Inicio, com este post, uma série de abordagens em momentos clássicos -- ou apenas momentos diferentes e inusitados da história do jazz -- levados a cabo por músicos célebres e por músicos esquecidos. A maioria dos jazzófilos propagam que foi Miles o grande pioneiro da definitiva fusão entre jazz e o hip hop dos anos 80, através do álbum Doo Bop (Warner Bros., 1992), afirmativa que é falsa e é enfatizada mais por causa da áurea do mito do trompetista do que seu por merecimento. Sim, ele pode ter sido um dos pioneiros, mas não foi o primeiro a fazê-lo: esperto e ágil, ele apenas seguiu na onda de uma idéia que já tinha sido desenvolvida pelo grupo de rappers Gang Starr e pelo jovem saxofonista Branford Marsalis através da faixa "Jazz Thing" da trilha sonora do filme "Mo' Better Blues (1990), clássico do cineasta Spike Lee -- ou seja, sem desconsiderar o trabalho pioneiro de diversos grupos que já vinham usando samplers de jazz com batidas de hip hop, a faixa "Jazz Thing" foi o mais representativo trabalho de fusão entre o instrumental jazzístico com as batidas e a poesia do rap não apenas pelo arranjo, mas pelas citações honrosas aos diversos mestres da história do jazz: Duke Ellington, Charlie Parker, Billie Holiday, Max Roach, John Coltrane, Sonny Rollins, o próprio Miles Davis, Ornette Coleman, dentre outros. Antes de irmos ao desfecho e detalhes do movimento, assista o vídeo abaixo, um clipe com a faixa "Jazz Thing" produzida para o filme Mo' Better Blues (Maiores e Melhores Blues em português) -- lembrando que a trilha sonora do filme saiu em CD com Branford Marsalis Quartet featuring Terence Blanchard (foto).
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Pois bem. No final dos anos 80 -- antes de Miles pensar no assunto, portanto -- deu-se início ao surgimento de um novo subgênero do jazz: o jazz-rap, estilo que após se tornar muito popular e receber outros ingredientes nos clubes de música eletrônica ingleses, seria rotulado de acid jazz -- uma rotulagem inicialmente para fins comerciais, para imprimir um suposto ineditismo tedencioso, já que o gênero "acid jazz", propriamente dito, já tinha sido cunhado nos anos 70: esse estilo era basicamente caracterizado pelo jazz comercial setentista que era produzido por músicos como Lou Donaldson, Donald Byrd, Roy Ayers e Richard Groove Holmes, os quais se tornaram mais adeptos às apelações comerciais da época, imprimindo roupagens lounge, funky e até já muito próximas das batidas disco music. Mas, enfim...três dos principais grupos de músicos-rappers a embalar essa fusão de jazz com hip hop e levá-la para os anos 90 foram o Gang Starr, o US3 e o Buckshot LeFonque. Do ponto de vista comercial e antológico, o jazz-rap não foi um estilo que suscitou muito respeito perante a crítica especializada em jazz ou grandes sucessos perante a mídia, mas até mais recentemente o estilo se mantinha vivo, ainda que através de projetos e lançamentos dispersos e solitários de músicos, produtores e DJs como o MC Guru (fundador do Gang Starr e autor da série de álbuns do Jazzmatazz), o Soulive, o RH Factor (grupo criado pelo grande trompetista Roy Hargrove), o DJ Madlib, o poeta Mike Ladd, o Antipop Consortium (grupo que gravou com o pianista Matthew Shipp) e o DJ Logic (que já gravou com músicos como Jason Moran, Christian McBride, Uri Caine e o trio de irmãos Medeski Martin & Wood). De todos esses exemplos, o melhor grupo dessa vertente de jazz-rap -- na minha opinião -- é justamente o Buckshot Lefonque, grupo criado pelo saxofonista Branford Marsalis no início dos anos 90, pois trata-se do grupo mais orgânico, acústico, autêntico e representativo desse gênero. A curiosidade, em relação ao nome, é que Buckshot LeFonque foi um pseudônimo usado no álbum "Here Comes Louis Smith" (Blue Note, 1958), do trompetista Louis Smith, pelo grande saxofonista Julian Cannonball Adderley, um dos maiores mestres do sax-alto da história do jazz.
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