A revista Downbeat, tida como a "Bíblia do Jazz", segue ano a ano com seu tradicional ranking de artistas mais aclamados em suas respectivas categorias: melhores músicos de cada instrumento, novos artistas (revelação), músico do ano, melhores compositores do ano e etc. Para jazzófilos loucos como nós que acompanham o jazz tanto através dos holofotes como para além dele -- digo: nos meios undergrounds, também --, se pautar apenas pela Downbeat não é o suficiente para estarmos bem antenados, haja vista a concepção um tanto protecionista e arbitrária do júri da revista -- composto por senhores um tanto conservadores, acredito --, que em vários anos anteriores deixou muitos dos mais seminais músicos novos (rising stars) de molho -- outros nem tão novos, alguns já com mais de dez anos de carreira solo -- e escolheu quase sempre os mesmos veteranos para figurarem no topo dos rankings e listas, alguns na estrada a décadas: Chick Corea, Joe Lovano, Dave Douglas, Wynton Marsalis e até um tempo atrás quem não saia do topo eram Wayne Shorter e Sonny Rollins, só pra dar alguns exemplos mais tarimbados. Mas o jazz -- na condição da arte que ele é -- está em constante renovação e mudança, justamente através das abordagens de músicos mais jovens e contemporâneos. E então, não tem jeito: daí, a revista precisa renovar seu cast list, sua abordagem, enaltecendo estes artistas mais novos com a mesma condição que se enaltece os veteranos. Foi o que aconteceu em 2011: além de aclamar o pianista Jason Moran -- um músico relativamente novo -- como o principal ganhador (ele ganhou em três categorias: pianista do ano, artista do ano e álbum do ano), a revista suprema do jazz norte americano criou uma lista separada só de rising stars, ou seja, aclamando artistas "mais jovens", artistas em ascensão como Rudresh Mahantappa, Ambrose Akinmusire, Craig Taborn, Nicole Mitchell, Mary Halvorson, entre outros. Ouça, através do link abaixo, alguns desses músicos no canal UOL That Jazz da Radio UOL em programa apresentado pelo jornalista Rodrigo Barradas. Para acessar os ganhadores do 2011 DownBeat Critics Poll, clique na imagem acima. Leiam e Ouçam: jazz contemporâneo de primeira!
Listas de músicas apresentadas no UOL That Jazz:
1. Jason Moran - "RFK in The Land of Apartheid" (Moran) (4:10)
2. Jason Moran - "Crepuscule with Nellie" (Monk) (5:57)
3. Jason Moran - "Gangsterism Over 10 Years" (Moran) (6:55)
4. Ambrose Akinmusire - "Confessions to my Unborn Daughter" (Akinmusire) (8:35)
5. Rudresh Mahanthappa & Bunky Green - "Summit (Mahanthappa)" (8:13)
6. Craig Taborn - "Forgetful" (Taborn) (7:58)
7. Maria Schneider - "Aires de Lando" (Schneider) (10:01)
8. Joe Lovano Us Five - "Moose The Mooche" (Parker) (6:35)
9. Vijay Iyer, Nittin Mita and Prasanna - "Tirtha" (Iyer-Mita-Prasanna) (7:43)



Não que veteranos como Wayne Shorter e Wynton Marsalis, por exemplo, não mereçem estar no topo do referido ranking ou não estão lançando trabalhos inovadores -- Marsalis por exemplo lança dois ou três trabalhos por ano e há sempre um com uma temática inédita (como o seu último disco He and She, onde ele faz um mix de poesia falada com jazz de forma elegante e despretenciosa), e o último quarteto de Wayne Shorter, a despeito do seu sopro já debilitado, tem sido uma banda ainda muito elogiada --, mas o fato é que seria mais saudável se tivesse uma lista mais rotativa, que apresentasse novas opções de músicos e que sinalizasse uma evolução mais efetiva quanto às gerações do jazz e sua própria linguagem, do que ter listas que enfatizam sempre os mesmos nomes. Aliás, o que fica evidente é o puxassaquismo do críticos, jornalistas e fotógrafos que participam da votação anual da revista: por a maioria deles serem veteranos, o que dá pra concluir é que eles valorizam e superestimam músicos igualmentes veteranos ano após ano e votação após votação, deixando amargar na categoria "Rising Stars" músicos mais novos como o pianista Vijay Iyer, o vibrafonista Stefon Harris, o contrabaixista Avishai Cohen, o guitarrista Kurt Rosenwinkel e o pianista Uri Caine -- só que qualquer apreciador de jazz sabe que esses músicos, mesmo sendo alguns de idade jovem, já não são mais "revelações" no sentido estrito e artístico do termo, pois todos eles já estão lançando bons trabalhos no mercado desde início dos anos 2000 e, alguns deles, desde meados dos anos 90 (como é caso do compositor e tecladista Uri Caine e do subestimado contrabaixista Avishai Cohen, que também é um grande compositor). Aliás por que Uri Caine já amarga por vários anos na categoria Rising Stars e a Maria Schneider já é consagrada como grande arranjadora e compositora, sendo que Uri começou sua carreira solo, essa cheio de boas novidades, na mesma época que Maria (no início dos anos 90)? São perguntas que encucam e que não querem calar.
Mas nem tudo está perdido. A grande novidade na votação dos críticos da Downbeat neste ano foi na categoria Discos Histórico: quem ganhou foi o box histórico The Complete Arista Recordings, o qual documenta a fase mais fértil e reveladora da carreira do saxofonista Anthony Braxton nos anos 70. Já a votação dos leitores, que costuma levar o gosto pessoal em primeiro plano e/ou é muito influenciada pela manjada votação dos críticos, apresentou apenas duas novidades: o recente falecido trompetista Freddie Hubbard entrou para o Hall of Fame e o saxofonista-alto Kenny Garrett voltou a figurar no topo do ranking após algum tempo desaparecido da mídia.