de marcas, por exemplo – aliás, não tenho um puta carro! Minhas despesas são pagas com as aulas com as quais trabalho no Souza Lima e na EM&T. O que quero dizer é que estou na batalha, e que nada vem fácil.

Respondendo à segunda parte da pergunta, tudo é mais difícil para o músico independente quando se trata de grana. Mas, por outro lado, sendo um artista independente pode-se manter a qualidade do que se lança, além de ser possível manter a integridade de todas as fases do processo, desde a composição até a distribuição de um CD, por exemplo.

Bem... você nos parece ser um cara que continuará sempre jovem no modo e nas reflexões, mas já são 39 anos de idade, 20 anos de carreira, um rítmo de mais de 150 apresentações anuais em espaços especializados ou alternativos, 5 discos próprios e mais algumas dezenas de participações em discos e shows de músicos geniais – jovens e veteranos, brasileiros e gringos -- como Bocato, Bruno Migotto, Alex Buck, Tiago do Espírito Santo, Gary Willis, Michael Brecker, Toninho Horta, Nenê, Lee Konitz, Joe Lovano, entre outros. Como é estar chegando na casa dos 40? Dentro dessa sequência de anos em atividade, há momentos especiais da sua carreira que gostaria de citar?

Acabei de completar 39 anos de idade e digo que não troco minhas condições atuais pelas de 20 anos atrás, por exemplo. Pratico yoga – menos do que deveria, mas pratico -, tenho amigos maravilhosos e venho conhecendo muita gente que acrescenta muitas coisas boas à minha vida. Toco com uns caras que me ensinam muito a cada vez, e sou agradecidíssimo por tudo o que a música me dá. E dizem que a vida começa aos 40! Então vou curtir essa ‘gestação’ dos 39 até lá, assim como venho curtindo todo o processo.

Quanto aos momentos especiais, eles estão em franca continuidade agora! Acesse a minha agenda e apareça num som; as coisas estão rolando com os caras mais novos e também com alguns amigos de mais de década que ainda mantém a mente lúcida e pró-som. O passado me traz lembranças ótimas, muito aprendizado e emoções aos montes, claro; mas meu foco é no presente.


Todos seus discos – Um Dois Trio, Michel Leme Quarteto, Trocando Idéias e o Michel Leme e a Firma – apresentam facetas interessantes em diversas formações e, principalmente, no que diz respeito à sua visão de improvisação e interação entre os músicos. Mas é no seu disco intitulado 5º (“Quinto”), do qual já falamos aqui no Farofa Moderna, que você sai da normalidade das formações ao usar guitarra, baixo e duas baterias, tendo que mostrar uma guitarra ainda mais forte frente a massa percussiva. É um sinal de que você chegou num ponto da carreira onde irá se arriscar por caminhos menos trilhados, por novos desafios e experimentos ou essa ousadia foi algo que surgiu independente de qualquer plano de carreira?

O que você e outras pessoas chamam de "ousar", "arriscar" ou "experimentar", eu chamo apenas de continuidade. E não existe o tal "plano de carreira" para mim. Simplesmente estou atento à música e lutando pra ficar cada vez mais em sintonia com a divina, pra tocar o que é realmente preciso tocar no momento. Cada disco é um registro de uma fase, e o “5°” é um disco que vem recebendo ótimas críticas de todos os lados, mesmo com essa formação menos usual com os dois bateras. Acredito que isso seja um sintoma de que a honestidade ao tocar ainda cativa - mais uma razão para seguir em frente e fazer o que acredito ser o mais verdadeiro, sem concessões.

Tocar é estar em solo sagrado. Então, recomendo a todos que façam o que realmente amam fazer e com a maior lucidez possível para não ser tragados pelo modo de vida estúpido que nos é impelido, totalmente ilógico, abjeto, desumano. Paguemos as nossas contas e, depois, façamos o que amamos fazer – longe da lógica da mercadoria, que é totalmente ilógica.

Muito obrigado pela oportunidade e longa vida ao Farofa Moderna!
Um grande abraço a todos que nos lêem,

Michel

3 comentários:

Carlota disse...

raramente li uma entrevista tão realista e desencanada

parabéns ao pitta e ao músico entrevistado

Ricardo Sá Reston disse...

Maravilhosa entrevista, perguntas e respostas de altíssimo nível. Não poderia ser diferente!

Abraço grande,

Ricardo Sá Reston

Roberto Cuzco disse...

Parabéns ao guitarrista Michel pelo aniversário e pela entrevista sincera e sem afagos!!!!!!!!!!

Confesso que o estou conhecendo aqui neste espaço. E já aproveito para "cobrar" de Pitta que mostre mais músicos nacionais. Parece que há um desleixo até mesmo da internete em relação ao jazz nacional. Vi o video do guitarrista e achei bem "mudernoso", se é que me entendem!

E oxeee, sobre a quantidade de notas a usar em guitarra, realmente não existe um parâmetro. Então, abaixo as críticas!!!!!!!!!


Parabéns e Axé!

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