Não foi sempre - digo ano a ano e até década a década - que a humanidade presenteou a história da música com músicos e compositores exepcionalmente criativos e originais. Exemplos? Pois bem, vamos aos exemplos: pra surgir um compositor inventivo como Duke Ellington passou-se anos até a ascensão de Charles Mingus, sua extensão; da mesma forma, não foi sempre que surgiram compositores norte-americanos como Charles Ives, Aaaron Copland, Leonard Berstein e Wynton Marsalis; e falando do Brasil, há décadas que não surgem novos "Heitores Villa-Lobos", novos "Tom Jobins", novos "Hermetos Pascoais" ou novos "Miltons Nacimentos". Atualmente, no entanto, a música instrumental e popular brasileira tem alguns nomes a que se orgulhar. Neste post cito dois deles: o cancionista Guinga e o jovem pianista e compositor André Mehmari.

Sim, claro! Você, desavisado, poderá dizer: "Guinga já é um aclamado veterano, mas André Mehmari eu nem conheço!". Ora, então, essa é a função deste post: apresentar o trabalho de um dos mais fantásticos pianistas e compositores da atual Música Instrumental Contemporânea. E para isso deixo a indicação de um dos seus mais novos discos: trata-se de Miramari, recém-lançado no Brasil e Itália numa parceria do pianista brasileiro com o clarinetista italiano Gabrielli Mirabassi. Lembro, ainda, que eu já tinha discorrido sobre André Mehmari aqui no blog Farofa Moderna: na ocasião deixei disponível as faixas em mp3 do fantástico disco
Premio Visa MPB Instrumental, resultado do prêmio que revelou Mehmari em 1998 ao lado de seu amigo contrabaixista Célio Barros, também um jovem promissor da época.
O clarinetista Gabriele Mirabassi, um entusiasta da música brasileira, conheçeu André Mehmari através do seu então parceiro violonista Guinga, no lançamento nacional do álbum
Graffiando Vento (2004), gravado pelos dois em parceria e lançado pelo selo europeu Egea. Tanto Mehmari como Mirabassi se impressionaram um com o outro e, no decorrer dos anos, passaram a "trocar figurinhas" sobre suas concepções de música contemporânea. O resultado foi esse disco chamado Miramari. Gravado de forma independente no próprio estúdio de Mehmari, o Stúdio Monteverdi, o disco é um exemplo da "música popular de câmera", ou seja, com união de aspectos da música erudita cameristica com características do cancioneiro popular, tendo um leve tempeiro jazzístico aí no meio. Das 17 músicas (todas instrumentais), 12 são assinadas pelo pianista, sendo uma delas,
Brilha o Carnaval, em parceria com o excelente compositor paulistano Luiz Tatit. Algumas delas ele escreveu nitidamente influenciado pela viagem recente que fez à Itália na companhia de Mirabassi: caso de
Um dia em Assis, Perugia Notturna e
Quando em Gubbio, todas referências a cidades ou regiões do país – as outras,
Mirabilis Mirabassi e
Rondoletto Per i Bambini, sugerem a mesma fonte de inspiração. Já o clarinetista responde com
Chove na Minha Valsa, Disarmati e Subindo a Cantareira. Completam o repertório duas músicas de Guinga, que se tornou padrinho do duo:
Canção Desnecessária (com Mauro Aguiar) e
Rasgando Seda (com Simone Guimarães). Os sidemans são Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo) e Ricardo Mosca (bateria): eles participam em cinco das dezessete faixas do disco.

Miramari, assim como todos os discos de Mehmari - não é um disco pra se baixar em blogs, mas sim um disco pra ser comprado! E digo isto porque os discos desse pianista é a mais atual referência da excelência em composição musical brasileira e, lógico, daqui a alguns anos serão clássicos imprescindíveis nas estantes de qualquer colecionador e amante do gênero. Miramari - com nome que surge da junção dos acrônimos do sobrenomes Mehmari e Mirabassi - é um disco que une dois músicos de nacionalidades diferentes, mas com uma compreensão única: a ecleticidade e pluralidade da música instrumental contemporânea, sem perder a noção histórica da música. Essa tal compreensão permite com que Mehmari trabalhe um estilo que é todo seu, mesclando a sua noção de estilos históricos como o choro, as canções e as valsas brasileiras com sua sensibilidade e lirismo erudito, bem como também evidencia uma inventiva introspectividade caracterizada pela sua compreensão do improviso jazzístico contemporâneo. Ou seja: é um estilo único no atual cenário da Música Instrumental Brasileira. Ora, o que dizer de um músico que une influências tão distantes como o lirismo barroco do compositor veneziano Claudio Monteverdi (1567 - 1643) com as características harmônicas das canções de Clube da Esquina e a sensibilidade pianística e improvisacional do piano jazzístico contemporâneo? Às vezes errôneamente comparado com o pianista americano Brad Mehldau, só há uma coisa a dizer quando o assunto é André Mehmaru: a partir dessas e outras influências da música erudita e da música popular brasileira, este pianista criou um estilo único de tocar e compor marcado por um lirismo ímpar que por muito tempo será só seu, sem risco de imitadores. Sem querer exagerar ou fazer comparações, digo que trata-se, realmente, de uma espécie de "Milton Nascimento da Música Instrumental Brasileira" ou, por que não?, de um "Brad Mehldau do piano brasileiro" e, também, não seria exagero dizer que Mehmari, se continuar a elevar a sua arte, estará para se transformar numa espécie de "Heitor Villa-Lobos contemporâneo", haja vista que ele vem sendo super aclamado por suas composições encomendadas por grandes orquestras como a Banda Sinfônica e Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), composições nas quais ele mistura, com maestria impressionante, elementos da cultura popular com a escrita e interpretação erudita.